{"id":244404,"date":"2022-06-19T09:30:43","date_gmt":"2022-06-19T08:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=244404"},"modified":"2022-06-18T19:19:33","modified_gmt":"2022-06-18T18:19:33","slug":"pobreza-realidade-nacional-e-bastante-mais-sombria-padre-agostinho-jardim-moreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pobreza-realidade-nacional-e-bastante-mais-sombria-padre-agostinho-jardim-moreira\/","title":{"rendered":"Pobreza: \u00abRealidade nacional \u00e9 bastante mais sombria\u00bb &#8211; Padre Agostinho Jardim Moreira"},"content":{"rendered":"<p><em>Mensagem do Papa para o VI Dia Mundial dos Pobres \u00e9 o ponto de partida da entrevista conjunta Ecclesia-Renascen\u00e7a, esta semana com o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN)<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_244365\" aria-describedby=\"caption-attachment-244365\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-244365 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1536\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002.jpg 2048w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-1080x810.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-980x735.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0002-480x360.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-244365\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia) e Henrique Cunha (Renascen\u00e7a)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sua mensagem, o Papa deixou uma exclama\u00e7\u00e3o: Quantos pobres gera a insensatez da guerra!\u00a0 Na sua opini\u00e3o, era importante o Papa sublinhar esta rela\u00e7\u00e3o entre a guerra e o aumento da pobreza?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 natural e \u00e9 conveniente que o diga, porque a guerra \u00e9 uma viol\u00eancia contra o ser humano. \u00c9 um desrespeito pelos direitos e pela dignidade do outro. \u00c9 insensibilidade \u00e0 vida, aos afetos, \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 equidade. H\u00e1 um ataque direto e absurdo na guerra contra o ser humano, para o destruir. \u00c9 o pior e o maior pecado, o maior ataque \u00e0 humanidade. Porque \u00e9 a morte querida, volunt\u00e1ria e bem estruturada.<\/p>\n<p>O Papa diz coisas muito s\u00e9rias e importantes, insiste que estamos numa sociedade que se caracteriza pela proposta da felicidade no possuir, no ter, no lucro. E o Evangelho n\u00e3o prop\u00f5e isso, nomeadamente no Serm\u00e3o da Montanha, nas Bem-Aventuran\u00e7as, diz-nos que a felicidade est\u00e1 no ser.\u00a0 Eu acho que \u00e9\u00a0esta luta hoje entre o ser e o ter que n\u00f3s assistimos, nomeadamente aqui na Europa, com o sistema capitalista a enveredar lucro, enquanto a Igreja\u00a0prop\u00f5e a felicidade sem o lucro ou sem o objetivo de viver pelo lucro, mas sim, a viver na bem-aventuran\u00e7a da pobreza. Isto \u00e9, usando os bens, mas sem serem o objetivo da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa tem insistido muito na quest\u00e3o do apoio solid\u00e1rio, mas alerta para dificuldades no acolhimento e, sobretudo, para a possibilidade de se perder a motiva\u00e7\u00e3o inicial. Existe o risco de se come\u00e7ar a ver a guerra como algo ordin\u00e1rio, e acostumarmo-nos a este sofrimento?<\/em><\/p>\n<p>Bem, eu acho que podemos olhar para a guerra neste momento como um jogo de for\u00e7as pol\u00edticas e de interesse de blocos, e onde as pessoas passam a ser apenas marionetas. Se morrem mais ou menos 100, n\u00e3o \u00e9 importante. O que importa \u00e9 a predomin\u00e2ncia da minha vontade, do meu objetivo pol\u00edtico estrat\u00e9gico. Por isso, a guerra pode durar mais um ano, porque n\u00e3o importa, o que importa \u00e9 que as for\u00e7as militares tenham poder bastante para dizimar. Isto \u00e9, o importante \u00e9 repelir a amea\u00e7a do inimigo. N\u00e3o importa, neste momento, quem \u00e9 que vai sofrer para pagar esta guerra.\u00a0 Eu penso que h\u00e1 aqui um discurso que est\u00e1 a ser elaborado, que me parece que foge \u00e0 realidade, porque penso que como estamos num tempo em que a verdade s\u00f3 existe a 50% e a gente passa a n\u00e3o saber aonde est\u00e1 a verdade toda.\u00a0 E nunca est\u00e1 de lado nenhum, pelos vistos, pois assim acontece em tempo de guerra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas esse arrastar n\u00e3o poder\u00e1 tamb\u00e9m, de alguma forma, tornar banal a refer\u00eancia \u00e0 guerra?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Ela tornou-se banal por ser secund\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa secundariza\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m deixar para tr\u00e1s as pessoas que est\u00e3o a sofrer?<\/em><\/p>\n<p>Necessariamente ficam, porque o objetivo n\u00e3o \u00e9 cuidar das pessoas. O objetivo \u00e9 defender ideologias e for\u00e7as pol\u00edticas e estrat\u00e9gicas. N\u00e3o est\u00e1 ainda definido como vai terminar esta guerra na constitui\u00e7\u00e3o dos blocos que v\u00e3o provocar uma nova geografia do planeta, mas as grandes pot\u00eancias, como \u00e9 que elas se v\u00e3o delimitar\u2026 quem \u00e9 que vai ser amigo ou inimigo de quem? Este ajustamento vai demorar algum tempo a fazer e os ucranianos s\u00e3o apenas o piv\u00f4 de uma discuss\u00e3o que n\u00e3o\u00a0vai parar t\u00e3o cedo, certamente. Porque as raz\u00f5es tornaram-se globais e tornaram-se planet\u00e1rias e, portanto, a circunst\u00e2ncia local j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mais importante. S\u00e3o as raz\u00f5es globais, interblocos, no planeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As pessoas que nos est\u00e3o a ouvir percebem rapidamente que h\u00e1 consequ\u00eancias globais, porque depois da pandemia esta guerra trouxe aumentos significativos de pre\u00e7o e escassez de alguns alimentos. Para Portugal esta esp\u00e9cie de tempestade perfeita, de infla\u00e7\u00e3o e dificuldades est\u00e1 a ter j\u00e1 algum reflexo nos \u00edndices de pobreza?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Necessariamente j\u00e1 teve e vai ter mais. J\u00e1 vinha da pandemia em que houve um aumento substancial e j\u00e1 est\u00e1vamos com 23% da popula\u00e7\u00e3o pobre, ou melhor em risco de pobreza, sabendo que este n\u00famero corresponde ao n\u00famero ap\u00f3s a transfer\u00eancia das presta\u00e7\u00f5es sociais. Sem as presta\u00e7\u00f5es sociais \u00edamos para 43%. Quer dizer que a realidade nacional \u00e9 bastante mais sombria do que aquela que normalmente corre. A gente tem de perceber que a realidade social portuguesa n\u00e3o tem qualidade de vida. Vive na subsidiodepend\u00eancia, por mais que se queira encobrir. Mas \u00e9 uma forma de manter a pobreza em Portugal e n\u00e3o de tirar os portugueses das suas incapacidades, relacionadas com a qualidade ou com as oportunidades de acesso \u00e0 vida, aos instrumentos de desenvolvimento e \u00e0 inclus\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nessa perspetiva, a aposta no aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo pode ajudar a ser solu\u00e7\u00e3o ou \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio apostar, como muitos defendem, num aumento do sal\u00e1rio m\u00e9dio? \u00a0<\/em><\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em atirar dinheiro para os problemas. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tradicional e assistencialista que n\u00e3o tem resolvido nem vai resolver. Porque \u00e9 preciso trabalhar com as pessoas para que elas saiam pela sua capacidade e pelo seu desenvolvimento integral da situa\u00e7\u00e3o em que vivem. \u00a0Eu penso que \u00e9 necess\u00e1rio &#8211; e se calhar n\u00f3s os crist\u00e3os &#8211; temos de o afirmar muito claramente que a pobreza n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 comer e dormir. N\u00f3s somos um todo antropol\u00f3gico, uma unidade antropol\u00f3gica. N\u00f3s somos um esp\u00edrito e a pobreza passa pelo desenvolvimento integral de todas estas capacidades emo\u00e7\u00f5es, intelig\u00eancia, vontade, afeto, fam\u00edlia, comunh\u00e3o, sem as quais n\u00f3s n\u00e3o somos pessoas. Reduzir a luta da pobreza, apenas a dar um ordenado e a dar dinheiro n\u00e3o chega, \u00e9 reduzir a pessoa \u00e0 baixa condi\u00e7\u00e3o de animal, ou pouco menos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem falado, nomeadamente na quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 fundamental?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Mas temos de dizer que educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 igual a informa\u00e7\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o no meu entender \u00e9 desenvolver todas as potencialidades humanas, de modo que a pessoa seja desenvolvida na sua integralidade. E por isso, n\u00f3s os crist\u00e3os temos o dever de insistir que a luta contra a pobreza \u00e9 pela dignidade da pessoa toda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza, que ajudou tamb\u00e9m a definir e que j\u00e1 foi publicada h\u00e1 cerca de meio ano: em que \u00e9 que esses alertas podem ajudar?<\/em><\/p>\n<p>O que eu penso \u00e9 que est\u00e1 neste momento em cima da mesa, se n\u00e3o estar\u00e1 na gaveta, mas tenho medo porque ela \u00e9 uma rutura. Ela pressup\u00f5e\u00a0para ser aplicada uma certa rutura de mentalidades e de pol\u00edticas e de pol\u00edticas sociais do Estado. Porque n\u00f3s sabemos que as pol\u00edticas sociais, desde o 25 de Abril, t\u00eam mantido a pobreza neste n\u00edvel de 20%, 18% 22%., e n\u00e3o sai daqui. Quer dizer que em Portugal ainda s\u00e3o precisas cinco gera\u00e7\u00f5es para que uma fam\u00edlia saia da pobreza. Quer dizer que o dinheiro que se gasta aos milh\u00f5es e milh\u00f5es n\u00e3o tem um resultado pr\u00e1tico na liberta\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m da pobreza a curto prazo. E, portanto, s\u00f3 uma mudan\u00e7a estrat\u00e9gica sup\u00f5e uma mudan\u00e7a ideol\u00f3gica, e uma mudan\u00e7a pol\u00edtica e de conceitos e de valores e \u00e9 uma mudan\u00e7a estrutural. E n\u00e3o sei neste conjunto (cen\u00e1rio) que n\u00e3o favorece com mais este problema da guerra, o problema da infla\u00e7\u00e3o, o problema do aumento das fontes energ\u00e9ticas, isto vai atrapalhar mais a vida do governo, para poder governar isso tudo n\u00e3o \u00e9. Se calhar a manta \u00e9 pequena para cobrir todas as necessidades. E eu tenho insistido, e estamos a insistir. O presidente da Rep\u00fablica h\u00e1 dias dizia que \u00e9 preciso decidir j\u00e1, \u00e9 preciso decidir j\u00e1. E u n\u00e3o sei se teve algu\u00e9m que ouvisse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso foi uma forma de pressionar o governo?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Foi assim que eu o entendi. O governo estava presente, pois esteve presente no nosso congresso o primeiro-ministro, esteve presente a ministra do trabalho, esteve presente o presidente da assembleia da rep\u00fablica e o ministro da administra\u00e7\u00e3o interna tamb\u00e9m esteve. H\u00e1 aqui uma serie de circunst\u00e2ncias que favorecem esta integra\u00e7\u00e3o e esta aplica\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia. Foi-nos comunicada a estrutura da equipa que vai implementar a estrat\u00e9gia. Agora est\u00e1 no papel \u00e9 preciso que passe \u00e0 pr\u00e1tica&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas est\u00e1 pessimista?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estou pessimista. Eu acho que as situa\u00e7\u00f5es se complicaram e neste momento \u00e9 preciso tamb\u00e9m dar for\u00e7a ao Governo para que as medidas sejam tomadas atempadamente, antes que passe a hora de as aplicar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sente que, da parte do Governo, existe vontade pol\u00edtica para avan\u00e7ar?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Pelo menos nos discursos sim. Agora as circunst\u00e2ncias est\u00e3o a alterar-se um bocado e podem criar problemas. Esta mudan\u00e7a exige clarivid\u00eancia e exige vontade pol\u00edtica, e exige uma mudan\u00e7a estrat\u00e9gica que \u00e9 tamb\u00e9m estrutural na vida e na governa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-244364 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-347x260.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-1080x810.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-980x735.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001-480x360.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG-20220617-WA0001.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a>Mas \u00e9 necess\u00e1rio, de facto, alterar alguma coisa, at\u00e9 porque, de acordo com aquilo que vem dizendo ao longo da nossa conversa, \u00e9 que todas as interven\u00e7\u00f5es ou todas as estrat\u00e9gias de combate \u00e0 pobreza, na realidade foram um fracasso\u2026<\/em><\/p>\n<p>Elas n\u00e3o t\u00eam sido um sucesso, n\u00e3o. N\u00e3o t\u00eam sido sucesso porque nem o n\u00famero altera nem a fam\u00edlia sai da pobreza. \u00c9 uma quest\u00e3o de intelig\u00eancia e at\u00e9 uma quest\u00e3o pr\u00e1tica de evitar, porque s\u00e3o milh\u00f5es que se gastam por ano, desde o rendimento m\u00ednimo de inser\u00e7\u00e3o a todos os subs\u00eddios. J\u00e1 \u00e9 um caudal razo\u00e1vel de dinheiro e, para quem est\u00e1 a ver desse lado, \u00e9 um dinheiro que n\u00e3o vai ter fruto, n\u00e3o vai ter resultado, vai alimentar a situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a transforma.<\/p>\n<p>As pessoas que nascem hoje com rendimento m\u00ednimo j\u00e1 pensam que isto \u00e9 um modo de vida nacional? Por qu\u00ea? Porque n\u00e3o se investe na transforma\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o das pessoas em pobreza.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso mudar o conceito de luta contra a pobreza, que tem ficado muito centrado no indiv\u00edduo &#8211; o av\u00f4, a crian\u00e7a\u2026 a verdade \u00e9 que ningu\u00e9m existe fora de uma fam\u00edlia, boa ou m\u00e1. Para n\u00f3s, a interven\u00e7\u00e3o da pobreza tem de ser diretamente dirigida \u00e0 fam\u00edlia, no seu todo, ao seu agregado.<\/p>\n<p>Desde a habita\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o ou a cultura. Tudo isso \u00e9 necess\u00e1rio para que a pessoa saia da pobreza.<\/p>\n<p>Temos um prov\u00e9rbio, que diz: \u201c\u00e9 preciso uma aldeia para educar uma crian\u00e7a\u201d. \u00c9 preciso uma aldeia e mais algu\u00e9m para tirar uma fam\u00edlia da pobreza. O problema \u00e9 igual: a sua educa\u00e7\u00e3o e a sua inser\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No \u00faltimo dos quatro semin\u00e1rios do Congresso \u2018Di\u00e1logos sobre a Pobreza\u2019, que a EAPN promoveu, disse que Portugal tem uma rara oportunidade &#8211; e penso que estava a referir se tamb\u00e9m \u00e0 chamada bazuca &#8211; de aliar a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica ao combate \u00e0 pobreza. \u00c9 efetivamente o momento de criar uma sociedade mais inclusiva e mais justa?<\/em><\/p>\n<p>Estamos convencidos que pode ser e deveria ser. A abund\u00e2ncia deste dinheiro todo, n\u00e3o s\u00f3 da bazuca, mas depois dos fundos comunit\u00e1rios, deveria ser canalizada para a mudan\u00e7a da sociedade e das causas que geram este problema que j\u00e1 \u00e9 end\u00e9mico em Portugal.<\/p>\n<p>H\u00e1 um programa que est\u00e1 em curso, de constru\u00e7\u00e3o de casas para 60 mil fam\u00edlias. Dizem que j\u00e1 n\u00e3o chega, mas \u00e9 por a\u00ed. Outra quest\u00e3o \u00e9 apostar no ser humano desde o seu primeiro momento &#8211; j\u00e1 vamos na creche e jardim de inf\u00e2ncia gratuitos, porque \u00e9 fundamental, mas \u00e9 preciso que haja capacidade de os acolher e que haja vontade de l\u00e1 p\u00f4r as crian\u00e7as. Acompanhar os pais e as m\u00e3es.<\/p>\n<p>Sabemos que a pobreza, mundialmente e em Portugal, tem sempre uma faceta feminina. As m\u00e3es solteiras, que s\u00e3o em grande n\u00famero, em Portugal, neste momento criam problemas muito singulares e graves de pobreza, por causa da sua condi\u00e7\u00e3o. Olhar s\u00f3 para as m\u00e3es solteiras com olhar de piedade, n\u00e3o basta: \u00e9 preciso um olhar de justi\u00e7a e de responsabilidade para com quem gera um filho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 quem critique o facto de o Governo e o Estado arcarem com a maior parte da fatia da bazuca. Isto \u00e9 motivo de preocupa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Nestas circunst\u00e2ncias tem de ser, n\u00e3o h\u00e1 outra forma, at\u00e9 porque n\u00f3s n\u00e3o temos em Portugal uma tradi\u00e7\u00e3o de responsabilidade social na solu\u00e7\u00e3o dos problemas. Somos herdeiros de uma mentalidade de 40 anos de certa ditadura, com toda a centraliza\u00e7\u00e3o do poder. Mas a verdade \u00e9 que ele tamb\u00e9m continua a ser centralizado e temos um Governo muito centralizador de tudo, em Lisboa.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia de compet\u00eancias est\u00e1 agora em cima da mesa, por causa da luta pela quest\u00e3o das verbas, mas eu penso que, mais do que verbas, n\u00e3o est\u00e1 a ser refletida toda a compet\u00eancia que \u00e9 preciso ter em conta numa transfer\u00eancia de responsabilidade, nas pessoas. A transfer\u00eancia das compet\u00eancias tem, ou deve ter, como objetivo melhorar a possibilidade de acesso aos servi\u00e7os e a servi\u00e7os de qualidade.<\/p>\n<p>Estamos a ver neste momento, por exemplo, que na Sa\u00fade isso n\u00e3o acontece e s\u00f3 os pobres \u00e9 que ficam aflitos, os ricos v\u00e3o para o privado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma das quest\u00f5es que o Papa levantou na mensagem para o Dia Mundial dos Pobres foi que \u201ca pobreza\u201d. O padre Jardim Moreira tamb\u00e9m a usou, no col\u00f3quio da Gulbenkian. A sociedade ainda n\u00e3o tem consci\u00eancia dos custos pessoais e coletivos deste problema?<\/em><\/p>\n<p>Temos a mesma leitura evang\u00e9lica, o Esp\u00edrito Santo \u00e9 o mesmo. O que \u00e9 importante dizer \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a economia que mata, mas a pobreza mata, porque as condi\u00e7\u00f5es de vida s\u00e3o degradantes: a falta de sa\u00fade, a falta de higiene, falta de trabalho, a falta de dinheiro, a falta de esperan\u00e7a, de autoestima levam a que a pessoa definhe.<\/p>\n<p>Falava com algu\u00e9m que um jovem de 58 anos morreu na rua. Por que \u00e9 que morreu na rua? Abandonou a fam\u00edlia, a mulher, deixou de ter cama, deixou de ter comida, alcoolizava-se e em poucos anos morreu. A pobreza leva \u00e0 morte? Se n\u00e3o tem medicamentos, morre; se n\u00e3o tem o que comer, morre; se n\u00e3o tem higiene, se tem feridas, morre. A morte pode ser mais lenta, mas morre de qualquer forma.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio assumir que somos tamb\u00e9m coniventes no assassinato, de alguma maneira, daqueles que morrem nesta situa\u00e7\u00e3o. A sociedade acha que n\u00e3o, porque quer culpabilizar os pobres, diz que s\u00e3o pobres por decis\u00e3o pr\u00f3pria. Ter\u00e3o posteriormente alguma colabora\u00e7\u00e3o nessa responsabilidade, mas a verdade \u00e9 que ca\u00edram nesta situa\u00e7\u00e3o porque s\u00e3o v\u00edtimas da injusti\u00e7a e v\u00edtimas de uma situa\u00e7\u00e3o de desigualdade que os torna assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Rede Europeia Anti-Pobreza tem 30 anos de exist\u00eancia num trabalho que \u00e9 reconhecido como essencial, para destacar o combate \u00e0 pobreza como uma prioridade O que falta para que este seja o verdadeiro des\u00edgnio dos governantes?<\/em><\/p>\n<p>Bom, os 30 anos foram necess\u00e1rios para que pudesse ser acreditado em Portugal que h\u00e1 pobres e que a pobreza \u00e9 uma injusti\u00e7a, uma forma de corroer a democracia e impedir o desenvolvimento de uma sociedade global. Estes 30 anos foram o momento para podermos atingir as mesas, o Governo, a Assembleia da Rep\u00fablica, para que este problema fosse aceite como problema nacional. O que falta agora \u00e9 aceitar que a Rede seja um parceiro de di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Francisco Assis (presidente do CES) est\u00e1 empenhado em que n\u00f3s participemos no Conselho Econ\u00f3mico e Social, considerando que essa \u00e9 uma das facetas indispens\u00e1veis para conjugar as pol\u00edticas nacionais. Falamos tamb\u00e9m com o primeiro-ministro, est\u00e3o todos de acordo em mudar a lei para que isso possa acontecer.<\/p>\n<p>A Rede, entrando como um verdadeiro parceiro do Governo, poder\u00e1 ent\u00e3o influenciar e apontar os caminhos que s\u00e3o corretos &#8211; ou que parecem mais corretos, devem ser sempre avaliados -, de mudan\u00e7as adequadas para que a luta contra a pobreza seja eficaz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A breve prazo teremos a Rede Europeia na concerta\u00e7\u00e3o social?<\/em><\/p>\n<p>Penso que sim, est\u00e1 prometido que sim.<\/p>\n<p>Com o Minist\u00e9rio tamb\u00e9m estamos j\u00e1 como parceiros. O primeiro-ministro aceitou reunir frequentemente connosco, o Presidente procura tamb\u00e9m ver se conseguimos manter este di\u00e1logo de topo, no sentido de pressionar, para que a pessoa humana em Portugal mere\u00e7a a aten\u00e7\u00e3o de todos, que cada um seja motivo suficiente para mudar as pol\u00edticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Passa por a\u00ed, ent\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o desse verdadeiro des\u00edgnio?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim, porque de palavras e discursos j\u00e1 chega. N\u00e3o basta iludir o problema com palmadinhas nas costas, de vez em quando. Esta, para mim, foi a raz\u00e3o do Congresso: manifestarmos cientificamente as nossas opini\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o ideol\u00f3gicas, mas que s\u00e3o cient\u00edficas, analisadas objetivamente, procurando ver quais s\u00e3o as respostas adequadas, a partir de um di\u00e1logo muito franco e muito transparente, com todo o n\u00edvel de poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem do Papa para o VI Dia Mundial dos Pobres \u00e9 o ponto de partida da entrevista conjunta Ecclesia-Renascen\u00e7a, esta semana com o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":244365,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[314],"class_list":["post-244404","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244404","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=244404"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244404\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/244365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=244404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=244404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=244404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}