{"id":25082,"date":"2007-06-01T10:14:29","date_gmt":"2007-06-01T10:14:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/06\/01\/manoel-de-oliveira-um-homem-de-fe\/"},"modified":"2007-06-01T10:14:29","modified_gmt":"2007-06-01T10:14:29","slug":"manoel-de-oliveira-um-homem-de-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/manoel-de-oliveira-um-homem-de-fe\/","title":{"rendered":"Manoel de Oliveira: Um homem de f\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Um olhar sobre a vida e obra do cineasta, vencedor do Pr\u00e9mio de Cultura Padre Manuel Antunes de 2007 <!--more--> Em 1908 nasce, no Porto, Manoel C\u00e2ndido Pinto de Oliveira no seio de uma fam\u00edlia da burguesia industrial. Desde muito novo que se interessou pelo cinema, gra\u00e7as a seu pai, que o levava a ver filmes de Charles Chaplin e Max Linder. Despertou-lhe o interesse pela S\u00e9tima Arte. Estudou no Col\u00e9gio Universal, na cidade portuense, e, posteriormente, no Col\u00e9gio Jesu\u00edta de La Guardia, Galiza. No entanto, foi como desportista \u2013 gin\u00e1stica, nata\u00e7\u00e3o, atletismo e automobilismo \u2013 que o seu nome ganhou notoriedade. O jovem Manoel de Oliveira sempre mostrou interesse pelo cinema e \u00e0 beira de completar 99 anos (11 de Dezembro) ama, vive e respira a S\u00e9tima Arte. \u00c9 o cineasta mais idoso em actividade e o portugu\u00eas que mais filmes realizou. Sem temor construiu Manoel de Oliveira uma das carreiras mais en\u00e9rgicas da hist\u00f3ria do cinema mundial, \u201cque p\u00f4s sempre em quest\u00e3o as normas cinematogr\u00e1ficas e com ineg\u00e1vel acento pessoal\u201d &#8211; (Cabrita, Ant\u00f3nio; In: Jornal \u00abExpresso\u00bb de 5 de Dezembro de 1998). Com sete d\u00e9cada de fulgor criativo e de uma carreira invulgar\u00edssima, este cineasta \u00e9, no entanto, \u201cum caso de artista mais estimado fora do que dentro de portas\u201d &#8211; (Cabrita, Ant\u00f3nio; In: Jornal \u00abExpresso\u00bb de 5 de Dezembro de 1998). A cidade que o viu nascer tem sido presen\u00e7a constante nos seus projectos cinematogr\u00e1ficos. Come\u00e7ou logo com \u00abDouro, Faina Fluvial\u00bb, realizado em 1931. A primeira longa-metragem \u00abAniki-Bob\u00f3\u00bb tamb\u00e9m tem a cidade do Douro como pano de fundo, assim como o document\u00e1rio \u00abO pintor e a cidade\u00bb (1956). J\u00e1 neste s\u00e9culo, em 2001, Manoel de Oliveira coloca a Invicta na tela do cinema com \u00abPorto da Minha Inf\u00e2ncia\u00bb. Os in\u00fameros pr\u00e9mios ganhos nos festivais mundiais colocam-no como o realizador portugu\u00eas mais internacional: Le\u00e3o de Ouro do J\u00fari do Festival de Veneza; a Medalha de Ouro do Festival de Sorrento, em It\u00e1lia, em 1988; a Medalha de Ouro do Festival de Siena, 1964, e o Pr\u00e9mio do J\u00fari do Festival de Cannes, em 1999. As imagens paradas, os longos planos, os di\u00e1logos teatrais e o peso da palavra s\u00e3o marcas do autor a quem \u00e9 atribu\u00eddo, em 2007, o &#8220;Pr\u00e9mio de Cultura &#8211; Padre Manuel Antunes&#8221;. Apesar dos muitos pr\u00e9mios recebidos, Manoel de Oliveira tamb\u00e9m conviveu com o mal-estar do p\u00fablico. Na projec\u00e7\u00e3o de \u00abDouro, Faina Fluvial\u00bb, em 1931, no V Congresso Internacional da Cr\u00edtica, o filme \u201cfoi vaiado, pateado e assobiado por uma plateia lusitana em f\u00faria, face ao espanto dos congressistas estrangeiros\u201d &#8211; (Cabrita, Ant\u00f3nio; In: Jornal \u00abExpresso\u00bb de 5 de Dezembro de 1998). O esc\u00e2ndalo foi motivado pelo facto de o filme \u00abmostrar mulheres enfarruscadas com carretos de carv\u00e3o \u00e0 cabe\u00e7a\u2026e as vielas do Porto\u2026 e as casas leprosas do Barredo\u2026 oh, vergonha das vergonhas!\u00bb escreveu-se na altura. A hist\u00f3ria repetiu-se cerca de 50 anos depois. A adapta\u00e7\u00e3o ao cinema de \u00abAmor de Perdi\u00e7\u00e3o\u00bb levantou tamb\u00e9m celeuma. Desta vez o foco da pol\u00e9mica situou-se na \u201ccinematiza\u00e7\u00e3o de Oliveira com a solenidade de Camilo\u201d &#8211; (Cabrita, Ant\u00f3nio; In: Jornal \u00abExpresso\u00bb de 5 de Dezembro de 1998).  <b>Dez minutos de Aplausos<\/b> Em 1993, o filme \u00abVale Abra\u00e3o\u00bb foi apresentado na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. No final foi \u201csaudado com uma ova\u00e7\u00e3o de dez minutos\u201d e aclamado como a obra-prima das obras-primas\u201d \u2013 (Ramos, Jorge Leit\u00e3o; In: Jornal \u00abExpresso\u00bb de 16 de Outubro de 1993). Devido a este sucesso al\u00e9m fronteiras, o cineasta portuense concedeu uma entrevista ao Jornal \u00abExpresso\u00bb onde relata as formas e os embri\u00f5es dos argumentos cinematogr\u00e1ficos. \u201cQuando comecei a fazer cinema n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m das tert\u00falias liter\u00e1rias\u201d. Foi o cinema que o aproximou de escritores, pintores, arquitectos, fil\u00f3sofos e poetas. Nesse tempo eram companheiros de tert\u00falia: \u201ceu, o Casais Monteiro, o Leonardo Coimbra, o Jos\u00e9 Marinho, o \u00c1lvaro Ribeiro, o Delfim Santos e outros\u201d \u2013 confessou na entrevista a Jorge Leit\u00e3o Ramos. E acrescenta: \u201cforam eles que me foram dando indica\u00e7\u00f5es sobre livros importantes\u201d. Este tipo de conv\u00edvio ficou nos seus h\u00e1bitos. Esclarecimentos factuais para a constru\u00e7\u00e3o dramat\u00fargica de um argumento. \u201cH\u00e1 o nosso m\u00e9dico, amigo de casa, que escreve livros sobre psicologia, com quem discuti, por exemplo, a quest\u00e3o do bovarismo, que \u00e9 o tema de \u00abVale Abra\u00e3o\u00bb &#8211; relatou Manoel de Oliveira na entrevista ao Jornal \u00abExpresso\u00bb, de 16 de Outubro de 1993. O trabalho pr\u00e9vio \u00e9 fulcral para o sucesso do produto final. No \u00abVale de Abra\u00e3o\u00bb \u201cfiz as \u00abrep\u00e9rages\u00bb muito antes de escrever. Visitei os lugares, tirei uma s\u00e9rie de fotografias, casa por casa, interior por interior\u201d \u2013 sublinhou. Quando escreve, Manoel de Oliveira gosta de saber quem s\u00e3o os actores, sobretudo os principais. \u201cConhecendo bem o actor, sei o partido que posso tirar dele, estou a v\u00ea-lo, ele \u00e9 o personagem\u201d porque o cinema \u201c\u00e9 uma coisa extremamente concreta\u201d \u2013 afirmou a Jorge Leit\u00e3o Ramos.  <b>Aproxima\u00e7\u00e3o ao Universo Religioso<\/b> Manoel de Oliveira est\u00e1 numa \u201cfase decididamente religiosa. Em conversa, o tema do sagrado \u00e9 quase o \u00fanico que suscita as suas respostas mais empenhadas\u201d \u2013 escreveu Pedro Mexia no Jornal \u00abDi\u00e1rio de Not\u00edcias\u00bb, de 9 de Mar\u00e7o de 2006. Afinal, \u00abEspelho M\u00e1gico\u00bb (Adaptado do romance de Agustina Bessa-Luis \u00abA Alma dos Ricos\u00bb) conta a hist\u00f3ria de uma fidalga nortenha que acredita que Nossa Senhora era uma mulher rica e que acalenta o desejo de uma apari\u00e7\u00e3o. O cineasta portuense admite que o enredo \u201ctem um toque rid\u00edculo\u201d. Mas acrescenta: \u201cA cren\u00e7a em si n\u00e3o \u00e9 rid\u00edcula. Tanto se pode ser l\u00facido na cren\u00e7a como na descren\u00e7a. Digo mais: todas as cren\u00e7as repousam na d\u00favida, e o laicismo n\u00e3o tem d\u00favidas. O princ\u00edpio da incerteza est\u00e1 mais do lado da d\u00favida que do lado da certeza\u201d \u2013 (Mexia, Pedro; In: Jornal \u00abDi\u00e1rio de Not\u00edcias\u00bb de 9 de Mar\u00e7o de 2006. A aproxima\u00e7\u00e3o ao universo religioso e a recusa do laicismo que, segundo Manoel de Oliveira, amea\u00e7a a nossa liberdade, \u00e9 uma constante do seu discurso. \u201cAgora tiram o v\u00e9u \u00e0s meninas, tiram os Cristos de algumas escolas, \u00e9 proibido ter qualquer religi\u00e3o mas n\u00e3o \u00e9 proibido ser ateu ou laico. Onde \u00e9 que est\u00e1 a liberdade, onde \u00e9 que est\u00e1 a toler\u00e2ncia?\u201d. O cineasta reivindica a tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, dizendo mesmo: \u201cO Novo Testamento e as proposi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s n\u00e3o foram nunca mais ultrapassadas. Sem discutir que sejam divinas ou n\u00e3o\u201d. Para o decano dos cineastas em actividade no mundo \u2013 \u00fanico que vem do tempo do mudo \u2013, \u201cDeus \u00e9 coisa de que se n\u00e3o pode falar: se existe n\u00e3o o vemos, apenas dizem que existe\u201d \u2013 (Silva, Rodrigues; In: \u00abJornal de Letras\u00bb, de 2 de Dezembro de 1998). \u201cPodemos crer n\u00b4 Ele e, como somos gente de boa f\u00e9, acreditamos\u201d \u2013 completa. Nessa mesma entrevista ao \u00abJornal de Letras\u00bb, Manoel de Oliveira confessou que os \u201cprojectos s\u00e3o como a fruta\u201d porque \u201cprecisam de um tempo de amadurecimento\u201d. Naquela altura estava a estudar o Pe. Ant\u00f3nio Vieira. Do ponto de vista humano, religioso, pol\u00edtico e liter\u00e1rio, aquele jesu\u00edta \u201c\u00e9 uma figura descomunal\u201d. Os escritos deixados por ele s\u00e3o \u201cverdadeiras obras-primas de pensamento, estilo e concis\u00e3o\u201d. E questiona: \u201cComo \u00e9 que um homem, depois da Restaura\u00e7\u00e3o (1640), tem um tal saber e uma for\u00e7a de vontade de remar contra a corrente do tempo, a prop\u00f3sito dos escravos, dos judeus e dos \u00edndios?\u201d. O seu fasc\u00ednio pelo Pe. Ant\u00f3nio Vieira \u00e9 detect\u00e1vel no filme \u00abNon, ou V\u00e3 Gl\u00f3ria de Mandar\u00bb. \u201cEst\u00e1 impl\u00edcito\u201d \u2013 acentuou. Ser humanista no s\u00e9culo XVII como o Pe. Ant\u00f3nio Vieira n\u00e3o \u00e9 o mesmo \u201cque s\u00ea-lo depois do 25 de Abril\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um olhar sobre a vida e obra do cineasta, vencedor do Pr\u00e9mio de Cultura Padre Manuel Antunes de 2007<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[92,174,187,206],"class_list":["post-25082","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-25-de-abril","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-do-porto","tag-familia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25082","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25082"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25082\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25082"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25082"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25082"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}