{"id":251825,"date":"2022-08-31T10:26:51","date_gmt":"2022-08-31T09:26:51","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=251825"},"modified":"2022-08-31T10:26:51","modified_gmt":"2022-08-31T09:26:51","slug":"saber-aprender-a-contemplar-para-alem-da-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-contemplar-para-alem-da-pedra\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A contemplar para al\u00e9m da pedra"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Descartes separou a mente do corpo com a inten\u00e7\u00e3o de compreender a exist\u00eancia, mas gerou uma vida a partir de uma ideia abstracta. O resultado foi a Grande Separa\u00e7\u00e3o que se vive h\u00e1 centenas de anos entre o ser humano e a natureza. Basta. H\u00e1 50 anos, os bi\u00f3logos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela lan\u00e7aram uma teoria diferente: a <em>autopoiese<\/em>. Uma teoria que parte das observa\u00e7\u00f5es da vida e aponta para uma unidade evolucion\u00e1ria entre mente e mat\u00e9ria. No dia 1 de setembro de 2022 come\u00e7a o m\u00eas dedicado ao Tempo da Cria\u00e7\u00e3o e chegou o momento de reconhecermos a Unidade da Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_251826\" aria-describedby=\"caption-attachment-251826\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-251826\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Pedra-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-251826\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Zoltan Tasi em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Maturana e Varela olharam para a forma com a vida se organiza nos ecossistemas, em vez de a separar nos seus componentes e estud\u00e1-los individualmente. Assim, a vida revelou-se como um processo circular ininterrupto de auto-cria\u00e7\u00e3o, de <em>autopoiese.<\/em> No seu livro \u201cThe Universe Story\u201d (Harper Collins, 1994), o astrof\u00edsico Brian Swimme e o te\u00f3logo Thomas Berry referem que a <em>autopoiese<\/em> consta como uma das caracter\u00edsticas do Princ\u00edpio Cosmogen\u00e9tico sobre a evolu\u00e7\u00e3o do universo, juntamente com a diferencia\u00e7\u00e3o e a comunh\u00e3o. A <em>autopoiese<\/em> orienta-se para a potencialidade que cada coisa possui de participar directamente na cria\u00e7\u00e3o do cosmos. Por isso, Swimme e Berry consideram a <em>autopoiese<\/em> como um termo que expressa uma dimens\u00e3o interior das coisas revelando a criatividade intr\u00ednseca das mesmas. Mas outros cientistas, como Lynn Margulis, v\u00e3o ao ponto de isso revelar algo sobre Deus.<\/p>\n<p>Em vez de <em>autopoiese<\/em>, Lynn Margulis usa a palavra <em>simbiose<\/em> e no seu livro \u201c<em>Symbiotic Planet<\/em>\u201d (Basic Book, 1998), na senda da teoria de Gaia de James Lovelock que considera o nosso planeta como um organismo vivo, diz que \u2014 <em>\u00abos humanos n\u00e3o s\u00e3o a obra de Deus, mas de milhares de milh\u00f5es de anos de interac\u00e7\u00e3o entre micr\u00f3bios altamente responsivos.\u00bb<\/em> Quer isso dizer que o amor que sinto pela minha esposa e filhos n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a obra de milhares de milh\u00f5es de sinapses entre os neur\u00f3nios do meu c\u00e9rebro? N\u00e3o me recordo do te\u00f3logo de quem ouvi este pensamento, mas a maior cria\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o foi o universo em si, mas a capacidade do universo se criar e re-criar ao longo do tempo. N\u00e3o vejo maior liberdade do isso, apesar de suscitar d\u00favidas em pessoas cuja sensibilidade para a dimens\u00e3o espiritual da vida seja menor.<\/p>\n<p>Quando a nossa vis\u00e3o da Cria\u00e7\u00e3o parte da unidade entre mente e mat\u00e9ria, a \u201cverdade\u201d n\u00e3o surge da ideia de uma pessoa, ou teoria, ou at\u00e9 da experi\u00eancia pessoal, mas dos relacionamentos que estabelecemos uns com os outros, das nossas conversas, consensos, perdendo a nossa ideia para acolher a do outro e, assim, transformar as nossas ideias numa diferente que emerge do nosso relacionamento. Na <em>autopoiese<\/em>, a verdade n\u00e3o \u00e9 uma ideia absoluta que se sobrep\u00f5e a todas as outras, mas uma ideia que <em>aceitamos<\/em> e nos transforma interiormente. Depois, ser\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o interior que se torna g\u00e9rmen da realidade \u00e0 nossa volta, como fazia o artista Michelangelo.<\/p>\n<p>Conta-se que uma dia, Michelangelo respondeu a uma pergunta sobre a forma como esculpia que \u2014 <em>\u00aba escultura est\u00e1 j\u00e1 completamente feita no interior do bloco de m\u00e1rmore, antes de come\u00e7ar a trabalhar. J\u00e1 l\u00e1 est\u00e1. Eu apenas tirei o que estava a mais.\u00bb<\/em> \u2014 e esta percep\u00e7\u00e3o levou-me a pensar em todas as imagens, esculpidas em pedra ou madeira, que levam tantos crentes a ajoelhar-se e a rezar a Deus por intercess\u00e3o do santo que nesses materiais tomou forma pela m\u00e3o e talento de algu\u00e9m. O que nos impede de rezarmos juntos diante uma grande pedra na encosta de uma montanha e percepcionar que imagem habita o seu interior? Ou no interior de um grande ramo de \u00e1rvore? A diferen\u00e7a \u00e9 n\u00e3o termos o jeito ou o tempo de Michelangelo, caso contr\u00e1rio, n\u00e3o poder\u00edamos esculpir a imagem e levar outros a rezar na sua companhia? O que \u00e9 mais real? Uma imagem esculpida ou uma que se esconde no interior da mat\u00e9ria? O que tem tudo isto a ver com a <em>autopoiese<\/em>?<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o de Maturana e Varela com a <em>autopoiese<\/em> foi a de desenvolver uma teoria da cogni\u00e7\u00e3o que expressasse a liga\u00e7\u00e3o entre a biosfera (esfera da vida f\u00edsica) e a noosfera (esfera da vida mental ou consci\u00eancia). E muitos poder\u00e3o questionar-se sobre o valor que este tipo de ideias pode ter para nos ajudar a viver o Tempo da Cria\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, pelo que podemos aprender com Michelangelo, esse valor depende da nossa capacidade de saber aprender a contemplar para al\u00e9m da pedra.<\/p>\n<p>Desde Peter Kropotkin (1842 &#8211; 1921) que a coopera\u00e7\u00e3o emerge como mais evolucion\u00e1ria do que a ideia da competi\u00e7\u00e3o. E se quisermos perceber como podemos cooperar com a natureza para al\u00e9m de n\u00f3s a um n\u00edvel mais mental, ser\u00e1 muito dif\u00edcil. As pedras n\u00e3o pensam, nem as \u00e1rvores falam e nem sempre compreendemos a mente da esp\u00e9cie humana, como haver\u00edamos de compreender a mente das outras esp\u00e9cies animais? A coopera\u00e7\u00e3o com a natureza na evolu\u00e7\u00e3o cultural do mundo faz mais sentido a um n\u00edvel experiencial da realidade que seja mais profundo que o mental, como seria o caso do n\u00edvel da espiritualidade. Isto \u00e9, ao n\u00edvel da ideia subjacente \u00e0 Unidade da Cria\u00e7\u00e3o penso que esteja a ideia de sermos uma s\u00f3 fam\u00edlia. E, numa fam\u00edlia, parece-me que o mais essencial seja o sentido de presen\u00e7a.<\/p>\n<p>A escritora Nan Shepherd (1893 &#8211; 1981) quando escreveu \u201c<em>The Living Mountain<\/em>\u201d (Canongate, 2014) mostrou como conhecia os Cairngorms mais em <em>profundidade<\/em> do que em extens\u00e3o. Por isso, Shepherd dizia que,<\/p>\n<blockquote><p>\u00abExiste um algo mais no desejo intenso pelo topo de uma montanha do que somente um perfeito ajuste fisiol\u00f3gico. Esse algo mais que existe reside no interior da montanha. Algo move-se entre eu e essa. O lugar e uma mente podem interpenetrar-se at\u00e9 que a natureza dos dois se altera.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>Que intimidade reveladora de como uma experi\u00eancia de contempla\u00e7\u00e3o pode levar-nos a ver para al\u00e9m da pedra e a sentir uma presen\u00e7a. E parece-me que se abrirmos o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o espiritual que o Tempo da Cria\u00e7\u00e3o nos convida a viver, poderemos n\u00e3o conseguir tirar da pedra o que est\u00e1 a mais, mas creio que Deus presente na cria\u00e7\u00e3o revelar-nos-\u00e1 a realidade que se esconde no seu interior.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-251825","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=251825"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251825\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=251825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=251825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=251825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}