{"id":25108,"date":"2007-06-02T11:17:10","date_gmt":"2007-06-02T11:17:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/06\/02\/paixao-pelo-cinema-de-artesanato\/"},"modified":"2007-06-02T11:17:10","modified_gmt":"2007-06-02T11:17:10","slug":"paixao-pelo-cinema-de-artesanato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/paixao-pelo-cinema-de-artesanato\/","title":{"rendered":"Paix\u00e3o pelo cinema de artesanato"},"content":{"rendered":"<p>Manoel de Oliveira recorda os 98 anos de vida, os caminhos do cinema e as inquieta\u00e7\u00f5es religiosas <!--more--> O Pr\u00e9mio de Cultura Pe. Manuel Antunes deste ano foi atribu\u00eddo ao cineasta Manoel de Oliveira. \u00c0 Ag\u00eancia ECCLESIA, o laureado recordou os 98 anos de vida, os caminhos do cinema e as inquieta\u00e7\u00f5es religiosas.  Ag\u00eancia ECCLESIA (AE) &#8211; Quem \u00e9 este Manoel de Oliveira que aos 98 anos ainda respira cinema? Manoel de Oliveira (MO) &#8211; Sou eu. AE &#8211; Viveu e vive do cinema. Como \u00e9 que com esta idade ainda consegue transportar  a garra e a for\u00e7a para a s\u00e9tima arte? MO &#8211; Eu vivo para o cinema n\u00e3o vivo dele. Pelo contr\u00e1rio, o meu cinema vive de mim e eu vivo da minha experi\u00eancia e do meu conhecimento. Enfim, das minhas paix\u00f5es de que o cinema se apoderou. AE &#8211; Para si, o cinema \u00e9 uma paix\u00e3o? MO &#8211; Pode-se dizer que \u00e9 uma paix\u00e3o&#8230; Melhor, \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o. As pessoas est\u00e3o vocacionadas para determinadas coisas e n\u00e3o para outras. Poderia ser pintor, escultor &#8211; gosto muito de escultura &#8211; ou escritor. N\u00e3o fui doado para tal. Sou um mau escritor e um p\u00e9ssimo pintor. AE &#8211; Costuma pintar? MO &#8211; N\u00e3o. Desenho apenas d\u00e9cors e alguns apontamentos para marcar as posi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o t\u00eam qualidade art\u00edstica. AE &#8211; E a n\u00edvel da escultura? MO &#8211; Da escultura ainda menos. Em mi\u00fado fazia bolinhas com miolo de p\u00e3o. AE &#8211; Antes destas voca\u00e7\u00f5es foi um desportista vencedor. Como passou do lado f\u00edsico para o lado est\u00e9tico? MO &#8211; N\u00e3o somos senhores de n\u00f3s pr\u00f3prios. Somos manipulados ou manejados por for\u00e7as obscuras.  AE &#8211; Ou ent\u00e3o iluminadoras? MO &#8211; Sim. N\u00f3s somos criaturas. A cria\u00e7\u00e3o em si, incluindo os animais, est\u00e1 submetida a essas leis e regras inalter\u00e1veis e permanentes. Agimos como criaturas. AE &#8211; Criaturas de Deus? MO &#8211; A ideia de Deus ergue-se, justamente, face ao nosso mundo, ao cosmos. Ningu\u00e9m nasceu por vontade pr\u00f3pria. Fomos colocados c\u00e1 por vontade do Criador, Aquele a quem chamamos Deus. Somos criaturas limitadas e, de certo modo, indefesas. S\u00f3 sabemos que quando nascemos iremos morrer&#8230;  <b>Rela\u00e7\u00e3o com Deus<\/b> AE &#8211; Com esta idade j\u00e1 pensou na morte? MO &#8211; A morte \u00e9 algo que nos acompanha&#8230; A ideia, o receio, o pensamento, o medo, o mist\u00e9rio e o segredo da morte. Algu\u00e9m disse que: \u00abSe Cristo n\u00e3o Ressuscitou, toda a nossa f\u00e9 \u00e9 v\u00e3\u00bb. \u00c9 o segredo da morte&#8230; AE &#8211; Com o passar dos anos, nota esta inquieta\u00e7\u00e3o religiosa? MO &#8211; A inquieta\u00e7\u00e3o religiosa nasceu perante o universo e da nossa presen\u00e7a no mundo. Desde os primeiros homens, esse impacto face ao universo e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o que o rodeia coloca-nos o problema do Criador. A verdade \u00e9 que a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 um facto vis\u00edvel.  AE &#8211; Um dia afirmou: \u00abSe pudesse j\u00e1 tinha comprado um bilhete para o c\u00e9u\u00bb. Ainda pensa com frequ\u00eancia na compra desse bilhete? MO &#8211; Sim. N\u00e3o se perde nada com isso. S\u00f3 se pode ganhar. Se o c\u00e9u existe&#8230; \u00e9 bom que se tenha o bilhete.  AE &#8211; Apelo \u00e0 sua mem\u00f3ria que nos recorde os seus tempos de inf\u00e2ncia MO &#8211; Nos meus tempos de inf\u00e2ncia pensava que iria para engenharia. Era mau aluno e n\u00e3o fiz curso nenhum. Sou mais de intui\u00e7\u00f5es. A minha aprendizagem fundamental nasceu da leitura &#8211; grande parte dela ligada \u00e0s coisas do cinema &#8211; mas tamb\u00e9m do conv\u00edvio, desde muito jovem, com intelectuais. Forneciam-me conhecimentos muito ricos. Este tipo de conv\u00edvio ainda mantenho, apesar de muitos deles j\u00e1 terem morrido. Tal como desaparecerem os meus irm\u00e3os e os meus primos. AE &#8211; Um dos seus irm\u00e3os, o Casimiro, matriculou-se consigo na Escola de Cinema de Rino Lupo para aprenderem as primeiras t\u00e9cnicas cinematogr\u00e1ficas. MO &#8211; A escola de Rino Lupo era uma escola de actores. S\u00f3 tivemos duas li\u00e7\u00f5es. N\u00e3o aprendi nada l\u00e1. Apenas diziam para fazer uma cara de terror ou, ent\u00e3o, para sorrir. Era apenas \u00e2nsia de conhecer. AE &#8211; Quando foi para essa escola, j\u00e1 tinha tido uma experi\u00eancia no filme \u00abF\u00e1tima Milagrosa\u00bb?  MO &#8211; Participei como figurante nesse filme realizado por Rino Lupo. Eu, o meu irm\u00e3o e outro amigo \u00e9ramos os pretendentes de uma menina rica que tocava piano. Como o cinema era mudo, sorr\u00edamos apenas para a menina.   <b>A import\u00e2ncia das tert\u00falias<\/b> AE &#8211; Os elementos das tert\u00falias (Jos\u00e9 R\u00e9gio, Casais Monteiro, Leonardo Coimbra, Delfim Santos, Lopes Gra\u00e7a e Gaspar Sim\u00f5es) foram importantes para a sua vis\u00e3o do mundo e transmitir esse mundo nas salas do cinema? MO &#8211; Devo-lhes muito da minha cultura. Toda essa gente j\u00e1 l\u00e1 vai mas vieram outros&#8230; Actualmente, tenho o Pe. Jo\u00e3o Marques que \u00e9 um historiador. \u00c9 o meu conselheiro hist\u00f3rico. N\u00e3o fa\u00e7o nada nesta \u00e1rea sem o consultar. H\u00e1 um filme &#8211; \u00abNon ou V\u00e3 Gl\u00f3ria de Mandar\u00bb &#8211; onde ele e outro historiador fazem a \u00abd\u00e9coupage\u00bb para que n\u00e3o existam erros hist\u00f3ricos. AE &#8211; J\u00e1 realizou dezenas de filmes. Qual deles \u00e9 a obra-prima? MO &#8211; \u00c9 o pr\u00f3ximo. Estou a acabar de filmar \u00abCrist\u00f3v\u00e3o Colombo &#8211; o enigma\u00bb. \u00c9 baseado num livro de Manuel Luciano da Silva onde se chega \u00e0 conclus\u00e3o que, afinal, Crist\u00f3v\u00e3o Colombo era portugu\u00eas. Achei interessante a ideia &#8211; n\u00e3o importa que seja portugu\u00eas, italiano ou espanhol &#8211; porque o que conta \u00e9 o feito. A programa\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o do sistema dos descobrimentos. Fernando Pessoa disse: \u00abOs descobrimentos, mesmo aqueles feitos pelos estrangeiros, ser\u00e3o sempre portugueses\u00bb. O sistema \u00e9 portugu\u00eas. AE &#8211; Os portugueses foram os pais dos descobrimentos MO &#8211; O infante D. Henrique &#8211; era aqui do Porto &#8211; determinou as coisas com muita intelig\u00eancia. Instalou-se no Cabo de Sagres e foi a G\u00e9nova (It\u00e1lia) buscar os capit\u00e3es que conheciam melhor as navega\u00e7\u00f5es &#8211; feitas, sobretudo, no Mediterr\u00e2neo &#8211; e trouxe-os para Sagres. Havia m\u00e9todo. N\u00e3o foi apenas uma aventura. AE &#8211; O seu cinema tamb\u00e9m \u00e9 aventura. Est\u00e1 para al\u00e9m do horizonte? MO &#8211; Tudo est\u00e1 para al\u00e9m do horizonte porque n\u00e3o sabemos o que \u00e9 o futuro. O futuro \u00e9 sempre um devir&#8230; por vezes parado mas, sobretudo, inesperado. N\u00e3o advinhamos e n\u00e3o sabemos o passo que damos amanh\u00e3. Muitas vezes, enganamo-nos no caminho, esquecemo-nos. A nossa mem\u00f3ria come\u00e7a a falhar com a idade porque somos limitados. Sem mem\u00f3ria n\u00e3o sabemos quem somos, onde estamos e o que fazemos.  <b>Do cinema mudo aos efeitos da t\u00e9cnica<\/b> AE &#8211; \u00c9 o \u00fanico cineasta no mundo que ainda vem do tempo do cinema mudo. A t\u00e9cnica trouxe novas realidades e altera\u00e7\u00f5es para a S\u00e9tima Arte? MO &#8211; Trouxe mas tamb\u00e9m prejudicou. AE &#8211; Aponte-nos alguns pontos positivos e negativos desta evolu\u00e7\u00e3o. MO &#8211; A arte \u00e9 express\u00e3o enquanto a t\u00e9cnica pertence ao campo da ci\u00eancia. A t\u00e9cnica pode ajudar ou prejudicar na express\u00e3o. Actualmente, o cinema est\u00e1 mais baseado nos efeitos t\u00e9cnicos do que na express\u00e3o art\u00edstica. Eu opto mais pela simplicidade da express\u00e3o dos gregos (da Antiga Gr\u00e9cia) e do realismo da Renascen\u00e7a do que pelos efeitos espampanantes que n\u00e3o dizem nada. Eles distraem o olhar e exploram, por vezes, o pr\u00f3prio sentimento. Esta explora\u00e7\u00e3o do sentimento e sofrimento \u00e9, muitas vezes, perversa. \u00c9 masoquismo. AE &#8211; Nunca esteve tentado a realizar este cinema comercial? MO &#8211; N\u00e3o estou contra isso nem a favor. O que \u00e9 o cinema comercial? O comercial \u00e9 uma ind\u00fastria. Eu amo e estimo o cinema de artesanato.  AE &#8211; Onde reside a diferen\u00e7a? MO &#8211; A ind\u00fastria repete a mesma coisa milhares de vezes. O artesanato nunca repete. Existem sempre diferen\u00e7as nas pe\u00e7as de artesanato. O cinema \u00e9 um pouco isso&#8230; N\u00e3o sei se h\u00e1 uma deontologia cinematogr\u00e1fica mas muito poucos realizadores no mundo s\u00e3o capazes de distinguir nos seus filmes o que \u00e9 privado e o que \u00e9 p\u00fablico. O privado n\u00e3o se mostra. Eu incluo-me nestes realizadores tal com o Hitchock, Bu\u00f1uel, John Ford e Orson Wells. J\u00e1 os gregos diziam: \u00abMedeia mata os teus filhos mas n\u00e3o em cena\u00bb. \u00c9 bonito e significativo. N\u00e3o explora a viol\u00eancia pela viol\u00eancia, o sexo pelo sexo. O fundo do sexo \u00e9 a multiplica\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie e n\u00e3o o prazer em si.  AE &#8211; Situa-se nessa escola que privilegia o p\u00fablico? MO &#8211; N\u00e3o \u00e9 uma escola mas uma deontologia cinematogr\u00e1fica. Um respeito pela \u00e9tica. AE &#8211; H\u00e1 falta de \u00e9tica no cinema? MO &#8211; \u00c9 um ponto delicado e complexo. A literatura \u00e9 mais aberta a este aspecto. A literatura n\u00e3o \u00e9 p\u00fablica enquanto o cinema e o teatro s\u00e3o p\u00fablicos. A literatura \u00e9 \u00edntima. Quem tem um livro, mesmo de bolso, tem um companheiro e nunca est\u00e1 s\u00f3. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que o espect\u00e1culo.  <b>A po\u00e9tica no cinema<\/b> AE &#8211; O seu cinema n\u00e3o \u00e9 intimista? MO &#8211; O \u00edntimo \u00e9 imperscrut\u00e1vel. H\u00e1 segredos profundos que n\u00e3o revelamos. O \u00edntimo pertence a cada um e deve ser respeitado por cada um.  AE &#8211; Pertence a cada um e ao Criador? MO &#8211; Um escritor disse: \u00abTudo est\u00e1 escrito\u00bb. Todo o mal que se pensou ou todo o bem que se praticou est\u00e1 escrito.  AE &#8211; As imagens paradas, os longos planos, os di\u00e1logos teatrais e o peso da palavra s\u00e3o marcas dos seus filmes? MO &#8211; As imagens paradas s\u00e3o fotografias. O cinema d\u00e1 movimento \u00e0 fotografia. H\u00e1 uma diferen\u00e7a da m\u00e1quina aos pulos e da m\u00e1quina fixa. Uma vez, Pasolini escreveu: \u00abA m\u00e1quina em movimento \u00e9 poesia e a m\u00e1quina fixa \u00e9 prosa\u00bb. Na altura n\u00e3o compreendi bem esta distin\u00e7\u00e3o mas suponho que ele \u00e9 aderente \u00e0 m\u00e1quina em movimento porque ele penetrava no \u00edntimo sem a mais pequena cerim\u00f3nia. AE &#8211; O seu cinema tem esse movimento po\u00e9tico? MO &#8211; A poesia n\u00e3o precisa de ter movimento. A express\u00e3o \u00e9 que pode ser po\u00e9tica ou n\u00e3o. Esta pode ser hist\u00f3rica ou descritiva. N\u00e3o \u00e9 o movimento que d\u00e1 poesia&#8230; \u00c9 a poesia que d\u00e1 movimento ao pensamento e ao sentimento.  <b>A vis\u00e3o do Pe. Ant\u00f3nio Vieira<\/b> AE &#8211; Estudou no Porto e na Galiza, num col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas. Os seguidores de S. In\u00e1cio de Loyola tiveram import\u00e2ncia na sua forma\u00e7\u00e3o humana? MO &#8211; Os Jesu\u00edtas eram excelentes educadores, eu \u00e9 que era mau aluno. (Risos) AE &#8211; Mas os livros do Pe. Ant\u00f3nio Vieira marcaram-no imenso. Fez mesmo um filme sobre este jesu\u00edta do s\u00e9culo XVII. MO &#8211; Para realizar esse filme recorri aos conhecimentos do Pe. Jo\u00e3o Marques. N\u00e3o se podem cometer erros hist\u00f3ricos. Tanto nesse, como em \u00abNon ou V\u00e3 Gl\u00f3ria de Mandar\u00bb, os historiadores acompanharam-me. O que n\u00e3o sei pergunto a quem sabe. AE &#8211; Para tratar o Pe. Ant\u00f3nio Vieira na S\u00e9tima Arte \u00e9 porque notou nele algo de inovador? MO &#8211; O Pe. Vieira tem dois lados: temporal e intemporal. No primeiro tem um excelente sentido do processo hist\u00f3rico. O lado religioso tamb\u00e9m \u00e9 formid\u00e1vel. Ele aconselhou o rei a entregar Pernambuco aos holandeses. Se se concretizasse essa doa\u00e7\u00e3o, os portugueses teriam boas rela\u00e7\u00f5es com a Holanda e poder-se-iam fazer bons neg\u00f3cios. Por outro lado, os judeus poderiam voltar para Portugal, visto que foram expulsos aquando a inquisi\u00e7\u00e3o. Os judeus poderiam desenvolver Portugal e ajudar a renovar a armada que estava bastante destru\u00edda.  AE &#8211; Era um homem com vis\u00e3o? MO &#8211; Tinha uma vis\u00e3o pol\u00edtica muito sagaz. AE &#8211; Mas foi tamb\u00e9m um grande humanista? MO &#8211; Era contra os abusos sobre os escravos. Participei numa confer\u00eancia no Brasil onde se disse que o Pe. Ant\u00f3nio Vieira defendia mais os \u00edndios do que os negros. Os negros quando chegavam \u00e0 Am\u00e9rica tinham perdido a identidade, n\u00e3o estavam no seu pa\u00eds. Os \u00edndios estavam nas suas terras. \u00c9 a quest\u00e3o da identidade. Sem identidade n\u00e3o h\u00e1 dignidade.   <b>\u00abOs meus filmes s\u00e3o mal acolhidos em Portugal\u00bb<\/b> AE &#8211; Em rela\u00e7\u00e3o aos seus filmes, pode dizer-se que o estrangeiro os descobriu primeiro que Portugal? MO &#8211; Sim. A Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Alemanha e Inglaterra. A primeira venda de \u00abDouro, Faina Fluvial\u00bb foi feita para a Inglaterra. AE &#8211; O \u00abDouro, faina fluvial\u00bb causou-lhe alguns dissabores? Foi apupado e pateado na estreia. MO &#8211; De modo geral, os meus filmes s\u00e3o mal acolhidos em Portugal. Depois acabam por se impor. Ainda hoje, tanto esse como \u00abAniki-B\u00f3b\u00f3\u00bb ainda s\u00e3o muito requeridos. Dizem que os meus filmes n\u00e3o s\u00e3o comerciais mas as distribuidoras n\u00e3o os largam.  AE &#8211; A cr\u00edtica foi agressiva tanto para o \u00abDouro, Faina Fluvial\u00bb como para \u00abAmor de Perdi\u00e7\u00e3o\u00bb N\u00e3o fica magoado? MO &#8211; N\u00e3o. Eu sabia que o filme estava correcto. Nas tert\u00falias da P\u00f3voa do Varzim aprofund\u00e1vamos muito estas quest\u00f5es. Aprofundei muito o Camilo Castelo Branco que \u00e9 um grande escritor. Se fosse alem\u00e3o ou franc\u00eas estaria nos p\u00edncaros. Teve a infelicidade de nascer neste pa\u00eds. AE &#8211; No \u00abDouro, Faina Fluvial\u00bb mostrou a realidade da Ribeira? MO &#8211; Hoje, essa realidade j\u00e1 n\u00e3o existe. Tem uma qualidade hist\u00f3rica formid\u00e1vel. Tem o Douro daquela \u00e9poca (fins dos anos 20). As filmagens foram todas realizadas, em v\u00e1rios dias, depois das quatro da tarde. Tem um fim de tarde muito largo&#8230;. (risos.) AE &#8211; Utiliza com frequ\u00eancia a sua cidade como cen\u00e1rio dos seus filmes. Para al\u00e9m desse, recordo-me tamb\u00e9m do \u00abPorto da minha inf\u00e2ncia\u00bb. MO &#8211; Gostei muito de fazer esse filme. \u00c9 uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria&#8230; O Porto est\u00e1 muito diferente. Desapareceu muita coisa. H\u00e1 muita gente nova que nem sabe quem \u00e9 Salazar. Eu tenho mem\u00f3rias que ningu\u00e9m tem e guardo-as.  <b>Os problemas com Salazar<\/b> AE &#8211; Os seus filmes incomodaram o Estado Novo? Teve problemas com Salazar? MO &#8211; Eu n\u00e3o tive problemas com ele mas parece que ele teve problemas comigo. Meteu-me uma vez na cadeia. Os meus filmes n\u00e3o aderiam ao Estado Novo. Incomodavam-no porque eu n\u00e3o era propriamente comunista. O fascismo nasceu para contrariar o comunismo. Aos comunistas, eles n\u00e3o incomodavam muito. O facto de ser comunista era conveniente ao Estado, justificava a sua presen\u00e7a. Como n\u00e3o era comunista, estava fora desse campo. AE &#8211; Foi preso? MO &#8211; Sim mas por pouco tempo. Fiz um filme onde invoco essa passagem. AE &#8211; Ent\u00e3o recorda-se do caso de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes com Salazar? AE &#8211; Lembro-me mas n\u00e3o lidei muito com D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes. Sei que fazia discursos muito demorados e entrava no campo pol\u00edtico com frequ\u00eancia. Para mim, a religi\u00e3o est\u00e1 acima do campo pol\u00edtico. Se \u00e9 religioso n\u00e3o \u00e9 partido pol\u00edtico. Muitos confundem religi\u00e3o com os partidos pol\u00edticos. Era natural que a religi\u00e3o tivesse sido perseguida pelos regimes autorit\u00e1rios. Havia tamb\u00e9m a subtileza de ser agrad\u00e1vel \u00e0 religi\u00e3o e os bispos tinham de ter a subtileza de se manterem, n\u00e3o arriscar tanto. Isso aconteceu com os Jesu\u00edtas no tempo do Marqu\u00eas de Pombal. \u00c9 um jogo de equil\u00edbrio.  Tivemos um grande Papa que foi Jo\u00e3o Paulo II  &#8211; este tamb\u00e9m \u00e9 &#8211; que uniu as religi\u00f5es e n\u00e3o lhes fez guerra. Temos de aceitar todas as religi\u00f5es porque s\u00e3o diferentes formas de adorar ao mesmo Deus. Isto \u00e9 profundamente crist\u00e3o e profundamente humano. As religi\u00f5es quando se tornam pol\u00edticas guerreiam-se&#8230; Jo\u00e3o Paulo II foi extremamente s\u00e1bio. AE &#8211; Este ambiente laicista incomoda-o? MO &#8211; Esse lado n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico. Tirar os Cristos e colocar l\u00e1 o retrato do Presidente da Rep\u00fablica \u00e9&#8230; Fala-se em toler\u00e2ncia e liberdade na democracia mas estes actos s\u00e3o contradit\u00f3rios. O laicismo torna-se intolerante na medida em que agride as outras posi\u00e7\u00f5es visto que as outras posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o agridem os laicos. A toler\u00e2ncia \u00e9 extraordin\u00e1ria.   <b>Uma colec\u00e7\u00e3o de pr\u00e9mios<\/b> AE &#8211; Realizou muitos filmes mas tamb\u00e9m foi agraciado em muitos festivais internacionais e nacionais? O Pr\u00e9mio de Cultura Pe. Manuel Antunes \u00e9 outro a juntar \u00e0 colec\u00e7\u00e3o? MO &#8211; Tenho muitos pr\u00e9mios. De todo o mundo&#8230; Jap\u00e3o, Am\u00e9rica do Norte, Col\u00f4mbia, Brasil, Argentina, Canad\u00e1, It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Alemanha, Rom\u00e9nia, Rep\u00fablica Checa&#8230; AE &#8211; Sem esquecer o pr\u00e9mio do Vaticano MO &#8211; Eu, como pobre pecador que sou, recebi um pr\u00e9mio do Vaticano. Foi o Mons. Foley quem o entregou. Deu-o a um grande pecador. Tamb\u00e9m recebi pr\u00e9mios dos protestantes e dos judeus. AE &#8211; O seu cinema atravessa o ecumenismo e o di\u00e1logo inter-religioso? MO &#8211; Tive uma educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3. A identidade europeia \u00e9 crist\u00e3 e nasceu com a bandeira da Cruz de Cristo. Podemos gostar ou n\u00e3o gostar mas n\u00e3o podemos neg\u00e1-la. O Novo Testamento n\u00e3o nega em nada o Antigo Testamento. AE &#8211; Como reagiu \u00e0 atribui\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio da Cultura Pe. Manuel Antunes? MO &#8211; Senti-me imerecedor. Os pr\u00e9mios atribu\u00eddos aos pecadores n\u00e3o s\u00e3o justos (risos) AE &#8211; Em rela\u00e7\u00e3o aos outros pr\u00e9mios n\u00e3o invocou a condi\u00e7\u00e3o de pecador? MO &#8211; Os outros pr\u00e9mios n\u00e3o t\u00eam o sentido religioso. Eu sou pecador, os meus filmes n\u00e3o. AE &#8211; N\u00e3o h\u00e1 pecados nos seus filmes? MO &#8211; (risos). Penso que n\u00e3o. AE &#8211; Ainda h\u00e1 for\u00e7as para o pr\u00f3ximo projecto? MO &#8211; Sinto-me com for\u00e7as. Incomoda-me mais a falta de meios. O Estado n\u00e3o se interessa pelas coisas art\u00edsticas. Quando o filme \u00abAmor de Perdi\u00e7\u00e3o\u00bb passou em Fran\u00e7a &#8211; todos os jornais falaram dele &#8211; foi publicado um livro sobre o Camilo Castelo Branco. Isto atraiu o conhecimento para o Fernando Pessoa.  AE &#8211; Onde se inspira para escrever os seus argumentos? MO &#8211; Acontece&#8230;   <B>Not\u00edcias relacionadas<\/B> <a href=\"noticia_all.asp?noticiaid=47096&#038;seccaoid=3&#038;tipoid=154\">\u2022 Igreja premeia Manoel de Oliveira<\/a> <a href=\"noticia_all.asp?noticiaid=47097&#038;seccaoid=3&#038;tipoid=154\">\u2022 Manoel de Oliveira: Um homem de f\u00e9<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manoel de Oliveira recorda os 98 anos de vida, os caminhos do cinema e as inquieta\u00e7\u00f5es religiosas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[104,122,167,174,187,192,193,207,236,237],"class_list":["post-25108","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-america","tag-brasil","tag-dialogo-inter-religioso","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-do-porto","tag-ecumenismo","tag-educacao","tag-fatima","tag-jesuitas","tag-joao-paulo-ii"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25108"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25108\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}