{"id":247,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/fazei-bem-a-vos-mesmos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"fazei-bem-a-vos-mesmos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fazei-bem-a-vos-mesmos\/","title":{"rendered":"Fazei bem a v\u00f3s mesmos"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves, Professor UCP <!--more--> Est\u00e1 a come\u00e7ar a Quaresma. Est\u00e1 a come\u00e7ar a aberrante, a ins\u00f3lita, a incompreens\u00edvel Quaresma. Quarenta dias de ora\u00e7\u00e3o, jejum e esmola, cumpridos todos os anos pelos crist\u00e3os em prepara\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Quarenta dias de penit\u00eancia para fazer bem a n\u00f3s mesmos. A Quaresma \u00e9 um dos momentos do ano em que os crist\u00e3os sentem mais o abismo que os separa do mundo. No Natal, nos santos populares, em tantas outras festas, a sociedade participa, de certa maneira, na cerim\u00f3nia que os crist\u00e3os celebram. Participa de longe, participa na exterioriza\u00e7\u00e3o, na alegria, mas participa. At\u00e9 na P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o, os folares, os ovos de chocolate e as am\u00eandoas nos unem em gozo ao mundo. Mas na Quaresma n\u00e3o. Quarenta dias de ora\u00e7\u00e3o, jejum e esmola \u00e9 algo que nos distingue de toda a gente. Nem sequer os que meditam na vida, os que jejuam na dieta para a praia ou os que s\u00e3o solid\u00e1rios com os pobres, nem sequer esses compreendem algo como a Quaresma. A Quaresma parece ser de outro universo. Parece que os crist\u00e3os perdem de vista a sociedade no fim do Carnaval e s\u00f3 a reencontram com o coelho dos ovos doces. \u00c9 dif\u00edcil fazer o mundo compreender a Quaresma. \u00c9 dif\u00edcil fazer o mundo compreender que a penit\u00eancia da Quaresma \u00e9 para fazer bem a n\u00f3s mesmos. Isto mostra bem como \u00e9 ilus\u00f3ria a liberdade t\u00e3o apregoada no nosso tempo. Se houvesse mesmo liberdade, testemunhar\u00edamos uma larga diversidade de comportamentos. Se a liberdade tivesse mesmo influ\u00eancia na nossa vida, como se diz ter, a Quaresma seria apenas mais uma das muitas pr\u00e1ticas livres. Mas a sedu\u00e7\u00e3o do consumo, a tenta\u00e7\u00e3o do prazer, o consenso dos media imp\u00f5em \u00e0 liberdade uma esmagadora homogeneidade cinzenta de h\u00e1bitos. A liberdade \u00e9 destru\u00edda, n\u00e3o pela opress\u00e3o, mas pela sedu\u00e7\u00e3o. Pela sedu\u00e7\u00e3o que destr\u00f3i a liberdade tanto quanto a opress\u00e3o. Com a agravante que as pessoas n\u00e3o percebem que ela est\u00e1 destru\u00edda. Por isso, quem quer viver a Quaresma a s\u00e9rio sente-a, n\u00e3o como uma op\u00e7\u00e3o entre m\u00faltiplas alternativas livres, mas como um estranho corpo aberrante, opondo-se ao mon\u00f3tono conformismo que a capa de liberdade esconde. O crist\u00e3o vive, n\u00e3o para a Quaresma mas para a P\u00e1scoa, n\u00e3o para a Paix\u00e3o mas para a Ressurrei\u00e7\u00e3o. O mundo tamb\u00e9m quer a P\u00e1scoa e a Ressurrei\u00e7\u00e3o. Assim, neste mundo s\u00e3o a Quaresma e a Paix\u00e3o que distinguem os crist\u00e3os na sociedade. O que os distingue \u00e9, n\u00e3o a finalidade \u00faltima, a felicidade, mas o meio de l\u00e1 chegar, a penit\u00eancia. A sociedade vive embevecida numa ilus\u00e3o de pl\u00e1stico, numa falsa Ressurrei\u00e7\u00e3o, numa P\u00e1scoa sem Paix\u00e3o. Os crist\u00e3os s\u00e3o os \u00fanicos que sabem que a \u00fanica verdadeira Ressurrei\u00e7\u00e3o exige antes a Paix\u00e3o. Por isso somos os \u00fanicos que vivemos a Quaresma. O mundo quer, como n\u00f3s, a alegria da Ressurrei\u00e7\u00e3o, mas acha que pode chegar l\u00e1 sem passar pela penit\u00eancia da Quaresma. A sociedade quer, tanto quanto os crist\u00e3os, a felicidade. Mas a Quaresma \u00e9 aberrante porque, no meio da sedu\u00e7\u00e3o, a sociedade n\u00e3o entende que \u201ca felicidade est\u00e1 mais em dar do que em receber\u201d (Act 20, 35). A felicidade ilus\u00f3ria deste mundo n\u00e3o entende que este \u00e9 o caminho da felicidade. A raz\u00e3o porque o mundo n\u00e3o vive a Quaresma \u00e9 porque quer uma felicidade que se baseie no receber. O crist\u00e3o v\u00ea o mundo ao contr\u00e1rio. Mas o crist\u00e3o faz isso tamb\u00e9m para viver bem neste mundo. Quem ora aprende a viver bem no mundo. Quem faz jejum sabe suportar bem os azares que a vida lhe traz. Quem d\u00e1 esmola entende como viver no meio das car\u00eancias que lhe aconte\u00e7am. Fazemos penit\u00eancia para chegar \u00e0 felicidade, mas tamb\u00e9m conseguimos com ela aprender a viver bem. Fazemos penit\u00eancia e damos esmola para fazer bem a n\u00f3s mesmos, como disse um dos mais geniais portugueses de todos os tempos. S. Jo\u00e3o de Deus, pedindo esmola pelas ruas de Granada, gritava \u201cIrm\u00e3os, fazei bem a v\u00f3s mesmos\u201d. A s\u00faplica que S. Jo\u00e3o fazia, ao pedir esmola para o seu hospital, n\u00e3o invocava os pobres que acolhia e em quem ia gastar esse dinheiro. Ele suplicava pelos mesmos a quem pedia. Ele pedia a favor dos pr\u00f3prios que lhe davam. \u201cDai esmola para fazer bem a v\u00f3s mesmos\u201d. Era a preocupa\u00e7\u00e3o pelos que podiam dar que levava S. Jo\u00e3o a pedir esmola. Ele pedia que esses tivessem miseric\u00f3rdia de si pr\u00f3prios. \u201cFazei bem a v\u00f3s mesmos, porque a felicidade est\u00e1 mais em dar do que em receber\u201d. Este \u00e9 o paradoxo da Quaresma. Da Quaresma da ora\u00e7\u00e3o, do jejum e da esmola para fazer bem a n\u00f3s mesmos, como disse o g\u00e9nio da Caridade que foi S. Jo\u00e3o de Deus. Da Quaresma da penit\u00eancia em que damos para sermos felizes, como disse o fundador da Caridade, o Senhor que S. Jo\u00e3o serviu. \u201cEm tudo vos demonstrei que deveis trabalhar assim, para socorrerdes os fracos, recordando-vos das palavras que o pr\u00f3prio Senhor Jesus disse: \u00aba felicidade est\u00e1 mais em dar do que em receber\u00bb\u201d (Act 20, 35). \u00c9 isto a Quaresma. Est\u00e1 a come\u00e7ar a aberrante, a ins\u00f3lita, a incompreens\u00edvel Quaresma. A Quaresma que prepara para a festa mais incr\u00edvel, mais surpreendente, mais escandalosa que a humanidade celebra. A festa em que Deus vai ressuscitar do corpo de um criminoso condenado. A festa em que Deus se d\u00e1 a Si mesmo para a nossa felicidade. A P\u00e1scoa \u00e9 a festa do Deus que nos abre o caminho para a felicidade atrav\u00e9s do sangue das Suas chagas. A P\u00e1scoa \u00e9 a festa que nos mostra que a felicidade est\u00e1 em Ele dar a vida para n\u00f3s a recebermos. Assim, se calhar, at\u00e9 nem admira que a Quaresma seja ins\u00f3lita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves, Professor UCP<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[267,275,91,321],"class_list":["post-247","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-natal","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}