{"id":24343,"date":"2007-04-27T13:08:18","date_gmt":"2007-04-27T13:08:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/27\/a-palavra-de-deus-na-vida-e-na-missao-da-igreja\/"},"modified":"2007-04-27T13:08:18","modified_gmt":"2007-04-27T13:08:18","slug":"a-palavra-de-deus-na-vida-e-na-missao-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-palavra-de-deus-na-vida-e-na-missao-da-igreja\/","title":{"rendered":"A Palavra de Deus na vida e na miss\u00e3o da Igreja"},"content":{"rendered":"<p><i>Lienamenta<\/i> da XII Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos <!--more--> <b>PREF\u00c1CIO<\/b>  \u201cA palavra de Deus \u00e9 viva, \u00e9 realizadora, mais afiada do que toda a espada de dois gumes: ela penetra at\u00e9 onde se dividem a vida do corpo e a do esp\u00edrito, as articula\u00e7\u00f5es e as medulas e \u00e9 capaz de distinguir as inten\u00e7\u00f5es e os pensamentos do cora\u00e7\u00e3o\u201d  (Heb 4,12).  Toda a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 uma prova de como a Palavra de Deus \u00e9 viva. Quem toma a iniciativa de se comunicar \u00e9 Deus, fonte da vida (cf. Lc 20,38). A sua Palavra dirige-se ao homem, obra das suas m\u00e3os (cf. Job 10,3), criado precisamente para ser capaz de Lhe responder, entrando em comunica\u00e7\u00e3o com o seu Criador. Portanto a Palavra de Deus acompanha o homem desde a cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao fim da sua peregrina\u00e7\u00e3o sobre a terra. Manifestou-se de diversos modos, atingindo o \u00e1pice no mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, quando, por obra do Esp\u00edrito Santo, o Verbo, Deus junto de Deus, se fez carne (cf. Jo 1,1.14). Jesus Cristo, morto e ressuscitado, \u00e9 \u201co Vivente\u201d (Ap 1,18), Aquele que tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68).  A Palavra de Deus \u00e9 tamb\u00e9m afiada. Ilumina a vida do homem, apontando-lhe o caminho a seguir, sobretudo atrav\u00e9s do Dec\u00e1logo (cf. Ex 20,1-21), que Jesus sintetizou no mandamento do amor para com Deus e para com o pr\u00f3ximo (cf. Mt 22,37-40). As Bem-aventuran\u00e7as (cf. Lc 6,20-26) s\u00e3o, por sua vez, o ideal da vida crist\u00e3, vivida na escuta da Palavra de Deus que perscruta os sentimentos dos cora\u00e7\u00f5es, inclinando-os para o bem e purificando-os do que \u00e9 pecaminoso. Comunicando-Se ao homem pecador, que por\u00e9m \u00e9 chamado \u00e0 santidade, Deus exorta-o a mudar o mau comportamento: \u201cConvertei-vos dos vossos maus caminhos e guardai os meus mandamentos e preceitos, no cumprimento de toda a Lei que prescrevi aos vossos pais e vos comuniquei por meio dos meus servos, os profetas\u201d  (2Reis 17,13). Tamb\u00e9m o Senhor Jesus dirige, no Evangelho, o convite: \u201cArrependei-vos, pois est\u00e1 perto o Reino dos C\u00e9us\u201d  (Mt 3,2). Pela gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, a Palavra de Deus toca o cora\u00e7\u00e3o do pecador arrependido e leva-o \u00e0 comunh\u00e3o com Deus na sua Igreja. A convers\u00e3o de um pecador \u00e9 motivo de grande alegria no c\u00e9u (cf. Lc 15,7). No nome do Senhor ressuscitado, a Igreja continua a miss\u00e3o de pregar \u201ca todas as na\u00e7\u00f5es o arrependimento e o perd\u00e3o dos pecados\u201d  (Lc 24,47). Ela mesma, d\u00f3cil \u00e0 Palavra de Deus, p\u00f5e-se no caminho de humildade e de convers\u00e3o, para ser cada vez mais fiel a Jesus Cristo, seu Esposo e Senhor, e para anunciar, com mais for\u00e7a e autenticidade, a sua Boa Nova.   A Palavra de Deus \u00e9 tamb\u00e9m eficaz. Comprovam-no as hist\u00f3rias pessoais dos patriarcas e dos profetas, bem como do povo eleito da Antiga e da Nova Alian\u00e7a. De forma de todo excepcional, testemunha-o Jesus Cristo, Palavra de Deus que, encarnando, \u201cveio habitar no meio de n\u00f3s\u201d (Jo 1,14), e que continua a anunciar o reino de Deus e a curar os enfermos (cf. Lc 9,2) atrav\u00e9s da sua Igreja. Esta realiza tal obra de salva\u00e7\u00e3o por meio da Palavra e dos Sacramentos, de modo especial a Eucaristia, fonte e cume da vida e da miss\u00e3o da Igreja, onde, pela gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, as palavras da consagra\u00e7\u00e3o se tornam eficazes, transformando o p\u00e3o no Corpo e o vinho no Sangue do Senhor Jesus (cf. Mt 26,26-28; Mc 14,22-23; Lc 22,19-20). A Palavra de Deus \u00e9, portanto, fonte da comunh\u00e3o entre o homem e Deus e entre os homens que o Senhor ama.  A estreita rela\u00e7\u00e3o entre Eucaristia e Palavra de Deus tamb\u00e9m contribuiu para a escolha do tema da pr\u00f3xima Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, refor\u00e7ando o desejo, ali\u00e1s antigo, de levar a reflex\u00e3o sinodal a concentrar-se sobre a Palavra de Deus. Da\u00ed que, ap\u00f3s o S\u00ednodo dos Bispos sobre a Eucaristia fonte e cume da vida e da miss\u00e3o da Igreja, realizado de 2 a 23 de Outubro de 2005, parecesse l\u00f3gico concentrar-se sobre a Palavra de Deus na vida e na miss\u00e3o da Igreja, aprofundando ulteriormente o significado da \u00fanica mesa do P\u00e3o e da Palavra. O tema reflecte o desejo priorit\u00e1rio das Igrejas particulares, que os Bispos, seus Pastores, manifestaram. Sim, porque a escolha do tema da pr\u00f3xima reuni\u00e3o sinodal foi feita de forma colegial. De acordo com uma praxe j\u00e1 consagrada, o Santo Padre Bento XVI tinha encarregado a Secretaria Geral do S\u00ednodo dos Bispos de consultar para o efeito todo o episcopado da Igreja Cat\u00f3lica. Das respostas enviadas pelas Igrejas Orientais Cat\u00f3licas sui iuris, pelas Confer\u00eancias Episcopais, pelos Dicast\u00e9rios da C\u00faria Romana e pela Uni\u00e3o dos Superiores Gerais resultou ser a Palavra de Deus o tema preferido com diversas acentua\u00e7\u00f5es e not\u00e1vel variedade de aspectos. O abundante material foi analisado pelo XI Conselho Ordin\u00e1rio da Secretaria Geral do S\u00ednodo dos Bispos que, de certa forma, representa a inteira assembleia. Ali\u00e1s, 12 dos seus membros foram escolhidos pelos colegas durante a XI Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos. Em conformidade com o previsto no Ordo Synodi Episcoporum, outros 3 membros do Conselho foram nomeados por Sua Santidade o Papa Bento XVI. O resultado de um fecundo debate feito no Conselho Ordin\u00e1rio foi sintetizado numa terna de temas que o Exc.mo Mons. Secret\u00e1rio Geral submeteu \u00e0 decis\u00e3o do Sumo Pont\u00edfice.   O tema escolhido pelo Santo Padre, Presidente do S\u00ednodo dos Bispos, foi tornado p\u00fablico a 6 de Outubro de 2006. A seguir, o Conselho Ordin\u00e1rio da Secretaria Geral empenhou-se na prepara\u00e7\u00e3o dos Lineamenta, documento que tem por finalidade apresentar brevemente o estado da quest\u00e3o sobre o importante tema da Palavra de Deus, indicar aspectos positivos na vida e na miss\u00e3o da Igreja, sem omitir certos aspectos problem\u00e1ticos ou que, pelo menos, carecem de um aprofundamento para bem da Igreja e da sua vida no mundo. Nesse sentido, os Lineamenta reportaram-se abundantemente \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica sobre a divina revela\u00e7\u00e3o, a Dei Verbum, e de modo especial seguem a linha escolhida pelos Padres conciliares, a de se colocar em atitude de religiosa escuta da Palavra de Deus, para depois poder proclam\u00e1-la desassombradamente (cf. DV 1). A releitura em chave pastoral da Dei Verbum \u00e9 acompanhada das sucessivas interven\u00e7\u00f5es do Magist\u00e9rio da Igreja, a quem cabe interpretar de forma aut\u00eantica o sagrado dep\u00f3sito da f\u00e9 contido na Tradi\u00e7\u00e3o e nas Escrituras.  Para facilitar a reflex\u00e3o e o debate do tema a n\u00edvel de Igreja universal, o Documento \u00e9 acompanhado de um pormenorizado Question\u00e1rio relativo aos assuntos abordados em cada cap\u00edtulo. Todos os organismos colegiais, acima mencionados, s\u00e3o convidados a responder ao dito Question\u00e1rio at\u00e9 ao fim do m\u00eas de Novembro do presente ano de 2007. O Conselho Ordin\u00e1rio, com a ajuda de alguns v\u00e1lidos especialistas, estudar\u00e1 a referida documenta\u00e7\u00e3o e ordenar\u00e1 a tem\u00e1tica num segundo documento, tradicionalmente chamado Instrumentum laboris, que servir\u00e1 de ordem do dia da XII Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, que ter\u00e1 lugar, se Deus quiser, de 5 a 26 de Outubro de 2008.  Desde o princ\u00edpio, a Igreja vive da Palavra de Deus. Em Cristo, Verbo encarnado sob a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, a Igreja \u00e9 \u201ccomo que sacramento ou sinal e tamb\u00e9m instrumento da uni\u00e3o \u00edntima com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano\u201d (LG 1). A Palavra de Deus \u00e9 tamb\u00e9m o motor inesgot\u00e1vel da miss\u00e3o eclesial, tanto para os que est\u00e3o perto como para os que est\u00e3o longe. Obedecendo ao mandato do Senhor Jesus e entregando-se \u00e0 for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, a Igreja est\u00e1, portanto, em permanente estado de miss\u00e3o (cf. Mt 28,19).   Seguindo o exemplo da Bem-aventurada Virgem Maria, humilde Serva do Senhor, o S\u00ednodo pretende favorecer uma total redescoberta da maravilha da Palavra de Deus, que \u00e9 viva, afiada e eficaz, no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o da Igreja, na sua liturgia e na ora\u00e7\u00e3o, na evangeliza\u00e7\u00e3o e na catequese, na exegese e na teologia, na vida pessoal e comunit\u00e1ria, bem como nas culturas dos homens, purificadas e enriquecidas pelo Evangelho. Deixando-se despertar pela Palavra de Deus, os crist\u00e3os ser\u00e3o capazes de responder a quantos lhes pedirem a raz\u00e3o da sua esperan\u00e7a (cf. 1Pe 3,15), amando o pr\u00f3ximo n\u00e3o \u201cpor palavras e com a l\u00edngua, mas por obras e em verdade\u201d (1Jo 3,18). Realizando as boas obras, brilhar\u00e1 diante dos homens a sua luz, reflexo da gl\u00f3ria de Deus, e todos louvar\u00e3o o nosso Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us (cf. Mt 5,16). A Palavra de Deus, portanto, irradia sobre toda a vida da Igreja, qualificando tamb\u00e9m a sua presen\u00e7a na sociedade como fermento de um mundo mais justo e pac\u00edfico, livre de toda a esp\u00e9cie de viol\u00eancia e aberto \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor.  \u201cA Palavra do Senhor permanece eternamente. Esta \u00e9 a Palavra que vos foi anunciada\u201d (1Pe 1,25. A reflex\u00e3o sobre o tema sinodal converte-se em humilde ora\u00e7\u00e3o para que a redescoberta da Palavra de Deus ilumine cada vez melhor o caminho do homem na Igreja e na sociedade durante o percurso, n\u00e3o poucas vezes tortuoso, da hist\u00f3ria, enquanto com confian\u00e7a se esperam \u201cnovos c\u00e9us e uma nova terra, onde habitar\u00e1 a justi\u00e7a\u201d (2Pe 3,13). <i>Nikola Eterovic Arcebispo titular de Sisak Secret\u00e1rio Geral<\/i>  Vaticano, 25 de Mar\u00e7o de 2007   &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;  <b>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/b> Porqu\u00ea um S\u00ednodo sobre a Palavra de Deus?  \u201cO que era desde o princ\u00edpio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contempl\u00e1mos, o que toc\u00e1mos com as nossas m\u00e3os, acerca do Verbo da Vida, \u00e9 o que n\u00f3s vos anunciamos. Porque a Vida manifestou-se e n\u00f3s vimos e damos testemunho dela. N\u00f3s vos anunciamos a Vida eterna, que estava junto do Pai e nos foi manifestada. N\u00f3s vos anunciamos o que vimos e ouvimos, para que estejais tamb\u00e9m em uni\u00e3o connosco. E a nossa comunh\u00e3o \u00e9 com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo. E vos escrevemos tudo isto, para que a vossa alegria seja completa\u201d (1Jo 1,1-4).  1. \u201cNo princ\u00edpio era a Palavra\u201d (Jo 1,1). \u201cA Palavra do nosso Deus permanece eternamente\u201d (Is 40,8). A Palavra de Deus abre a hist\u00f3ria com a cria\u00e7\u00e3o do mundo e do homem: \u201cDeus disse\u201d (Gen 1,3.6ss.); proclama que o seu centro est\u00e1 na Encarna\u00e7\u00e3o do Filho, Jesus Cristo: \u201cE o Verbo Se fez carne\u201d (Jo 1,14), e fecha-a com a promessa certa do encontro com Ele numa vida sem fim: \u201cSim, Eu virei em breve\u201d (Ap 22,20).  \u00c9 a certeza suprema que o pr\u00f3prio Deus, no seu infinito amor, entende dar ao homem de todos os tempos, fazendo do seu povo a sua testemunha. \u00c9 esse grande mist\u00e9rio da Palavra como supremo dom de Deus que o S\u00ednodo entende adorar, agradecer, meditar, anunciar \u00e0 Igreja e a todos os povos.  2. O homem contempor\u00e2neo mostra de tantas maneiras que tem uma grande necessidade de ouvir Deus e falar com Ele. Nota-se, hoje, entre os crist\u00e3os uma abertura apaixonada para a Palavra de Deus como fonte de vida e gra\u00e7a de encontro do homem com o Senhor.  N\u00e3o surpreende, portanto, que a essa abertura do homem responda Deus invis\u00edvel, que, \u201cna abund\u00e2ncia do seu amor, fala aos homens como a amigos e conversa com eles, para os convidar e os receber em comunh\u00e3o com Ele\u201d [1] Esta generosa revela\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 um cont\u00ednuo acontecimento de gra\u00e7a.  Em tudo isto, vemos a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, que atrav\u00e9s da Palavra quer renovar a vida e a miss\u00e3o da Igreja, chamando-a a uma constante convers\u00e3o e enviando-a a anunciar o Evangelho a todos os homens, \u201cpara que todos tenham a vida e a tenham com abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10).  3. A Palavra de Deus tem o seu centro na pessoa de Cristo Senhor. A Igreja fez, ao longo dos s\u00e9culos, uma constante experi\u00eancia e reflex\u00e3o do mist\u00e9rio da Palavra. \u201cQue pensais ser a Sagrada Escritura sen\u00e3o a Palavra de Deus? \u00c9 verdade que s\u00e3o muitas as palavras escritas pela pena dos profetas, mas a totalidade da Escritura \u00e9 um \u00fanico Verbo de Deus. Este \u00fanico Verbo, os fi\u00e9is conceberam-no como semente de Deus, seu leg\u00edtimo esposo, e, gerando-o com boca fecunda, converteram-no em sinais, ou seja, em letras, para faz\u00ea-la chegar at\u00e9 n\u00f3s\u201d . [2]   O Conc\u00edlio Vaticano II, com a Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica sobre a Divina Revela\u00e7\u00e3o Dei Verbum, compendia o Magist\u00e9rio solene da Igreja sobre a Palavra de Deus, expondo a sua doutrina e mostrando como pratic\u00e1-la. A dita Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9, com efeito, o fruto de um longo caminho de amadurecimento e de aprofundamento, tra\u00e7ado pelas tr\u00eas Enc\u00edclicas Providentissimus Deus de Le\u00e3o XIII, Spiritus Paraclitus de Bento XV e Divino Afflante Spiritu de Pio XII;[3] um caminho que foi incrementado por uma exegese e teologia renovadas, enriquecido pela experi\u00eancia espiritual dos fi\u00e9is e oportunamente reproposto no S\u00ednodo dos Bispos de 1985 [4] e no Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica. Depois do Conc\u00edlio, o Magist\u00e9rio da Igreja universal e local promoveu insistentemente o encontro com a Palavra, na convic\u00e7\u00e3o de que esta \u201ctrar\u00e1 \u00e0 Igreja uma nova primavera espiritual\u201d .[5]   A Assembleia Sinodal coloca-se, portanto, dentro do grande respiro da Palavra que Deus dirige ao seu povo, em estreita liga\u00e7\u00e3o com os precedentes S\u00ednodos dos Bispos (1965-2006), uma vez que se refaz ao pr\u00f3prio fundamento da f\u00e9 e se prop\u00f5e actualizar no nosso tempo os grandes testemunhos de encontro com a Palavra que encontramos no mundo b\u00edblico (cf. Jos 24; Ne 8; Act 2) e ao longo da hist\u00f3ria da Igreja.  4. Mais especificamente, o presente S\u00ednodo, na continua\u00e7\u00e3o do precedente, quer real\u00e7ar a intr\u00ednseca liga\u00e7\u00e3o da Eucaristia com a Palavra de Deus, uma vez que a Igreja tem de se alimentar com o \u00fanico \u201cP\u00e3o da vida da mesa quer da Palavra de Deus quer do Corpo de Cristo\u201d .[6] \u00c9 essa a raz\u00e3o profunda e, ao mesmo tempo, o fim prim\u00e1rio do S\u00ednodo: encontrar em plenitude a Palavra de Deus no Senhor Jesus, presente na Escritura e na Eucaristia. Diz S\u00e3o Jer\u00f3nimo: \u201cA carne do Senhor \u00e9 verdadeira comida e o seu sangue verdadeira bebida; \u00e9 esse o verdadeiro bem que nos \u00e9 reservado na vida presente: alimentar-nos da sua carne e beber o seu sangue, n\u00e3o s\u00f3 na Eucaristia, mas tamb\u00e9m na leitura da Sagrada Escritura. \u00c9, de facto, verdadeira comida e verdadeira bebida a Palavra de Deus que se obt\u00e9m do conhecimento das Escrituras\u201d. [7]  Mas antes de prosseguir, \u00e9 para perguntar, \u00e0 dist\u00e2ncia de mais de 40 anos do Vaticano II, que frutos trouxe \u00e0s nossas comunidades o documento conciliar Dei Verbum; qual a sua real aceita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Palavra de Deus, se obtiveram muitos resultados positivos no povo de Deus, tais como a renova\u00e7\u00e3o b\u00edblica a n\u00edvel lit\u00fargico, teol\u00f3gico e catequ\u00e9tico; a difus\u00e3o e pr\u00e1tica do Livro Sagrado atrav\u00e9s do apostolado b\u00edblico e o impulso de comunidades e movimentos eclesiais; a crescente disponibilidade de instrumentos e subs\u00eddios da comunica\u00e7\u00e3o hodierna. Outros aspectos por\u00e9m mant\u00eam-se ainda abertos e problem\u00e1ticos. S\u00e3o graves os fen\u00f3menos de ignor\u00e2ncia e incerteza acerca da pr\u00f3pria doutrina da Revela\u00e7\u00e3o e da Palavra de Deus; ainda \u00e9 grande a dist\u00e2ncia que muitos crist\u00e3os t\u00eam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 B\u00edblia, e \u00e9 constante o risco de um uso n\u00e3o correcto da mesma; sem a verdade da Palavra, torna-se insidioso o relativismo do pensamento e da vida. Tornou-se urgente a necessidade de conhecer integralmente a f\u00e9 da Igreja sobre a Palavra de Deus, de alargar com m\u00e9todos adequados o encontro com a Sagrada Escritura por parte de todos os crist\u00e3os e, ao mesmo tempo, acolher os novos caminhos que o Esp\u00edrito hoje sugere, para que a Palavra de Deus, nas suas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es, seja conhecida, ouvida, amada, aprofundada e vivida na Igreja, e assim se torne Palavra de verdade e de amor para todos os homens.  5. A finalidade deste S\u00ednodo \u00e9 eminentemente pastoral: aprofundando as raz\u00f5es doutrinais e deixando-se iluminar por elas, procura-se estender e refor\u00e7ar a pr\u00e1tica de encontro com a Palavra como fonte de vida nos diversos \u00e2mbitos da experi\u00eancia, propondo, para tal, aos crist\u00e3os e a todas as pessoas de boa vontade, caminhos justos e f\u00e1ceis para poder escutar Deus e falar com Ele.  Concretamente, o S\u00ednodo prop\u00f5e-se, entre os seus objectivos, contribuir para esclarecer certos aspectos fundamentais da verdade sobre a Revela\u00e7\u00e3o, tais como a Palavra de Deus, a Tradi\u00e7\u00e3o, a B\u00edblia, o Magist\u00e9rio, que justificam e asseguram um v\u00e1lido e eficaz caminho de f\u00e9; acender a estima e o amor profundo pela Sagrada Escritura, fazendo com que \u201cos fi\u00e9is tenham amplo acesso\u201d a ela;[8] renovar a escuta da Palavra de Deus, no momento lit\u00fargico e catequ\u00e9tico, nomeadamente com o exerc\u00edcio da Lectio Divina, devidamente adaptada \u00e0s v\u00e1rias circunst\u00e2ncias; oferecer ao mundo dos pobres uma Palavra de consola\u00e7\u00e3o e de esperan\u00e7a.  O presente S\u00ednodo quer, portanto, dar ao povo de Deus uma Palavra que seja p\u00e3o. Da\u00ed que se proponha promover um correcto exerc\u00edcio hermen\u00eautico da Escritura, dando uma boa orienta\u00e7\u00e3o ao necess\u00e1rio processo de evangeliza\u00e7\u00e3o e de incultura\u00e7\u00e3o; entende encorajar o di\u00e1logo ecum\u00e9nico, estreitamente vinculado \u00e0 escuta da Palavra de Deus; quer favorecer o confronto e o di\u00e1logo judeu-crist\u00e3o [9] e, de uma maneira mais vasta, o di\u00e1logo inter-religioso e inter-cultural. O S\u00ednodo entende realizar estes e outros objectivos, seguindo tr\u00eas passagens:  &#8211; a Revela\u00e7\u00e3o, a Palavra de Deus, a Igreja (cap. I), &#8211; a Palavra de Deus na vida da Igreja (cap. II), &#8211; a Palavra de Deus na miss\u00e3o da Igreja (cap. III).  Ser\u00e1 assim poss\u00edvel associar os momentos fundante e operativo da Palavra de Deus na Igreja.   Os presentes Lineamenta n\u00e3o t\u00eam, portanto, a inten\u00e7\u00e3o de exprimir todas as raz\u00f5es e aplica\u00e7\u00f5es de encontro com a Palavra de Deus, mas, \u00e0 luz do Vaticano II, apontar para as essenciais, sublinhando em simult\u00e2neo o dado doutrinal e a experi\u00eancia em acto e convidando a dar ulteriores e espec\u00edficos contributos.   <i>PERGUNTAS<\/i> Introdu\u00e7\u00e3o  1. Que &#8216;sinais dos tempos&#8217; mostram, no seu pa\u00eds, a urg\u00eancia deste S\u00ednodo sobre a Palavra de Deus? Que se espera dele?  2. Que rela\u00e7\u00e3o se pode colher entre o precedente S\u00ednodo sobre a Eucaristia e o actual sobre a Palavra de Deus?  3. Existem tradi\u00e7\u00f5es de experi\u00eancia b\u00edblica na sua Igreja particular? Quais? Existem nela grupos b\u00edblicos? Qual a sua tipologia?  <b>CAP\u00cdTULO I<\/b> Revela\u00e7\u00e3o, Palavra de Deus, Igreja \u201cMuitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual tamb\u00e9m criou o universo\u201d (Heb 1,1-2).  Deus tem a iniciativa. A Revela\u00e7\u00e3o divina manifesta-se como Palavra de Deus 6. \u201cAprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mist\u00e9rio da sua vontade\u201d .[10] Perante o risco de manietar o mist\u00e9rio de Deus em esquemas meramente humanos e numa rela\u00e7\u00e3o fria e arbitr\u00e1ria, o Conc\u00edlio Vaticano II, na Dei Verbum, faz uma s\u00edntese da f\u00e9 plurissecular da Igreja, indicando as linhas mestras de uma correcta reflex\u00e3o. Deus manifesta-Se de forma t\u00e3o gratuita quanto directa para estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o inter-pessoal de verdade e de amor com o homem e com o mundo que criou. Revela-Se a Si mesmo na realidade vis\u00edvel do cosmo e da hist\u00f3ria \u201cpor meio de palavras e ac\u00e7\u00f5es intimamente conexas\u201d ,[11] mostrando assim uma \u201ceconomia da Revela\u00e7\u00e3o\u201d , ou seja, um projecto que tem em vista a salva\u00e7\u00e3o do homem e, com ele, a de toda a cria\u00e7\u00e3o. \u00c9-nos assim revelada, ao mesmo tempo, a verdade sobre Deus uno e trino e a verdade sobre o homem que Deus ama e quer fazer feliz, verdade que atinge o m\u00e1ximo esplendor em Jesus Cristo, que \u201c\u00e9 simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a Revela\u00e7\u00e3o\u201d .[12] Esta rela\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o gratuita, que sup\u00f5e uma profunda comunh\u00e3o, an\u00e1loga \u00e0 da comunica\u00e7\u00e3o humana, \u00e9 qualificada pelo pr\u00f3prio Deus como sua Palavra, &#8216;Palavra de Deus&#8217;. Esta tem, portanto, de ser sempre radicalmente compreendida como um acto pessoal de Deus uno e trino que ama e que, por isso, fala, e fala ao homem, para que reconhe\u00e7a o seu amor e lhe corresponda.[13] Prova-o uma leitura atenta da B\u00edblia desde o G\u00e9nesis ao Apocalipse. Quando se l\u00ea e, sobretudo, se proclama a Palavra de Deus, como acontece na Eucaristia, \u201csacramento por excel\u00eancia\u201d [14], e nos outros sacramentos, o pr\u00f3prio Senhor nos convida a &#8216;realizar&#8217; um evento inter-pessoal, singular e profundo, de comunh\u00e3o entre Ele e n\u00f3s, e entre n\u00f3s. A Palavra de Deus \u00e9, de facto, eficaz e realiza o que afirma (cf. Heb 4,12).  A pessoa humana tem necessidade de Revela\u00e7\u00e3o 7. O homem tem a capacidade de conhecer Deus com os meios que Ele mesmo lhe deu (cf. Rom 1, 20), nomeadamente o mundo da cria\u00e7\u00e3o (liber naturae). Todavia, nas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em que se encontra, esse conhecimento tornou-se, por causa do pecado, obscuro e incerto e negado por n\u00e3o poucos. Mas Deus n\u00e3o abandona a sua criatura, infundindo nela um \u00edntimo desejo de luz, de salva\u00e7\u00e3o e de paz, embora nem sempre consciente. A manter vivo um tal anseio contribuiu o an\u00fancio do Evangelho a todo o mundo, produzindo valores religiosos e culturais. Tais valores ajudam hoje muitos a procurar o Deus de Jesus Cristo. Na pr\u00f3pria vida do povo de Deus nota-se uma profunda aspira\u00e7\u00e3o \u2013 mais do que necessidade \u2013 a saborear uma f\u00e9 pura e fascinante, que afaste o v\u00e9u da ignor\u00e2ncia, da confus\u00e3o e da desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a Deus e ao homem, e leve assim a discernir e a refor\u00e7ar com a verdade de Deus as muitas conquistas do progresso. Pode-se, portanto, falar de uma necessidade profunda e difusa que, \u00e0 maneira de uma invoca\u00e7\u00e3o, abre existencialmente \u00e0 verdade da Revela\u00e7\u00e3o, feita pelo pr\u00f3prio Deus em favor da humanidade, ou seja, \u00e0 escuta da sua Palavra. Interessar-se por ela constitui o fundamento dos objectivos do S\u00ednodo, pelas repercuss\u00f5es de \u00e2mbito pastoral, enquanto autentifica e encoraja o processo da nova evangeliza\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, permite colher preciosas indica\u00e7\u00f5es para o di\u00e1logo ecum\u00e9nico, inter-religioso e cultural.  A Palavra de Deus entrela\u00e7a-se com a hist\u00f3ria do homem e guia o seu caminho 8. Nalgumas culturas, o homem contempor\u00e2neo sente-se art\u00edfice e, portanto, senhor da sua hist\u00f3ria, encontrando dificuldade em aceitar que algu\u00e9m se insira no seu mundo sem dialogar com ele e sem lhe dar as raz\u00f5es da sua presen\u00e7a. Tal atitude pode verificar-se, tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a Deus, de uma maneira muitas vezes errada, mas sempre duvidosa. Deus, por\u00e9m, n\u00e3o podendo calar a verdade da sua Palavra, assegura ao homem que se trata sempre de uma Palavra de amigo, para o seu bem e no respeito da sua liberdade, pedindo-lhe, ao mesmo tempo, uma escuta leal que o leve a meditar. De facto, a Palavra de Deus \u201ctem de aparecer a todo o homem como abertura para os seus pr\u00f3prios problemas, como resposta \u00e0s suas perguntas, um alargamento aos seus valores e simultaneamente uma satisfa\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias aspira\u00e7\u00f5es\u201d .[15] Ainda \u00e0 luz da Dei Verbum, \u00e9-nos dado saber que a sua Palavra, enquanto pronunciada por Deus, se precede toda a iniciativa e palavra humana, \u00e9 para abrir ao homem impens\u00e1veis horizontes de verdade e de sentido, como atestam Gen 1; Jo 1,1ss; Heb 1,1; Rom 1,19-20; G\u00e1l 4,4; Col 1,15-17. Diz S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno: \u201cQuando a Escritura se abaixa para usar as nossas pobres palavras, \u00e9 para que das coisas que nos parecem perto nos fa\u00e7a subir aos poucos, como que por degraus, at\u00e9 \u00e0 sua sublimidade\u201d.[16]  Desde as origens, Deus quis \u201cabrir o caminho da salva\u00e7\u00e3o sobrenatural\u201d .[17] \u00c0 luz da Escritura, podemos compreender como a sua poderosa Palavra iniciou um di\u00e1logo vivo, por vezes dram\u00e1tico, mas por fim vitorioso, com a humanidade, j\u00e1 desde o seu in\u00edcio e, mais tarde, na hist\u00f3ria do seu povo Israel, chegando \u00e0 Revela\u00e7\u00e3o suprema na hist\u00f3ria de Jesus Cristo, a sua Palavra eterna feita carne (cf. Jo 1,14). Canta Santo Efr\u00e9m: \u201cContemplava eu ent\u00e3o o Verbo Criador e comparava-o ao Rochedo que peregrinava com o povo no meio do deserto. Sem recolher nem acumular \u00e1guas, esse derramava ele sobre o povo torrentes maravilhosas. N\u00e3o havia nele nenhuma \u00e1gua, mas dele brotavam oceanos; assim, do nada, o Verbo criou as suas obras. Feliz de quem merecer herdar o teu Para\u00edso! Mois\u00e9s, no seu Livro, descreve a cria\u00e7\u00e3o de toda a Natureza, para que a Natureza e o Livro d\u00eaem testemunho do seu Criador; a Natureza mediante o uso, o Livro mediante a leitura. S\u00e3o estes os testemunhos que v\u00eam de todo o lado. Encontram-se em todos os tempos, est\u00e3o presentes em toda a hora, mostrando ao infiel como \u00e9 ingrato com o Criador\u201d.[18]  Relevante \u00e9 a incid\u00eancia pastoral desta vis\u00e3o da Palavra de Deus. Esta entrela\u00e7a a sua hist\u00f3ria com a hist\u00f3ria humana, faz-se hist\u00f3ria humana, pelo que a nossa hist\u00f3ria de homens n\u00e3o \u00e9, portanto, composta exclusivamente de pensamentos, palavras e iniciativas humanas. A Palavra de Deus deixa tra\u00e7os vivos na natureza e na cultura, ilumina as ci\u00eancias do homem para que assumam o seu justo valor, mas por estas ela tamb\u00e9m \u00e9 ajudada a p\u00f4r em evid\u00eancia a sua identidade e, ao mesmo tempo, a irradiar o original humanismo que lhe pertence. \u00c9 sobretudo uma Palavra que escolheu um povo para com ele partilhar o caminho de liberdade e salva\u00e7\u00e3o, mostrando a seriedade tenaz e paciente de Deus, de ser um \u201cEmanuel\u201d (Is 7,14), Deus-connosco (Is 8,10; cf. Rom 8,31; Ap 21,3). Da\u00ed se explica como a Palavra de Deus, gra\u00e7as ao testemunho da B\u00edblia, tenha encontrado eco nos pensamentos e express\u00f5es do homem atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, por vezes de forma distorcida e sofredora, como um grito de ajuda, no meio das vicissitudes obscuras da hist\u00f3ria, produzindo extraordin\u00e1rios efeitos que se manifestam de modo fascinante nos santos. Vivendo os carismas particulares como dom do Esp\u00edrito Santo, estes mostraram as potencialidades enormes e originais da Palavra de Deus levada a s\u00e9rio.  Hoje \u00e9 de particular relev\u00e2ncia ajudar a compreender a justa rela\u00e7\u00e3o entre a Revela\u00e7\u00e3o p\u00fablica e constitutiva do Credo crist\u00e3o e as revela\u00e7\u00f5es privadas, discernindo a correspond\u00eancia destas com a f\u00e9 genu\u00edna.  Jesus Cristo \u00e9 a Palavra de Deus feita carne, a plenitude da Revela\u00e7\u00e3o  9. \u201cMuitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, falou-nos por seu Filho\u201d (Heb 1,1s).  Os crist\u00e3os em geral se apercebem da centralidade da pessoa de Jesus Cristo na Revela\u00e7\u00e3o de Deus, mas nem sempre sabem colher as raz\u00f5es dessa import\u00e2ncia e compreender em que sentido Jesus \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus; da\u00ed que, tamb\u00e9m na leitura da B\u00edblia, n\u00e3o lhes seja f\u00e1cil fazer dela uma leitura crist\u00e3.  No entanto e sempre \u00e0 luz da Dei Verbum, recorde-se que Deus quis uma iniciativa de todo imprevis\u00edvel, mas que se realizou: \u201cMandou o seu Filho, ou seja, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para morar no meio deles e explicar-lhes os segredos de Deus (cf. Jo 1,1-18). Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, mandado como homem aos homens, &#8216;diz palavras de Deus&#8217; (Jo 3,34) e realiza a obra de salva\u00e7\u00e3o que Lhe \u00e9 confiada pelo Pai (cf. Jo 5,36; 17,4)\u201d.[19] Deste modo, Jesus, na sua vida terrena e agora na celeste, assume e realiza todo o fim, o sentido, a hist\u00f3ria e o projecto que a Palavra de Deus cont\u00e9m, porque, como diz Santo Ireneu: \u201cCristo trouxe-nos a novidade inteira, ao trazer-nos a Si mesmo\u201d.[20]  \u00c9 pastoralmente importante, \u00e0 luz de Jesus Cristo, saber colher, por analogia, a val\u00eancia m\u00faltipla que tem a Palavra de Deus na f\u00e9 da Igreja, segundo o testemunho da pr\u00f3pria B\u00edblia. Manifesta-se, de facto, como Palavra eterna em Deus, irradia na cria\u00e7\u00e3o, assume perfil hist\u00f3rico nos profetas, manifesta-se na pessoa de Jesus, ecoa na voz dos ap\u00f3stolos, e hoje \u00e9 proclamada na Igreja. Forma um conjunto, cuja chave de interpreta\u00e7\u00e3o, pela inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, \u00e9 Cristo-Palavra. \u201cA Palavra de Deus, que no princ\u00edpio estava junto de Deus, n\u00e3o \u00e9, na sua plenitude, uma multiplicidade de palavras; n\u00e3o s\u00e3o muitas palavras, mas uma s\u00f3 Palavra que abarca um grande n\u00famero de ideias, de que cada ideia \u00e9 uma parte da Palavra na sua totalidade (&#8230;). E se Cristo apela para as &#8216;Escrituras&#8217;, como as que d&#8217;Ele d\u00e3o testemunho, considera os livros da Escritura um \u00fanico rolo, porque tudo o que foi escrito sobre Ele \u00e9 recapitulado num s\u00f3 todo\u201d .[21] V\u00ea-se assim uma continuidade na diferen\u00e7a.  A Igreja d\u00e1 o seu essencial an\u00fancio desta riqueza da Palavra. A comunidade crist\u00e3 sente-se gerada e renovada da Palavra de Deus, quando sabe compreend\u00ea-la em Jesus Cristo. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a Palavra de Jesus (que \u00e9 Jesus) deve ser compreendida, como Ele mesmo dizia, segundo as Escrituras (cf. Lc 24, 44-49), ou seja, na hist\u00f3ria do povo de Deus do Antigo Testamento, que O esperou como Messias, e agora na hist\u00f3ria da comunidade crist\u00e3, que O anuncia com a prega\u00e7\u00e3o, medita n&#8217;Ele com a B\u00edblia, experimenta a sua amizade e a sua guia na vida. S\u00e3o Bernardo afirma que, no plano da Encarna\u00e7\u00e3o da Palavra, Cristo \u00e9 o centro de todas as Escrituras. A Palavra de Deus, que j\u00e1 se ouvia no Antigo Testamento, tornou-se vis\u00edvel em Cristo.[22]  A Palavra de Deus como uma sinfonia 10. As indica\u00e7\u00f5es acima dadas permitem agora delinear o sentido que a Igreja, \u00e0 luz da Revela\u00e7\u00e3o, d\u00e1 \u00e0 Palavra de Deus. \u00c9 como uma sinfonia tocada por uma variedade de instrumentos, enquanto Deus comunica a sua Palavra de muitas formas e de muitos modos (cf. Heb 1,1), dentro de uma longa hist\u00f3ria e com uma diversidade de anunciadores, mas onde aparece uma hierarquia de significados e de fun\u00e7\u00f5es. \u00c9 correcto falar de sentido an\u00e1logo da Palavra.  a \u2013 \u00c0 luz da Revela\u00e7\u00e3o, a Palavra de Deus \u00e9 o Verbo eterno de Deus, a segunda pessoa da Sant\u00edssima Trindade, o Filho do Pai, fundamento da comunica\u00e7\u00e3o intra-trinit\u00e1ria e ad extra: \u201cNo princ\u00edpio era o Verbo, o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava, ao princ\u00edpio, junto de Deus. Tudo se fez por meio d&#8217;Ele, e, sem Ele, nada se fez\u201d (Jo 1,1-3; cf. Col 1,16).  b \u2013 Por isso, o mundo criado \u201cnarra a gl\u00f3ria de Deus\u201d (Sal 19,1); tudo \u00e9 sua voz (cf. Sir 46,17; Sal 68,34). No princ\u00edpio do tempo, com a sua Palavra, Deus cria o cosmo, pondo na cria\u00e7\u00e3o a marca da sua sabedoria, de que o homem, criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, \u00e9 o int\u00e9rprete natural (cf. Gen 1,26-27; Rom 1,19-20). Da Palavra, com efeito, o homem recebe a palavra para entrar em di\u00e1logo com Deus e com a cria\u00e7\u00e3o. Assim, Deus fez da cria\u00e7\u00e3o inteira, e do homem in primis, \u201cum testemunho perene de Si mesmo\u201d .[23]  c \u2013 \u201cO Verbo fez-Se carne\u201d (Jo 1,14): a Palavra por excel\u00eancia de Deus, a Palavra \u00faltima e definitiva, \u00e9 Jesus Cristo, a sua pessoa, a sua miss\u00e3o, a sua hist\u00f3ria intimamente unidas, segundo o plano do Pai, que culmina na P\u00e1scoa e tem a sua realiza\u00e7\u00e3o definitiva quando Jesus entregar o Reino ao Pai (cf. 1Cor 15,24). Ele \u00e9 o Evangelho de Deus para o homem (cf. Mc 1,1).  d \u2013 Em vista da Palavra, que \u00e9 o Filho encarnado, o Pai falou nos tempos antigos aos pais por meio dos profetas (cf. Heb 1,1) e, em for\u00e7a do Esp\u00edrito, os Ap\u00f3stolos continuam a anunciar Jesus e o seu Evangelho. Assim, ao servi\u00e7o da \u00fanica Palavra de Deus, as palavras do homem s\u00e3o assumidas como palavras de Deus, que ressoam no an\u00fancio dos profetas e dos Ap\u00f3stolos.  e \u2013 A Sagrada Escritura, fixando por divina inspira\u00e7\u00e3o a Palavra de Jesus com as palavras dos profetas e dos Ap\u00f3stolos, atesta-o de forma aut\u00eantica, e assim ela cont\u00e9m a Palavra de Deus e, enquanto inspirada, \u00e9 verdadeiramente Palavra de Deus,[24] totalmente orientada \u00e0 Palavra, que \u00e9 Jesus, porque \u201cas Escrituras, precisamente elas, d\u00e3o testemunho de Mim\u201d (Jo 5,39). Pelo carisma da inspira\u00e7\u00e3o, os livros da Sagrada Escritura t\u00eam uma for\u00e7a de apelo directo e concreto que outros textos e interven\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas n\u00e3o t\u00eam.  f \u2013 Mas a Palavra de Deus n\u00e3o fica bloqueada na escrita. Se, na verdade, o acto da Revela\u00e7\u00e3o terminou com a morte do \u00faltimo ap\u00f3stolo,[25] a Palavra revelada continua a ser anunciada e escutada na hist\u00f3ria da Igreja, que se empenha a proclam\u00e1-la ao mundo para responder \u00e0s suas expectativas. Assim, a Palavra continua o seu curso na prega\u00e7\u00e3o viva e nas muitas outras formas de servi\u00e7o de evangeliza\u00e7\u00e3o, pelo que a prega\u00e7\u00e3o \u00e9 Palavra de Deus, comunicada pelo Deus vivo a pessoas vivas em Jesus Cristo, atrav\u00e9s da Igreja. De um tal quadro pode-se compreender que, quando se prega a revela\u00e7\u00e3o de Deus, d\u00e1-se na Igreja um acontecimento que se pode chamar verdadeiramente Palavra de Deus.  Devem reconhecer-se na Palavra de Deus todas as qualidades de uma verdadeira comunica\u00e7\u00e3o inter-pessoal, como, por exemplo, uma fun\u00e7\u00e3o informativa, enquanto Deus comunica a sua verdade; uma fun\u00e7\u00e3o expressiva, enquanto Deus faz transparecer a sua maneira de pensar, de amar e de agir; uma fun\u00e7\u00e3o apeladora, enquanto Deus interpela e chama a uma escuta e a uma resposta de f\u00e9.  Caber\u00e1 aos pastores ajudar os fi\u00e9is a ter essa vis\u00e3o harm\u00f3nica da Palavra, evitando formas erradas ou redutivas ou de compreens\u00e3o amb\u00edgua, metendo em realce a sua liga\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com o mist\u00e9rio de Deus uno e trino e a sua revela\u00e7\u00e3o, a sua manifesta\u00e7\u00e3o no mundo criado e a sua presen\u00e7a germinal na vida e na hist\u00f3ria do homem, a sua suprema express\u00e3o em Jesus Cristo, a sua atesta\u00e7\u00e3o infal\u00edvel na Sagrada Escritura, a sua transmiss\u00e3o na Tradi\u00e7\u00e3o viva. Em rela\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio de Palavra de Deus, convertida em linguagem humana, ter-se-\u00e1 em conta a investiga\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sobre a linguagem e a sua comunica\u00e7\u00e3o.  \u00c0 Palavra de Deus corresponde a f\u00e9 do homem. A f\u00e9 manifesta-se na escuta  11. \u201cA Deus que Se revela deve prestar-se a obedi\u00eancia da f\u00e9\u201d.[26] A Ele que, ao falar, Se doa, o homem, ao escutar, \u201centrega-se (&#8230;) livre e totalmente\u201d.[27] Isso implica da parte da comunidade e de cada crente uma resposta plena a uma proposta de total comunh\u00e3o com Deus e de ades\u00e3o \u00e0 sua vontade.[28] Esta atitude de f\u00e9 comunional manifestar-se-\u00e1, em cada encontro com a Palavra, na prega\u00e7\u00e3o viva e na leitura da B\u00edblia. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a Dei Verbum prop\u00f5e para o encontro com o Livro Sagrado quanto globalmente afirma para a Palavra de Deus: \u201cDeus (&#8230;) fala aos homens como a amigos (&#8230;) para os convidar e os receber em comunh\u00e3o com Ele\u201d .[29] \u201cNos Livros Sagrados, o Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us vem amorosamente ao encontro dos seus filhos e conversa com eles\u201d.[30] Revela\u00e7\u00e3o \u00e9 comunh\u00e3o de amor, que a Escritura frequentemente exprime com o termo \u201calian\u00e7a\u201d (Gen 9,9; 15,18; Ex 24,1-18; Mc 14,24).   Aborda-se aqui um aspecto de not\u00e1vel incid\u00eancia pastoral: a f\u00e9 diz respeito \u00e0 Palavra de Deus em todos os seus sinais e linguagens. \u00c9 uma f\u00e9 que, em virtude da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, recebe da Palavra uma comunica\u00e7\u00e3o de verdade, atrav\u00e9s da narra\u00e7\u00e3o ou da f\u00f3rmula doutrinal; uma f\u00e9 que reconhece \u00e0 Palavra a prerrogativa de ser est\u00edmulo prim\u00e1rio para uma convers\u00e3o eficaz, luz para responder \u00e0s muitas perguntas da vida do crente, guia para um recto discernimento sapiencial da realidade, solicita\u00e7\u00e3o para &#8216;praticar&#8217; a Palavra (cf. Lc 8,21), e n\u00e3o s\u00f3 para a ler ou proferir, e finalmente fonte permanente de consola\u00e7\u00e3o e de esperan\u00e7a. Da\u00ed deriva, como s\u00f3lida l\u00f3gica da f\u00e9, o dever de reconhecer e garantir o primado da Palavra de Deus na pr\u00f3pria vida de crentes, recebendo-a como a Igreja a anuncia, compreende, explica e vive.  Maria, modelo de acolhimento da Palavra para o crente  12. No caminho de penetra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da Palavra de Deus, Maria de Nazar\u00e9, a partir do acontecimento da Anuncia\u00e7\u00e3o, torna-se mestra e m\u00e3e da Igreja e modelo vivo de todo o encontro pessoal e comunit\u00e1rio com a Palavra, que ela acolhe na f\u00e9, medita, interioriza e vive (cf. Lc 1,38; 2,19.51; Act 17,11). Maria, com efeito, escutava e meditava nas Escrituras, associando-as \u00e0s palavras de Jesus e aos acontecimentos que ia descobrindo na sua hist\u00f3ria. Diz Isaac de l&#8217;Etoile: \u201cNas Escrituras, divinamente inspiradas, o que \u00e9 dito em geral da virgem m\u00e3e Igreja, \u00e9 entendido singularmente da virgem m\u00e3e Maria. Heran\u00e7a do Senhor s\u00e3o de modo universal a Igreja, de modo especial Maria, de modo particular toda a alma fiel. No tabern\u00e1culo do seio de Maria, Cristo morou nove meses; no tabern\u00e1culo da f\u00e9 da Igreja, at\u00e9 ao fim do mundo; no conhecimento e no amor da alma fiel, por toda a eternidade\u201d.[31]   A Virgem Maria sabe olhar \u00e0 sua volta e vive as urg\u00eancias do quotidiano, ciente de que o que recebe do Filho como dom \u00e9 um dom para todos. Ela ensina a n\u00e3o ser alheios espectadores de uma Palavra de vida, mas a tornar-se participantes, deixando-se guiar pelo Esp\u00edrito Santo que habita no crente. Ela &#8216;glorifica&#8217; o Senhor, ao descobrir na sua vida a miseric\u00f3rdia de Deus, que a faz &#8216;bem-aventurada&#8217;, porque \u201cacreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor\u201d (Lc 1,45). Convida, al\u00e9m disso, todo o crente a fazer pr\u00f3prias as palavras de Jesus: \u201cFelizes os que acreditam sem ter visto\u201d (Jo 20,29). Maria \u00e9 a imagem do verdadeiro orante da Palavra, que sabe guardar com amor a Palavra de Deus, transformando-a em servi\u00e7o de caridade, mem\u00f3ria permanente, para manter acesa a l\u00e2mpada da f\u00e9 no quotidiano da exist\u00eancia. Diz Santo Ambr\u00f3sio que todo o crist\u00e3o que cr\u00ea concebe e gera o Verbo de Deus. Se h\u00e1 s\u00f3 uma m\u00e3e de Cristo segundo a carne, j\u00e1, segundo a f\u00e9, Cristo \u00e9 o fruto de todos.[32]  A Palavra de Deus, confiada \u00e0 Igreja, transmite-se a todas as gera\u00e7\u00f5es  13. \u201cDisp\u00f4s Deus, em toda a sua benignidade, que tudo quanto revelara para a salva\u00e7\u00e3o de todos permanecesse \u00edntegro para sempre e fosse transmitido a todas as gera\u00e7\u00f5es\u201d .[33]  Amigo e Pai dos homens, Deus ainda fala. De certo modo, a Revela\u00e7\u00e3o, embora conclu\u00edda, continua a comunicar, pelo que a Palavra de Deus \u00e9 para n\u00f3s sempre contempor\u00e2nea e actual. Antes, pode manifestar ainda mais o seu contributo de luz e fazer crescer a nossa compreens\u00e3o. Isso acontece porque o Pai, dando o Esp\u00edrito de Jesus \u00e0 Igreja, confia a esta o tesouro da revela\u00e7\u00e3o,[34] torna-a primeira destinat\u00e1ria e testemunha privilegiada da Palavra amorosa e salv\u00edfica de Deus.  Por isso, na Igreja a Palavra n\u00e3o \u00e9 dep\u00f3sito inerte, mas, tornando-se \u201cnorma suprema da f\u00e9\u201d e pot\u00eancia de vida, \u201cprogride sob a assist\u00eancia do Esp\u00edrito Santo\u201d e \u201ccresce\u201d com a \u201creflex\u00e3o e estudo dos crentes\u201d , com a experi\u00eancia pessoal de vida espiritual e a prega\u00e7\u00e3o dos Bispos.[35] Testemunham-no de modo especial os homens de Deus, que &#8216;habitaram&#8217; a Palavra.[36] \u00c9 evidente que a verdadeira e prim\u00e1ria miss\u00e3o da Igreja \u00e9 transmitir a divina Palavra a todos os homens, em todos os tempos e em todos os lugares, segundo o mandato de Jesus (cf. Mt 28,18-20). A hist\u00f3ria atesta como isso se deu e continua a dar tamb\u00e9m agora, depois de tantos s\u00e9culos, no meio de diversos obst\u00e1culos, mas tamb\u00e9m com tanta vitalidade e fecundidade.  Tradi\u00e7\u00e3o e Escritura na Igreja, um s\u00f3 dep\u00f3sito sagrado da Palavra de Deus 14. A este respeito, \u00e9 fundamental recordar que a Palavra de Deus, em Jesus Cristo convertida em Evangelho ou feliz not\u00edcia e, como tal, entregue \u00e0 prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, continua o seu curso atrav\u00e9s de dois pontos de refer\u00eancia, reconhec\u00edveis e estreitamente interligados: por um lado, o fluxo vital da Tradi\u00e7\u00e3o viva, manifestada por \u201ctudo o que ela \u00e9 e por tudo aquilo em que ela acredita\u201d [37]e, portanto, pelo culto, pela doutrina e pela vida da Igreja e, por outro lado, a Sagrada Escritura, que desta Tradi\u00e7\u00e3o viva, por inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, conserva, precisamente na imutabilidade da escrita, os elementos constitutivos e origin\u00e1rios. \u201cPortanto, a Sagrada Tradi\u00e7\u00e3o e a Escritura Sagrada de um e outro Testamento s\u00e3o como que um espelho, no qual a Igreja, peregrinando na terra, contempla a Deus, de Quem tudo recebe, at\u00e9 que seja conduzida a v\u00ea-l&#8217;O face a face, tal qual Ele \u00e9 (cf. 1Jo 3,2)\u201d .[38] Ao Magist\u00e9rio da Igreja, que n\u00e3o est\u00e1 acima da Palavra de Deus, cabe o m\u00fanus de \u201cinterpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida\u201d .[39]  O Conc\u00edlio Vaticano II insiste sobre a unidade de origem e sobre as m\u00faltiplas conex\u00f5es entre Tradi\u00e7\u00e3o e Escritura: a Igreja acolhe-as \u201ccom igual afecto de piedade e rever\u00eancia\u201d .[40] Um insubstitu\u00edvel dever de servi\u00e7o \u00e9 prestado pelo Magist\u00e9rio, quando, garantindo uma interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica da Palavra de Deus, a \u201couve piamente, guarda santamente e fielmente exp\u00f5e\u201d [41].  Do ponto de vista pastoral, seguindo a doutrina da Igreja, devem ser esclarecidas conceptualmente e traduzidas em experi\u00eancia de vida as rela\u00e7\u00f5es entre Tradi\u00e7\u00e3o e Escritura, como, por exemplo, o facto de a Tradi\u00e7\u00e3o preceder originariamente a Escritura, e ser sempre como que o seu h\u00famus vital, que \u201cpermite compreender mais profundamente e tornar incessantemente mais operantes as pr\u00f3prias Sagradas Letras\u201d .[42] Como, por outro lado, \u201cse deve aplicar por excel\u00eancia \u00e0 Sagrada Escritura o que foi dito: &#8216;a Palavra de Deus \u00e9 viva e eficaz (Heb 4,12), e tem poder de edificar e dar heran\u00e7a a todos os santificados&#8217; (Act 30,32; cf. 1 Tes 2,13)\u201d.[43] A Sagrada Escritura e a Tradi\u00e7\u00e3o s\u00e3o ambas canais que comunicam a Palavra de Deus, a qual, por conseguinte, possui a sua plenitude de sentido e de gra\u00e7a na experi\u00eancia de ambas, &#8216;uma dentro da outra&#8217;, pelo que, nesta \u00f3ptica, se podem chamar e s\u00e3o Palavra de Deus.  S\u00e3o v\u00e1rias as consequ\u00eancias de uma not\u00e1vel incid\u00eancia no \u00e2mbito pastoral. N\u00e3o pode haver uma &#8216;sola Scriptura&#8217; isolada: a Escritura est\u00e1 ligada \u00e0 Igreja, isto \u00e9, ao sujeito que acolhe e compreende tanto a Tradi\u00e7\u00e3o como a Escritura. A Escritura desempenha um papel essencial para ter acesso \u00e0 Palavra na sua genuinidade fontal, tornando-se assim crit\u00e9rio para a recta compreens\u00e3o da Tradi\u00e7\u00e3o.  Deve-se, portanto, considerar nos seus efeitos pr\u00e1ticos a distin\u00e7\u00e3o entre a Tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica constitutiva, a tradi\u00e7\u00e3o posterior que interpreta e actualiza e as demais tradi\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas; como tamb\u00e9m dever\u00e1 avaliar-se o alcance decisivo do reconhecimento can\u00f3nico que a Igreja operou relativamente \u00e0s Escrituras, garantindo a sua autenticidade (73 livros: 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento), [44] perante a prolifera\u00e7\u00e3o de livros n\u00e3o aut\u00eanticos ou ap\u00f3crifos, de ontem, de hoje e de sempre.  Permanecem, por fim, e sempre como pano de fundo, o confronto e o di\u00e1logo delicado, necess\u00e1rio e apaixonado entre Escritura e Tradi\u00e7\u00e3o com os sinais da Palavra de Deus no mundo criado, nomeadamente com o homem e a sua hist\u00f3ria.[45]  No sulco da Tradi\u00e7\u00e3o viva e, portanto, como servi\u00e7o genu\u00edno \u00e0 Palavra de Deus, deve tamb\u00e9m atender-se \u00e0 forma do Catecismo, desde o primeiro S\u00edmbolo da f\u00e9, n\u00facleo de todo o Catecismo, at\u00e9 \u00e0s diversas exposi\u00e7\u00f5es feitas no decorrer dos s\u00e9culos, cujas express\u00f5es mais recentes s\u00e3o, na Igreja universal, o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica e, nas Igrejas locais, os respectivos Catecismos.   Sagrada Escritura, Palavra de Deus inspirada  15. \u201c Sagrada Escritura \u00e9 Palavra de Deus enquanto consignada por escrito sob a inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo\u201d.[46] \u00c9 qualificada sobretudo com dois nomes: Escritura (sagrada) e B\u00edblia, t\u00edtulos por si j\u00e1 significativos, como sendo o Texto e o Livro por excel\u00eancia, com uma difus\u00e3o que supera os confins da Igreja.   Em linha de princ\u00edpio, pela sua incid\u00eancia operativa na leitura da B\u00edblia, devem ser considerados os seguintes pontos: no quadro teol\u00f3gico de refer\u00eancia acima acenado, a Escritura e a Tradi\u00e7\u00e3o comunicam de forma imut\u00e1vel a Palavra de Deus e fazem ressoar \u201ca voz do Esp\u00edrito Santo\u201d;[47] o significado do carisma da inspira\u00e7\u00e3o, com que o Esp\u00edrito Santo faz dos livros b\u00edblicos Palavra de Deus e os confia \u00e0 Igreja, para serem, portanto, acolhidos na obedi\u00eancia da f\u00e9; a unidade do C\u00e2none como crit\u00e9rio de interpreta\u00e7\u00e3o da Sagrada Escritura; a compreens\u00e3o da verdade da B\u00edblia, antes de mais, como \u201ca verdade que Deus, para a nossa salva\u00e7\u00e3o, quis consignar nas Sagradas Letras\u201d;[48] o sentido e o alcance da identidade da B\u00edblia como Palavra de Deus em linguagem humana, pelo que a interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia se faz de forma unit\u00e1ria, sob a guia da f\u00e9, com crit\u00e9rios filos\u00f3ficos e teol\u00f3gicos, \u00e0 luz sobretudo da Nota da Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o B\u00edblica, A interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia na Igreja.[49]  Hoje, cada vez mais se nota no povo de Deus, como j\u00e1 observava Am\u00f3s, uma fome e sede da Palavra de Deus (cf. Am 8,11-12). \u00c9 uma necessidade vital a n\u00e3o minimizar, porque \u00e9 o pr\u00f3prio Senhor que est\u00e1 a suscit\u00e1-la. Por outro lado, tamb\u00e9m se nota com tristeza como essa necessidade n\u00e3o seja sentida por toda a parte, porque a Palavra de Deus circula pouco e ainda n\u00e3o se favorece de modo adequado o encontro com o Livro Sagrado. Ajudar os fi\u00e9is a compreender o que \u00e9 a B\u00edblia, porque existe, o que ela d\u00e1 \u00e0 f\u00e9, como se a usa, \u00e9 uma exig\u00eancia importante a que a Igreja deu sempre resposta, e ainda hoje responde de modo especial em quatro cap\u00edtulos da Dei Verbum.[50] Conhec\u00ea-los adequadamente, servindo-se de outros contributos do Magist\u00e9rio e de uma s\u00e9ria investiga\u00e7\u00e3o, torna-se uma tarefa imprescind\u00edvel nas nossas comunidades.  Interpretar a Palavra de Deus na Igreja, uma tarefa necess\u00e1ria e delicada   16. A vis\u00e3o de tantos crist\u00e3os que, em comunidade ou individualmente, perscrutam de forma muito t\u00e3o intensa a Palavra de Deus no Livro Sagrado, \u00e9 para a Igreja uma preciosa possibilidade de habilitar os fi\u00e9is a uma sua correcta compreens\u00e3o e actualiza\u00e7\u00e3o. De certo modo, isso mais se imp\u00f5e hoje, que se abre um novo confronto entre a Palavra de Deus e as ci\u00eancias do homem, nomeadamente no \u00e2mbito da investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, cient\u00edfica e hist\u00f3rica. Reconhece-se a riqueza em termos de verdade e de valores sobre Deus, o homem e as coisas, que prov\u00e9m desse contacto entre Palavra e cultura, como tamb\u00e9m se prop\u00f5e um constante confronto sobre problemas in\u00e9ditos. A raz\u00e3o, portanto, interpela a f\u00e9 e \u00e9 por esta instigada a colaborar para uma verdade e vida que sejam conformes \u00e0 revela\u00e7\u00e3o de Deus e \u00e0s expectativas da humanidade.[51]  N\u00e3o faltam, por\u00e9m, tamb\u00e9m os riscos de uma interpreta\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria e redutiva, como \u00e9 o fundamentalismo: por um lado, pode manifestar o desejo de ser fi\u00e9is ao texto, mas, por outro, despreza a pr\u00f3pria natureza dos textos, caindo em graves erros e gerando mesmo conflitos in\u00fateis.[52] Outros riscos prov\u00eam das leituras \u201cideol\u00f3gicas\u201d ou simplesmente humanas, sem o suporte da f\u00e9 (cf. 2Pe 1,19-20; 3,16), que chegam a configurar-se na contraposi\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o entre forma escrita atestada antes de mais na B\u00edblia, forma viva do an\u00fancio e experi\u00eancia de vida dos crentes. Torna-se igualmente dif\u00edcil reconhecer o papel que cabe ao Magist\u00e9rio no servi\u00e7o da Palavra de Deus, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 B\u00edblia como \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o. Em geral, nota-se um fraco ou impreciso conhecimento das regras hermen\u00eauticas relativas \u00e0 identidade da Palavra, feitas de crit\u00e9rios humanos e revelados, no contexto da Tradi\u00e7\u00e3o eclesial e em obs\u00e9quio ao Magist\u00e9rio.  \u00c0 luz do Vaticano II e do Magist\u00e9rio sucessivo,[53] alguns aspectos parecem carecer hoje de uma aten\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o espec\u00edficas, em vista de uma adequada comunica\u00e7\u00e3o pastoral; ou seja, a B\u00edblia, livro de Deus e do homem, deve ser lida unificando de modo correcto o sentido hist\u00f3rico-literal com o sentido teol\u00f3gico-espiritual.[54] Isso significa que, para uma correcta exegese, \u00e9 necess\u00e1rio o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico, convenientemente enriquecido com outras formas de abordagem.[55] H\u00e1 que enfrentar o problema interpretativo da Escritura, mas, para se chegar ao seu sentido total, \u00e9 necess\u00e1rio recorrer a crit\u00e9rios teol\u00f3gicos, repropostos pela Dei Verbum: \u201cconte\u00fado e unidade de toda a Sagrada Escritura, Tradi\u00e7\u00e3o viva de toda a Igreja, e analogia da f\u00e9\u201d .[56] Sente-se hoje a necessidade de uma aprofundada reflex\u00e3o teol\u00f3gica e pastoral para formar as comunidades a uma intelig\u00eancia recta e frutuosa da Sagrada Escritura como Palavra de Deus, compreendida no mist\u00e9rio da cruz e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, vivo na Igreja.  \u201cPor outras palavras \u2013 afirma o Papa Bento XVI \u2013  \u00e9 meu grande desejo que os te\u00f3logos aprendam a ler e a amar a Escritura do modo como, segundo a Dei Verbum, o Conc\u00edlio quis: que vejam a unidade interior da Escritura uma coisa hoje ajudada pela &#8216;exegese can\u00f3nica&#8217; (que sem d\u00favida ainda se encontra num t\u00edmido est\u00e1dio inicial) e que depois fa\u00e7amos dela uma leitura espiritual, que n\u00e3o \u00e9 algo exterior, de car\u00e1cter edificante, mas ao contr\u00e1rio, um imerger-se interiormente na presen\u00e7a da Palavra. Parece-me uma tarefa muito importante fazer algo neste sentido, contribuir para que, paralelamente \u00e0 exegese hist\u00f3rico-cient\u00edfica seja feita deveras uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Escritura viva, como Palavra de Deus actual\u201d.[57]  Numa tal perspectiva, h\u00e1 que ter cuidadosamente em conta o contributo do Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, as diversas resson\u00e2ncias e tradi\u00e7\u00f5es que a B\u00edblia suscita na vida do povo de Deus e o contributo das ci\u00eancias teol\u00f3gicas e humanas.  A par de todo este empenho, n\u00e3o se pode esquecer a interpreta\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus, que se realiza todas as vezes que a Igreja se re\u00fane para celebrar os divinos mist\u00e9rios. A esse respeito, recorda a Introdu\u00e7\u00e3o ao Leccion\u00e1rio proclamado na Eucaristia: \u201cJ\u00e1 que, por vontade do pr\u00f3prio Cristo, o novo povo de Deus \u00e9 distinto na admir\u00e1vel variedade dos seus membros, assim tamb\u00e9m s\u00e3o diferentes as tarefas e os encargos que pertencem a cada um no que diz respeito \u00e0 Palavra de Deus: aos fi\u00e9is cabe ouvi-la e medit\u00e1-la; j\u00e1 o exp\u00f4-la pertence apenas \u00e0queles que, em for\u00e7a da Sagrada Ordena\u00e7\u00e3o, t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o magisterial, ou \u00e0queles a quem foi confiado o exerc\u00edcio deste minist\u00e9rio. Assim, na doutrina, na vida e no culto, a Igreja perpetua e transmite a todas as gera\u00e7\u00f5es tudo o que ela mesma \u00e9, tudo aquilo em que ela cr\u00ea, para assim tender sem cessar, ao longo dos s\u00e9culos, \u00e0 plenitude da verdade divina, at\u00e9 que nela se realize a Palavra de Deus\u201d.[58]  Antigo e Novo Testamento, uma s\u00f3 economia da salva\u00e7\u00e3o   17. N\u00e3o se pode estar completamente satisfeitos com o conhecimento e a pr\u00e1tica que tantos t\u00eam das Escrituras. Tamb\u00e9m por dificuldades n\u00e3o resolvidas, assiste-se por vezes a uma certa resist\u00eancia perante certas p\u00e1ginas do Antigo Testamento que se afiguram dif\u00edceis, sujeitas a serem postas de lado, a uma selec\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria, a uma recusa. Segundo a f\u00e9 da Igreja, o Antigo Testamento deve ser tido como parte da \u00fanica B\u00edblia dos crist\u00e3os, reconhecendo os seus valores permanentes, a rela\u00e7\u00e3o que liga os dois Testamentos.[59] De tudo isto nasce a necessidade de uma urgente forma\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura crist\u00e3 do Antigo Testamento. Neste ponto, vem em nossa ajuda a praxe lit\u00fargica, que sempre proclama o Antigo Testamento como p\u00e1gina essencial para uma compreens\u00e3o plena do Novo Testamento, como atesta o pr\u00f3prio Jesus no epis\u00f3dio de Ema\u00fas, onde o Mestre \u201ccome\u00e7ando a falar de Mois\u00e9s e de todos os profetas lhes explicou em todas as Escrituras o que a Ele se referia\u201d (Lc 24,27). As Leituras lit\u00fargicas do Antigo Testamento oferecem, pois, um precioso itiner\u00e1rio para o encontro org\u00e2nico e articulado com o Texto Sagrado. F\u00e1-lo, quer no uso do Salmo Responsorial que convida a rezar e a meditar quanto foi anunciado, quer na aproxima\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica entre a primeira Leitura e o Evangelho na perspectiva de s\u00edntese do mist\u00e9rio de Cristo. Com efeito, reza o antigo ditado que o Novo Testamento est\u00e1 oculto no Antigo, e o Antigo \u00e9 desvelado no Novo Testamento: Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet.[60]   Diz S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno: \u201cO que o Antigo Testamento prometeu, o Novo Testamento o mostrou; o que aquele anuncia de forma velada, este proclama-o abertamente como sendo presente. Por isso, o Antigo Testamento \u00e9 profecia do Novo Testamento; e o melhor coment\u00e1rio do Antigo Testamento \u00e9 o Novo Testamento\u201d .[61]  Quanto ao Novo Testamento, hoje certamente mais familiar na pr\u00e1tica b\u00edblica, gra\u00e7as tamb\u00e9m \u00e0 riqueza dos Leccion\u00e1rios e da Liturgia das Horas, h\u00e1 que recordar o valor central dos Evangelhos, por isso proclamados de forma completa nos tr\u00eas anos do ciclo lit\u00fargico festivo e cada ano nos dias feriais, n\u00e3o esquecendo, todavia, o grande ensinamento de Paulo e dos outros Ap\u00f3stolos.[62]   <i>PERGUNTAS<\/i> Cap\u00edtulo I 1. Conhecimento da Palavra de Deus na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o  Entre os fi\u00e9is (par\u00f3quias, comunidades religiosas, movimentos), que ideia se tem de Revela\u00e7\u00e3o, Palavra de Deus, B\u00edblia, Tradi\u00e7\u00e3o, Magist\u00e9rio? Colhem-se os diversos n\u00edveis de significado de Palavra de Deus? Jesus Cristo \u00e9 visto como centro da Palavra de Deus? Qual a rela\u00e7\u00e3o entre Palavra de Deus e B\u00edblia? Quais os aspectos menos compreendidos? Por que raz\u00f5es?   2. Palavra de Deus e Igreja   Em que medida a abordagem da Palavra de Deus incrementa a consci\u00eancia viva de pertencer \u00e0 Igreja, Corpo de Cristo, e mobiliza para a aut\u00eantica miss\u00e3o eclesial? Como \u00e9 compreendida a rela\u00e7\u00e3o entre Palavra de Deus e Igreja? Entre B\u00edblia e Tradi\u00e7\u00e3o, mant\u00e9m-se uma correcta rela\u00e7\u00e3o no estudo exeg\u00e9tico e teol\u00f3gico e nos encontros com o Livro Sagrado? A catequese \u00e9 guiada pela Palavra de Deus? Esta valoriza bem a Sagrada Escritura? Como se colhe a import\u00e2ncia e a responsabilidade do Magist\u00e9rio na proclama\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus? Existe uma genu\u00edna escuta de f\u00e9 da Palavra de Deus? Quais os aspectos a esclarecer e a refor\u00e7ar?   3. Indica\u00e7\u00f5es de f\u00e9 da Igreja sobre a Palavra de Deus  Que acolhimento teve a Dei Verbum? E o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica? Qual o espec\u00edfico papel magisterial dos Bispos no apostolado da Palavra de Deus? Qual o papel dos ministros ordenados, presb\u00edteros e di\u00e1conos, na proclama\u00e7\u00e3o da Palavra (cf. LG 25.28)? Que rela\u00e7\u00e3o deve existir entre a Palavra de Deus e a vida consagrada? Como interv\u00e9m a Palavra de Deus na forma\u00e7\u00e3o dos futuros presb\u00edteros? De que orienta\u00e7\u00f5es tem hoje necessidade o povo de Deus no tocante a Palavra de Deus, e nomeadamente os presb\u00edteros, os di\u00e1conos, as pessoas consagradas e os leigos?  4. A B\u00edblia como Palavra de Deus  Quais as raz\u00f5es que hoje levam os crist\u00e3os a desejar a B\u00edblia? Que contributo esta d\u00e1 \u00e0 vida de f\u00e9? Como \u00e9 acolhida no mundo n\u00e3o crist\u00e3o? E entre as pessoas de cultura? Pode-se falar de uma abordagem sempre correcta da Escritura? Quais os defeitos mais comuns? Como \u00e9 compreendido o carisma da inspira\u00e7\u00e3o e da verdade da Escritura? Tem-se em conta o sentido espiritual da Escritura como sentido \u00faltimo querido por Deus? Como \u00e9 acolhido o Antigo Testamento? Se os Evangelhos s\u00e3o os mais usados, podem considerar-se suficientes o seu conhecimento e a sua leitura? Quais s\u00e3o as &#8216;p\u00e1ginas dif\u00edceis&#8217; da B\u00edblia hoje mais problem\u00e1ticas e que se devem enfrentar?  5. A f\u00e9 na Palavra de Deus  Quais s\u00e3o as atitudes dos crentes perante a Palavra de Deus? A sua escuta \u00e9 feita numa f\u00e9 intensa e tem em vista gerar a f\u00e9? Quais s\u00e3o as raz\u00f5es que levam \u00e0 leitura da B\u00edblia? Podem-se indicar crit\u00e9rios de discernimento sobre o acolhimento crente da Palavra?  6. Maria e a Palavra de Deus  Porque \u00e9 que Maria \u00e9 mestra e m\u00e3e na escuta da Palavra de Deus? Como \u00e9 que ela a acolheu e viveu? De que modo Maria pode ser modelo do crist\u00e3o que escuta, medita e vive a Palavra de Deus?  <b>CAP\u00cdTULO II<\/b> A Palavra de Deus na vida da Igreja  \u201cAssim a Palavra que sai da minha boca n\u00e3o volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua miss\u00e3o\u201d (Is 55,11).  A Igreja nasce e vive da Palavra de Deus  18. A Igreja confessa que \u00e9 continuamente chamada e gerada pela Palavra de Deus. Por isso, para poder proclam\u00e1-la com amor e vigor, se coloca primeiro e constantemente \u201cem religiosa escuta\u201d [63]da mesma, deixa-se interpelar e ser interiormente tocada por ela, acolhe-a com f\u00e9 humilde e confiante, imitando Maria, que escuta e p\u00f5e em pr\u00e1tica a Palavra (cf. Lc 1,38), e que, por isso, o Senhor constitui modelo da Igreja.  Nesta perspectiva de ades\u00e3o \u00e0 Palavra, a comunidade crist\u00e3 encontra a Sagrada Escritura. \u201cCom efeito, nos Livros Sagrados, o Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us vem amorosamente ao encontro dos seus filhos e conversa com eles\u201d .[64] A Escritura, portanto, encontra-se no cora\u00e7\u00e3o e nas m\u00e3os da Igreja como a \u201cCarta que Deus enviou aos homens\u201d ,[65] o livro de vida, objecto de profunda venera\u00e7\u00e3o, analogamente ao pr\u00f3prio Corpo de Cristo.[66] Nela, a Igreja descobre qual \u00e9 o plano que Deus tem para ela, para o mundo dos homens e das coisas. Por isso, \u201cconsidera-a, juntamente com a Sagrada Tradi\u00e7\u00e3o, como a regra suprema da sua f\u00e9\u201d , proclama-a com vigor e encontra-a como \u201calimento da alma e fonte de vida espiritual\u201d .[67]   Da Igreja, o crist\u00e3o recebe a B\u00edblia; com a Igreja, l\u00ea-a e partilha o seu esp\u00edrito e objectivos, procurando, assim, a finalidade suprema de todo o encontro com a Palavra, como Jesus nos ensinou: o cumprimento da vontade de Deus com uma vida de f\u00e9, de esperan\u00e7a e caridade no seguimento do Mestre (cf. Lc 8,19-21).   A Palavra de Deus ampara a Igreja ao longo de toda a sua hist\u00f3ria  19. \u00c9 um dado constante, na vida do povo de Deus, receber for\u00e7a da Palavra, e isso desde o tempo em que o profeta falava ao seu povo, Jesus \u00e0 multid\u00e3o e aos disc\u00edpulos, os ap\u00f3stolos \u00e0 primeira comunidade, at\u00e9 aos nossos dias. Deve-se, portanto, observar atentamente como a presen\u00e7a da Palavra, sobretudo no testemunho da B\u00edblia, caracteriza as diversas \u00e9pocas no mundo b\u00edblico e na hist\u00f3ria da Igreja.   Assim, no tempo dos Padres, a Escritura \u00e9 o centro, como que a fonte donde se nutrem a teologia, a espiritualidade e a vida pastoral. Os Padres s\u00e3o os mestres insuper\u00e1veis daquela leitura &#8216;espiritual&#8217; da Escritura, que, quando \u00e9 genu\u00edna, n\u00e3o \u00e9 destrui\u00e7\u00e3o da &#8216;letra&#8217;, ou seja, de um saud\u00e1vel sentido hist\u00f3rico, mas \u00e9 capacidade de ler no Esp\u00edrito tamb\u00e9m a letra. Na Idade M\u00e9dia, a Sagrada P\u00e1gina constitui a base da reflex\u00e3o teol\u00f3gica; para poder compreend\u00ea-la, elabora-se a doutrina dos quatro sentidos (letra, alegoria, tropologia, anagogia);[68] na linha de uma antiga tradi\u00e7\u00e3o, a Lectio Divina constitui a forma mon\u00e1stica da ora\u00e7\u00e3o; \u00e9 fonte para a inspira\u00e7\u00e3o art\u00edstica; transmite-se ao povo nas m\u00faltiplas formas da prega\u00e7\u00e3o e da piedade popular.[69] Na Idade Moderna, o afirmar-se do esp\u00edrito cr\u00edtico, o progresso cient\u00edfico, a divis\u00e3o dos crist\u00e3os e o subsequente empenho ecum\u00e9nico, estimulam, n\u00e3o sem dificuldades e contrastes, uma mais correcta metodologia de abordagem e, ao mesmo tempo, uma melhor compreens\u00e3o do mist\u00e9rio da Escritura no seio da Tradi\u00e7\u00e3o. Nos nossos dias, temos o projecto de renova\u00e7\u00e3o, baseado na centralidade da Palavra de Deus, de que foi o grande art\u00edfice o Conc\u00edlio Vaticano II.  Para al\u00e9m de uma pluralidade hist\u00f3rica de formas, h\u00e1 que considerar tamb\u00e9m uma pluralidade geogr\u00e1fica. A Palavra de Deus, gra\u00e7as sobretudo a um cont\u00ednuo contacto com a B\u00edblia, difunde-se e evangeliza as diversas Igrejas particulares nos cinco continentes; incultura-se progressivamente nelas, tornando-se alma vivificante da f\u00e9 de muitos povos, factor fundamental de comunh\u00e3o na Igreja, testemunho da inesgot\u00e1vel riqueza do seu mist\u00e9rio, fonte permanente de inspira\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o das culturas e da sociedade.  A Palavra de Deus preenche e anima, no poder do Esp\u00edrito Santo, toda a vida da Igreja  20. O Esp\u00edrito Santo, que guia a Igreja \u00e0 verdade todal (cf. Jo 16,13), permite compreender o verdadeiro sentido da Palavra de Deus, levando finalmente a um encontro sem v\u00e9u com o pr\u00f3prio Verbo, o Filho de Deus, Jesus de Nazar\u00e9, Revelador do Pai. O Esp\u00edrito \u00e9 a alma e o exegeta da Sagrada Escritura, que \u00e9 Palavra de Deus posta por escrito sob a sua inspira\u00e7\u00e3o. Por isso, a Sagrada Escritura deve ser \u201clida e interpretada com a ajuda do mesmo Esp\u00edrito com que foi escrita\u201d [70]. A Igreja, guiada pelo Esp\u00edrito, procura \u201calcan\u00e7ar uma intelig\u00eancia cada vez mais profunda das Sagradas Escrituras\u201d[71] para nutrir os seus filhos, servindo-se em especial do estudo dos Padres do Oriente e do Ocidente, da investiga\u00e7\u00e3o exeg\u00e9tica e teol\u00f3gica, da vida dos que deram testemunho e dos santos.  Preciosa nesse sentido \u00e9 a linha tra\u00e7ada na Introdu\u00e7\u00e3o ao Leccion\u00e1rio, onde se afirma: \u201cPara que Palavra de Deus realize verdadeiramente nos cora\u00e7\u00f5es o que faz ressoar aos ouvidos, requer-se a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo; sob a sua inspira\u00e7\u00e3o e com a sua ajuda, a Palavra de Deus torna-se fundamento da ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, norma e apoio de toda a vida. A ac\u00e7\u00e3o do mesmo Esp\u00edrito Santo n\u00e3o s\u00f3 precede, acompanha e segue toda a ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, mas sugere ao cora\u00e7\u00e3o de cada um (cf. Jo 14,15-17.25-26; 15,26-16,15) tudo o que na proclama\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus \u00e9 dito para toda a Assembleia dos fi\u00e9is e, fortalecendo a unidade entre todos, favorece tamb\u00e9m a diversidade dos carismas e valoriza a sua mult\u00edplice ac\u00e7\u00e3o\u201d .[72]  <a href=noticia.asp?noticiaid=45643><b>\u00bb\u00bb\u00bb Continua\u00e7\u00e3o \u00bb\u00bb\u00bb<\/b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lienamenta da XII Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos 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