{"id":251340,"date":"2022-08-24T22:09:01","date_gmt":"2022-08-24T21:09:01","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=251340"},"modified":"2022-08-24T22:09:01","modified_gmt":"2022-08-24T21:09:01","slug":"saber-aprender-a-resistir-aos-likes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-resistir-aos-likes\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A resistir aos \u201cLikes\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<blockquote><p>\u00abO <em>like<\/em> \u00e9 o am\u00e9m digital. Quando clicamos no <em>like<\/em>, submetemo-nos ao bot\u00e3o do dom\u00ednio.\u00bb (Byung-Chul Han, \u201cN\u00e3o-Coisas &#8211; Transforma\u00e7\u00f5es no Mundo em Que Vivemos\u201d, Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, 2021)<\/p><\/blockquote>\n<p>Inicialmente, a inten\u00e7\u00e3o do bot\u00e3o <em>Like<\/em> ? era a de estimular as pessoas a deixarem coment\u00e1rios mais profundos em vez de reac\u00e7\u00f5es. Resultou? Em parte sim. E quando o Facebook (agora Meta) adquiriu o WhatsApp, na altura recordo de sentir que muitas das mensagens das pessoas eram reaccion\u00e1rias e que ter esta op\u00e7\u00e3o de usar um emoji para reagir aumentaria a possibilidade de evidenciar as mensagens com mais conte\u00fado, em vez que ficarem esquecidas no rol de reac\u00e7\u00f5es. Essa funcionalidade j\u00e1 est\u00e1 implementada. Por\u00e9m, fico a pensar se n\u00e3o estaremos a incrementar ainda mais o n\u00famero de \u201cam\u00e9ns digitais\u201d, de tal modo que, tamb\u00e9m as mensagens nos grupos de WhatsApp, come\u00e7ar\u00e3o a tornar-se instrumentos de valida\u00e7\u00e3o pessoal e \u201cbot\u00f5es de dom\u00ednio\u201d da nossa aten\u00e7\u00e3o. Se isso acontecer, penso que devemos resistir.<\/p>\n<figure id=\"attachment_251341\" aria-describedby=\"caption-attachment-251341\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-251341\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1001\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash-1080x721.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash-1280x854.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/greg-bulla-KItSIXhXFDY-unsplash-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-251341\" class=\"wp-caption-text\">Foto Greg Bulla em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os Movimentos de Resist\u00eancia existiram sempre em momentos da hist\u00f3ria humana que exigiam uma mudan\u00e7a no nosso estilo de vida. Esses movimentos consistiam em esfor\u00e7os organizados para defender um ideal comum contra uma autoridade constitu\u00edda. No caso dos <em>Likes<\/em>, a \u201cautoridade constitu\u00edda\u201d n\u00e3o tem qualquer rosto humano. \u00c9 uma cria\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica humana que alguns humanos usam para dominar a aten\u00e7\u00f5es de muitos humanos. \u00c9 uma autoridade desincorporada e sempre presente quando implementada nas Apps que dominam a aten\u00e7\u00e3o de milhares de milh\u00f5es de seres humanos neste planeta. Como diz Byung-Chul Han no livro supracitado \u2014 <em>\u00abO sujeito submetido nem sequer toma consci\u00eancia da sua submiss\u00e3o. Imagina-se em liberdade. O capitalismo acabado \u00e9 o capitalismo do <\/em>like<em>. Devido \u00e0 sua permissividade n\u00e3o tem de recear nenhuma resist\u00eancia, nenhuma revolu\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>A capacidade de emitir uma opini\u00e3o ou partilhar algo mais profundo com um grupo de pessoas \u00e9 demasiado f\u00e1cil por estar isento de fric\u00e7\u00e3o. Mas como escrever num pequeno ecr\u00e3 d\u00e1 mais trabalho se quisermos sair da superficialidade, penso que se torna cada vez mais dif\u00edcil sustentar uma onda cultural que promova a aut\u00eantica comunh\u00e3o de experi\u00eancias atrav\u00e9s dos meios digitais. Uma boa parte das partilhas feitas em grupos n\u00e3o contempla quem est\u00e1 do outro lado. Por vezes pode chegar mesmo \u00e0 insensibilidade de colocar um <em>Like<\/em> diante de algu\u00e9m que partilha a morte de um grande amigo. E isto deve-se muito ao uso sem controlo do <em>smartphone<\/em> que se tem revelado ao longo dos \u00faltimos anos como um objecto que n\u00e3o promove uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel com o outro. Ali\u00e1s, diz Han, <em>\u00abcom o <\/em>smartphone<em>, pelo contr\u00e1rio, temos uma rela\u00e7\u00e3o narcisista. Apresenta muitas semelhan\u00e7as com os chamados \u201cobjectos autistas\u201d. (&#8230;) Aos objectos autistas falta a <\/em>dimens\u00e3o do outro<em>. N\u00e3o estimulam a imagina\u00e7\u00e3o. O contacto com eles \u00e9 repetitivo e n\u00e3o criativo. O<\/em> repetitivo, <em>o<\/em> compulsivo, <em>tamb\u00e9m caracteriza a rela\u00e7\u00e3o com o <\/em>smartphone.<em>\u00bb<\/em> E tudo isto experimenta-se atrav\u00e9s dos <em>Likes<\/em>. Quais as consequ\u00eancias mais profundas?<\/p>\n<p>Se o outro desaparece do meu horizonte relacional corporalizado, e s\u00f3 me faz sentir que existo mediante as reac\u00e7\u00f5es dos <em>Likes<\/em>, o resultado final ser\u00e1 o sentimento de solid\u00e3o e vazio. Sou enquanto me <em>\u201dlikam\u201d<\/em>. A falta de resist\u00eancia\/fric\u00e7\u00e3o das comunica\u00e7\u00f5es reactivas leva a uma interac\u00e7\u00e3o compulsiva e excessiva com o <em>smartphone<\/em>. Basta tomarmos consci\u00eancia da quantidades de <em>pings<\/em> que podem dominar a nossa aten\u00e7\u00e3o se tivermos ligadas as notifica\u00e7\u00f5es e fizermos parte de muitos grupos WhatsApp ou tivermos uma viv\u00eancia intensa nas redes sociais. Os <em>Likes<\/em> subtilmente tornam-se irresist\u00edveis aos nossos dedos, mas vale a pena resistir-lhes? O que ganhar\u00edamos com saber aprender a resistir aos \u201clikes\u201d?<\/p>\n<p>Antigamente, quando o n\u00edvel de vida das pessoas aumentou, sobretudo com a estabilidade pol\u00edtica e econ\u00f3mica dos pa\u00edses, houve um crescente desejo de consumir coisas. E como as coisas custam dinheiro, ou sob o receio de podermos vir a precisar delas mais tarde, muitas pessoas n\u00e3o as deitavam fora e as casas enchiam-se de coisas. Nessa altura recordo de reflectirmos nos grupos de jovens sobre a diferen\u00e7a entre o ter e o ser. Recordo ainda como se estimulava ao desapego das coisas, pelo que pod\u00edamos partilhar com os outros o que t\u00ednhamos a mais, como roupa ou levar os nossos livros para uma biblioteca. Mas a cultura mudou.<\/p>\n<p>Com a digitaliza\u00e7\u00e3o do conhecimento, deixou de valer a pena ter enciclop\u00e9dias, e mesmo o n\u00famero de livros come\u00e7ou a reduzir-se. A roupa que se estraga n\u00e3o se arranja. Descarta-se e compra-se nova. E o contacto f\u00edsico com as coisas que nos oferecia um certo sentido de presen\u00e7a desaparece. Diante do relacionamento com uma coisa, o materialismo converte-se, hoje, numa oportunidade de alteridade. Basta pensar numa fotografia e na teoria da fotografia de Roland Barthes.<\/p>\n<p>A fotografia anal\u00f3gica, por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 digital, segundo Barthes, est\u00e1 condenada \u00e0 morte e pode tornar-se num meio de ressurrei\u00e7\u00e3o ao possibilitar uma experi\u00eancia de presen\u00e7a. Diz Barthes, \u2014 <em>\u00abO que me interessa numa fotografia \u00e9, \u00fanica e exclusivamente, que me mostre algo que existe (&#8230;).\u00bb<\/em> \u2014 ao passo que a foto digital que suscita muitos \u201clikes\u201d elimina o referente ao poder ser visualizada de diversas formas, e alterar, tamb\u00e9m, a temporalidade da imagem captada. Uma fotografia digital \u00e9 ef\u00e9mera. Uma fotografia anal\u00f3gica possui profundidade temporal tornando-se numa <em>fotografia perene<\/em> impregnada de morte (porque cont\u00e9m coisas que poder\u00e3o ter deixado de existir) e ressurrei\u00e7\u00e3o (porque a sua imagem que tocamos e contemplamos pode torn\u00e1-las, de novo, presentes e criam impacto em n\u00f3s).<\/p>\n<p>Saber aprender a resistir aos \u201clikes\u201d n\u00e3o implica um apego \u00e0s coisas que podemos tocar, mas um re-pensamento do seu valor. Quem se lembra daquilo a que fez \u201clike\u201d no dia de ontem? Mas lembram-se da \u00faltima vez que viram um album de fotografias? O que mais me lembro \u00e9 de sorrir e de sentir o cora\u00e7\u00e3o palpitar com as mem\u00f3rias contidas nas fotografias que as tornaram intemporais. Assim, talvez um passo simples (de entre muitos outros) a dar para saber aprender a resistir aos \u201clikes\u201d \u00e9 fazer menos \u201clikes\u201d e voltar a criar mais \u00e1lbuns de fotografias. Assim, oferecemos \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es uma mem\u00f3ria mais sustent\u00e1vel.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-251340","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251340","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=251340"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251340\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=251340"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=251340"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=251340"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}