{"id":243054,"date":"2022-06-05T09:30:54","date_gmt":"2022-06-05T08:30:54","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=243054"},"modified":"2022-06-04T23:05:14","modified_gmt":"2022-06-04T22:05:14","slug":"estamos-a-empurrar-os-mais-frageis-os-mais-fracos-os-mais-idosos-para-a-eutanasia-presidente-da-associacao-dos-medicos-catolicos-portugueses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/estamos-a-empurrar-os-mais-frageis-os-mais-fracos-os-mais-idosos-para-a-eutanasia-presidente-da-associacao-dos-medicos-catolicos-portugueses\/","title":{"rendered":"\u00abEstamos a empurrar os mais fr\u00e1geis, os mais fracos, os mais idosos para a eutan\u00e1sia\u00bb &#8211; presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Cat\u00f3licos Portugueses"},"content":{"rendered":"<p><em>A Assembleia da Rep\u00fablica vai debater, a 9 de junho, os novos projetos de lei sobre a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, na sequ\u00eancia de um agendamento potestativo do PS. Jos\u00e9 Diogo Ferreira Martins, especialista em cardiologia pedi\u00e1trica, lamenta a precipita\u00e7\u00e3o dos deputados e diz que as propostas deixam por resolver as quest\u00f5es levantadas pelos vetos anteriores<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-190196 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP.jpg 900w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como interpreta a urg\u00eancia de alguns partidos, em regressar ao tema da eutan\u00e1sia, passados apenas dois meses do in\u00edcio desta nova legislatura?<\/em><\/p>\n<p>V\u00eam-me \u00e0 cabe\u00e7a v\u00e1rios adjetivos. Tristeza, perplexidade, surpresa. Porque na realidade, os deputados da atual maioria parlamentar entenderam tornar urgente de uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 de todo urgente e que n\u00e3o foi pedida pelo povo portugu\u00eas. Na primeira oportunidade que tiveram para come\u00e7ar a falar deste assunto, falaram; vai ser discutido na pr\u00f3xima semana, por isso as minhas primeiras palavras s\u00e3o de consterna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Parlamento tem v\u00e1rias tomadas de posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia. A Ordem dos M\u00e9dicos, j\u00e1 em v\u00e1rios momentos se declarou contr\u00e1ria a esta legaliza\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios setores de atividade e de pensamento tamb\u00e9m mostraram a sua oposi\u00e7\u00e3o. Faltou uma mobiliza\u00e7\u00e3o mais concertada, mais forte da sociedade civil para fazer ouvir melhor a sua voz?<\/em><\/p>\n<p>Penso que a sociedade civil foi bastante interventiva em manifestar-se contra esta possibilidade de projeto de lei. Temos todas as associa\u00e7\u00f5es profissionais &#8211; a Ordem dos M\u00e9dicos, a Ordem dos Enfermeiros, a Ordem dos Advogados, a Comiss\u00e3o Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida &#8211; em un\u00edssono contra este projeto de lei. Para mim, como m\u00e9dico, \u00e9 muito significativo perceber que os \u00faltimos seis baston\u00e1rios da Ordem dos M\u00e9dicos &#8211; que s\u00e3o pessoas naturalmente diferentes, com cren\u00e7as, com valores, com atitudes tamb\u00e9m distintas &#8211; concorreram para dizer a mesma coisa: a eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 um caminho aceit\u00e1vel para o nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apesar destes apelos reiterados, aos quais se junta uma peti\u00e7\u00e3o que reuniu 75 mil assinaturas solicitando a realiza\u00e7\u00e3o de um referendo, os deputados da atual maioria parlamentar entenderam que deveriam avan\u00e7ar com urg\u00eancia para a aprova\u00e7\u00e3o de um projeto lei, que j\u00e1 por duas vezes foi votado e foi vetado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na Europa, a eutan\u00e1sia \u00e9 legal na B\u00e9lgica, na Holanda, no Luxemburgo. Na Su\u00ed\u00e7a existe o suic\u00eddio assistido, que tamb\u00e9m foi aprovado em Espanha. Tomando o exemplo da realidade desses pa\u00edses \u00e9 poss\u00edvel, na sua opini\u00e3o e a partir do conhecimento que tem dessas realidades, afirmar-se que a chamada \u201crampa deslizante\u201d n\u00e3o \u00e9 um receio, mas sim uma realidade?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Lamentavelmente, \u00e9 isso mesmo. A rampa deslizante n\u00e3o \u00e9 apenas um receio\u2026 N\u00fameros s\u00e3o factos, s\u00e3o pessoas e s\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o que nos preocupa enquanto m\u00e9dicos, enquanto profissionais de sa\u00fade. O discurso que promoveu a aceita\u00e7\u00e3o e a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, nesses pa\u00edses, foi o mesmo que n\u00f3s vimos em Portugal e que estamos a assistir neste momento: isto ser\u00e1 uma coisa rara, para doen\u00e7as terminais, em situa\u00e7\u00f5es extremas para as quais a ci\u00eancia e a medicina j\u00e1 n\u00e3o conseguem oferecer um contributo. Isto, em si mesmo, j\u00e1 teria muito para comentar e para dizer, mas a verdade \u00e9 que a rampa deslizante se instala de forma brutal. \u00c9 mesmo esta a palavra que eu quero utilizar para a descrever: brutal.<\/p>\n<p>Onde inicialmente t\u00ednhamos eutan\u00e1sia limitada a doentes oncol\u00f3gicos terminais, temos hoje em dia eutan\u00e1sias que se aplicam a pessoas que est\u00e3o \u201ccansadas de viver\u201d, gente que tem problemas psiqui\u00e1tricos e que tem desejos de morte &#8211; que fazem parte da sua doen\u00e7a \u2013 as quais n\u00e3o fazem parte, naturalmente, daquilo que seria o esp\u00edrito da lei, tal como ele foi vendido numa forma inicial. Mais grave ainda, temos tamb\u00e9m crian\u00e7as, que obviamente n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia e que de uma forma compassiva \u2013 com muitas aspas, porque \u00e9 de facto uma utiliza\u00e7\u00e3o abusiva do termo -, s\u00e3o eutanasiadas a pedido dos seus pais ou dos m\u00e9dicos que deles tomam conta. Vemos quem ano ap\u00f3s ano, na B\u00e9lgica e na Holanda &#8211; em particular na Holanda, cujos n\u00fameros est\u00e3o dispon\u00edveis para quem os queira ver &#8211; t\u00eam vindo a aumentar de forma significativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou do esp\u00edrito da lei, mas a discuss\u00e3o em Portugal ainda est\u00e1 muito na letra da lei &#8211; porque se fala em doen\u00e7a fatal, incur\u00e1vel, grave&#8230; O que \u00e9 que esta indefini\u00e7\u00e3o nos mostra?<\/em><\/p>\n<p>O nosso presidente da Rep\u00fablica \u00e9 uma pessoa que, para al\u00e9m de ter uma sensibilidade humana muito grande, tem tamb\u00e9m um conhecimento jur\u00eddico e uma intelig\u00eancia jur\u00eddica muit\u00edssimo not\u00e1vel. Ele percebeu muito bem que, da forma como a lei estava escrita, previa \u00e0 partida uma possibilidade de extravasar aquilo que nos era dito. Foi precisamente por essa indefini\u00e7\u00e3o de conceitos que o senhor presidente da Rep\u00fablica entendeu remeter (para o Tribunal Constitucional), como uma grande chapada de luva branca aos autores do projeto de lei. Se bem entendi, o que o senhor presidente da Rep\u00fablica disse foi: esta lei est\u00e1 mal feita do ponto de vista jur\u00eddico. Clarifiquem, por favor, os termos.<\/p>\n<p>Daquilo que pude observar e do que pude ler sobre esta lei, \u00e9 algo que o novo projeto de lei n\u00e3o resolve, antes pelo contr\u00e1rio, agrava a possibilidade de haver abusos relativamente ao que se diz ser o esp\u00edrito da lei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A terminologia usada \u00e9 imediatamente identific\u00e1vel nas patologias, ou, pelo contr\u00e1rio, deixa a decis\u00e3o ao arb\u00edtrio das pessoas?<\/em><\/p>\n<p>P\u00f5e a t\u00f3nica exatamente no ponto certo: como m\u00e9dico, sei que \u00e9 francamente dif\u00edcil de definir o que \u00e9 uma doen\u00e7a com um grau evolutivo muito avan\u00e7ado ou, mais importante ainda, com o sofrimento intoler\u00e1vel. A toler\u00e2ncia do sofrimento \u00e9 uma experi\u00eancia profundamente pessoal e depende n\u00e3o s\u00f3 daquilo que \u00e9 o pr\u00f3prio sofredor &#8211; passe a express\u00e3o &#8211; mas tamb\u00e9m dos cuidados que esta pessoa tem, quanto \u00e0 equipa m\u00e9dica que o acompanha.<\/p>\n<p>Estou a referir-me a cuidados paliativos: naturalmente haver\u00e1 esta preocupa\u00e7\u00e3o com o sofrimento intoler\u00e1vel, mas na verdade \u00e9 apenas uma incapacidade dos m\u00e9dicos que o acompanham ou a aus\u00eancia desses m\u00e9dicos para tornar o sofrimento toler\u00e1vel, \u00e0 luz da melhor pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou dos cuidados paliativos. Essa \u00e9 a discuss\u00e3o que ainda falta fazer?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Todos os especialistas em cuidados paliativos &#8211; a Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Cuidados Paliativos, o Observat\u00f3rio Nacional dos Cuidados Paliativos &#8211; t\u00eam dito que mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o portuguesa n\u00e3o tem acesso a cuidados paliativos. Eu repito: 70% das pessoas em Portugal morrem sem ter acesso a uma possibilidade de tornar o seu sofrimento toler\u00e1vel. Reparem bem o absurdo desta quest\u00e3o: estamos a propor uma possibilidade de escolha nesta lei que esperemos n\u00e3o venha a ser aprovada, mas \u00e9 uma possibilidade entre duas op\u00e7\u00f5es, sendo que uma das op\u00e7\u00f5es \u00e9 inexistente para 70% das pessoas. N\u00e3o \u00e9 uma verdadeira escolha. Estamos a empurrar os mais fr\u00e1geis, os mais fracos, os mais idosos da nossa popula\u00e7\u00e3o para a op\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, porque n\u00f3s n\u00e3o estamos a oferecer-lhes os cuidados que paliem a sua dor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Infelizmente, sabemos que se morre mal em Portugal. O Papa referiu, a respeito desta tem\u00e1tica, que ajudar a viver o final da vida de forma mais humana n\u00e3o se deve confundir com desvios inaceit\u00e1veis que levam a matar. O debate sobre a eutan\u00e1sia, tamb\u00e9m deste ponto de vista, sofreu desta confus\u00e3o?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim. H\u00e1 aqui temas complexos que, por vezes, s\u00e3o mal compreendidos ou ent\u00e3o explicados de forma propositadamente vaga.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o uma distin\u00e7\u00e3o entre aquilo que \u00e9 antecipar a morte &#8211; a isso chamemos eutan\u00e1sia, quando \u00e9 a pedido do pr\u00f3prio &#8211; e adiar de forma desnecess\u00e1ria e f\u00fatil a morte &#8211; a isso, chamamos distan\u00e1sia. Creio que muitos dos que nos ouvem poder\u00e3o ter tido experi\u00eancias com familiares ou conhecidos, gente de quem gostavam, em que viram prolongar de forma desnecess\u00e1ria a sua vida, \u00e0s vezes situa\u00e7\u00f5es verdadeiramente dram\u00e1ticas. Perante estas situa\u00e7\u00f5es, v\u00e3o pensando: \u201ceu n\u00e3o quero isto para mim. Quando chegar a altura de morrer, deixem-me morrer\u201d. Ora, n\u00e3o deixar algu\u00e9m morrer ou prolongar de forma desnecess\u00e1ria a vida de algu\u00e9m \u00e9 absolutamente errado, conden\u00e1vel. Mas n\u00e3o \u00e9 esse facto que nos deve levar a defender a eutan\u00e1sia. Nem antecipar nem adiar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Volto agora a uma quest\u00e3o que tem a ver mais com o processo legislativo, propriamente dito. Al\u00e9m dos projetos que est\u00e3o em discuss\u00e3o, sabemos que h\u00e1 for\u00e7as pol\u00edticas e movimentos da sociedade civil que t\u00eam ponderado propor um referendo sobre esta mat\u00e9ria. Esta possibilidade poderia ser um mal menor, por assim dizer?<\/em><\/p>\n<p>Nesta fase, passados os anos que se passaram a discutir este tema, a convic\u00e7\u00e3o de quem anda todos os dias no terreno \u00e9 que as coisas ainda n\u00e3o s\u00e3o claras, na cabe\u00e7a das pessoas. Ainda existe muita confus\u00e3o entre o prolongamento desnecess\u00e1rio da vida e a antecipa\u00e7\u00e3o mais breve da morte.<\/p>\n<p>Cremos que a possibilidade de um referendo &#8211; com todos os riscos, os custos e as dificuldades que eles t\u00eam &#8211; seria ben\u00e9fica para que Portugal e os portugueses tenham a oportunidade de perceber melhor verdadeiramente aquilo que est\u00e1 em causa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O presidente da Rep\u00fablica j\u00e1 vetou duas vezes a lei. Espera, eventualmente, um terceiro veto antes do referendo? <\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou pol\u00edtico, sou m\u00e9dico e n\u00e3o consigo fazer considera\u00e7\u00f5es sobre expectativas pol\u00edticas. Mas, se me pergunta, numa l\u00f3gica de esperan\u00e7a, naturalmente que espero. Ali\u00e1s, espero mais do que isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dizia h\u00e1 pouco que o texto deixava, em aberto, interpreta\u00e7\u00f5es que eram ainda mais latas do que o texto anterior e isso pode levar a um veto sem o envio para o Tribunal Constitucional\u2026<\/em><\/p>\n<p>Naturalmente. Eu ainda tenho outra esperan\u00e7a maior, que pode ser irrefletida, mas \u00e9 a esperan\u00e7a de que os deputados caiam em si e n\u00e3o aprovem esta lei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Depois da tomada de posse, disse que as quest\u00f5es \u00e9ticas relacionadas com a Covid-19 e m\u00faltiplos novos desafios que atentam contra a dignidade humana estavam entre as suas principais preocupa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 alguns que queira sublinhar?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que a pandemia foi uma enorme chamada de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 fraternidade mundial. Todos nos sentimos correspons\u00e1veis pelo sofrimento dos outros.<\/p>\n<p>Penso que, um dia, quando olharmos para tr\u00e1s, veremos que n\u00e3o fizemos tudo bem feito. H\u00e1 um assunto que incomoda tanto: a centraliza\u00e7\u00e3o das vacinas nos pa\u00edses desenvolvidos e a falta de uma distribui\u00e7\u00e3o mais equitativa aos pa\u00edses menos desenvolvidos. Este \u00e9 apenas um aspeto, mas aquilo que sai refor\u00e7ado da pandemia \u00e9 esta no\u00e7\u00e3o muito forte de que somos todos irm\u00e3os e respons\u00e1veis uns pelos outros. Respons\u00e1veis, principalmente, pelos que mais sofrem. Quantos de n\u00f3s, quantos dos que nos ouvem hoje n\u00e3o fizeram enormes sacrif\u00edcios ao longo desta pandemia? E fizemo-lo sem nos queixarmos, percebendo que os sacrif\u00edcios que faz\u00edamos hoje revertiam, diretamente, para aqueles que precisavam desses equipamentos m\u00e9dicos, desses recursos financeiros. Todos n\u00f3s o fizemos, percebendo que aqueles que est\u00e3o mais doentes precisam de n\u00f3s. Ora, o tema da eutan\u00e1sia \u00e9 precisamente isso: aqueles que est\u00e3o mais doentes precisam de n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00e3o me parece de todo razo\u00e1vel ter a expectativa de que a aprova\u00e7\u00e3o de uma lei venha tamb\u00e9m facilitar a implementa\u00e7\u00e3o de cuidados paliativos. Parece-me, ali\u00e1s, que seria muito ing\u00e9nuo antecipar que promover uma lei de eutan\u00e1sia possa ocorrer, em simult\u00e2neo, com uma verdadeira e honesta implementa\u00e7\u00e3o de cuidados paliativos. Ora, se n\u00f3s temos poucos recursos e aquilo que fizemos, do ponto de vista legislativo, foi dar esta solu\u00e7\u00e3o para as pessoas com um sofrimento intoler\u00e1vel, que tipo de <em>drive<\/em> \u00e9 que vamos ter para agora refor\u00e7ar mais os cuidados paliativos?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia: nesta fase estamos a ter a melhor estrat\u00e9gia, no combate?<\/em><\/p>\n<p>Eu sou cardiologista pedi\u00e1trico, tive v\u00e1rios convites para falar do tema e sempre achei que deveria deixar os especialistas terem voz, porque a cacofonia de vozes pode ser confusa para todos. Portanto, n\u00e3o irei comentar a adequabilidade ou n\u00e3o da estrat\u00e9gia, apenas sublinhar a preocupa\u00e7\u00e3o com todos os outros doentes que continuam doentes.<\/p>\n<p>Foram divulgados dados estat\u00edsticos, insofism\u00e1veis, que mostram que no ano passado houve um acr\u00e9scimo de 16% de mortalidade relativamente \u00e0 m\u00e9dia dos seis anos anteriores; a Covid era apenas respons\u00e1vel por uma parte destas mortes. Esta \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o que quem \u00e9 m\u00e9dico e trata de doentes todos os dias tem: h\u00e1 muita gente que faltou a consultas, muita gente que n\u00e3o foi operada e devia ter sido operada, muito rastreio do cancro que n\u00e3o foi feito e tudo isso ser\u00e3o os n\u00fameros que n\u00f3s agora temos de ajudar a mitigar.<\/p>\n<p>Sem preju\u00edzo de me abster de comentar, relativamente ao controlo t\u00e9cnico e pol\u00edtico da pandemia, diria que n\u00f3s n\u00e3o somos apenas m\u00e9dicos de doentes com Covid, somos m\u00e9dicos de todas as doen\u00e7as e temos um enorme desafio &#8211; todo o servi\u00e7o de sa\u00fade, n\u00e3o s\u00f3 nacional, mas tamb\u00e9m os convencionados &#8211; de tomar conta de todos estes doentes que, de alguma forma, tiveram menos aten\u00e7\u00e3o nossa ao longo destes \u00faltimos dois anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os mais velhos ter\u00e3o sido os que mais sofreram com a Covid-19, com toda a situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e social. \u00c9 preciso uma altera\u00e7\u00e3o de comportamento e de mentalidade face aos nossos idosos<\/em>?<\/p>\n<p>Eu acho que os idosos s\u00e3o um dos grandes desafios da sociedade moderna. Cada vez s vivemos mais tempo e, n\u00e3o s\u00f3 numa perspetiva de sa\u00fade, mas tamb\u00e9m numa perspetiva de bem-estar social e familiar, \u00e9 imperativo termos um olhar amoroso e fraterno para os nossos idosos, que n\u00e3o s\u00e3o palavras abstratas, s\u00e3o os nossos pais, s\u00e3o os nossos av\u00f3s, s\u00e3o os nossos tios, \u00e9 gente que precisa de sentir-se amada e tamb\u00e9m inclu\u00edda na sociedade.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 um enorme desafio, ao qual a Associa\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Cat\u00f3licos gostaria tamb\u00e9m de emprestar sua voz, no sentido de poder chamar a aten\u00e7\u00e3o para o enorme desafio de cuidar dos nossos idosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Participou na semana passada num simp\u00f3sio em It\u00e1lia organizado pela Federa\u00e7\u00e3o Europeia das Associa\u00e7\u00f5es de M\u00e9dicos Cat\u00f3licos. Estas preocupa\u00e7\u00f5es que aqui deixou tamb\u00e9m s\u00e3o partilhadas pelas diferentes associadas europeias?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Este congresso, onde estive recentemente, em conjunto com outros m\u00e9dicos portugueses, reuniu participantes de mais de 20 pa\u00edses. Estivemos a debater um tema absolutamente central para a medicina moderna, que \u00e9 o da medicina compassiva.<\/p>\n<p>A compaix\u00e3o \u00e9 uma palavra que caiu em desuso, \u00e9 considerada como \u201cter pena de\u201d, um sentimento, n\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o. Foi-nos proposta uma palavra alternativa, que tem o seu valor, chamado \u201cempatia\u201d, mas \u00e9 uma palavra muito recente que diz qualquer coisa como \u201ceu percebo, eu consigo imaginar qual \u00e9 o teu sofrimento\u201d. E isto \u00e9 bom, mas \u00e9 menos do que aquilo que devemos fazer, porque mais do que imaginar o sofrimento, n\u00f3s devemos partilhar, ou melhor, compartilhar o sofrimento dos nossos doentes. N\u00e3o, obviamente, tendo a dor que eles t\u00eam, mas tendo a nossa dor para que a dor deles seja menor. E esta atitude n\u00e3o \u00e9 apenas um sentimento, tem um nome, chama-se compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tomou posse em 2020. J\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel um balan\u00e7o do seu mandato? Tem no horizonte a possibilidade de se manter na presid\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Eu nunca falo em nome pessoal, mas sempre em nome da dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s, enquanto dire\u00e7\u00e3o, sentimos que vamos fazendo aquilo que conseguimos, aos ombros de gigantes, dos nossos maiores que nos precederam. Acredito que ningu\u00e9m desta atual dire\u00e7\u00e3o, que em breve cessar\u00e1 o mandato, deixar\u00e1 de estar dispon\u00edvel, de uma forma ou de outra, para continuar a dar o seu contributo. Enquanto m\u00e9dicos cat\u00f3licos, somos absolutamente animados por este amor ao pr\u00f3ximo, que n\u00e3o nos permite ficar quietos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Assembleia da Rep\u00fablica vai debater, a 9 de junho, os novos projetos de lei sobre a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, na sequ\u00eancia de um agendamento potestativo do PS. Jos\u00e9 Diogo Ferreira Martins, especialista em cardiologia pedi\u00e1trica, lamenta a precipita\u00e7\u00e3o dos deputados e diz que as propostas deixam por resolver as quest\u00f5es levantadas pelos vetos anteriores<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":190196,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-243054","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243054","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=243054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243054\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/190196"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=243054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=243054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=243054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}