{"id":247299,"date":"2022-07-17T09:30:24","date_gmt":"2022-07-17T08:30:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=247299"},"modified":"2022-07-15T09:25:52","modified_gmt":"2022-07-15T08:25:52","slug":"portugal-os-agricultores-tem-de-ser-parte-da-solucao-carlos-neves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-os-agricultores-tem-de-ser-parte-da-solucao-carlos-neves\/","title":{"rendered":"Portugal: \u00abOs agricultores t\u00eam de ser parte da solu\u00e7\u00e3o\u00bb &#8211; Carlos Neves"},"content":{"rendered":"<p><em>Com o pa\u00eds a viver uma seca sem precedentes, a que se junta uma vaga de calor, as autoridades alertam para o risco de inc\u00eandio num territ\u00f3rio marcado por grandes assimetrias onde o Interior luta contra o progressivo despovoamento. Carlos Neves, militante da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Rural, \u00e9 convidado esta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_247261\" aria-describedby=\"caption-attachment-247261\" style=\"width: 1644px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-247261 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59.jpeg\" alt=\"\" width=\"1644\" height=\"1097\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59.jpeg 1644w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-390x260.jpeg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-391x260.jpeg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-1536x1025.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-1080x721.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-1280x854.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-980x654.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-13-at-16.35.59-480x320.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 1644px) 100vw, 1644px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-247261\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A nova equipa nacional da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, eleita na passada semana, assume a necessidade de uma mudan\u00e7a econ\u00f3mica e social. Essa mudan\u00e7a deve come\u00e7ar por quem governa?<\/em><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a deve partir de n\u00f3s. Na A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, dentro do \u201cver, Julgar e agir\u201d, o m\u00e9todo de revis\u00e3o de vida, na parte da transforma\u00e7\u00e3o primeiro procuramos transformar-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios e depois desafiar, ent\u00e3o, os outros, ir ao encontro dos outros. Ir ao encontro mesmo dos pol\u00edticos e dos respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Da minha experi\u00eancia, tanto como dirigente da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, na Diocese do Porto, ou de base, como agricultor e como dirigente associativo, muitas vezes faz-nos falta simplesmente ir ao encontro das pessoas, falar e apresentar os nossos problemas, n\u00e3o apenas protestar. Mudar as nossas pequenas atitudes e depois de ir ao encontro, desafiar, dizer o que precisamos. A agricultura e o meio rural precisam de muita coisa, para continuarem a existir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Deixa alguma sugest\u00e3o nesse sentido, das preocupa\u00e7\u00f5es que tem consigo e daquelas que est\u00e3o a ser refletidas pela A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Rural?<\/em><\/p>\n<p>A A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Rural est\u00e1, naturalmente preocupada com a crise econ\u00f3mica, desenvolveu uma campanha &#8211; \u2018Cinco p\u00e3es e dois peixes\u2019 &#8211; de ajuda aos mais necessitados, neste per\u00edodo de pandemia, em que estivemos muito online, muito afastados uns dos outros fisicamente, mas a trabalhar, cada um da sua forma. Esse \u00e9 um aspeto importante, termos em conta as dificuldades econ\u00f3micas das pessoas. Estamos agora com um problema, a infla\u00e7\u00e3o, o pre\u00e7o dos alimentos que est\u00e3o a subir, mas temos um outro ponto: o problema dos agricultores, que eu sinto na pele, que sentem muitos colegas, porque est\u00e1 tudo mais caro. O gas\u00f3leo est\u00e1 mais caro, as ra\u00e7\u00f5es, a energia e depois, muitas vezes, querem que sejam os agricultores a segurar o pre\u00e7o dos alimentos, porque as pessoas, de facto, n\u00e3o t\u00eam meios para poderem comprar os alimentos b\u00e1sicos de outra maneira.<\/p>\n<p>Temos de encontrar um equil\u00edbrio, uma solidariedade entre toda a sociedade, para que n\u00e3o haja um descalabro na infla\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para que os agricultores recebam aquilo que precisam, o que n\u00f3s chamamos o pre\u00e7o justo, que lhes permita continuar a trabalhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos agora muito preocupados com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, com a seca, com os inc\u00eandios sobretudo em meio rural. Chegados aqui, percebemos que s\u00f3 nos lembramos do Interior em momentos de afli\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Quando est\u00e1 frio, vai-se a Tr\u00e1s-os-Montes; quando est\u00e1 calor, vai-se ao Alentejo; e quando h\u00e1 inc\u00eandios. vai-se a correr atr\u00e1s do preju\u00edzo. Isto tem muito a ver com floresta, que \u00e9 uma quest\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 de um momento para o outro, e tem muito a ver com o abandono da agricultura.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos um ponto de equil\u00edbrio, h\u00e1 umas dezenas de anos, embora com uma pobreza muito grande: as pessoas viviam na aldeia, cultivavam os terrenos mais pr\u00f3ximos para as suas hort\u00edcolas, onde tinham as suas vacas, e nos terrenos mais afastados, nos baldios andavam os rebanhos de cabras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 tudo interligado, n\u00e3o \u00e9? Tem a ver tamb\u00e9m com o despovoamento\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. \u00c9ramos pobres e \u00edamos buscar lenha; hoje, os pobres, gra\u00e7as a Deus, t\u00eam algumas ajudas e j\u00e1 t\u00eam dinheiro para comprar g\u00e1s. Portanto, sobram estes materiais. A agricultura est\u00e1 abandonada, os terrenos est\u00e3o abandonados, a erva cresce no inverno, no ver\u00e3o est\u00e1 a seca e arde com uma velocidade enorme. Nas aldeias restam velhos.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um problema e \u00e9 um problema do abandono da agricultura, sobretudo, mais no Interior. Se n\u00e3o temos agricultura, depois tamb\u00e9m n\u00e3o temos seguran\u00e7a alimentar e estamos sujeitos \u00e0 importa\u00e7\u00e3o de produtos, com uma maior pegada ecol\u00f3gica e com um custo muito maior, o que nos acontece quando importamos petr\u00f3leo e quando importamos cereais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que aconteceu em 2017 obrigou-nos a uma grande reflex\u00e3o e, pelo menos houve uma grande manifesta\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es de mudar, de alterar. Chegados a 2022, corremos os riscos de 2017?<\/em><\/p>\n<p>E eu n\u00e3o sou especialista em inc\u00eandios e floresta, mas posso dizer o que eu observo. Por exemplo, houve um esfor\u00e7o das autarquias e das autoridades para a limpeza junto \u00e0s habita\u00e7\u00f5es, junto as junto \u00e0s estradas. Mas depois temos o oposto. Um familiar meu, que tem uma pequena bolsa, como n\u00f3s dizemos aqui no Norte, de um lado \u00e9 de um concelho e tinha de limpar cinco metros; do outro lado da bolsa j\u00e1 era doutro concelho, a frase tinha de limpar dez metros e sobra pouco. Aquilo que as pessoas pagam para limpar, a venda da madeira n\u00e3o paga. \u00c9 um problema que n\u00f3s temos, um problema de desordenamento do territ\u00f3rio, que se nota mais aqui no Norte &#8211; apesar de tudo, como ainda temos agricultura, temos campos de milho irrigados, temos horticultura, nestas zonas o risco de inc\u00eandios \u00e9 menor, porque regamos os campos. Muitas vezes ataca-se a agricultura, porque gasta \u00e1gua, mas n\u00f3s n\u00e3o gastamos a \u00e1gua, n\u00e3o a deitamos fora. Primeiro, perde se nos sistemas de regadio, as maiores perdas s\u00e3o a\u00ed. Depois, \u00e9 com essa \u00e1gua que n\u00f3s produzimos alimentos e, ao mantermos os terrenos limpos, verdes e cultivados, prevenimos os inc\u00eandios.<\/p>\n<p>Isto tem de ser no inverno e tem de ser um trabalho ao longo de anos, de levar a s\u00e9rio a parte da floresta. O que a gente faz em Portugal, infelizmente, \u00e9 lembrarmo-nos de Santa B\u00e1rbara quando troveja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos a viver um ano particularmente dif\u00edcil. Nesse contexto, temo que haja consequ\u00eancias muito graves da seca, sobre a agricultura?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho d\u00favidas disso. Eu, pessoalmente estou num cantinho do c\u00e9u, moro em Vila do Conde, tivemos alguma chuva no m\u00eas de junho e, de momento, ainda temos as reservas nos po\u00e7os. Est\u00e1 curto, mas deve chegar.<\/p>\n<p>Os agricultores no Interior, quem depende da pastagem\u2026 n\u00f3s dizemos, muitas vezes, que \u00e9 bonito termos as vacas e as ovelhas na pastagem, mas depois estamos completamente dependentes, s\u00e3o sistemas agr\u00edcolas completamente dependente do clima. As charcas, as po\u00e7as est\u00e3o vazias, j\u00e1 foram gastando, ao longo dos meses, os alimentos que tinham e o que h\u00e1 s\u00e3o javalis. O javali \u00e9 uma praga que se est\u00e1 a espalhar e esses animais, tendo fome, tendo sede, tamb\u00e9m se aproximam mais das popula\u00e7\u00f5es e destroem os campos de milho.<\/p>\n<p>Dizem um senhor, a comentar uma publica\u00e7\u00e3o no Facebook: \u201cna minha aldeia produziam 20 toneladas de milho, agora n\u00e3o produzem nada porque os javalis destroem tudo\u201d. \u00c9 o retrato da nossa realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A quest\u00e3o \u00e9 que estamos ainda, praticamente, no in\u00edcio do ver\u00e3o. O cen\u00e1rio ainda pode ser mais dif\u00edcil\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim. E em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua h\u00e1 outra coisa: n\u00f3s podemos e devemos, naturalmente, investir na moderniza\u00e7\u00e3o do regadio e usar t\u00e9cnicas que nos permitam produzir, gastando menos \u00e1gua. Por exemplo, h\u00e1 um sinal de esperan\u00e7a, que para mim foi uma novidade: sei que o arroz normalmente \u00e9 cultivado debaixo de \u00e1gua, com rega de alagamento, e fizeram um teste, ao que parece com bastante sucesso, at\u00e9 agora, de produzir arroz com gota a gota, gastando metade da \u00e1gua. Eu fa\u00e7o o milho com gota a gota, com outros sistemas de irriga\u00e7\u00e3o; tenho conseguido produzir milho sem rega, semeando cedo e aproveitando as chuvas da primavera, nas minhas condi\u00e7\u00f5es e nas minhas temperaturas. Portanto, h\u00e1 aqui um trabalho de investiga\u00e7\u00e3o que a gente tem de fazer, aproveitar a investiga\u00e7\u00e3o e aproveitar a \u00e1gua. Apesar de tudo, chove no inverno, corre muita \u00e1gua para o mar e, portanto, se tiv\u00e9ssemos mais minibarragens, mais represas, mais charcas, poder\u00edamos estar em melhores condi\u00e7\u00f5es. Tem de se aproveitar o tempo das vacas gordas para as vacas magras &#8211; que com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas ser\u00e3o cada vez mais. Temos de nos preparar para isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A guerra, para al\u00e9m das consequ\u00eancias tr\u00e1gicas ao n\u00edvel da perda de vidas, tamb\u00e9m nos confronta com a infla\u00e7\u00e3o e com a escassez de alguns bens de primeira necessidade, como \u00e9 o caso dos cereais. Sentem-se j\u00e1 reflexos desta realidade?<\/em><\/p>\n<p>Sentem-se. Eu comprava ra\u00e7\u00e3o para as vacas a 30 c\u00eantimos, agora compro a 50. Em compensa\u00e7\u00e3o, vendia o leite a 30 c\u00eantimos o litro, agora vendo a 40 e pouco. Tenho um d\u00e9fice, como t\u00eam todos os agricultores. Isto \u00e9 v\u00e1lido para quem compra ra\u00e7\u00e3o, para as galinhas, para os coelhos, para as pequenas culturas do meio rural. Quem quer cultivar, paga o adubo mais caro, paga-se mais caro o gas\u00f3leo para rega ou a energia. Sentimos tudo isso como consequ\u00eancia da guerra e do que j\u00e1 vinha de tr\u00e1s, a desacelera\u00e7\u00e3o da economia mundial depois da pandemia. Por isso \u00e9 importante n\u00e3o deixar acabar a agricultura, conversar com os agricultores e ter no\u00e7\u00e3o das necessidades que t\u00eam.<\/p>\n<p>N\u00f3s precisamos, dentro do poss\u00edvel, de ter comida de proximidade, agricultura de proximidade, de consumirmos os produtos da \u00e9poca, os produtos mais pr\u00f3ximos, digamos assim, do mercado, e n\u00e3o andar com produtos a viajar de um lado para o outro no mundo. Para al\u00e9m do custo de transporte, muitas vezes o custo de conserva\u00e7\u00e3o, do frio, etc., \u00e9 um consumo energ\u00e9tico enorme e temos de ir refletindo sobre isso. E n\u00e3o fazer essas mudan\u00e7as contra os agricultores.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma quase uma batalha campal na Holanda, nalguns pa\u00edses, porque o governo quer proibir os agricultores ou quer obrigar a redu\u00e7\u00f5es enormes, nalguns casos, de aplicar adubos, e as pessoas est\u00e3o revoltadas. No fundo, entrou-se aqui num extremismo de ideologias, que n\u00e3o \u00e9 bom. Os agricultores t\u00eam de ser parte da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda em Portugal temos agricultura, somos autossuficientes no leite, nas hort\u00edcolas, no azeite. Somos deficit\u00e1rios nos cereais, por isso \u00e9 que sentimos\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A crise na Ucr\u00e2nia pode ser um alerta para essa excessiva depend\u00eancia do exterior, como acontece precisamente no caso dos cereais?<\/em><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 sem d\u00favida. O problema \u00e9 que at\u00e9 agora n\u00e3o faltou nada em Portugal, apesar de tudo. As coisas ficaram mais caras. Sendo n\u00f3s pobres, no meio da Europa, somos ricos para a m\u00e9dia do mundo e por isso n\u00e3o faltou nada. Isso cria uma ilus\u00e3o nas pessoas, pois acham que h\u00e1 tudo no supermercado, mas n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>Voltando ao princ\u00edpio, quando produzimos local, temos produtos de proximidade, temos a\u00ed o dinheiro que fica na nossa economia, os produtos ficam aqui, e temos a possibilidade de manter uma reserva estrat\u00e9gica de alimentos; n\u00e3o apenas dos que n\u00f3s produzimos, obviamente, mas at\u00e9 dos que n\u00f3s compramos. N\u00e3o podemos agora tamb\u00e9m querer ser autossuficientes em tudo, querer em Portugal produzir todo o trigo e todo o milho de que precisamos. Se n\u00f3s temos condi\u00e7\u00f5es para produzir fruta ou para produzir azeite, ent\u00e3o vamos exportar e vamos tamb\u00e9m adquirir outras coisas onde somos menos eficientes ou n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es. Mas vamos tamb\u00e9m pensar em ter alguma coisa armazenada para n\u00e3o irmos ao mercado.<\/p>\n<p>O que aconteceu em toda a cadeia econ\u00f3mica e toda a cadeia log\u00edstica \u00e9 que se comercializou e ningu\u00e9m tem em stock, ningu\u00e9m tem pe\u00e7as, manda-se vir. Foi-se aumentando esta globaliza\u00e7\u00e3o, e n\u00f3s agora estamos num processo de desglobaliza\u00e7\u00e3o. Est\u00e1vamos dependentes da f\u00e1brica da China, est\u00e1vamos dependentes da energia da R\u00fassia. De repente, vemos que estes fornecedores n\u00e3o s\u00e3o assim l\u00e1 muito de confian\u00e7a. Portanto, estamos aqui num colete de for\u00e7as, e temos de perceber que a agricultura \u00e9 essencial, que a comida \u00e9 essencial. E \u00e9 essencial para o meio rural, para evitarmos e para nos protegermos dos inc\u00eandios, mas essencialmente para termos alimentos para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando para ela, sobretudo para esse mundo rural, h\u00e1 um fen\u00f3meno que \u00e9 muito acentuado, que \u00e9 a quest\u00e3o do despovoamento; o despovoamento do interior tem sido tamb\u00e9m uma das grandes preocupa\u00e7\u00f5es da a\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica rural. Os investimentos que t\u00eam sido anunciados e que t\u00eam sido criados para a fixa\u00e7\u00e3o das pessoas t\u00eam dado algum resultado. O cen\u00e1rio a longo prazo continua a ser assustador?<\/em><\/p>\n<p>Eu at\u00e9 agora n\u00e3o percebido uma invers\u00e3o dessa tend\u00eancia da desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Significa que os incentivos n\u00e3o s\u00e3o os melhores?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei responder. \u00c9 uma tend\u00eancia geral. E, por exemplo, n\u00f3s temos cada vez menos agricultores e as pessoas que sa\u00edram da agricultura foram para uma vida melhor, n\u00e3o as vamos criticar por isso. Mas agora n\u00e3o vamos pensar que elas v\u00e3o voltar. N\u00e3o vamos pensar que faz sentido agora vivermos com a agricultura de subsist\u00eancia, que \u00e9 o que \u00e0s vezes algumas cabe\u00e7as pensantes pensam. N\u00e3o vamos passar a viver s\u00f3 da agricultura de subsist\u00eancia, mas temos que encontrar um novo equil\u00edbrio. Como eu dizia no in\u00edcio, n\u00f3s t\u00ednhamos um sistema equilibrado, mas da pobreza. Melhoramos o n\u00edvel de vida. As pessoas vivem melhor, porque j\u00e1 n\u00e3o vivem em Portugal ou vivem melhor porque j\u00e1 n\u00e3o vivem no interior. E voltando um bocadinho aos inc\u00eandios, tem muito a ver com isso, com o abandono das culturas, com abandono dos animais, com o abandono da popula\u00e7\u00e3o.\u00a0O que \u00e9 que se pode fazer? Eu acho que h\u00e1 uma coisa simples que \u00e9 conversar sobre o assunto, estudar o assunto e ver os bons exemplos, procurar os bons exemplos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando \u00e0 pergunta anterior: N\u00e3o v\u00ea, ent\u00e3o a invers\u00e3o dessa curva do despovoamento do interior?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o vejo. Haver\u00e1 algumas situa\u00e7\u00f5es, mas eu n\u00e3o vejo. Eu sou um agricultor urbano, costumo dizer. N\u00e3o estou no meio da cidade, mas estou aqui perto, aqui no litoral. Mas mesmo na minha atividade, na \u00e1rea da produ\u00e7\u00e3o de leite, em cada ano h\u00e1 menos produtores de leite. H\u00e1 uma tend\u00eancia de abandono e nesta altura, at\u00e9 alguns com grande dimens\u00e3o, que mudam de atividade. Que dizem: se n\u00e3o me pagam vou produzir outra coisa, vou produzir milho, ou vou produzir fruta, ou vou produzir am\u00eandoa que \u00e9 o que aconteceu mesmo no Alentejo, onde muitos deixaram os cereais para produzir, por exemplo, olival, que \u00e9 uma cultura mais rent\u00e1veis. E o que eu noto \u00e9 que continuam a faltar as infraestruturas. Temos estradas apesar de tudo, mas falta muita coisa ainda no meio rural e falta, por exemplo, o respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este despovoamento \u00e9 tamb\u00e9m um certamente um desafio para o movimento?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 sem d\u00favida porque o pr\u00f3prio movimento tamb\u00e9m sofre com isso, com o envelhecimento, com o despovoamento, com a falta de jovens. Porque os jovens entram no movimento e depois v\u00e3o estudar e saem. \u00c9 uma dificuldade enorme para o movimento ser capaz de fazer uma reflex\u00e3o e de se adaptar aos novos tempos e de usar mais o online e criar outro tipo de proximidade de grupos, porque n\u00f3s n\u00e3o vamos andar para tr\u00e1s, n\u00e3o vamos ruralizar o pa\u00eds. Depois vem o Covid e as pessoas parece que iam todas mudar-se para o campo, mas foram para l\u00e1 uns meses e depois voltam \u00e0 sua vida anterior. O campo \u00e9 bom quando se vai de f\u00e9rias, mas depois viver l\u00e1 o ano todo com a internet fraca, por exemplo, que \u00e9 uma coisa que muitas pessoas se queixam de ter falhas de redes, \u00e9 complicado viver no interior e na zona rural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Come\u00e7amos por falar da elei\u00e7\u00e3o da nova equipa nacional, da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Rural e da reflex\u00e3o que foi levado a cabo no movimento. Entre os desafios para o pr\u00f3ximo ano est\u00e3o identificadas a Jornada Mundial da Juventude, que vai decorrer em Lisboa, e o S\u00ednodo dos Bispos, o processo que foi convocado pelo Papa Francisco. Como \u00e9 que t\u00eam sido vividas estas din\u00e2micas no movimento?<\/em><\/p>\n<p>Eu tenho acompanhado um pouco mais a quest\u00e3o da prepara\u00e7\u00e3o das Jornadas Mundiais da Juventude, uma grande expectativa, nomeadamente os jovens, mas n\u00e3o s\u00f3. Porque vai ser um grande acontecimento e para o movimento \u00e9 um objetivo concreto que mobiliza os jovens e que nos permite uma experi\u00eancia \u00fanica&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E que vai dinamizar tamb\u00e9m a\u00a0A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Rural?<\/em><\/p>\n<p>Que vai dinamizar tamb\u00e9m a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Como foi a Expo 98, vai ser um evento \u00fanico para recordar e eu sendo j\u00e1 um jovem h\u00e1 bastante tempo, espero tamb\u00e9m estar presente, pelo menos no momento da eucaristia final. Do outro lado, e da parte da Igreja, a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica sempre foi um movimento e da minha experi\u00eancia aqui na diocese, que se preocupou sempre em estar em sintonia com o bispo e em acompanhar no fundo a caminhada da igreja, sendo que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, porque a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica tamb\u00e9m \u00e9 um movimento da periferia. O militante da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica \u00e9 desafiado a sair da igreja, a fazer o trabalho no terreno. Temos por exemplo as quest\u00f5es sociais, outras vezes as quest\u00f5es relacionadas com o ambiente, e tamb\u00e9m as quest\u00f5es culturais, pois da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica nasceram muitos ranchos folcl\u00f3ricos, grupos que tamb\u00e9m dinamizam e que permitem dar alguma vida, tanto ao movimento como ao meio rural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Outra prioridade assumida aponta \u00e0 defesa da vida na busca efetiva da proximidade e da interajuda. Falou ainda antes dessa necessidade de interajuda. O debate em curso sobre a eutan\u00e1sia, por exemplo, \u00e9 um desafio para o movimento? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 seguramente um desafio para o movimento, para toda a sociedade, porque isto tem tudo a ver\u00a0com o meio rural envelhecido e com o desafio que \u00e9 acompanharmos normalmente os mais velhos, os mais fr\u00e1geis, os mais doentes. E tem a ver tamb\u00e9m com toda esta problem\u00e1tica na sociedade em que nos habituamos ao mais f\u00e1cil, ao descart\u00e1vel e a n\u00e3o termos uma vis\u00e3o da vida completa. Mas tudo faz parte da vida; tanto os momentos mais de prazer como os momentos de sofrimento. E \u00e9 um debate em que temos participado de uma forma serena, porque mais importante do que os debates te\u00f3ricos ou os debates nas redes sociais em que passamos a vida a discutir com pessoas que n\u00e3o conhecemos de lado nenhum, s\u00e3o as coisas que se fazem, tanto na defesa da vida, como na ajuda \u00e0s m\u00e3es solteiras e aquelas pessoas que querem ter os seus filhos. E tamb\u00e9m a quem est\u00e1 s\u00f3, a quem est\u00e1 doente e a quem tem a seu cargo de cuidar dos mais idosos, dos mais velhos. Tanto para as pessoas que est\u00e3o doentes, como para os cuidadores, \u00e9 um sacrif\u00edcio enorme a que a sociedade tem que dar mais\u00a0aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o pa\u00eds a viver uma seca sem precedentes, a que se junta uma vaga de calor, as autoridades alertam para o risco de inc\u00eandio num territ\u00f3rio marcado por grandes assimetrias onde o Interior luta contra o progressivo despovoamento. 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