{"id":243557,"date":"2022-06-12T09:30:14","date_gmt":"2022-06-12T08:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=243557"},"modified":"2022-06-09T15:59:32","modified_gmt":"2022-06-09T14:59:32","slug":"guerra-ucrania-intervencao-precoce-e-crucial-medicos-sem-fronteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/guerra-ucrania-intervencao-precoce-e-crucial-medicos-sem-fronteiras\/","title":{"rendered":"Guerra\/Ucr\u00e2nia: \u00abInterven\u00e7\u00e3o precoce \u00e9 crucial\u00bb &#8211; M\u00e9dicos Sem Fronteiras"},"content":{"rendered":"<p><em>A caminho dos quatro meses desde o in\u00edcio da guerra na Ucr\u00e2nia, Miguel Palma, psiquiatra e coordenador de atividades de sa\u00fade mental na Ucr\u00e2nia, destaca necessidade de acompanhamento psicossocial das v\u00edtimas do conflito<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-243558 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-205x260.jpg\" alt=\"\" width=\"205\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-205x260.jpg 205w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-806x1024.jpg 806w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-768x976.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-1209x1536.jpg 1209w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-1080x1372.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-1280x1626.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-980x1245.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2-480x610.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/IMG_3292-2.jpg 1511w\" sizes=\"(max-width: 205px) 100vw, 205px\" \/><\/a>Qual tem sido a a\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Sem Fronteiras no terreno em que \u00e1reas est\u00e1 a atuar na ajuda humanit\u00e1ria \u00e0s popula\u00e7\u00f5es atingidas pela guerra na Ucr\u00e2nia?<\/em><\/p>\n<p>Os M\u00e9dicos Sem Fronteiras refor\u00e7aram a presen\u00e7a no pa\u00eds em mar\u00e7o deste ano. J\u00e1 havia projetos na Ucr\u00e2nia, mas ap\u00f3s o in\u00edcio da guerra, eles foram refor\u00e7ados com novas equipas e temos avaliado as necessidades m\u00e9dicas em v\u00e1rios componentes, quer em termos de aprovisionamento dos hospitais &#8211; como os f\u00e1rmacos que estavam em rutura- como no desenvolvimento de atividades m\u00e9dicas, tamb\u00e9m de sa\u00fade mental e apoio social em v\u00e1rias partes da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Neste momento h\u00e1 v\u00e1rios eixos de interven\u00e7\u00e3o. Um deles \u00e9 a evacua\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis que possam estar na linha da frente: muitas vezes existe um enfoque sobre as pessoas deslocadas e refugiadas, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que quem ficou s\u00e3o pessoas que muitas vezes t\u00eam dificuldades em sair. Estamos a tentar fazer chegar o apoio m\u00e9dico e psicol\u00f3gico a essas pessoas e tamb\u00e9m apoiar na evacua\u00e7\u00e3o de algumas institui\u00e7\u00f5es geri\u00e1tricas ou institui\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas, para zonas seguras do pa\u00eds. Este \u00e9 um dos nossos eixos de interven\u00e7\u00e3o. Outro eixo \u00e9 o apoio psicol\u00f3gico a popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, nomeadamente as popula\u00e7\u00f5es que est\u00e3o neste momento deslocadas e, portanto, desinseridas da sua comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que import\u00e2ncia tem esse apoio psicossocial num contexto de conflito armado? Qual \u00e9 a prioridade desta interven\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>Na Ucr\u00e2nia, o sistema m\u00e9dico est\u00e1 a conseguir responder \u00e0s necessidades essenciais da popula\u00e7\u00e3o e, do ponto de vista da sa\u00fade mental, as institui\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas continuam a funcionar e a prestar apoio aos doentes mentais. No entanto, foi identificado um vazio, naquilo que \u00e9 o apoio psicol\u00f3gico \u00e0s popula\u00e7\u00f5es deslocadas: muitas delas foram expostas a trauma, foram expostas \u00e0 viol\u00eancia. Algumas delas perderam os seus pertences, perderam familiares.<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas que t\u00eam familiares na frente de batalha, h\u00e1 pessoas que perderam os seus familiares na guerra e h\u00e1 todo um ambiente de incerteza relativamente ao futuro. Uma das nossas \u00e1reas de interven\u00e7\u00e3o \u00e9 apoiar essas pessoas, durante este per\u00edodo particularmente dif\u00edcil, n\u00e3o s\u00f3 com interven\u00e7\u00f5es especializadas na \u00e1rea da psicologia &#8211; com encaminhamento para as institui\u00e7\u00f5es &#8211; mas tamb\u00e9m atuando a n\u00edvel da comunidade, tentando fazer com que a pr\u00f3pria comunidade reforce os seus mecanismos de resili\u00eancia, de interajuda, criando espa\u00e7os onde elas se possam reunir, onde elas possam partilhar o seu sofrimento, as suas experi\u00eancias. \u00c9 um bocadinho esta a l\u00f3gica da nossa na interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabendo que estamos num pa\u00eds onde a psicologia, em particular, n\u00e3o estava bem estabelecida &#8211; \u00e9 algo que \u00e9 estranho \u00e0 popula\u00e7\u00e3o &#8211; a rece\u00e7\u00e3o tem sido francamente positiva. As pessoas procuram as nossas atividades nos v\u00e1rios pontos onde as temos desenvolvido e tem sido algo que esperamos que possa ser sustentado no tempo, que seja apropriado pelo pr\u00f3prio sistema de sa\u00fade nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 que o levou a partir para a Ucr\u00e2nia? Quando \u00e9 que seguiu para o terreno?<\/em><\/p>\n<p>Eu perten\u00e7o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Sem Fronteiras h\u00e1 cerca de cinco anos e, desde ent\u00e3o, tenho dedicado a minha vida profissional ao mundo humanit\u00e1rio, a este tipo de interven\u00e7\u00f5es. Fui mobilizado e parti logo na primeira equipa, que chegou no dia 6 de mar\u00e7o \u00e0 Ucr\u00e2nia, numa fase inicial para fazer a avalia\u00e7\u00e3o de necessidades e para tentar perceber qual \u00e9 o nosso espa\u00e7o de trabalho &#8211; uma vez que \u00e9 importante fazer esta primeira avalia\u00e7\u00e3o para perceber onde \u00e9 que pode estar o nosso valor adicional, sem nos querermos duplicar ou substituir ao Sistema Nacional de Sa\u00fade. Estive nesse primeiro m\u00eas, at\u00e9 31 de mar\u00e7o, com a equipa, para fazer a avalia\u00e7\u00e3o inicial, e regressei agora a 25 de maio, na perspetiva de ficar tr\u00eas meses para apoiar as atividades dos M\u00e9dicos Sem Fronteiras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E que hist\u00f3rias o t\u00eam marcado mais neste trabalho? H\u00e1 alguma que queira destacar?<\/em><\/p>\n<p>Todas as nossas interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o marcantes e permitem-nos ouvir hist\u00f3rias impressionantes, devido ao drama humano que representam, mas tamb\u00e9m pela impressionante resili\u00eancia do povo ucraniano. Na \u00faltima semana, 15 pessoas idosas foram transportadas de um hospital na linha da frente para um lugar onde, neste momento, est\u00e3o seguros.<\/p>\n<p>Acho particularmente interessante este projeto, e gosto de o ressalvar, porque muitas vezes estas s\u00e3o as popula\u00e7\u00f5es que s\u00e3o esquecidas, abandonadas, deixadas para tr\u00e1s, por via da sua doen\u00e7a, da sua incapacidade f\u00edsica ou incapacidade social. Podem ter alguma dificuldade em perceber o que se est\u00e1 a passar e n\u00e3o conseguir tomar as medidas de seguran\u00e7a que s\u00e3o essenciais para se protegerem dos bombardeamentos. Foi um dos projetos que mais nos alegrou, poder trazer estas 15 pessoas, que s\u00e3o as mais recentes, mas o projeto de evacua\u00e7\u00e3o &#8211; se n\u00e3o me engano- j\u00e1 permitiu trazer para lugares seguros cerca de 600 ou mais pessoas por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Cada hist\u00f3ria \u00e9 \u00fanica, cada hist\u00f3ria tem os seus tra\u00e7os, do mais negativo que o ser humano pode experienciar, mas tamb\u00e9m a beleza da resili\u00eancia e da entreajuda entre as pessoas deslocadas, da comunidade que os acolhe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste conflito tem sido muito destacada a situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Depois de dois anos de pandemia, a guerra vem comprometer seriamente o percurso educativo desta nova gera\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um facto e, sem d\u00favida, esse tem sido um foco tamb\u00e9m da nossa atua\u00e7\u00e3o. Em particular, h\u00e1 um encorajamento por parte do governo e das autoridades ucranianas para que possamos ajudar no apoio psicol\u00f3gico a estas crian\u00e7as. A narrativa que nos t\u00eam apresentado \u00e9 que nunca viram este tipo de situa\u00e7\u00f5es, com crian\u00e7as a apresentar ansiedade p\u00f3s-traum\u00e1tica. E, de facto, se h\u00e1 interven\u00e7\u00e3o, se h\u00e1 atividade que pode ter um potencial reabilitativo \u00e9 o trabalho com crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Imagino tamb\u00e9m que a preocupa\u00e7\u00e3o seja com este hiato, por assim dizer, no que seria o desenvolvimento normal destas crian\u00e7as, para que n\u00e3o deixe marcas para o futuro que sejam irrepar\u00e1veis? <\/em><\/p>\n<p>Exatamente, tentar fazer que o seu desenvolvimento retome uma trajet\u00f3ria o mais normal poss\u00edvel, apesar das circunst\u00e2ncias. Isto tamb\u00e9m implica apoiar os pais. Muitas vezes, a crian\u00e7a \u00e9 apenas aquilo que n\u00f3s chamamos o elemento sintom\u00e1tico de uma disfun\u00e7\u00e3o maior, a n\u00edvel da fam\u00edlia. Portanto, \u00e9 importante n\u00e3o esquecer que a crian\u00e7a est\u00e1 inserida numa fam\u00edlia, a ideia obviamente \u00e9 este apoio compreensivo, focado na crian\u00e7a mas tamb\u00e9m na fam\u00edlia: tentar minimizar o impacto da guerra, o impacto da pandemia, do deslocamento no desenvolvimento da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As gera\u00e7\u00f5es mais velhas enfrentam tamb\u00e9m o desafio de reconstruir o que ficou destru\u00eddo pela guerra. Sente que h\u00e1 essa perspetiva de esperan\u00e7a ou \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o sentida como insuper\u00e1vel?<\/em><\/p>\n<p>A minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de coordena\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios projetos, pelo que vou ouvindo aquilo que os meus colegas que est\u00e3o mais pr\u00f3ximos do terreno me v\u00e3o dizendo. Muito embora estas pessoas tenham experienciado coisas aterrorizadoras e tenham vivido, ainda vivem, momentos de incerteza, que s\u00e3o extremos, existe um sentimento de esperan\u00e7a, existe uma perspetiva de que uma normalidade poss\u00edvel esteja para breve. Isto ainda \u00e9 um mecanismo, daquilo que n\u00f3s chamamos um mecanismo de <em>coping<\/em> bastante forte, esta perspetiva de que em breve a guerra poder\u00e1 terminar. Se se ir\u00e1 verificar-se ou n\u00e3o, isso \u00e9 uma quest\u00e3o a que n\u00e3o conseguimos responder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso alimenta tamb\u00e9m a pr\u00f3pria esperan\u00e7a das pessoas. Essa ideia de que a guerra em breve vai terminar?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. O nosso papel \u00e9 mobilizar essa esperan\u00e7a, porque ela \u00e9 muito importante para fazer com que as pessoas prossigam a sua vida, o mais normal poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_243560\" aria-describedby=\"caption-attachment-243560\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-243560\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DOC.20220609.38727228.10004000.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-243560\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Lusa\/EPA<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Do que vamos vendo em mais de 100 dias de guerra, a separa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, a interrup\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o do trabalho, o impacto na sa\u00fade mental e na sa\u00fade f\u00edsica dos refugiados ter\u00e3o consequ\u00eancias duradouras. Estas imagens de guerra v\u00e3o ficar sempre na vida destas pessoas?<\/em><\/p>\n<p>A l\u00f3gica da nossa presen\u00e7a, neste momento, \u00e9 esta: quanto mais cedo se fizer uma interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, maior o potencial de prote\u00e7\u00e3o e de preven\u00e7\u00e3o do desenvolvimento de patologias mais graves ou de se tornarem cr\u00f3nicos os sintomas que que que existem. Em determinados casos \u00e9 importante uma perspetiva ao longo termo, mas sabemos que a interven\u00e7\u00e3o precoce \u00e9 crucial.<\/p>\n<p>Eventualmente haver\u00e1 um subtipo de pessoas, uma subpopula\u00e7\u00e3o, que necessitar\u00e1 de cuidados a longo prazo. A l\u00f3gica da interven\u00e7\u00e3o no trauma \u00e9 uma l\u00f3gica muito semelhante \u00e0 da cicatriza\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9: aconteceu um epis\u00f3dio traum\u00e1tico, na vida da pessoa, e isso far\u00e1 parte da sua identidade. N\u00e3o pode \u00e9 dominar por inteiro a identidade. A nossa interven\u00e7\u00e3o \u00e9 na l\u00f3gica de promover uma boa cicatriza\u00e7\u00e3o daquela ferida que vai l\u00e1 estar, que far\u00e1 parte da experi\u00eancia e da vida da pessoa. Vamos tentar ajudar a pessoa a prosseguir a sua vida, independentemente dessa cicatriz traum\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>At\u00e9 porque n\u00e3o se pode fazer como nos computadores, um reset\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Nem seria o ideal, existe um crescimento p\u00f3s-traum\u00e1tico. N\u00f3s tentamos promover que a pessoa se desenvolva, para al\u00e9m do trauma, e que possa prosseguir e persistir. Ser\u00e1 natural que uma pessoa que viveu esta esta experi\u00eancia potencialmente traum\u00e1tica, em ambientes que a fa\u00e7am relembrar, possa ter sintomas, possa ter sofrimento que recorda aquela experi\u00eancia, mas que isso n\u00e3o domine por inteiro a sua vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A difus\u00e3o permanente de imagens da guerra n\u00e3o poder\u00e1 tamb\u00e9m ter efeitos negativos na sa\u00fade mental daqueles que s\u00e3o mais sens\u00edveis?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um facto. Uma das necessidades que o ser humano mais precisa de suprir \u00e9 a necessidade de controlo. \u00c9 importante que a pessoa esteja atualizada, esteja bem informada, mas existe o perigo de o excesso de informa\u00e7\u00e3o ter efeitos perniciosos e poder ser, em si, tamb\u00e9m traumatizante. \u00c9 importante que a pessoa identifique qual \u00e9 o seu n\u00edvel de toler\u00e2ncia face a esta informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das regras essenciais \u00e9 escolher um meio informativo que tenha informa\u00e7\u00f5es corretas; as redes sociais, em regra, s\u00e3o um fator nefasto, porque muitas vezes promovem as chamadas \u2018fake news\u2019 e exploram bocadinho o medo.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que a pessoa regule a sua necessidade de informa\u00e7\u00e3o, para ter controlo sobre o ambiente e sobre o que se est\u00e1 a passar, mas n\u00e3o se exponha em excesso. H\u00e1 o risco de um esgotamento emocional por via desta exposi\u00e7\u00e3o excessiva a imagens terr\u00edveis de guerra e a informa\u00e7\u00e3o que gera ansiedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As redes sociais s\u00e3o muito dif\u00edceis de controlar, mas no que diz respeito, por exemplo, aos media &#8211; e n\u00e3o estou aqui com esta pergunta a querer criar alguma situa\u00e7\u00e3o de censura -, da parte da Comunica\u00e7\u00e3o Social n\u00e3o deveria ou n\u00e3o poderia haver um maior cuidado na transmiss\u00e3o, na difus\u00e3o dessas imagens?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, \u00e9 um dos elementos essenciais na sa\u00fade mental de uma popula\u00e7\u00e3o. Acredito que que \u00e9 importante haver \u2013 n\u00e3o estou a defender algum tipo de censura &#8211; standards de comunica\u00e7\u00e3o que devem ser promovidos a todo o custo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Todos queremos que sejam cumpridos os padr\u00f5es jornal\u00edsticos de mais alta qualidade, que sempre tivemos, porque muitas vezes, em cen\u00e1rios de guerra, o sensacionalismo toma esse lugar de destaque. <\/em><\/p>\n<p>Exatamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando ao cen\u00e1rio do conflito na Ucr\u00e2nia: acredito que seja quase esmagadora, para quem chega a uma situa\u00e7\u00e3o destas, a quantidade de sofrimento e de problemas que tem de enfrentar. Por que decidiu estar no terreno e ajudar no concreto? Acredita que pode fazer a diferen\u00e7a? <\/em><\/p>\n<p>Uma pessoa de cada vez, acredito. Se n\u00e3o acreditasse, n\u00e3o estaria aqui ao fim de tantos anos e diversas miss\u00f5es. Acredito que s\u00f3 o estar l\u00e1, onde mais ningu\u00e9m est\u00e1, possa fazer a diferen\u00e7a na vida de uma pessoa, de um grupo de pessoas, da popula\u00e7\u00e3o, levando a estas pessoas cuidados de sa\u00fade de elevada qualidade, nesta fase onde tudo falta.<\/p>\n<p>Quando falo em cuidados de sa\u00fade, n\u00e3o \u00e9 apenas um medicamento, \u00e9 todo um cuidar hol\u00edstico geral, ter aten\u00e7\u00e3o a quais s\u00e3o as necessidades sociais. Tudo isto pode fazer a diferen\u00e7a, na vida de uma pessoa, por n\u00e3o se sentir abandonada e saber que existe quem cuida e quem tem aten\u00e7\u00e3o por ela.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Disse que a sa\u00fade mental n\u00e3o era algo muito desenvolvido na Ucr\u00e2nia. Isso surpreendeu-o, de alguma forma?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me surpreendeu, na medida em que j\u00e1 tive noutros pa\u00edses da esfera de influ\u00eancia da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que seguem este modelo sovi\u00e9tico de organiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o: um modelo muito virado, do ponto de vista da sa\u00fade mental, para a psiquiatria, para um doente mental grave e socialmente disruptivo. Surpreendeu-me, no entanto, a vontade de alterar esse modelo, que vem desde 2014, de uma reforma geral da sa\u00fade, onde se estabeleceu um objetivo de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os ucranianos n\u00e3o param de relembrar que a Ucr\u00e2nia est\u00e1 em guerra desde 2014, isto foi s\u00f3 uma acentua\u00e7\u00e3o do conflito, com uma invas\u00e3o em larga escala. Portanto, as condicionantes de guerra fizeram com que a reforma da sa\u00fade mental n\u00e3o pudesse ter sido implementada plenamente.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, existe um movimento, a n\u00edvel do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e das organiza\u00e7\u00f5es, de tornar os servi\u00e7os de sa\u00fade mental mais acess\u00edveis e estabelecer uma maior proemin\u00eancia da psicologia e de uma proibi\u00e7\u00e3o e uma descentraliza\u00e7\u00e3o dos cuidados para a periferia, para os cuidados de sa\u00fade prim\u00e1rios, que que n\u00e3o existiam antes. Esse movimento existe, mas ainda est\u00e1 bastante incompleto.<\/p>\n<p>A nossa estrat\u00e9gia \u00e9 inserir-nos nessa reforma, de uma maneira bastante modesta, porque n\u00e3o temos os meios para poder implement\u00e1-la n\u00edvel nacional, fazendo com que a nossa interven\u00e7\u00e3o se inscreva naquilo que s\u00e3o as linhas diretrizes da reforma da Ucr\u00e2nia. Existem \u00e1reas que merecem desenvolvimentos e, naquilo que pudermos contribuir, a organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 c\u00e1 para isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 quem sugira que o esquecimento e o perd\u00e3o v\u00e3o demorar muitos anos a passar. No que \u00e0s v\u00edtimas diz respeito, as sequelas ser\u00e3o para a vida? <\/em><\/p>\n<p>Ajuda saber perdoar, porque isso permite encerrar, ajuda a encerrar sentimentos que s\u00e3o negativos e que consomem emocionalmente a pessoa. O que \u00e9 importante \u00e9 que as pessoas consigam integrar o epis\u00f3dio ou a experi\u00eancia de guerra, a experi\u00eancia potencialmente traum\u00e1tica, na sua narrativa de vida. Muitas vezes fala-se em s\u00edndrome p\u00f3s-traum\u00e1tico, mas isso \u00e9 s\u00f3 uma das potenciais sequelas deste tipo de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Sabemos que, em situa\u00e7\u00f5es de conflito, a preval\u00eancia de doen\u00e7a mental duplica. Se a doen\u00e7a mental grave, em situa\u00e7\u00f5es normais, existe em 2% da popula\u00e7\u00e3o, passa a 5%, em situa\u00e7\u00f5es de conflito; nas doen\u00e7as mentais moderadas a leves, passa dos 10% para os 20%. Sem falar no sofrimento generalizado, que n\u00e3o \u00e9 patol\u00f3gico, mas que tamb\u00e9m atinge propor\u00e7\u00f5es e que merece aten\u00e7\u00e3o dos cuidados de sa\u00fade. H\u00e1 todo um espectro de sequelas que pode decorrer da guerra.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 que a pessoa consiga &#8211; muitas vezes, com a ajuda de um profissional &#8211; fazer com que o epis\u00f3dio potencialmente traum\u00e1tico seja delimitado, e que tenha uma compreens\u00e3o da sua vida, dos sentimentos de culpa: \u201cPorque \u00e9 que eu n\u00e3o fugi? Porque \u00e9 que eu fugi?\u201d. \u00c9 importante que a pessoa compreenda que tomou determinadas a\u00e7\u00f5es numa l\u00f3gica que \u00e9 excecional, tentar apaziguar um pouco alguns sentimentos de culpa, de raiva, que que possam decorrer desta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A caminho dos quatro meses desde o in\u00edcio da guerra na Ucr\u00e2nia, Miguel Palma, psiquiatra e coordenador de atividades de sa\u00fade mental na Ucr\u00e2nia, destaca necessidade de acompanhamento psicossocial das v\u00edtimas do conflito<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":243560,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[631],"class_list":["post-243557","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-ucrania"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=243557"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243557\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/243560"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=243557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=243557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=243557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}