{"id":2497,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/humanismo-de-um-papa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"humanismo-de-um-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/humanismo-de-um-papa\/","title":{"rendered":"Humanismo de um Papa"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 a jornalista portuguesa que mais acompanhou o Papa Jo\u00e3o Paulo II, em Roma e nas suas viagens apost\u00f3licas. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia, anota opini\u00f5es de 25 anos de pontificado e da sua import\u00e2ncia para a Hist\u00f3ria da Igreja e das sociedades. <!--more--> Ag\u00eancia Ecclesia \u2013 Jo\u00e3o Paulo II marca a agenda da comunidade internacional? Aura Miguel \u2013 Desde h\u00e1 25 anos! A sua elei\u00e7\u00e3o instaurou um novo estilo de pontificado, definido por ele pr\u00f3prio como um pontificado itinerante. Jo\u00e3o Paulo II afirma a consci\u00eancia de ser fundamental correr o mundo &#8211; como fez S. Paulo no seu tempo. Quando o Papa fez a sua 100\u00aa viagem explicou que se prop\u00f4s seguir os passos do ap\u00f3stolo de que ele \u00e9 herdeiro. Isto para al\u00e9m de motiva\u00e7\u00f5es das Igrejas que o recebem (que abrange todos os sectores da realidade, tamb\u00e9m pol\u00edtica)  AE \u2013 H\u00e1 a planifica\u00e7\u00e3o de iniciativas, nomeadamente viagens, que possam influenciar decididamente a hist\u00f3ria? AM \u2013 As marca\u00e7\u00f5es das viagens resultam sempre de convites dos Bispos que visita e tendo em conta as necessidades pastorais das Igrejas a visitar. Para quem convida, admito que obede\u00e7a a uma determinada estrat\u00e9gia: \u201cd\u00e1 jeito\u201d aos bispos que o Papa visite as suas igrejas locais, a interesses pol\u00edticos e partid\u00e1rios\u2026 Recordo-me, por exemplo, do convite a visitar Cuba\u2026 certamente que Putin gostaria de ver o Papa na R\u00fassia por motivos que n\u00e3o s\u00e3o os do Papa: o \u00fanico crit\u00e9rio \u00e9 pastoral. Agora, que por causa de determinada viagem o mundo mude, a hist\u00f3ria do pa\u00eds, do continente ou at\u00e9 mundial, \u00e9 poss\u00edvel. Mas o Papa n\u00e3o promove viagens com essa inten\u00e7\u00e3o. Faz para anunciar Cristo, cumprindo o que afirmou no in\u00edcio do seu pontificado: \u201cAbri as portas a Cristo, nos sistemas pol\u00edticos, econ\u00f3micos e culturais\u201d. Abrindo as portas a Cristo, muda o mundo!  AE \u2013 As viagens ao Leste da Europa, nomeadamente, poderemos encontrar nelas um plano que conduza \u00e0 abertura do leste ao mundo democr\u00e1tico? AM \u2013 De certo modo sim. \u00c9 verdade que a primeira visita \u00e0 Pol\u00f3nia foi muito \u201cnegociada\u201d. O fio condutor \u00e9 sempre \u201cabri as portas a Cristo\u201d. Isso implica que Cristo esteja em todas as dimens\u00f5es do homem, nomeadamente onde ele ainda n\u00e3o esteja.  A insist\u00eancia de Jo\u00e3o Paulo II em ir \u00e0 Pol\u00f3nia levou ao \u201cabrir as portas a Cristo\u201d antes de mais dos polacos e, depois, do mundo do leste. Cristo \u00e9 o Senhor da Hist\u00f3ria. Se lhe abrirmos as portas, ele muda-a. As iniciativas de Jo\u00e3o Paulo, o desejo de viajar, foram um instrumento fundamental para esta mudan\u00e7a. N\u00e3o se pode trocar a ordem dos factores: porque causa da convic\u00e7\u00e3o e profunda determina\u00e7\u00e3o de que Cristo ressuscitou e, portanto, \u00e9 a resposta aos anseios do cora\u00e7\u00e3o do homem, dos povos e das na\u00e7\u00f5es que o Papa viaja. E ficou demonstrado que, assim, consegue mudar a hist\u00f3ria.  AE \u2013 Karol Wojtyla \u00e9 um l\u00edder religioso da passagem do mil\u00e9nio? AM \u2013 Sem d\u00favida. Mesmo para os que n\u00e3o t\u00eam religi\u00e3o, Jo\u00e3o Paulo II \u00e9 uma grande autoridade moral. Ele vive com tanta verdade e com tanta convic\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 t\u00e3o cred\u00edvel no seu pr\u00f3prio exemplo pessoal que se torna irresist\u00edvel para qualquer pessoa, independentemente de ser crist\u00e3o, cat\u00f3lico, de outra religi\u00e3o ou para os que n\u00e3o cr\u00eaem em Deus. \u00c9 muito evidente o respeito e a autoridade moral que ele tem, em certo sentido, \u201canterior\u201d ao facto religioso. \u00c9 algo ineg\u00e1vel pela riqueza e pela grandeza do que ele \u00e9 como pessoa. \u00c9 um homem fora de s\u00e9rie, reconhecido por pessoas independentemente da religi\u00e3o. Enquanto l\u00edder religioso \u00e9 a \u00fanica personalidade do mundo \u2013 como lhe disse um l\u00edder judaico no II Encontro de Assis \u2013 que consegue reunir l\u00edderes religiosos de todo o mundo, ap\u00f3s acontecimentos como o 11 de Setembro, num grande grito ao mundo a favor da paz e afirmando que a religi\u00e3o nunca poderia ser factor de guerra. Houve muitas vozes que, na altura em que convocou o II Encontro de Assis, temeram que n\u00e3o corresse t\u00e3o bem como o Encontro de 86 em que se vivia um ambiente de \u201cguerra santa\u201d. Mas a \u00fanica coisa que n\u00e3o correu bem foi que, no momento da paz, os l\u00edderes religiosos em vez de dar um abra\u00e7o ao vizinho foram todos dar um abra\u00e7o ao Papa: o maior sinal de que Jo\u00e3o Paulo II \u00e9 um l\u00edder religioso.  AE \u2013 Pol\u00edtica e socialmente tamb\u00e9m? AM \u2013 Correndo o risco de simplificar, acho que pol\u00edtica e socialmente tamb\u00e9m. Do ponto de vista social, bastar\u00e1 olhar para os seus documentos e vemos como norteiam todos aqueles que t\u00eam preocupa\u00e7\u00f5es de valorizar o homem e a dignidade do trabalho. Tamb\u00e9m por causa da sua experi\u00eancia de vida na juventude e da realidade dura do trabalho que experimentou \u2013 na sequ\u00eancia de extraordin\u00e1rios documentos sobre a Doutrina Social da Igreja de Papas anteriores \u2013 as enc\u00edclicas e outros documentos dedicados \u00e0 Doutrina Social de Jo\u00e3o Paulo II t\u00eam sido de uma grande luminosidade, ajudante a consolidar toda a doutrina social da Igreja que j\u00e1 existia antes deste pontificado. Do ponto de vista pol\u00edtico\u2026 basta ver a preocupa\u00e7\u00e3o e a tentativa cont\u00ednua de manipula\u00e7\u00e3o que os pol\u00edticos fazem das palavras do Papa. Cuba \u00e9 um exemplo. Foi uma visita dif\u00edcil de negociar, apesar do interesse de Fidel: interessou-lhe que os olhos do mundo estivessem postos em Cuba que recebia o Papa, mas n\u00e3o queria, por exemplo, que os discursos do Papa fossem transmitidos em directo\u2026  AE \u2013 Ser\u00e1 dif\u00edcil fazer a hist\u00f3ria deste Papa, classificando-o, em poucas palavras. Mas, qual ser\u00e1, para uma jornalista que o acompanha com frequ\u00eancia, o primeiro atributo de Jo\u00e3o Paulo II? AM \u2013 \u00c9 imposs\u00edvel, para mim, classificar este pontificado!&#8230; De imediato, olho-o com profunda humanidade. N\u00e3o gosto de o ver como um homem religioso, que o \u00e9 claramente, como um homem de ora\u00e7\u00e3o, de intelig\u00eancia, de cultura\u2026 etc. O que mais me impressiona \u00e9 a sua profunda humanidade. A sua humanidade \u00e9 t\u00e3o extraordin\u00e1ria que, acho, \u00e9 esse o segredo da sua atractividade. \u00c9 a \u00fanica coisa que explica que jovens continuem atra\u00eddos por Jo\u00e3o Paulo II, apesar das evidentes fragilidades. Por exemplo, na recente visita \u00e0 Eslov\u00e1quia, ele estava praticamente imobilizado, praticamente sem poder mexer nem falar, as pessoas estavam aos milhares numa celebra\u00e7\u00e3o comovidas e gratas pela presen\u00e7a daquele Papa, que reflecte humanidade. Para mim, a melhor s\u00edntese foi encontrada pelo cardeal Ratzinguer quando disse ao Papa, no dia do seu anivers\u00e1rio, que ele \u00e9 o reflexo do rosto de Cristo. O rosto de Cristo que o Papa sempre nos convida a fixar o olhar\u2026 Jo\u00e3o Paulo II j\u00e1 \u00e9 o reflexo deste rosto. E por isso \u00e9 que ele \u00e9 t\u00e3o fascinante e t\u00e3o atractivo: porque Cristo \u00e9 profundamente humano. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 a jornalista portuguesa que mais acompanhou o Papa Jo\u00e3o Paulo II, em Roma e nas suas viagens apost\u00f3licas. 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