{"id":247893,"date":"2022-07-24T09:32:59","date_gmt":"2022-07-24T08:32:59","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=247893"},"modified":"2022-07-21T16:37:30","modified_gmt":"2022-07-21T15:37:30","slug":"covid-19-muita-gente-ficou-com-marcas-e-nao-sei-se-vao-alguma-vez-desaparecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/covid-19-muita-gente-ficou-com-marcas-e-nao-sei-se-vao-alguma-vez-desaparecer\/","title":{"rendered":"Covid-19: \u00abMuita gente ficou com marcas e n\u00e3o sei se v\u00e3o alguma vez desaparecer\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Foi no \u00faltimo dia de janeiro de 2021 que o Papa Francisco anunciou a institui\u00e7\u00e3o do Dia Mundial dos Av\u00f3s e dos Idosos, que se assinala no quarto domingo de julho, junto \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica de S\u00e3o Joaquim e Santa Ana, av\u00f3s de Jesus. A Ecclesia e a Renascen\u00e7a conversam com o av\u00f4 \u00c2ngelo Soares, respons\u00e1vel pelo Secretariado Diocesano da Pastoral da Fam\u00edlia da Diocese do Porto<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia) <\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_247895\" aria-describedby=\"caption-attachment-247895\" style=\"width: 1919px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-247895 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34.jpeg\" alt=\"\" width=\"1919\" height=\"1440\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34.jpeg 1919w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-346x260.jpeg 346w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-1536x1153.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-510x382.jpeg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-1080x810.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-1280x961.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-980x735.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-21-at-15.01.34-480x360.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 1919px) 100vw, 1919px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-247895\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u00c9 av\u00f4 de quantos netos?<\/em><\/p>\n<p>Sou av\u00f4 de dois netos. N\u00e3o consta que venha nenhum a caminho (risos). Um rapaz que vai fazer cinco anos em outubro e uma menina que est\u00e1 quase nos 11 meses.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E como \u00e9 essa experi\u00eancia? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 fant\u00e1stica. Tenho pena por n\u00e3o ter sido mais cedo e n\u00e3o ser mais frequente. Tenho tr\u00eas filhos, inda falta um deles e a neta demorou bastante tempo, por raz\u00f5es de sa\u00fade. Eu, at\u00e9 na brincadeira, digo que ela em vez de Lu\u00edsa se devia chamar Sebastiana, porque foi muito desejada\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dizia que tem pena de ter sido av\u00f4 s\u00f3 h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Tenho pena. N\u00e3o me importava de ter sido av\u00f4 mais cedo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esse \u00e9 um problema que vivemos hoje em dia, as pessoas t\u00eam filhos mais tarde? <\/em><\/p>\n<p>Eu notei em alguns dos meus amigos t\u00eam pena de ainda n\u00e3o serem av\u00f3s, apesar de andarem em idades pr\u00f3ximas da minha. Lembro-me de outros que t\u00eam a sorte e a felicidade de ter os netos mais cedo, quando ainda t\u00eam mais energias. Mas acho que vale a pena tamb\u00e9m uma pessoa p\u00f4r as energias que ainda vai tendo e viver o momento presente. Andar sempre com saudades do que podia ter sido n\u00e3o vale a pena\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>At\u00e9 por causa dessas mudan\u00e7as que se v\u00e3o sentindo na sociedade, faz sentido a institui\u00e7\u00e3o deste Dia Mundial dos Av\u00f3s e dos Idosos, ou \u00e9 mais um semelhante \u00e0queles que j\u00e1 existem? <\/em><\/p>\n<p>Eu acho que faz sentido chamar a aten\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o dos idosos, por um lado, que realmente \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que neste momento tem uma dimens\u00e3o muito maior do que j\u00e1 teve, porque a longevidade aumenta. Numa gera\u00e7\u00e3o, a esperan\u00e7a de vida subiu quase 20 anos. V\u00e1rias vezes comento isso: quando eu era mi\u00fado, ou jovem, falava-se de um sexagen\u00e1rio e j\u00e1 era velho. Quando vinha no jornal a not\u00edcia de que o septuagen\u00e1rio foi atropelado, a gente dizia: \u201cclaro, quem \u00e9 que o mandou sair \u00e0 rua t\u00e3o velho?\u201d. Agora achamos que \u00e9 uma pessoa perfeitamente v\u00e1lida, com mais idade at\u00e9. Portanto, acho que \u00e9 bom chamar-se a aten\u00e7\u00e3o para os idosos, porque \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o com uma dimens\u00e3o grande e com problemas espec\u00edficos. E os av\u00f3s tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Por experi\u00eancia pr\u00f3pria, acho que somos um valor que nem sempre \u00e9 compreendido e nem sempre \u00e9 aproveitado, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o substituto da creche ou do ATL. H\u00e1 experi\u00eancias espec\u00edficas que eu tamb\u00e9m gostei de viver com os meus av\u00f3s e que \u00e9 importante que os netos tenham oportunidade de viver com av\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sociedade em que vivemos, os av\u00f3s t\u00eam cada vez um papel mais relevante no acompanhamento das crian\u00e7as? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que muitas vezes os pais trabalham ambos e \u00e9 preciso os av\u00f3s para ir buscar a escola ou levar \u00e0 escola e depois levar \u00e0quelas m\u00faltiplas atividades com que muitas vezes bombardeamos os netos, coitadinhos, n\u00e3o t\u00eam tempo para brincar, nalguns casos\u2026 Felizmente, n\u00e3o \u00e9 o meu caso que tenho muito tempo para os meus netos com a minha casa. Mas os av\u00f3s t\u00eam um papel importante nesse acompanhamento e \u00e9 bom tamb\u00e9m que assim seja. Por um lado, porque se sentem \u00fateis, porque continuam a p\u00f4r a render as suas capacidades, continuam a ser desafiados, \u00e0s vezes a atualizar-se. Eu acho imensa gra\u00e7a quando av\u00f3s dizem que foi o meu neto que me p\u00f4s a trabalhar com o computador, ir \u00e0s apps ao telem\u00f3vel, a usar o WhatsApp, ou outra coisa qualquer. Acho \u00f3timo que essa intera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m exista e que os netos gostem de estar com os av\u00f3s, de ouvir hist\u00f3rias de outros tempos, de ver outras maneiras de ver a vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E\u00a0 n\u00e3o serem s\u00f3 o substituto das creches? \u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>E n\u00e3o serem s\u00f3 substitutos, exatamente. Eu acho que esse papel dos av\u00f3s \u00e9 muito bonito de ter essa participa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, de colocar em jogo a sua experi\u00eancia de vida e a riqueza de tudo o que aprenderam. E \u00e9 ben\u00e9fico tamb\u00e9m para os av\u00f3s, porque os netos os desafiam a n\u00e3o estiolar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para al\u00e9m desta import\u00e2ncia de que estava a falar, dos av\u00f3s, no desenvolvimento emocional das crian\u00e7as, tamb\u00e9m \u00e9 not\u00f3ria a import\u00e2ncia ao n\u00edvel do desenvolvimento material. Muitas vezes os av\u00f3s s\u00e3o j\u00e1 quase o \u00faltimo ponto de ref\u00fagio, porto seguro, quando h\u00e1 uma crise econ\u00f3mica, por exemplo, para muitas fam\u00edlias\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. N\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que nos apare\u00e7a muito na Pastoral Familiar, mas reconhe\u00e7o que sim, que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica global \u00e9 muitas vezes mais desafiante. Tamb\u00e9m a estabilidade das fam\u00edlias infelizmente n\u00e3o \u00e9 a que j\u00e1 foi.<\/p>\n<p>\u00c9 aquela hist\u00f3ria que a gente l\u00ea \u00e0s vezes, que n\u00f3s \u201cainda \u00e9ramos do tempo em que as coisas se remendavam, e agora s\u00e3o de usar e deitar fora\u201d. Isso tamb\u00e9m se reflete na estabilidade das fam\u00edlias, no n\u00famero de div\u00f3rcios. E os av\u00f3s permanecem realmente, muitas vezes, como porto seguro. \u00c0s vezes demais na minha opini\u00e3o, e o defeito est\u00e1 do nosso lado, por n\u00e3o sermos capazes de educar os filhos para a autonomia, ou seja: sermos ninho, mas ao mesmo sermos escola de voo, como dizia algu\u00e9m h\u00e1 pouco tempo. Temos de dar aos filhos as asas para voar sozinhos e deix\u00e1-los tamb\u00e9m, \u00e0s vezes, ter dificuldades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 um outro aspeto relevante que tem a ver com o momento de grande dificuldade e de grande car\u00eancia, em que, por vezes os av\u00f3s s\u00e3o o \u00faltimo ref\u00fagio para ajudar em situa\u00e7\u00f5es de dificuldade. Essas situa\u00e7\u00f5es acontecem?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Acontecem, claro que acontecem.\u00a0 Eu estava a referir-me mais \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de superprote\u00e7\u00e3o que muitas vezes temos com os nossos filhos e que, depois, eles veiculam tamb\u00e9m para os deles, o que na minha opini\u00e3o n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel. \u00c9 aquela hist\u00f3ria que muitas vezes se conta da m\u00e3ezinha que diz ao filho, \u201cse o casamento n\u00e3o correr bem, tens sempre aqui o teu quartinho\u201d. Eu acho que isso \u00e9 p\u00e9ssimo. N\u00f3s tivemos o cuidado de desfazer o quarto dos filhos quando eles sa\u00edram de casa e transformamos esses compartimentos. S\u00f3 um deles \u00e9 que ficou para receber os netos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Recorrendo \u00e0 sua experi\u00eancia pessoal e \u00e0s v\u00e1rias experi\u00eancias que lhe foram chegando, como \u00e9 que foi vivido esse per\u00edodo sem a presen\u00e7a habitual dos netos fisicamente, na pandemia? <\/em><\/p>\n<p>Houve muita gente que ficou com marcas e n\u00e3o sei se v\u00e3o alguma vez desaparecer. Marcas de isolamento, de solid\u00e3o, gente que envelheceu visivelmente, muito mais rapidamente do que seria de esperar, porque realmente lhes faltou a companhia, u a alegria, os desafios que os netos e os filhos tamb\u00e9m constituem.<\/p>\n<p>Houve aspetos positivos, como criar aquelas liga\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que as pessoas n\u00e3o estavam habituadas da conversa di\u00e1ria com os netos, pelo WhatsApp e coisas assim. Mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, obviamente. As manifesta\u00e7\u00f5es de afeto f\u00edsicas at\u00e9, a presen\u00e7a, o olhar, os sorrisos, isso fez muita falta a muita gente. Fez e faz muita falta a muita gente, porque acho que tamb\u00e9m se criou algum h\u00e1bito de isolamento p\u00f3s-pandemia: a obriga\u00e7\u00e3o de ficar por casa durante a pandemia transformou-se um bocado no comodismo de ficar por casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E isso n\u00e3o se pode acentuar agora, com o recurso a essas novas tecnologias que todos aprendemos?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Acredito que sim, que \u00e9 preciso alguma sabedoria para uma pessoa n\u00e3o se deixar dominar por esse pseudo conforto, mas que acaba por ser desconfort\u00e1vel no sentido de que afasta as pessoas e esfria as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos ent\u00e3o ao exemplo do av\u00f4.\u00a0 Como \u00e9 que o av\u00f4 combate essas situa\u00e7\u00f5es? Como \u00e9 que se recupera o tempo perdido?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Eu falo com os filhos com frequ\u00eancia e com os netos, a mais pequenina n\u00e3o alimenta conversa, como \u00e9 evidente (tem 11 meses).\u00a0 Mas todas as semanas, normalmente v\u00e3o a minha casa uma, duas vezes. Ali\u00e1s, faz parte das minhas tarefas ir buscar o neto duas vezes na semana. As outras tr\u00eas \u00e9 a av\u00f3 do outro lado. Normalmente a minha agenda desses dias est\u00e1 bloqueada, n\u00e3o h\u00e1 nada para ningu\u00e9m e a minha mulher tamb\u00e9m faz esse esfor\u00e7o. Aquelas que s\u00e3o para os netos s\u00e3o para os netos, seja para brincar, seja para ler um livro, seja para construir coisas em plasticina, seja para ir para o quintal, porque rapazinho acha muito engra\u00e7ado jardinar. \u00c9 tempo para os netos. Acho que \u00e9 importante que assim seja.<\/p>\n<p>N\u00f3s apreciamos isso, apreciamos v\u00ea-los crescer, apreciamos, transmite-lhes algumas experi\u00eancias, apreciamos ouvir as hist\u00f3rias para j\u00e1 dele e\u00a0esperamos que a menina tamb\u00e9m assim venha a ser. Esse procurar ir ao encontro e estar com, para mim, \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E \u00e9 a forma de recuperar o tempo que a pandemia fez perder? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 sim. Embora eu tinha tido a sorte durante a pandemia de apesar de tudo manter uma rela\u00e7\u00e3o bastante pr\u00f3xima, exceto naquele per\u00edodo em que fomos mesmo for\u00e7ados a estar em casa e a\u00ed realmente recorr\u00edamos \u00e0s tecnologias. Desde que houve um bocadinho de abertura, com todos os cuidados, houve contacto, houve rela\u00e7\u00e3o. Eu tive a sorte de n\u00e3o ter havido propriamente afastamento, mas muitos n\u00e3o tiveram essa sorte.\u00a0Sobretudo as pessoas, por exemplo, que est\u00e3o em estruturas resid\u00eancias de idosos ou que est\u00e3o mais longe. Eu tive a sorte de n\u00e3o estar muito longe dos meus filhos e dos meus netos, mas outros n\u00e3o ter\u00e3o essa sorte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sobre a Jornada de hoje, vale a pena recordar um apelo do Papa: que os mais velhos n\u00e3o sejam apenas destinat\u00e1rios, mas sujeitos da a\u00e7\u00e3o pastoral, na Igreja. Isso vale tamb\u00e9m para a sociedade, no seu todo?<\/em><\/p>\n<p>Acho que sim. \u00c9 verdade que, por exemplo, a n\u00edvel da pastoral familiar essa n\u00e3o tem sido uma preocupa\u00e7\u00e3o t\u00e3o insistente como poderia ser, como deveria ser. Estamos agora a tentar arrepiar um bocadinho de caminho e \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o. O secretariado, aqui no Porto, tem veiculado junto das equipas locais que haja esta aten\u00e7\u00e3o aos idosos, aos s\u00f3s e aos enlutados tamb\u00e9m. N\u00e3o s\u00f3 aquela preocupa\u00e7\u00e3o imediata, no momento de um falecimento, mas do acompanhamento. O acompanhamento da solid\u00e3o.<\/p>\n<p>A n\u00edvel social, a valoriza\u00e7\u00e3o dos idosos e o n\u00e3o nos deixarmos ficar pela mantinha sobre os joelhos, sentadinhos no sof\u00e1, \u00e9 fundamental, mas isso tamb\u00e9m parte da atitude do pr\u00f3prio idoso.<\/p>\n<p>Eu fiz muitos planos para quando me reformasse e felizmente &#8211; a minha mulher at\u00e9 brinca -, estou mais ocupado do que estava enquanto tinha vida profissional. N\u00e3o me aborrece nada. Tem mesmo de ser assim: pegar numa experi\u00eancia de vida, mais ou menos rica, mais ou menos diversificada, e continuar a p\u00f4-la ao servi\u00e7o da sociedade de outra maneira.<\/p>\n<p>Optei por s\u00f3 ter voluntariado, tenho a minha reforma e o meu tempo \u00e9 para o voluntariado. Al\u00e9m do Secretariado da Pastoral da Fam\u00edlia, tenho o movimento Refood, de recolha e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos; perten\u00e7o a uma associa\u00e7\u00e3o que responde ao problema dos idosos, uma iniciativa da Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian \u201cSer Mais Valia\u201d, em que os s\u00f3cios s\u00f3 podem ter mais de 55 anos. E \u00e9 realmente a ideia de capitalizar a experi\u00eancia das pessoas e p\u00f4-la ao servi\u00e7o, contribuir para uma ou para uma velhice ativa. Colaborei na obra do Frei Gil, tamb\u00e9m na montagem de sistema de qualidade, portanto, pegar nas minhas experi\u00eancias de vida e continuar a p\u00f4-las ao servi\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Francisco refere na sua inten\u00e7\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o para julho que, para a velhice h\u00e1 muitos planos de assist\u00eancia, mas poucos projetos de vida. Sente isso<\/em>?<\/p>\n<p>Sinto. N\u00e3o sofro com isso pessoalmente, mas sinto que se olha muito para idosos como os coitadinhos, que o que \u00e9 preciso amparar, que \u00e9 preciso cuidar, se calhar \u00e9 preciso ter l\u00e1 no seu ninhozinho dourado, na sua gaiolinha, mas n\u00e3o se aproveita suficientemente, quanto a mim, os recursos que os idosos s\u00e3o, recursos de experi\u00eancia. Podemos fazer muitas contribui\u00e7\u00f5es ativas para a sociedade, nomeadamente nestas \u00e1reas do voluntariado, de acompanhamento at\u00e9 de outros idosos, de presen\u00e7a ativa na sociedade. Acho que realmente n\u00e3o se est\u00e1 a olhar para isso como se poderia olhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A mensagem para este dia sublinha que, para muitos, a sociedade deve manter os idosos &#8220;o mais longe poss\u00edvel, talvez juntos uns com os outros, em estruturas que cuidem deles\u201d. Por vezes n\u00e3o h\u00e1 outra solu\u00e7\u00e3o e n\u00f3s n\u00e3o estamos c\u00e1 para julgar, mas este afastamento tem prejudicado o di\u00e1logo entre gera\u00e7\u00f5es? H\u00e1 um patrim\u00f3nio de vida que estamos a desperdi\u00e7ar?<\/em><\/p>\n<p>Quando se faz esse afastamento, claro que h\u00e1 um patrim\u00f3nio que se desperdi\u00e7a. H\u00e1, como estava a dizer, situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o h\u00e1 outro rem\u00e9dio. Eu vivi essa situa\u00e7\u00e3o com a minha m\u00e3e: durante muito tempo esteve em casa, sobretudo das minhas irm\u00e3s, quando j\u00e1 estava sozinha, mas houve uma altura em que teve mesmo que ser. Estava numa resid\u00eancia muito perto e pelo um de n\u00f3s, todos os dias, ia l\u00e1 e ao fim de semana vinha sempre almo\u00e7ar a casa de um dos filhos, almo\u00e7ar e muitas vezes jantar. Exatamente para n\u00e3o se quebrar essa liga\u00e7\u00e3o &#8211; e com a minha sogra foi igual, ali\u00e1s, foram as duas no mesmo dia para a mesma resid\u00eancia e faziam companhia uma \u00e0 outra.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 fundamental, quando h\u00e1 necessidade de recorrer a uma institui\u00e7\u00e3o dessas, por raz\u00f5es de sa\u00fade, de falta de autonomia, etc., que os filhos tenham a responsabilidade de manter o contacto, de manter as visitas, de tamb\u00e9m de os levar a sair quando poss\u00edvel e sempre que poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c0s vezes, a dificuldade est\u00e1 em encontrar locais perto\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade, isso tamb\u00e9m \u00e9 verdade, mas \u00e9 um esfor\u00e7o que se tem de fazer e \u00e9 dif\u00edcil, mesmo a quest\u00e3o econ\u00f3mica\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa tem deixado v\u00e1rias mensagens sobre tirar as rugas e parecer mais novo do que somos, a dificuldade em assumir que isso faz parte da vida e que a velhice tamb\u00e9m \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Eu noto que na sociedade h\u00e1 medo de envelhecer e medo morrer, as duas coisas. Portanto, as pessoas muitas vezes pretendem esconder, porque n\u00e3o se querem confrontar com uma realidade que \u00e9 \u00f3bvia. Devia ser de extrema naturalidade.<\/p>\n<p>Eu muitas vezes tenho de me lembrar que tenho a idade que tenho, porque n\u00e3o me sinto propriamente velho. Mas lembro-me muitas vezes de um m\u00e9dico, que me assistiu durante um tempo, que dizia: \u201cconven\u00e7a-se que n\u00f3s n\u00e3o vamos para melhor e, portanto, temos de ir aprendendo a gerir as nossas incapacidades e a usar as capacidades que ainda temos\u201d. \u00c9 importante aceitarmos esta naturalidade de que vamos evoluindo, n\u00e3o \u00e9 melhorando tudo, mas temos capacidades que melhoram, outas que se v\u00e3o perdendo e temos de aceitar. Como temos de aceitar como inevit\u00e1vel que um dia vamos acabar. Eu tenho pena que atualmente se esconda muito a morte, porque, mesmo para as crian\u00e7as e jovens, acho que \u00e9 importante confrontar-se com a situa\u00e7\u00e3o da perda e perceberem que a vida \u00e9 finita. A pessoa, mesmo nessa altura, precisa de companhia, precisa de carinho e precisa de acompanhamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por \u00faltimo, como \u00e9 que a sociedade est\u00e1 a tratar os nossos idosos? O Papa tem insistido na necessidade de combatermos a teoria do descarte e de n\u00e3o deixarmos ningu\u00e9m para tr\u00e1s, mas a pandemia n\u00e3o ter\u00e1 acentuado o desleixo para com os mais fr\u00e1geis?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que sim, se calhar nas sociedades mais evolu\u00eddas ou mais ricas, noto desleixo exatamente para com os idosos. Noutras sociedades, acho que se mant\u00e9m o carinho pelos idosos. Eu tenho bastantes contactos com Mo\u00e7ambique, sobretudo, com rapazes da Casa do Gaiato, e acho muito interessante a forma como eles se referem aos av\u00f3s, como se preocupam os av\u00f3s. Converso muito com eles, v\u00e1rias vezes por semana, e dizem: \u201ctu \u00e9s madoda\u201d, na l\u00edngua deles. Quer dizer, \u00e9s um \u201cvelho s\u00e1bio\u201d. Ele diz isto como um elogio e por isso me pede muitos conselhos. \u00c0s vezes temos de aprender com outras sociedades, que n\u00f3s \u00e0s vezes consideramos menos evolu\u00eddas. \u00c9 uma coisa que aprecio nos africanos, este carinho com os idosos e a preocupa\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia em todas as suas gera\u00e7\u00f5es. Aqui pod\u00edamos arrepiar caminho e olhar para os idosos de outra maneira, realmente, como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o e como uma fonte de experi\u00eancia, com uma forma j\u00e1 diferente de viver a vida, mas que nos pode ajudar a preparar a nossa chegada l\u00e1, que \u00e9 j\u00e1 depois de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi no \u00faltimo dia de janeiro de 2021 que o Papa Francisco anunciou a institui\u00e7\u00e3o do Dia Mundial dos Av\u00f3s e dos Idosos, que se assinala no quarto domingo de julho, junto \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica de S\u00e3o Joaquim e Santa Ana, av\u00f3s de Jesus. 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