{"id":25034,"date":"2007-05-30T10:55:17","date_gmt":"2007-05-30T10:55:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/05\/30\/a-pobreza-tem-de-ser-vencida\/"},"modified":"2007-05-30T10:55:17","modified_gmt":"2007-05-30T10:55:17","slug":"a-pobreza-tem-de-ser-vencida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-pobreza-tem-de-ser-vencida\/","title":{"rendered":"A Pobreza tem de ser vencida"},"content":{"rendered":"<p>Teve lugar nos passados dias 25 e 26 de Maio, em Lisboa, uma Confer\u00eancia da responsabilidade da Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz, tendo por tema Por um desenvolvimento global e solid\u00e1rio \u2013 um compromisso de cidadania.  \tNum documento como este, torna-se imposs\u00edvel dar conta dos m\u00faltiplos temas ali abordados e da import\u00e2ncia que eles revestem para n\u00f3s, quer como simples cidad\u00e3os, quer como crist\u00e3os. Alguns n\u00fameros, por\u00e9m, talvez nos fa\u00e7am sair, um pouco, desta letargia em que nos encontramos perante o que actualmente se est\u00e1 a passar em algumas zonas do globo. Assim, &#8211; mais de cinquenta mil crian\u00e7as morrem por dia, v\u00edtimas da fome, de doen\u00e7as evit\u00e1veis, de falta de higiene e de cuidados b\u00e1sicos de sa\u00fade, incluindo a vacina\u00e7\u00e3o;  &#8211; 2,8 mil milh\u00f5es de pessoas vivem com menos de 1 d\u00f3lar por dia; &#8211; mil milh\u00f5es de pessoas habitam em bairros miser\u00e1veis urbanos; &#8211; a esperan\u00e7a de vida na \u00c1frica subsaariana situa-se nos 46 anos (a dos pa\u00edses da OCDE \u00e9 de 78 anos).   \tPor outro lado, a diferen\u00e7a entre os pa\u00edses ricos e os pa\u00edses pobres est\u00e1 a acentuar-se. Assim, os pa\u00edses ricos, a que corresponde 20% da popula\u00e7\u00e3o mundial, cresceram 2,2% ao ano nos \u00faltimos 23 anos; nesse mesmo per\u00edodo de tempo, os pa\u00edses pobres, com os restantes 80% da popula\u00e7\u00e3o, ca\u00edram 0,3% ao ano (0,5% no que se refere aos pa\u00edses subsaarianos). Al\u00e9m disso, para manter um estilo m\u00e9dio de vida americano precisar\u00edamos de seis planetas Terra para o sustentar.   \tEstes s\u00e3o alguns dos dados que traduzem uma realidade que n\u00e3o pode tolerar-se: a par de um consumismo exacerbado por parte de alguns, de uma industrializa\u00e7\u00e3o que, frequentemente, est\u00e1 ao servi\u00e7o do sup\u00e9rfluo e de um estilo de vida que p\u00f5e em risco a sobreviv\u00eancia do planeta Terra (de que estamos j\u00e1 a sentir alguns dos seus efeitos, atrav\u00e9s das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas), coexiste, em propor\u00e7\u00f5es desmesuradas, uma pobreza extrema, privada das condi\u00e7\u00f5es materiais m\u00ednimas compat\u00edveis com a dignidade humana.  \tJ\u00e1 Jo\u00e3o Paulo II, na carta apost\u00f3lica Novo Millennio Ineunte, em 2001, dizia: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados m\u00e9dicos mais elementares, quem n\u00e3o tenha uma casa onde abrigar-se? (&#8230;) E como ficar indiferentes diante das perspectivas dum desequil\u00edbrio ecol\u00f3gico, que torna inabit\u00e1veis e hostis ao homem vastas \u00e1reas do planeta? (&#8230;) Ou frente ao vilip\u00eandio dos direitos humanos fundamentais de tantas pessoas, especialmente das crian\u00e7as?\u201d. \tOra, estas pessoas que vivem esta pobreza s\u00e3o como que exclu\u00eddas da humanidade; foi-lhes retirada a dignidade e esta \u00e9 inerente \u00e0 fam\u00edlia humana. Do que se est\u00e1 a tratar \u00e9, simplesmente, de viola\u00e7\u00e3o grosseira da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos que, no seu artigo 1\u00ba, diz: \u201cTodos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de raz\u00e3o e de consci\u00eancia, devem agir uns para com os outros em esp\u00edrito de fraternidade.\u201d  \tA pobreza n\u00e3o pode ser evitada pela caridade. Aquela p\u00f5e em quest\u00e3o os fundamentos da justi\u00e7a. Ora este tipo de injusti\u00e7a desumaniza. \u00c9 preciso que se tome consci\u00eancia dela para que seja combatida. Se, como afirmou na Confer\u00eancia Pierre San\u00e9, Sub-Director Geral da Unesco, o apartheid e a escravatura foram abolidos, tamb\u00e9m a pobreza, esta pobreza que retira a dignidade humana \u00e0s pessoas, ter\u00e1 que o ser.  \tA sua aboli\u00e7\u00e3o \u00e9 uma prioridade e talvez implique uma nova ordem internacional. Talvez acarrete o estabelecimento de outras prioridades por parte dos governos dos Estados. Mas, principalmente, a sua aboli\u00e7\u00e3o sup\u00f5e um maior esp\u00edrito de fraternidade quer por parte dos Governos, quer por parte dos cidad\u00e3os. \tE que dizer da pobreza em Portugal? Ela n\u00e3o atinge as formas de extrema severidade como a que existe nos pa\u00edses subsaarianos. No entanto, cerca de 20% das pessoas (2 milh\u00f5es) detinham, em 2005, segundo um estudo de Maria Eduarda Ribeiro, da Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz, um rendimento dispon\u00edvel familiar equivalente, depois das transfer\u00eancias sociais, abaixo dos 60% da mediana nacional. Esta taxa de risco de pobreza era apenas ultrapassada pela Pol\u00f3nia e pela Litu\u00e2nia. Por outro lado, o estudo atr\u00e1s referido indica que a elevada taxa de pobreza registada em Portugal est\u00e1 associada a uma acentuada desigualdade que se agravou nos \u00faltimos anos, isto \u00e9, o crescimento econ\u00f3mico vem sendo apropriado por uma minoria e n\u00e3o tem servido para erradicar a pobreza, incluindo as suas manifesta\u00e7\u00f5es extremas.  \tComo explicar, ent\u00e3o, que o crescimento econ\u00f3mico a que o Pa\u00eds assistiu ao longo dos \u00faltimos 20 anos n\u00e3o tenha servido para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos cerca de dois milh\u00f5es de pessoas cujos rendimentos ficam abaixo do limiar de pobreza? \tComo explicar o funcionamento da nossa economia e da organiza\u00e7\u00e3o da sociedade portuguesa quando n\u00e3o se foi capaz de corrigir os mecanismos que conduziram \u00e0 exclus\u00e3o de 20% da nossa popula\u00e7\u00e3o? \tE em que medida os crist\u00e3os fizeram da Doutrina Social da Igreja o instrumento para as suas decis\u00f5es, tomadas de posi\u00e7\u00e3o e comportamentos na comunidade, de modo a colaborarem na constru\u00e7\u00e3o de um Pa\u00eds menos pobre e com maior justi\u00e7a social?   Portalegre, 28 de Maio de 2007 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teve lugar nos passados dias 25 e 26 de Maio, em Lisboa, uma Confer\u00eancia da responsabilidade da Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz, tendo por tema Por um desenvolvimento global e solid\u00e1rio \u2013 um compromisso de cidadania. 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