{"id":25126,"date":"2007-06-04T11:17:19","date_gmt":"2007-06-04T11:17:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/06\/04\/a-igreja-fermento-do-reino-de-deus-no-meio-do-mundo\/"},"modified":"2007-06-04T11:17:19","modified_gmt":"2007-06-04T11:17:19","slug":"a-igreja-fermento-do-reino-de-deus-no-meio-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-igreja-fermento-do-reino-de-deus-no-meio-do-mundo\/","title":{"rendered":"\u00abA Igreja fermento do Reino de Deus no meio do mundo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia na Solenidade da Sant\u00edssima Trindade Dia da Igreja Diocesana Mosteiro dos Jer\u00f3nimos, 3 de Junho de 2007    1. O mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade, comunh\u00e3o perfeita de amor entre Pessoas, iguais e distintas, n\u00e3o define, apenas, a realidade \u00edntima de Deus, mas revela o sentido profundo e definitivo da cria\u00e7\u00e3o, o Universo e a humanidade, criados por Deus e redimidos por Jesus Cristo. Envolvidos pelo amor infinito de Deus, encontram nele a inspira\u00e7\u00e3o para o seu crescimento e o an\u00fancio da sua plenitude. Todo o Universo foi criado por Deus, atrav\u00e9s da Sabedoria, o Seu Esp\u00edrito. Durante todo o longo e complexo processo da sua origem e da sua forma\u00e7\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o foi orientada pela sabedoria divina: \u201cEu estava a seu lado como arquitecto, cheia de j\u00fabilo, dia ap\u00f3s dia, deleitando-me continuamente na sua presen\u00e7a\u201d (Prov. 8,30). A cria\u00e7\u00e3o foi motivo de j\u00fabilo para o pr\u00f3prio Deus, que sentiu nela o esplendor da Sua gl\u00f3ria. Sempre que a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 motivo de j\u00fabilo, afasta-se da sua verdade e tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1, para as criaturas, o lugar da alegria e da felicidade. Esta sabedoria divina exprimiu-se na nossa realidade humana atrav\u00e9s de Jesus Cristo, o Filho feito Homem que, a partir da Sua humanidade glorificada e elevada \u00e0 gl\u00f3ria da divindade, nos comunica o Seu Esp\u00edrito. Neles e por eles, o amor trinit\u00e1rio de Deus envolve a cria\u00e7\u00e3o nesse amor infinito, de forma definitiva. Jesus Cristo \u00e9 a fonte e o caminho por onde a humanidade mergulha no amor de Deus. Referindo-se ao Esp\u00edrito, Jesus afirma: \u201cEle Me glorificar\u00e1, porque receber\u00e1 do que \u00e9 Meu e vo-lo anunciar\u00e1. Tudo o que o Pai tem \u00e9 Meu. Por isso vos disse que Ele receber\u00e1 do que \u00e9 Meu e vo-lo anunciar\u00e1\u201d (Jo. 16,15). Jesus Cristo \u00e9 a plenitude de Deus e \u00e9 essa plenitude que o Esp\u00edrito nos comunica. Trata-se da plenitude da vida e do amor. Em Jesus Cristo, Deus continua a amar o mundo e por isso nos comunica o seu Esp\u00edrito de amor. Tal como o j\u00fabilo da primeira cria\u00e7\u00e3o, Jesus \u00e9, hoje, a alegria de Deus, a perfeita manifesta\u00e7\u00e3o da Sua gl\u00f3ria. \u00c9 por isso que, no Esp\u00edrito, n\u00f3s podemos participar dessa alegria. Jesus promete aos disc\u00edpulos que permanecerem no Seu amor, o dom da alegria: \u201cComo o Pai Me amou, tamb\u00e9m Eu vos amei. Permanecei no Meu amor (\u2026) Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em v\u00f3s e para que a vossa alegria seja perfeita\u201d (Jo. 15,9-11).  2. \u00c9 o an\u00fancio do mist\u00e9rio da Igreja enquanto experi\u00eancia de comunh\u00e3o no amor de Deus, vivida pelos disc\u00edpulos de Jesus. Segundo o texto da Carta de S\u00e3o Paulo aos Romanos, nisto consiste o \u00e2mago da nossa f\u00e9: \u201cO amor de Deus foi derramado nos nossos cora\u00e7\u00f5es pelo Esp\u00edrito Santo que nos foi dado\u201d (Rom. 5,5). Unidos a Cristo, formando com Ele um s\u00f3 corpo, participamos, por Ele, neste mist\u00e9rio insond\u00e1vel do amor de Deus. A Igreja ser\u00e1 uma comunh\u00e3o de amor se permanecer no amor de Cristo, como Ele permanece no amor do Pai. Ela encerra o sentido original da cria\u00e7\u00e3o e anuncia o seu destino definitivo. Sacramento de Jesus Cristo, a Igreja encerra, no seu mist\u00e9rio de comunh\u00e3o, o sentido definitivo da cria\u00e7\u00e3o e da hist\u00f3ria. Ela est\u00e1 no mundo como o fermento na massa. Esta verdade da Igreja como viv\u00eancia de comunh\u00e3o no amor das Pessoas divinas, realiza-se continuamente na Eucaristia, onde o Pai continua a dar-nos o Seu Filho como express\u00e3o do Seu amor. N\u00f3s, ao acolh\u00ea-lo, podemos oferecer-nos com Ele, tornando-nos, tamb\u00e9m n\u00f3s, a alegria de Deus. Como recentemente escreveu o Papa Bento XVI, \u201cA Eucaristia \u00e9 constitutiva do ser e do agir da Igreja\u201d porque na sua identifica\u00e7\u00e3o com Cristo que se oferece ao Pai e que ela acolhe como prova do amor de Deus, \u201ca Eucaristia aparece na raiz da Igreja como mist\u00e9rio de comunh\u00e3o\u201d. Tem, assim, pleno sentido, meditarmos na realidade da Igreja, da nossa Igreja diocesana, em comunh\u00e3o com a Igreja universal, na Solenidade da Sant\u00edssima Trindade, e descobrir a sua rela\u00e7\u00e3o fontal com a Eucaristia que celebramos e, onde havemos de descobrir, de forma cada vez mais profunda, o nosso ser Igreja e, tamb\u00e9m, a exig\u00eancia da nossa miss\u00e3o na sociedade concreta em que estamos inseridos. Quero falar-vos, agora, desta miss\u00e3o da Igreja na nossa sociedade.  3. Concretiza-se na Igreja o que Jesus pediu ao Pai para os disc\u00edpulos: eles est\u00e3o no mundo, mas n\u00e3o s\u00e3o do mundo, como Ele n\u00e3o \u00e9 do mundo. Ambos est\u00e3o no mundo com uma miss\u00e3o: \u201cComo Tu me enviaste ao mundo, tamb\u00e9m eu os enviei ao mundo\u201d (Jo. 17,18). Como escreveu Jo\u00e3o Paulo II \u201ca Igreja vive no mundo, embora n\u00e3o seja do mundo, e \u00e9 enviada para dar continuidade \u00e0 obra redentora de Jesus Cristo, a qual, visando por natureza salvar os homens, compreende tamb\u00e9m a instaura\u00e7\u00e3o de toda a ordem temporal\u201d. A Igreja, na sua realidade teologal espec\u00edfica, como Corpo de Cristo e sacramento de salva\u00e7\u00e3o, est\u00e1 na sociedade como fermento do Reino de Deus, na medida em que, na sociedade, devido \u00e0 presen\u00e7a dos crist\u00e3os, a cultura que inspira os comportamentos e o relacionamento m\u00fatuo entre as pessoas e as institui\u00e7\u00f5es se aproximam do amor, pela pr\u00e1tica da justi\u00e7a. Como h\u00e1 uma miss\u00e3o interna \u00e0 pr\u00f3pria Igreja para a edificar como realidade sobrenatural, h\u00e1 uma miss\u00e3o da Igreja no mundo para, no realismo da vida da sociedade, lan\u00e7ar as sementes do Reino de Deus. Esta miss\u00e3o \u00e9 responsabilidade de todos os membros da Igreja, mas \u00e9-o, de forma peculiar, dos crist\u00e3os leigos que vivem inseridos na sociedade, partilhando a mesma vida de todos os homens. \u00c9 aquilo a que o Conc\u00edlio chamou a \u00edndole secular da miss\u00e3o dos leigos. \u00c9 no \u00e2mago dessa situa\u00e7\u00e3o secular que eles s\u00e3o chamados por Deus, e a sua miss\u00e3o \u00e9 imprimir na ordem temporal a verdade do Evangelho, influindo na cultura, seguindo os valores \u00e9ticos que levam \u00e0 justi\u00e7a e ao amor, fazendo crescer a sociedade como uma comunidade onde a dignidade da pessoa humana seja respeitada. S\u00e3o Paulo diz aos Cor\u00edntios: \u201cIrm\u00e3os, fique cada um de v\u00f3s, diante de Deus, na condi\u00e7\u00e3o em que estava quando foi chamado\u201d (1Co. 7,24). A f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 uma fuga do mundo, mas uma miss\u00e3o para transformar o mundo a partir de dentro, da sua pr\u00f3pria realidade. A voca\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o leigo est\u00e1 ligada a essa sua situa\u00e7\u00e3o intra-mundana. Jo\u00e3o Paulo II, na linha do Conc\u00edlio, define assim essa miss\u00e3o: \u201cOs fi\u00e9is leigos s\u00e3o chamados por Deus para que, no seio da realidade humana, exercendo o seu pr\u00f3prio of\u00edcio e inspirados pelo esp\u00edrito evang\u00e9lico, concorram para a santifica\u00e7\u00e3o do mundo a partir de dentro, como fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de mais, pelo testemunho da pr\u00f3pria vida, pela irradia\u00e7\u00e3o da sua f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade\u201d.  4. Esta miss\u00e3o dos crist\u00e3os no meio do mundo \u00e9 exigente. Sup\u00f5e, antes de mais, a fidelidade a Jesus Cristo, uma voca\u00e7\u00e3o de santidade, a viver em Igreja. Por outro lado, entre os crit\u00e9rios do mundo e os do Evangelho, h\u00e1 contrastes que provocam sofrimento e exigem coragem. Podem cair na tenta\u00e7\u00e3o de deixar o mundo em paz, com os seus crit\u00e9rios e reservar a express\u00e3o da sua f\u00e9 para a intimidade da comunidade eclesial. E em tempos de grande mudan\u00e7a cultural, como a que vivemos, em que sociedade parece afastar-se do que restava de uma cultura e de uma ordem de valores de sabor crist\u00e3o, a dificuldade da miss\u00e3o \u00e9 ainda maior. Recebo, habitualmente, muitas manifesta\u00e7\u00f5es de crist\u00e3os, preocupados com esta evolu\u00e7\u00e3o da sociedade; alguns interpretam mesmo alguns dados desta evolu\u00e7\u00e3o laicista como ataques premeditados \u00e0 Igreja e \u00e0 sua influ\u00eancia na sociedade. N\u00e3o ignoro que h\u00e1 for\u00e7as organizadas que procuram retirar \u00e0 Igreja qualquer influ\u00eancia inspiradora na cultura e na sociedade, mas nem todas as manifesta\u00e7\u00f5es desta evolu\u00e7\u00e3o se podem atribuir a essas for\u00e7as, pois a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade \u00e9 um fen\u00f3meno global e a pr\u00f3pria demiss\u00e3o dos crist\u00e3os de manifestarem a coer\u00eancia da sua f\u00e9 \u00e9, certamente, uma das causas. Numa sociedade onde h\u00e1 tantos crist\u00e3os, a deriva laicista da cultura e dos valores \u00e9 sempre tamb\u00e9m, responsabilidade sua. Perante esta evolu\u00e7\u00e3o da sociedade n\u00e3o basta lastimar-se e denunciar; \u00e9 preciso agir, numa coer\u00eancia evang\u00e9lica, em todos os campos onde os crist\u00e3os est\u00e3o inseridos: a fam\u00edlia, a pol\u00edtica e administra\u00e7\u00e3o, a vida econ\u00f3mica, a vida social. Escrevem-me, como se bastasse uma palavra minha ou de todos os Bispos em conjunto para mudar o rumo da evolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 assim: a grande for\u00e7a da Igreja na sociedade \u00e9 constitu\u00edda pela coer\u00eancia evang\u00e9lica dos crist\u00e3os que vivem no mundo, no seio da Cidade.  5. \u00c9 nossa inten\u00e7\u00e3o program\u00e1tica para o pr\u00f3ximo Ano Pastoral, valorizar esta miss\u00e3o espec\u00edfica dos leigos no seio da sociedade. \u00c9 preciso apoi\u00e1-los, como apoiamos os crist\u00e3os que exercem uma miss\u00e3o no interior da Igreja. O Esp\u00edrito Santo guiar-nos-\u00e1 na busca de express\u00f5es do apre\u00e7o de toda a comunidade crist\u00e3 por esta forma de miss\u00e3o. Passa tamb\u00e9m por ela aquele abra\u00e7o com que Deus continua a envolver o mundo no Seu amor.  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia na Solenidade da Sant\u00edssima Trindade Dia da Igreja Diocesana Mosteiro dos Jer\u00f3nimos, 3 de Junho de 2007 1. 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