{"id":24689,"date":"2007-05-14T00:57:07","date_gmt":"2007-05-14T00:57:07","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/05\/14\/discurso-do-papa-na-sessao-inaugural-da-v-conferencia-geral-do-episcopado-latino-americano\/"},"modified":"2007-05-14T00:57:07","modified_gmt":"2007-05-14T00:57:07","slug":"discurso-do-papa-na-sessao-inaugural-da-v-conferencia-geral-do-episcopado-latino-americano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/discurso-do-papa-na-sessao-inaugural-da-v-conferencia-geral-do-episcopado-latino-americano\/","title":{"rendered":"Discurso do Papa na sess\u00e3o inaugural da V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano"},"content":{"rendered":"<p>Queridos irm\u00e3os no Episcopado, amados sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos. Queridos observadores de outras confiss\u00f5es religiosas:   \u00c9 motivo de grande alegria estar hoje aqui convosco para inaugurar a V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, que se celebra junto ao Santu\u00e1rio de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Quero que as minhas primeiras palavras sejam de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e louvor a Deus pelo grande dom da f\u00e9 crist\u00e3 aos povos deste Continente.  <b>1. A f\u00e9 crist\u00e3 na Am\u00e9rica Latina<\/b> A f\u00e9 em Deus tem animado a vida e a cultura destes povos durante mais de cinco s\u00e9culos. Do encontro dessa f\u00e9 com as etnias origin\u00e1rias nasceu a rica cultura crist\u00e3 deste Continente, expressada na arte, na m\u00fasica, na literatura e, sobretudo, nas tradi\u00e7\u00f5es religiosas e na idiossincrasia de seus povos, unidas por uma mesma hist\u00f3ria e um mesmo credo, e formando uma grande sintonia na diversidade de culturas e de l\u00ednguas. Na actualidade, esta mesma f\u00e9 deve enfrentar s\u00e9rios desafios, pois est\u00e3o em jogo o desenvolvimento harm\u00f3nico da sociedade e da identidade cat\u00f3lica dos seus povos. A esse respeito, a V Confer\u00eancia Geral vai reflectir sobre esta situa\u00e7\u00e3o para ajudar os fi\u00e9is crist\u00e3os a viver sua f\u00e9 com alegria e coer\u00eancia, a tomar consci\u00eancia de ser disc\u00edpulos e mission\u00e1rios de Cristo, enviados por ele ao mundo para anunciar e dar testemunho de nossa f\u00e9 e de nosso amor.  Mas o que significou a aceita\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 para os povos da Am\u00e9rica Latina e do Caribe? Para eles significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Cristo era o Salvador que ansiavam silenciosamente. Significou tamb\u00e9m ter recebido, com as \u00e1guas do baptismo, a vida divina que os fez filhos de Deus por adop\u00e7\u00e3o; ter recebido, al\u00e9m disso, o Esp\u00edrito Santo que veio fecundar s suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germens e sementes que o Verbo encarnado tinha colocado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. De facto, o an\u00fancio de Jesus e do seu Evangelho n\u00e3o sup\u00f4s, em nenhum momento, uma aliena\u00e7\u00e3o das culturas pr\u00e9-colombianas, nem foi uma imposi\u00e7\u00e3o de uma cultura estranha. As aut\u00eanticas culturas n\u00e3o est\u00e3o fechadas em si mesmas nem petrificadas num determinado ponto da hist\u00f3ria, mas est\u00e3o abertas; ainda mais: buscam o encontro com outras culturas, esperam alcan\u00e7ar a universalidade no encontro e no di\u00e1logo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova s\u00edntese, na qual se repete sempre a diversidade das express\u00f5es e da sua realiza\u00e7\u00e3o cultural concreta.  Em \u00faltima inst\u00e2ncia, s\u00f3 a verdade unifica e sua prova \u00e9 o amor. Por isso Cristo, sendo realmente o Logos encarnado, \u201co amor at\u00e9 o extremo\u201d, n\u00e3o \u00e9 alheio a cultura alguma nem a nenhuma pessoa, pelo contr\u00e1rio, a resposta desejada no cora\u00e7\u00e3o das culturas \u00e9 o que lhes d\u00e1 sua identidade \u00faltima, unindo a humanidade e respeitando, ao mesmo tempo, a riqueza das diversidades, abrindo todos ao crescimento na verdadeira humaniza\u00e7\u00e3o, no aut\u00eantico progresso. O Verbo de Deus, fazendo-se carne em Jesus Cristo, fez-se tamb\u00e9m hist\u00f3ria e cultura.  A utopia de voltar a dar vida \u00e0s religi\u00f5es pr\u00e9-colombianas, as separando de Cristo e da Igreja universal, n\u00e3o seria um progresso, mas um retrocesso. Na realidade seria uma involu\u00e7\u00e3o a um momento hist\u00f3rico ancorado no passado.  A sabedoria dos povos origin\u00e1rios levou-os felizmente a formar uma s\u00edntese entre suas culturas e a f\u00e9 crist\u00e3 que os mission\u00e1rios lhes ofereciam. Dali nasceu a rica e profunda religiosidade popular, na qual aparece a alma dos povos latino-americanos: &#8211; o amor a Cristo sofredor, o Deus da compaix\u00e3o, do perd\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o; o Deus que nos amou at\u00e9 se entregar por n\u00f3s; &#8211; o amor ao Senhor presente na Eucaristia, o Deus encarnado, morto e ressuscitado para ser P\u00e3o da Vida; &#8211; o Deus pr\u00f3ximo aos pobres e aos que sofrem; &#8211; a profunda devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora de Guadalupe, de Aparecida ou das diversas avoca\u00e7\u00f5es nacionais e locais. Quando a Virgem de Guadalupe apareceu ao \u00edndio S\u00e3o Jo\u00e3o Diego lhe disse estas significativas palavras: \u201cN\u00e3o estou eu aqui que sou tua m\u00e3e, n\u00e3o est\u00e1s sob a minha sombra e amparo, n\u00e3o sou a fonte da tua alegria, n\u00e3o est\u00e1s no  aconchego do meu manto, no encontro dos meus bra\u00e7os?\u201d (Nican Mopohua, n. 118-119)  Esta religiosidade se expressa tamb\u00e9m na devo\u00e7\u00e3o aos santos com suas festas patronais, no amor ao Papa e aos demais Pastores, no amor \u00e0 Igreja universal como grande fam\u00edlia de Deus que nunca pode nem deve deixar sozinhos ou na mis\u00e9ria seus pr\u00f3prios filhos. Tudo isso forma o grande mosaico da religiosidade popular que \u00e9 o precioso tesouro da Igreja cat\u00f3lica na Am\u00e9rica Latina, e que ela deve proteger. Promover e, naquilo que for necess\u00e1rio, tamb\u00e9m purificar. <i>Continuidade com as outras Confer\u00eancias<\/i> Esta V Confer\u00eancia Geral celebra-se em continuidade com as outras quatro que a precederam no Rio de Janeiro, Medell\u00edn, Puebla e Santo Domingo. Com o mesmo esp\u00edrito que as animou, os Pastores querem dar agora um novo impulso \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o, a fim de que estes povos continuem crescendo e amadurecendo em sua f\u00e9, para ser luz do mundo e testemunhas de Jesus Cristo com a pr\u00f3pria vida.  Depois da IV Confer\u00eancia Geral, em Santo Domingo, muitas coisas mudaram na sociedade. A Igreja, que participa dos gozos e esperan\u00e7as, das tristezas e alegrias de seus filhos, quer caminhar ao seu lado neste per\u00edodo de tantos desafios, para lhes infundir sempre esperan\u00e7a e consolo (cf. Gaudium et spes, 1).  No mundo de hoje acontece o fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o como um emaranhado de rela\u00e7\u00f5es em n\u00edvel planet\u00e1rio. Mesmo se, em certos aspectos, \u00e9 uma conquista da grande fam\u00edlia humana e um sinal de sua profunda aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade, contudo traz consigo tamb\u00e9m o risco dos grandes monop\u00f3lios e de converter o lucro no valor supremo. Como em todos os campos da actividade humana, a globaliza\u00e7\u00e3o deve reger-se tamb\u00e9m pela \u00e9tica, colocando tudo ao servi\u00e7o da pessoa humana, criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus.  Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, da mesma forma que noutras regi\u00f5es, evoluiu-se para a democracia, apesar de que h\u00e1 motivos de preocupa\u00e7\u00e3o diante de formas de governo autorit\u00e1rias ou sujeitas a certas ideologias que se achava que j\u00e1 estavam superadas, e que n\u00e3o correspondem \u00e0 vis\u00e3o crist\u00e3 do homem e da sociedade, como nos ensina a Doutrina Social da Igreja. Por outro lado, a economia liberal de alguns pa\u00edses latino-americanos deve ter presente a equidade, pois continuam aumentando os sectores sociais que se encontram amea\u00e7ados cada vez mais por uma enorme pobreza ou, inclusive, espoliados dos pr\u00f3prios bens naturais.  Nas Comunidades eclesiais da Am\u00e9rica Latina \u00e9 not\u00e1vel a maturidade na f\u00e9 de muitos leigos e leigas activos e comprometidos com o Senhor, juntamente com a presen\u00e7a de muitos abnegados catequistas, de tantos jovens, de novos movimentos eclesiais e de recentes Institutos de vida consagrada. Demonstram-se fundamentais muitas obras cat\u00f3licas educativas, assistenciais e hospitalares. Percebe-se, contudo, certo enfraquecimento da vida crist\u00e3 no conjunto da sociedade e da pr\u00f3pria perten\u00e7a \u00e0 Igreja cat\u00f3lica devido ao secularismo, ao hedonismo, ao indiferentismo e ao proselitismo de numerosas seitas, de religi\u00f5es animistas e de novas express\u00f5es pseudo-religiosas.  Tudo isso configura uma situa\u00e7\u00e3o nova que ser\u00e1 analisada aqui, em Aparecida. Diante da nova encruzilhada, os fi\u00e9is esperam desta V Confer\u00eancia uma renova\u00e7\u00e3o e revitaliza\u00e7\u00e3o de sua f\u00e9 em Cristo, nosso \u00fanico Mestre e Salvador, que nos revelou a experi\u00eancia \u00fanica do Amor infinito de Deus Pai aos homens. Desta fonte poder\u00e3o surgir novos caminhos e projectos pastorais criativos, que infundam uma firme esperan\u00e7a para viver de modo respons\u00e1vel e gozoso a f\u00e9 e irradi\u00e1-la, assim, no pr\u00f3prio ambiente.  <b>2. Disc\u00edpulos e mission\u00e1rios<\/b> Esta Confer\u00eancia Geral tem como tema: \u201cDisc\u00edpulos e mission\u00e1rios de Jesus Cristo, para que n\u2019Ele nossos povos tenham vida. \u2013 Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6)\u201d.  A Igreja tem a grade tarefa de custodiar e alimentar a f\u00e9 do Povo de Deus, e recordar tamb\u00e9m aos fi\u00e9is deste Continente que, em virtude de seu baptismo, est\u00e3o chamados a ser disc\u00edpulos e mission\u00e1rios de Jesus Cristo. Isto implica em segui-lo, viver em intimidade com Ele, imitar seu exemplo e dar testemunho. Todos os batizados recebem de Cristo, como os Ap\u00f3stolos, o mandato da miss\u00e3o: \u201cIde por todo o mundo e proclamai a Boa Nova a toda a cria\u00e7\u00e3o. Quem crer e for batizado, se salvar\u00e1\u201d (Mc 16,15). Pois ser disc\u00edpulos e mission\u00e1rios de Jesus Cristo e buscar a vida \u201cn\u2019Ele\u201d sup\u00f5e estar profundamente enraizados n\u2019Ele.  O que nos d\u00e1 Cristo realmente? Porqu\u00ea queremos ser disc\u00edpulos de Cristo? Porqu\u00ea esperamos encontrar na comunh\u00e3o com Ele a vida, a verdadeira vida digna deste nome, e por isso queremos d\u00e1-lo a conhecer aos demais, comunicar-lhes o dom que encontramos nEle. Mas, isso \u00e9 mesmo assim? Estamos realmente convencidos de que Cristo \u00e9 o caminho, a verdade e a vida?  Diante da prioridade da f\u00e9 em Cristo e da vida \u201cn\u2019Ele\u201d, formulada no t\u00edtulo desta V Confer\u00eancia, poderia surgir tamb\u00e9m outra quest\u00e3o: Esta prioridade, n\u00e3o poderia ser, por acaso, uma fuga em direc\u00e7\u00e3o ao intimismo, ao individualismo religioso, a um abandono da realidade urgente dos grandes problemas econ\u00f3micos, sociais e pol\u00edticos da Am\u00e9rica Latina e do mundo, e uma fuga da realidade em direc\u00e7\u00e3o a um mundo espiritual?  Como primeiro passo podemos responder a esta pergunta com outra: o que \u00e9 esta \u201crealidade\u201d? O que \u00e9 o real? S\u00e3o realidade s\u00f3 os bens materiais, os problemas sociais, econ\u00f3micos e pol\u00edticos? Aqui est\u00e1 precisamente o grande erro das tend\u00eancias dominantes no \u00faltimo s\u00e9culo, erro destrutivo, como demonstram os resultados tanto dos sistemas marxistas como inclusive dos capitalistas. Falsificam o conceito de realidade com a amputa\u00e7\u00e3o da realidade fundante e por isso decisiva, que \u00e9 Deus. Quem exclui Deus de seu horizonte falsifica o conceito de \u201crealidade\u201d e, em consequ\u00eancia, s\u00f3 pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas.  A primeira afirma\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9, portanto, a seguinte: s\u00f3 quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano. A verdade de esta tese resulta evidente diante do fracasso de todos os sistemas que colocam Deus entre par\u00eanteses.  Mas surge imediatamente outra pergunta: Quem conhece Deus? Como podemos conhec\u00ea-lo? N\u00e3o podemos entrar aqui num complexo debate sobre esta quest\u00e3o fundamental. Para o crist\u00e3o, o n\u00facleo da resposta \u00e9 simples: S\u00f3 Deus conhece Deus, s\u00f3 seu Filho que \u00e9 Deus de Deus, Deus verdadeiro, o conhece. E Ele, \u201cque est\u00e1 no seio do Pai, o revelou\u201d (Jo 1,18). Da\u00ed a import\u00e2ncia \u00fanica e insubstitu\u00edvel de Cristo para n\u00f3s, para a humanidade. Se n\u00e3o conhecemos Deus em Cristo e com Cristo, toda a realidade se converte em um enigma indecifr\u00e1vel; n\u00e3o h\u00e1 caminho e, ao n\u00e3o haver caminho, n\u00e3o h\u00e1 vida nem verdade.  Deus \u00e9 a realidade fundante, n\u00e3o um Deus s\u00f3 pensado ou hipot\u00e9tico, mas o Deus de rosto humano; \u00e9 o Deus-connosco, o Deus do amor at\u00e9 a cruz. Quando o disc\u00edpulo chega \u00e0 compreens\u00e3o deste amor de Cristo \u201cat\u00e9 o extremo\u201d, n\u00e3o pode deixar de responder a este amor se n\u00e3o \u00e9 com um amor semelhante: \u201cSenhor, te seguirei aonde quer que v\u00e1s\u201d (Lc 9,57).  Ainda podemos nos fazer outra pergunta: O que nos d\u00e1 a f\u00e9 neste Deus? A primeira resposta \u00e9: d\u00e1 uma fam\u00edlia universal de Deus na Igreja cat\u00f3lica. A f\u00e9 nos liberta do isolamento do eu, porque nos leva \u00e0 comunh\u00e3o: o encontro com Deus \u00e9, em si mesmo e como tal, encontro com os irm\u00e3os, um acto de convoca\u00e7\u00e3o, de unifica\u00e7\u00e3o, de responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o ao outro e aos demais. Neste sentido, a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres est\u00e1 impl\u00edcita na f\u00e9 cristol\u00f3gica naquele Deus que se fez pobre por n\u00f3s para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2Cor 8,9).  Mas antes de enfrentar o que implica o realismo da f\u00e9 no Deus feito homem, temos que aprofundar na pergunta: como conhecer realmente Cristo para poder segui-lo e viver com Ele, para encontrar a vida n\u00b4Ele e para comunicar esta vida aos demais, \u00e0 sociedade e ao mundo? Sobretudo, Cristo se d\u00e1 a conhecer em sua pessoa, em sua vida e em sua doutrina por meio da Palavra de Deus. Ao iniciar a nova etapa que a Igreja mission\u00e1ria da Am\u00e9rica Latina e do Caribe se disp\u00f5e a empreender, a partir desta V Confer\u00eancia Geral em Aparecida, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel o conhecimento profundo da Palavra de Deus.  Por isso, se h\u00e1-de educar o povo na leitura e medita\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus: que ela se converta em seu alimento para que, por pr\u00f3pria experi\u00eancia, vejam que as palavras de Jesus s\u00e3o esp\u00edrito e vida (cf. Jo 6,63). Do contr\u00e1rio, como v\u00e3o anunciar uma mensagem cujo conte\u00fado e esp\u00edrito n\u00e3o conhecem a fundo? Temos que fundamentar o nosso compromisso mission\u00e1rio e toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus. Para isso, animo os Pastores a se esfor\u00e7ar em d\u00e1-la a conhecer.  Um grande meio para introduzir o Povo de Deus no mist\u00e9rio de Cristo \u00e9 a catequese Nela se transmite de forma simples e substancial a mensagem de Cristo. Ser\u00e1 conveniente, portanto, intensificar a catequese e a forma\u00e7\u00e3o na f\u00e9, tanto de crian\u00e7as como de jovens e adultos. A reflex\u00e3o madura da f\u00e9 \u00e9 luz para o caminho da vida e for\u00e7a para ser testemunhas de Cristo. Para isto, disp\u00f5e-se de instrumentos muito valiosos como s\u00e3o o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica e sua vers\u00e3o mais breve, o Comp\u00eandio do Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica.  Neste campo n\u00e3o se deve limitar s\u00f3 \u00e0s homilias, confer\u00eancias, cursos de B\u00edblia ou teologia, mas deve-se recorrer tamb\u00e9m aos meios de comunica\u00e7\u00e3o: imprensa, r\u00e1dio e televis\u00e3o, sites da Internet, f\u00f3runs e tantos outros sistemas para comunicar eficazmente a mensagem de Cristo a um grande n\u00famero de pessoas.  Neste esfor\u00e7o por conhecer a mensagem de Cristo e faz\u00ea-lo guia da pr\u00f3pria vida, se h\u00e1 de recordar que a evangeliza\u00e7\u00e3o vai unida sempre \u00e0 promo\u00e7\u00e3o humana e \u00e0 aut\u00eantica liberta\u00e7\u00e3o crist\u00e3. \u201cAmor a Deus e amor ao pr\u00f3ximo se fundem entre si: no mais humilde encontramos Jesus mesmo e em Jesus encontramos Deus\u201d (Deus caritas est, 15). Por isso mesmo, ser\u00e1 tamb\u00e9m necess\u00e1ria uma catequese social e uma adequada forma\u00e7\u00e3o na doutrina social da Igreja, sendo muito \u00fatil para isso o \u201cComp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja\u201d. A vida crist\u00e3 n\u00e3o se expressa somente nas virtudes pessoais, mas tamb\u00e9m nas virtudes sociais e pol\u00edticas.  O disc\u00edpulo, fundamentado assim na rocha da Palavra de Deus, se sente impulsionado a levar a Boa Nova da salva\u00e7\u00e3o a seus irm\u00e3os. Discipulado e miss\u00e3o s\u00e3o como as duas caras de uma mesma moeda: quando o disc\u00edpulo est\u00e1 enamorado de Cristo, n\u00e3o pode deixar de anunciar ao mundo que s\u00f3 Ele nos salva (cf. At 4,12). De fato, o disc\u00edpulo sabe que sem Cristo n\u00e3o h\u00e1 luz, n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 amor, n\u00e3o h\u00e1 futuro.  <b>3. \u201cPara que n\u2019Ele tenham vida\u201d<\/b> Os povos latino-americanos e caribenhos t\u00eam direito a uma vida plena, pr\u00f3pria dos filhos de Deus, com umas condi\u00e7\u00f5es mais humanas: livres das amea\u00e7as de fome e de qualquer forma de viol\u00eancia. Para estes povos, seus Pastores h\u00e3o-de fomentar uma cultura da vida que permita, como dizia meu predecessor Paulo VI, \u201cpassar da mis\u00e9ria da posse do necess\u00e1rio, \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o da cultura (&#8230;) \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o no bem comum (&#8230;) at\u00e9 o reconhecimento, por parte do homem, dos valores supremos e de Deus, que \u00e9 a fonte e o fim deles\u201d (Populorum Progressio, 21).  Neste contexto me \u00e9 grato recordar a Enc\u00edclica \u201cPopulorum Progressio\u201d, cujo quadrag\u00e9simo anivers\u00e1rio recordamos neste ano. Este documento pontif\u00edcio p\u00f5e em evid\u00eancia que o desenvolvimento aut\u00eantico h\u00e1-de ser integral, ou seja, orientado \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de todo o homem e de todos os homens (cf. n. 14), e convida a todos as suprimir as graves desigualdades sociais e as enormes diferen\u00e7as no acesso aos bens. Estes povos desejam, sobretudo, a plenitude de vida que Cristo nos trouxe: \u201cEu vim para que tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10). Com esta vida divina se desenvolve tamb\u00e9m em plenitude a exist\u00eancia humana, em sua dimens\u00e3o pessoal, familiar, social e cultural.  Para formar o disc\u00edpulo e sustentar o mission\u00e1rio na sua grande tarefa, a Igreja lhes oferece, al\u00e9m do P\u00e3o da Palavra, o P\u00e3o da Eucaristia. A esse respeito nos inspira e ilumina a p\u00e1gina do Evangelho sobre os disc\u00edpulos de Ema\u00fas. Quando eles se sentam \u00e0 mesa e recebem de Jesus Cristo o p\u00e3o aben\u00e7oado e partido, se abrem os seus olhos, descobrem o rosto do Ressuscitado, sentem em seu cora\u00e7\u00e3o que \u00e9 verdade tudo o que Ele disse e fez, e que j\u00e1 iniciou a reden\u00e7\u00e3o do mundo. Cada Domingo e cada Eucaristia \u00e9 um encontro pessoal com Cristo. Ao escutar a Palavra divina, o cora\u00e7\u00e3o arde porque \u00e9 Ele quem a explica e proclama. Quando na Eucaristia se parte o p\u00e3o, \u00e9 Ele que \u00e9 recebido pessoalmente. A Eucaristia \u00e9 o alimento indispens\u00e1vel para a vida do disc\u00edpulo e mission\u00e1rio de Cristo.  <i>A Missa dominical, centro da vida crist\u00e3<\/i> Da\u00ed a necessidade de dar prioridade, nos programas pastorais, \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da Missa dominical. Temos que motivar os crist\u00e3os a que participem nela activamente e, se \u00e9 poss\u00edvel, melhor com a fam\u00edlia. A participa\u00e7\u00e3o dos pais com seus filhos na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica dominical \u00e9 uma pedagogia eficaz para comunicar a f\u00e9 e um estreito v\u00ednculo que mant\u00e9m a unidade entre eles. O Domingo tem significado, ao longo da hist\u00f3ria da Igreja, o momento privilegiado do encontro das comunidades com o Senhor ressuscitado.  \u00c9 necess\u00e1rio que os crist\u00e3os experimentem que n\u00e3o seguem a um personagem da hist\u00f3ria passada, mas a Cristo vivo, presente no hoje e no agora de suas vidas. Ele \u00e9 o Vivente que caminha a nosso lado, desvelando o sentido dos acontecimentos, da dor e da morte, da alegria e da festa, entrando em nossas casas e permanecendo nelas, alimentando-nos com o P\u00e3o que d\u00e1 a vida. Por isso a celebra\u00e7\u00e3o dominical da Eucaristia h\u00e1 de ser o centro da vida crist\u00e3.  O encontro com Cristo na Eucaristia suscita o compromisso da evangeliza\u00e7\u00e3o e o impulso \u00e0 solidariedade; desperta no crist\u00e3o o forte desejo de anunciar o Evangelho e testemunh\u00e1-lo na sociedade para que seja mais justa e humana. Da Eucaristia brotou ao longo dos s\u00e9culos um imenso caudal de caridade, de participa\u00e7\u00e3o nas dificuldades dos demais, de amor e de justi\u00e7a. S\u00f3 da Eucaristia brotar\u00e1 a civiliza\u00e7\u00e3o do amor, que transformar\u00e1 a Am\u00e9rica Latina e o Caribe para que, al\u00e9m de ser o Continente da Esperan\u00e7a, seja tamb\u00e9m o Continente do Amor!  <i>Os problemas sociais e pol\u00edticos<\/i> Chegando a este ponto podemos perguntar: Como pode a Igreja contribuir para a solu\u00e7\u00e3o dos urgentes problemas sociais e pol\u00edticos, e responder ao grande desafio da pobreza e da mis\u00e9ria? Os problemas da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, como tamb\u00e9m do mundo de hoje, s\u00e3o m\u00faltiplos e complexos, e n\u00e3o se podem enfrentar com programas gerais. Entretanto, a quest\u00e3o fundamental sobre o modo como a Igreja, iluminada pela f\u00e9 em Cristo, deve reagir diante dos desafios, concerne a todos n\u00f3s.  Neste contexto \u00e9 inevit\u00e1vel falar do problema das estruturas, sobretudo das que criam injusti\u00e7a. Na realidade, as estruturas justas s\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o sem a qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma ordem justa na sociedade. Mas, como nascem? Como funcionam? Tanto o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a cria\u00e7\u00e3o de estruturas justas e afirmaram que estas, uma vez estabelecidas, funcionariam por si mesmas; afirmaram que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o teriam tido necessidade de uma moralidade individual precedente, mas que elas fomentariam a moralidade comum. E esta promessa ideol\u00f3gica se demonstrou como falsa. Os factos evidenciaram isso. O sistema marxista, onde governou, n\u00e3o s\u00f3 deixou uma triste heran\u00e7a de destrui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e ecol\u00f3gicas, mas tamb\u00e9m uma dolorosa destrui\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. E vemos o mesmo tamb\u00e9m no ocidente, onde cresce constantemente a dist\u00e2ncia entre pobres e ricos e se produz uma inquietante degrada\u00e7\u00e3o da dignidade pessoal com a droga, o \u00e1lcool e as subtis ilus\u00f5es de felicidade.  As estruturas justas s\u00e3o, como disse, uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para uma sociedade justa, mas n\u00e3o nascem nem funcionam sem um consenso moral da sociedade, sobre os valores fundamentais e sobre a necessidade de viver estes valores com as necess\u00e1rias ren\u00fancias, inclusive em contra do interesse pessoal.  Onde Deus est\u00e1 ausente \u2013 o Deus do rosto humano de Jesus Cristo \u2013 estes valores n\u00e3o se mostram com toda a sua for\u00e7a, nem se produz um consenso sobre eles. N\u00e3o quero dizer que os n\u00e3o-crentes n\u00e3o possam viver uma moralidade elevada e exemplar; digo somente que a sociedade na que Deus est\u00e1 ausente n\u00e3o encontra o consenso necess\u00e1rio sobre os valores morais e a for\u00e7a para viver segundo a pauta destes valores, mesmo que contra os pr\u00f3prios interesses.  Por outro lado, as estruturas justas devem ser buscadas e elaboradas \u00e0 luz dos valores fundamentais, com todo o empenho da raz\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f3mica e social. S\u00e3o uma quest\u00e3o da recta ratio e n\u00e3o prov\u00eam de ideologias nem de suas promessas. Certamente existe um tesouro de experi\u00eancias pol\u00edticas e de conhecimento sobre os problemas sociais e econ\u00f3micos, que evidenciam elementos fundamentais de um estado justo e de caminhos que se devem evitar. Mas em situa\u00e7\u00f5es culturais e pol\u00edticas diversas, e na mudan\u00e7a progressiva das tecnologias e da realidade hist\u00f3rica mundial, deve-se buscar, de maneira racional, as respostas adequadas e deve-se criar \u2013 com os compromissos indispens\u00e1veis \u2013 o consenso sobre as estruturas que h\u00e3o de ser estabelecidas.  Este trabalho pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 compet\u00eancia imediata da Igreja. O respeito por uma s\u00e3 laicidade \u2013 inclusive na pluralidade das posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas \u2013 \u00e9 essencial na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 aut\u00eantica. Se a Igreja come\u00e7asse a transformar-se directamente em sujeito pol\u00edtico, n\u00e3o faria mais pelos pobres e pela justi\u00e7a, mas, pelo contr\u00e1rio, faria menos, porque perderia a sua independ\u00eancia e a sua autoridade moral, identificando-se com uma \u00fanica via pol\u00edtica e com posi\u00e7\u00f5es parciais question\u00e1veis. A Igreja \u00e9 advogada da justi\u00e7a e dos pobres, precisamente ao n\u00e3o se identificar com os pol\u00edticos nem com os interesses partid\u00e1rios. S\u00f3 sendo independente pode ensinar os grandes crit\u00e9rios e os valores perenes, orientar as consci\u00eancias e oferecer uma op\u00e7\u00e3o de vida que vai mais al\u00e9m do \u00e2mbito pol\u00edtico. Formar as consci\u00eancias, ser advogada da justi\u00e7a e da verdade, educar nas virtudes individuais e pol\u00edticas, \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o fundamental da Igreja neste sector. E os leigos cat\u00f3licos devem estar conscientes da sua responsabilidade na vida p\u00fablica; devem estar presentes na forma\u00e7\u00e3o dos consensos necess\u00e1rios e na oposi\u00e7\u00e3o contra as injusti\u00e7as.  As estruturas justas jamais ser\u00e3o completas de modo definitivo; pela constante evolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, devem ser sempre renovadas e actualizadas; devem estar animadas sempre por um \u201cethos\u201d pol\u00edtico e humano, por cuja presen\u00e7a e efici\u00eancia se deve trabalhar sempre. Noutras palavras, a presen\u00e7a de Deus, a amizade com o Filho de Deus encarnado, a luz da sua Palavra, s\u00e3o sempre condi\u00e7\u00f5es fundamentais para a presen\u00e7a e efici\u00eancia da justi\u00e7a e do amor em nossas sociedades. Por se tratar de um Continente de baptizados, conv\u00e9m destacar a not\u00e1vel aus\u00eancia, no \u00e2mbito pol\u00edtico, comunicativo e universit\u00e1rio, de vozes e iniciativas de l\u00edderes cat\u00f3licos de forte personalidade e de voca\u00e7\u00e3o abnegada, que sejam coerentes com as convic\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e religiosas. Os movimentos eclesiais t\u00eam aqui um amplo campo para recordar aos leigos a sua responsabilidade e a sua miss\u00e3o de levar a luz do Evangelho \u00e0 vida p\u00fablica, cultural, econ\u00f3mica e pol\u00edtica.  <b>4. Outro campos priorit\u00e1rios<\/b> Para levar a cabo a renova\u00e7\u00e3o da Igreja a v\u00f3s confiada nestas terras, gostaria de deter-me convosco sobre alguns campos que considero priorit\u00e1rios nesta nova etapa.  <i>A fam\u00edlia<\/i> A fam\u00edlia, \u201cpatrim\u00f3nio da humanidade\u201d, constitui um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos. Ela tem sido e \u00e9 escola de f\u00e9, palestra de valores humanos e c\u00edvicos, lugar no qual a vida humana nasce e se acolhe generosa e responsavelmente. Contudo, na actualidade sofre situa\u00e7\u00f5es adversas provocadas pelo secularismo e o relativismo \u00e9tico, pelos diversos fluxos migrat\u00f3rios internos e externos, pela pobreza, pela instabilidade social e por legisla\u00e7\u00f5es civis contr\u00e1rias ao matrim\u00f3nio que, ao favorecer os anticoncepcionais e o aborto, amea\u00e7am o futuro dos povos. Em algumas fam\u00edlias da Am\u00e9rica Latina persiste ainda, infelizmente, uma mentalidade machista, ignorando a novidade do cristianismo que reconhece e proclama a igual dignidade e responsabilidade da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao homem. A fam\u00edlia \u00e9 insubstitu\u00edvel para a serenidade pessoal e para a educa\u00e7\u00e3o dos filhos. As m\u00e3es que querem se dedicar plenamente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos e ao servi\u00e7o da fam\u00edlia devem gozar das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para isso, e para tal, t\u00eam o direito de contar com o apoio do Estado. De facto, o papel da m\u00e3e \u00e9 fundamental para o futuro da sociedade. O pai, por sua parte, tem o dever de ser verdadeiramente pai, que exerce sua indispens\u00e1vel responsabilidade e colabora\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o de seus filhos. Os filhos, para seu crescimento integral, t\u00eam o direito de poder contar com o pai e a m\u00e3e, para que cuidem deles e os acompanhem rumo \u00e0 plenitude de sua vida. \u00c9 necess\u00e1ria, pois, uma pastoral familiar intensa e vigorosa. \u00c9 indispens\u00e1vel tamb\u00e9m promover pol\u00edticas familiares aut\u00eanticas que respondam aos direitos da fam\u00edlia como sujeito social imprescind\u00edvel. A fam\u00edlia forma parte do bem dos povos e da humanidade inteira. <i>Sacerdotes<\/I> Os primeiros promotores do discipulado e da miss\u00e3o s\u00e3o aqueles que foram chamados \u00abpara estar com Jesus e ser enviados a pregar\u00bb (cf. Mc 3,14), ou seja, os sacerdotes. Eles devem receber de modo preferencial a aten\u00e7\u00e3o e o cuidado paterno dos seus Bispos, pois s\u00e3o os primeiros agentes de uma aut\u00eantica renova\u00e7\u00e3o da vida crist\u00e3 no povo de Deus. A eles quero dirigir uma palavra de afecto paterno desejando \u00abque o Senhor seja parte da sua heran\u00e7a e do seu c\u00e1lice\u00bb (cf. Sl 16,5). Se o sacerdote fizer de Deus o fundamento e o centro de sua vida, ent\u00e3o experimentar\u00e1 a alegria e a fecundidade da sua voca\u00e7\u00e3o. O sacerdote deve ser antes de tudo um \u201chomem de Deus\u201d (1Tim 6,11); um homem que conhece a Deus \u201cem primeira m\u00e3o\u201d, que cultiva uma profunda amizade pessoal com Jesus, que compartilha os \u201csentimentos de Jesus\u201d (cf. Fil 2,5). Somente assim o sacerdote ser\u00e1 capaz de levar Deus &#8211; o Deus encarnado em Jesus Cristo &#8211; aos homens, e de ser representante do seu amor. Para cumprir a sua alt\u00edssima miss\u00e3o deve possuir uma s\u00f3lida estrutura espiritual e viver toda a exist\u00eancia animado pela f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade. Tem de ser, como Jesus, um homem que procure, atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o, o rosto e a vontade de Deus, cultivando igualmente sua prepara\u00e7\u00e3o cultural e intelectual. Queridos sacerdotes deste Continente e quantos que, como mission\u00e1rios, nele viestes a trabalhar: o Papa acompanha vossa actividade pastoral e deseja que estejam repletos de consola\u00e7\u00f5es e de esperan\u00e7a, e reza por voc\u00eas.  <i>Religiosos, religiosas e consagrados<\/i> Quero dirigir-me tamb\u00e9m aos religiosos, \u00e0s religiosas e aos leigos e leigas consagrados. A sociedade latino-americana e caribenha tem necessidade do vosso testemunho: num mundo que tantas vezes busca, sobretudo, o bem-estar, a riqueza e o prazer como finalidade da vida, e que exalta a liberdade prescindindo da verdade do homem criado por Deus, voc\u00eas s\u00e3o testemunhas de que existe outra forma de viver com sentido; lembrem aos vossos irm\u00e3os e irm\u00e3s que o Reino de Deus chegou; que a justi\u00e7a e a verdade s\u00e3o poss\u00edveis se nos abrimos \u00e0 presen\u00e7a amorosa de Deus nosso Pai, de Cristo nosso irm\u00e3o e Senhor, do Esp\u00edrito Santo nosso Consolador. Com generosidade e at\u00e9 ao hero\u00edsmo, continuai trabalhando para que na sociedade reine o amor, a justi\u00e7a, a bondade, o servi\u00e7o, a solidariedade conforme o carisma dos vossos fundadores. Abra\u00e7ai com profunda alegria vossa consagra\u00e7\u00e3o, que \u00e9 instrumento de santifica\u00e7\u00e3o para voc\u00eas e de reden\u00e7\u00e3o para vossos irm\u00e3os.  A Igreja da Am\u00e9rica Latina vos agradece pelo grande trabalho que vindes realizando ao longo dos s\u00e9culos pelo Evangelho de Cristo a favor de vossos irm\u00e3os, principalmente pelos mais pobres e marginalizados. Convido a todos para que colaborem sempre com os Bispos, trabalhando unidos a eles que s\u00e3o os respons\u00e1veis pela pastoral. Exorto-vos tamb\u00e9m a uma obedi\u00eancia sincera \u00e0 autoridade da Igreja. N\u00e3o tenham outro ideal que n\u00e3o seja a santidade conforme os ensinamentos de vossos fundadores.  <i>Os leigos<\/i> Nesta hora em que a Igreja deste Continente se entrega plenamente \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, lembro aos leigos que s\u00e3o tamb\u00e9m Igreja, assembleia convocada por Cristo para levar seu testemunho ao mundo inteiro. Todos os homens e mulheres baptizados devem tomar consci\u00eancia de que foram configurados com Cristo Sacerdote, Profeta e Pastor, atrav\u00e9s do sacerd\u00f3cio comum do Povo de Deus. Devem sentir-se co-respons\u00e1veis na constru\u00e7\u00e3o da sociedade segundo os crit\u00e9rios do Evangelho, com entusiasmo e aud\u00e1cia, em comunh\u00e3o com os seus Pastores.  S\u00e3o muitos os fi\u00e9is que pertencem a movimentos eclesiais, nos quais podemos ver os sinais da multiforme presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o santificadora do Esp\u00edrito Santo na Igreja e na sociedade actual. Eles s\u00e3o chamados para levar ao mundo o testemunho de Jesus Cristo e ser fermento do amor de Deus na sociedade.  <i>Os Jovens e a pastoral vocacional<\/i> Na Am\u00e9rica Latina a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por jovens. A este respeito, devemos recordar-lhes que sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 ser amigos de Cristo, disc\u00edpulos, sentinelas do amanh\u00e3, como costumava dizer o meu Predecessor Jo\u00e3o Paulo II. Os jovens n\u00e3o temem o sacrif\u00edcio, mas, sim, uma vida sem sentido. S\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 chamada de Cristo que os convida a segui-Lo. Podem responder a essa chamada como sacerdotes, como consagrados e consagradas, ou ainda como pais e m\u00e3es de fam\u00edlia, dedicados totalmente a servir aos seus irm\u00e3os com todo o seu tempo, sua capacidade de entrega e com a vida inteira. Os jovens encaram a exist\u00eancia como uma constante descoberta, n\u00e3o se limitando \u00e0s modas e tend\u00eancias comuns, indo mais al\u00e9m com uma curiosidade radical acerca do sentido da vida, e de Deus Pai-Criador e Deus-Filho Redentor no seio da fam\u00edlia humana. Eles devem-se comprometer por uma constante renova\u00e7\u00e3o do mundo \u00e0 luz de Deus. Mais ainda: cabe-lhes a tarefa de opor-se \u00e0s f\u00e1ceis ilus\u00f5es da felicidade imediata e dos para\u00edsos enganadores da droga, do prazer, do \u00e1lcool, junto com todas as formas de viol\u00eancia.  <b>5. Fica connosco<\/b> Os trabalhos desta V Confer\u00eancia Geral levam-nos a fazer nossa a s\u00faplica dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas: \u201cFica connosco, porque entardece e o dia j\u00e1 termina\u201d (Lc 24,29).  Fica connosco, Senhor, acompanha-nos mesmo que nem sempre tenhamos sabido te reconhecer. Fica connosco, porque em torno a n\u00f3s v\u00e3o se fazendo mais densas as sombras, e tu \u00e9s a luz; em nossos cora\u00e7\u00f5es se insinua a desesperan\u00e7a, e tu os fazes arder com a certeza da P\u00e1scoa. Estamos cansados do caminho, mas tu nos confortas na frac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o para anunciar aos nossos irm\u00e3os que, em verdade, tu ressuscitaste e que nos deste a miss\u00e3o de ser testemunhas da tua ressurrei\u00e7\u00e3o.  Fica connosco, Senhor, quando em volta da nossa f\u00e9 cat\u00f3lica surgem as n\u00e9voas da d\u00favida, do cansa\u00e7o ou da dificuldade: tu, que \u00e9s a Verdade mesma como Revelador do Pai, ilumina as nossas mentes com a tua Palavra; ajuda-nos a sentir a beleza de crer em ti.  Fica com as nossas fam\u00edlias, ilumina-as nas suas d\u00favidas, sustenta-as nas suas dificuldades, consola-as em seus sofrimentos e na fadiga de cada dia, quando em volta delas se acumulam as sombras que amea\u00e7am a sua unidade e a sua natureza. Tu que \u00e9s a Vida, fica nos nossos lares, para que continuem a ser ninhos onde nas\u00e7a a vida humana abundante e generosamente, onde se acolha, se ame, se respeite a vida desde a sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao seu t\u00e9rmino natural.  Fica, Senhor, com aqueles que nas nossas sociedades s\u00e3o mais vulner\u00e1veis; fica com os pobres e humildes, com os ind\u00edgenas e afro-americanos, que nem sempre t\u00eam encontrado espa\u00e7os e apoio para expressar a riqueza da sua cultura e a sabedoria da sua identidade. Fica, Senhor, com as nossas crian\u00e7as e nossos jovens, que s\u00e3o a esperan\u00e7a e a riqueza de nosso Continente, proteja-os de tantas ins\u00eddias que atentam contra sua inoc\u00eancia e contra suas leg\u00edtimas esperan\u00e7as. \u00d3, bom Pastor, fica com os nossos idosos e nossos doentes. Fortalece todos na sua f\u00e9 para que sejam teus disc\u00edpulos e mission\u00e1rios!  <b>Conclus\u00e3o<\/b> Ao concluir a minha perman\u00eancia entre v\u00f3s, desejo invocar a protec\u00e7\u00e3o da M\u00e3e de Deus e M\u00e3e da Igreja sobre vossas pessoas e sobre toda a Am\u00e9rica Latina e o Caribe. Imploro de modo especial a Nossa Senhora \u2013 sob a invoca\u00e7\u00e3o de Guadalupe, Padroeira da Am\u00e9rica, e de Aparecida, Padroeira do Brasil \u2013 que os acompanhe no vosso belo e exigente trabalho pastoral. A ela confio o Povo de Deus nesta etapa do terceiro mil\u00e9nio crist\u00e3o. A ela pe\u00e7o tamb\u00e9m que guie os trabalhos e reflex\u00f5es desta Confer\u00eancia Geral, e que aben\u00e7oe com abundantes dons os queridos povos deste Continente. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queridos irm\u00e3os no Episcopado, amados sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos. Queridos observadores de outras confiss\u00f5es religiosas: \u00c9 motivo de grande alegria estar hoje aqui convosco para inaugurar a V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, que se celebra junto ao Santu\u00e1rio de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. 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