{"id":243472,"date":"2022-06-09T10:00:31","date_gmt":"2022-06-09T09:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=243472"},"modified":"2022-06-22T14:37:15","modified_gmt":"2022-06-22T13:37:15","slug":"a-vida-crista-como-viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-vida-crista-como-viagem\/","title":{"rendered":"A vida crist\u00e3 como viagem"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Jorge Guarda, Diocese de Leiria-F\u00e1tima<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/padre-jorge-guarda.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-177645 size-medium alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/padre-jorge-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/padre-jorge-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/padre-jorge-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/padre-jorge-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/padre-jorge-guarda.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>\u00abIde pelo mundo inteiro&#8230;\u00bb\u00a0 (Mc 16, 15)<\/em><\/p>\n<p>A vida \u00e9, com frequ\u00eancia, entendida como uma viagem. Esta met\u00e1fora exprime o caminho a percorrer, as variadas experi\u00eancias, a aprendizagem, dinamismo, a progress\u00e3o, os enganos, desvios e reencontro da estrada, as incertezas, as necessidades e lutas, a esperan\u00e7a e o sentido que a vida comporta. Quem decide p\u00f4r-se a caminho tem no pensamento um destino e uma meta a alcan\u00e7ar. \u201cAtrav\u00e9s de todas as literaturas, a viagem simboliza uma aventura e uma procura, quer se trate de um tesouro ou dum simples conhecimento, concreto ou espiritual\u201d (<em>Dicion\u00e1rio dos s\u00edmbolos<\/em>, 692).<\/p>\n<p>Que significa a viagem? Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a escreve que ela \u201c\u00e9 uma etapa fundamental na descoberta e na constru\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos e do mundo. \u00c9 a nossa consci\u00eancia que caminha, descobre cada detalhe do mundo e tudo olha de novo como se fosse a primeira vez. A viagem \u00e9 uma esp\u00e9cie de motor desse olhar novo. Por isso \u00e9 capaz de introduzir na nossa vida e nos seus esquemas, na sua organiza\u00e7\u00e3o, elementos sempre in\u00e9ditos que podem operar essa recontextualiza\u00e7\u00e3o radical que, com um vocabul\u00e1rio crist\u00e3o, chamamos \u00abconvers\u00e3o\u00bb\u201d (<em>SNPC<\/em>, 6\/6\/2017). A viagem representa a aventura, a descoberta, a inova\u00e7\u00e3o e a mudan\u00e7a. O seu contr\u00e1rio \u00e9 a rotina e a estagna\u00e7\u00e3o, que bloqueiam o nosso crescimento e a maturidade.<\/p>\n<p>A mesma met\u00e1fora da viagem \u00e9 usada tamb\u00e9m para exprimir a vida crist\u00e3. O pr\u00f3prio Jesus foi um incans\u00e1vel viajante, designou-se o caminho (<em>Jo<\/em> 14, 4-6), escolheu disc\u00edpulos para andarem com ele e os enviar, dando continuidade \u00e0 sua miss\u00e3o (cf <em>Mc<\/em> 3,14). No final da sua estadia, j\u00e1 ressuscitado e antes de voltar para o Pai, ordena-lhes que v\u00e3o pelo mundo a proclamar o Evangelho e oferecer a todos a salva\u00e7\u00e3o. E eles foram pregar por toda a parte, sentindo a presen\u00e7a e a coopera\u00e7\u00e3o espiritual de Jesus, que confirmava \u201ca Palavra com os sinais que a acompanhavam\u201d (<em>Mc<\/em> 16, 15.20).<\/p>\n<p>Segundo o Livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos, a maneira de viver e de agir dos crist\u00e3os era designada \u201ca via\u201d ou \u201co caminho\u201d (9,2; 18,25.26; 19, 9.23; 22,4; 24, 14.22). Eles s\u00e3o os que seguem a via do Senhor, e o seu andar pelo mundo \u00e9 tamb\u00e9m chamado de peregrina\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morada eterna (<em>CIgC<\/em> 2691).<\/p>\n<p>A viagem da vida crist\u00e3 inicia-se com o Batismo, prossegue com a rece\u00e7\u00e3o do dom do Esp\u00edrito Santo no Crisma e da comunh\u00e3o com Cristo na Eucaristia. Continua ao longo da vida, percorrendo os caminhos do mundo, animada, instru\u00edda pelo Evangelho e a doutrina crist\u00e3 e alimentada pela presen\u00e7a, o amor e a companhia espiritual de Cristo. Algumas ora\u00e7\u00f5es fazem-se eco da viagem, sobretudo em termos de peregrina\u00e7\u00e3o. O Catecismo, por exemplo, ensina que o dom da comunh\u00e3o eucar\u00edstica \u201csustenta as nossas for\u00e7as ao longo da peregrina\u00e7\u00e3o desta vida, faz-nos desejar a vida eterna e desde j\u00e1 nos une \u00e0 Igreja do c\u00e9u, \u00e0 Sant\u00edssima Virgem e a todos os santos\u201d<em> (CIgC 1419). <\/em>Aos crist\u00e3os moribundos, a comunh\u00e3o \u00e9 dada como vi\u00e1tico, ou seja, \u201cprovis\u00e3o para a viagem\u201d. O ministro, depois de apresentar \u201co Corpo de Cristo\u201d, diz: \u201cEle te guarde e te conduza \u00e0 vida eterna\u201d (<em>Ritual da Un\u00e7\u00e3o dos Doentes<\/em>, n. 112). No termo da sua vida temporal, o fiel crist\u00e3o passa pela morte e entrega-se definitivamente a Deus, \u00e0 maneira de Jesus, que na cruz disse: \u201cPai, nas tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito\u201d. Se estiver em condi\u00e7\u00f5es para tal, o fiel entra ent\u00e3o na comunh\u00e3o plena com Deus, segundo as palavras de Jesus ao bom ladr\u00e3o: \u201cHoje, estar\u00e1s comigo no Para\u00edso\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Itiner\u00e1rio atrav\u00e9s de v\u00e1rias convers\u00f5es<\/strong><\/h4>\n<p>Na viagem da vida crist\u00e3 tamb\u00e9m h\u00e1 incerteza, d\u00favidas, prova\u00e7\u00f5es, desvios e perdas do caminho, surpresas, novas descobertas, ilumina\u00e7\u00f5es e escolhas. Por vezes, caminha-se \u00e0s escuras e \u00e0s apalpadelas. H\u00e1 quedas e necessidade de se reerguer, fracassos, pecados e s\u00faplica de ajuda e perd\u00e3o. Neste percurso de vida \u00e9 decisiva a convers\u00e3o crist\u00e3. Esta consiste no encontro pessoal com Cristo, que se renova e aprofunda ao longo do tempo. Ele, com o dom da f\u00e9, abre ao fiel um novo horizonte de vida, levando-o a desejar e empenhar-se para O conhecer sempre mais e entrar na comunh\u00e3o \u00edntima e intensa com Deus.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o \u00e9 mais do que abandonar o pecado e acolher a gra\u00e7a divina. \u00c9 um processo para uma ades\u00e3o total e a plena identifica\u00e7\u00e3o com Cristo. Comporta, segundo Carlo Martini, quatro dimens\u00f5es da pessoa: religiosa, moral, intelectual e m\u00edstica. \u201cCada crist\u00e3o, depois da primeira convers\u00e3o, a batismal, deveria alcan\u00e7ar gradualmente as demais etapas\u201d (<em>Oraci\u00f3n y conversi\u00f3n<\/em>, 247). A <em>convers\u00e3o religiosa<\/em> crist\u00e3 consiste na passagem do desconhecimento de Deus ou de um conhecimento confuso \u201cao conhecimento do Deus de Jesus Cristo\u201d, que Ele nos deu a conhecer como amor, e entrar numa rela\u00e7\u00e3o pessoal de f\u00e9 e amor. Na <em>convers\u00e3o moral<\/em>, o fiel descobre a dimens\u00e3o moral e eclesial da vida crist\u00e3: compreende que n\u00e3o basta viver a f\u00e9, que deve orientar o seu estilo de vida e comportamento pelos valores e a doutrina crist\u00e3s, empenhando-se tamb\u00e9m no servi\u00e7o aos outros na Igreja e na sociedade, inspirado pelo Evangelho. A <em>convers\u00e3o intelectual<\/em> afeta o pensamento e a mentalidade do crist\u00e3o. Significa adquirir convic\u00e7\u00f5es pessoais, assumir a razoabilidade de f\u00e9 e tornar-se capaz de a exprimir no meio e em confronto com o variado contexto cultural do tempo, sabendo colher dele os conceitos e valores v\u00e1lidos. Esta convers\u00e3o requer esfor\u00e7o, vontade, paci\u00eancia, tempo, mas \u00e9 preciso faz\u00ea-la para chegar a uma maturidade crist\u00e3 e tornar-se capaz de anunciar o Evangelho e a revela\u00e7\u00e3o de Deus de modo adaptado ao mundo de hoje. A <em>convers\u00e3o m\u00edstica<\/em> \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o contemplativa da vida crist\u00e3 \u201cque nos possibilita captar imediatamente a presen\u00e7a de Deus em tudo\u201d. A gra\u00e7a m\u00edstica recebe-se mediante o exerc\u00edcio da ora\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o e discernimento para identificar os sinais da atua\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo na hist\u00f3ria, e toda a hist\u00f3ria em Deus (cfr <em>Oraci\u00f3n y conversi\u00f3n, 245-257).<\/em><\/p>\n<p>Os fi\u00e9is crist\u00e3os s\u00e3o companheiros de viagem e contam com o acompanhamento invis\u00edvel de Jesus em todas as vicissitudes da vida. \u00c9 muito elucidativa a este prop\u00f3sito a experi\u00eancia das duas viagens dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas narrada por S. Lucas (24, 13-35). \u00c9 assim que a nossa viagem pode ser acompanhada, iluminada e fortalecida pela presen\u00e7a e ajuda de Jesus vivo. Escolhamos viajar na vida com Ele. \u201cDescobriremos que n\u00e3o h\u00e1 imprevisto, n\u00e3o h\u00e1 subida, n\u00e3o h\u00e1 noite que n\u00e3o se possa enfrentar com Jesus\u201d (Papa Francisco, <em>Regina Caeli<\/em>, 26\/4\/2020).<\/p>\n<p>A viagem crist\u00e3 n\u00e3o se pode fazer sozinho. Faz-se em companhia, \u00e9 simult\u00e2nea e inseparavelmente pessoal e comunit\u00e1ria. Se o quisermos aceitar, a Igreja, os irm\u00e3os na f\u00e9 e a fam\u00edlia crist\u00e3 prestam-nos oportuno acompanhamento e n\u00f3s tamb\u00e9m o fazemos em rela\u00e7\u00e3o a eles. Caminhamos em Igreja e com a sua ajuda, forma\u00e7\u00e3o e sustento.<\/p>\n<p>\u00c9 muito \u00fatil ter esta consci\u00eancia da vida crist\u00e3 como viagem. Sem ela n\u00e3o crescemos nem progredimos espiritualmente nem temos condi\u00e7\u00f5es para incarnarmos o Evangelho no mundo e dele sermos testemunhas. A consci\u00eancia de estarmos em caminho ajuda-nos a ter presente a meta para a qual nos dirigimos, a esperan\u00e7a que nos anima e a perce\u00e7\u00e3o de que neste mundo, ao longo do tempo que nos \u00e9 dado viver, estamos sempre de passagem. Assim seremos mais livres e confiantes. Connosco e diante de n\u00f3s, h\u00e1 Algu\u00e9m que nos espera e nos h\u00e1-de acolher na sua casa, que se torna tamb\u00e9m a nossa. Esta \u00e9 a f\u00e9 e a esperan\u00e7a crist\u00e3s que nos animam na viagem da nossa vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jorge Guarda, Diocese de Leiria-F\u00e1tima<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":177645,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-243472","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243472","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=243472"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243472\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/177645"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=243472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=243472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=243472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}