{"id":242702,"date":"2022-06-01T12:01:32","date_gmt":"2022-06-01T11:01:32","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=242702"},"modified":"2022-06-01T12:01:32","modified_gmt":"2022-06-01T11:01:32","slug":"saber-aprender-a-actualizar-a-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-actualizar-a-linguagem\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A actualizar a linguagem"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Existem artigos cient\u00edficos onde as descri\u00e7\u00f5es dos resultados parecem-se com a m\u00fasica do tiro-liro-liro \u2014 cima, baixo, sobe, desce, sobe outra vez, etc. O que n\u00e3o esperava \u00e9 que a homilia da Ascens\u00e3o do Senhor soasse da mesma maneira \u2014 o Senhor desce \u00e0 terra, depois sobe ao c\u00e9u, mas antes desce de novo para subir, definitivamente, para o c\u00e9u. Senti que tanto na ci\u00eancia como na f\u00e9 seria ben\u00e9fico para quem escuta pensar-se um pouco mais neste tipo de linguagem, talvez com um sentido e significado mais explicativos e explorat\u00f3rios.<\/p>\n<figure id=\"attachment_242705\" aria-describedby=\"caption-attachment-242705\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-242705\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"929\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao-336x260.jpg 336w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao-1024x793.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao-768x595.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao-1080x836.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao-980x759.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/ascensao-480x372.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-242705\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Joshua Eckstein em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Usar as imagens em que Deus sobe ao C\u00e9u e desce \u00e0 Terra pretendem ser met\u00e1foras, mas do mesmo modo que em ci\u00eancia as met\u00e1foras podem mudar, em religi\u00e3o n\u00e3o me parece que seja diferente. As primeiras met\u00e1foras para um \u00e1tomo de hidrog\u00e9nio eram semelhantes \u00e0s de um sistema solar com o electr\u00e3o \u00e0 volta do n\u00facleo, mas com a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica a imagem muda e assemelha-se mais a uma nuvem que representa a probabilidade de presen\u00e7a do electr\u00e3o. N\u00e3o sou te\u00f3logo, por isso, n\u00e3o tenho uma imagem pensada para a Ascens\u00e3o que seja diferente e v\u00e1lida, mas como crist\u00e3o e cientista, parece-me mais profundo que estas manifesta\u00e7\u00f5es de Deus ocorrem em determinados tempos e lugares na hist\u00f3ria, mais do que no espa\u00e7o e com uma direc\u00e7\u00e3o em particular. Assim, em vez de um \u201csobe\u201d ou \u201cdesce\u201d, seria mais um \u201caqui\u201d e \u201c agora\u201d, ou \u201cali\u201d e \u201coutrora\u201d.<\/p>\n<p>A Ascens\u00e3o num caminho espiritual n\u00e3o tem propriamente uma altura (lugar ou tempo), mas revela-se como manifesta\u00e7\u00e3o experiencial de um sentido mais \u201cinterioriz\u00e1vel\u201d de realidades que estar\u00e3o sempre a puxar pela nossa criatividade. A Ascens\u00e3o de Jesus \u00e9 um sinal de que existem transforma\u00e7\u00f5es profundas no \u00edntimo que afectam o nosso corpo-mente-esp\u00edrito do modo que Deus quer. Algu\u00e9m \u201csubir ao C\u00e9u\u201d \u00e9 visualiz\u00e1vel (como na s\u00e9tima arte), mas estranho para um cientista. Por\u00e9m, se pensar antes do desapego da realidade f\u00edsica para revelar aspectos da realidade que est\u00e3o para al\u00e9m da f\u00edsica, ent\u00e3o, a experi\u00eancia da Ascens\u00e3o torna-se algo que reporta a uma dimens\u00e3o espiritual a-temporal na sua din\u00e2mica, o que pode apontar algumas pistas.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s alimenta o caminho \u00e1rduo de cada dia com esperan\u00e7a e sentido de perten\u00e7a ao lugar onde est\u00e1. Em vez de Jesus \u201cdescer\u201d, quando nos amamos, parece-me que nos tornamos mais sens\u00edveis \u00e0 presen\u00e7a de Jesus no meio de n\u00f3s. Pois, Ele disse que estaria sempre connosco, logo, quaisquer palavras que confiram um movimento f\u00edsico a uma realidade espiritual ser\u00e3o sempre limitadas (ou obsoletas) no seu significado. Quando rezamos o Pai Nosso dizemos \u2014 <em>\u00ab&#8230; que estais nos c\u00e9us\u00bb.<\/em> Recordo as palavras de uma amiga quando me dizia que esses \u201cc\u00e9us\u201d eramos n\u00f3s, pelo que a Ascens\u00e3o de Jesus aos \u201cc\u00e9us\u201d visto desta forma significaria um entrar na intimidade do \u201cpequeno c\u00e9u\u201d que Deus convida cada um a ser para os outros neste mundo e tempo.<\/p>\n<p>Muitas vezes escutamos nas homilias o sacerdote a recordar que <em>\u00absomos templos do Esp\u00edrito Santo\u00bb<\/em>, pelo que se abrirmos o cora\u00e7\u00e3o (que significa todo o nosso ser, aquilo que conhecemos dele e o que desconhecemos) e deixarmos que Ele entre e transforme o nosso \u00edntimo, crescer\u00e1 em n\u00f3s a visibilidade que Deus quiser dar ao mundo de Si mesmo atrav\u00e9s do modo como amamos ao ponto de suscitar no outro a vontade de amar. A Ascens\u00e3o parece-me ser, hoje, a \u201cExcens\u00e3o\u201d (uma palavra nova?) da presen\u00e7a de Deus que se manifesta exteriormente a partir da nossa interioridade nos mais diversos aspectos da nossa vida. E como a nossa vida precisa da experi\u00eancia da intimidade com Deus para pensarmos, agirmos e sentirmos as coisas de um modo mais aberto e humano, s\u00f3 acolhendo a realidade da Sua presen\u00e7a dentro de n\u00f3s, poderemos permitir que Ele se manifeste fora de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Quando Deus \u201csobe\u201d e \u201cdesce\u201d no discurso de algu\u00e9m, o tiro-liro-liro dessa linguagem leva-me a pensar num Deus distante e que nem sempre est\u00e1 presente quando n\u00e3o parece ser essa a experi\u00eancia que muitos fazem de Deus. Isto \u00e9, a experi\u00eancia de um Deus pr\u00f3ximo, sobretudo quando passamos mais dificuldades por quest\u00f5es de sa\u00fade corporal, mental e espiritual. Se a linguagem teol\u00f3gica mantiver algumas das suas met\u00e1foras, e n\u00e3o as adaptar \u00e0 literacia actual, creio correr o risco de tornar obsoleto o seu discurso.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou te\u00f3logo e n\u00e3o tenho o sacramento da ordem, pelo que esta impress\u00e3o proveniente da escuta de uma homilia na Celebra\u00e7\u00e3o da Ascens\u00e3o pode ser considerada como uma divaga\u00e7\u00e3o inconsequente de um crist\u00e3o como outro qualquer. Mas n\u00e3o \u00e9 \u201cdivagar\u201d que se vai ao longe? Talvez sim. Talvez n\u00e3o.<\/p>\n<p>A Evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para responder \u00e0 voca\u00e7\u00e3o de todo o crist\u00e3o. Comunicar a mensagem do Evangelho \u00e9 uma necessidade que todo o crist\u00e3o sente no seu interior, impelido, certamente, por uma inspira\u00e7\u00e3o de Deus que nos habita. Mas o mundo evolui nos modos de falar e compreender que exigem uma actualiza\u00e7\u00e3o da nossa linguagem e das met\u00e1foras que usamos. Quando os Evangelhos foram escritos, os autores usaram a linguagem com as met\u00e1foras do seu tempo, mas dentro da linguagem de cada tempo existem as sementes das realidades universais e, por isso, transversais ao longos dos tempos. Quando ci\u00eancia e teologia entram em di\u00e1logo, descobrem novos modos de explorar melhor e com mais sentido e significado essas realidades universais. Realidades atrav\u00e9s das quais Deus caminha connosco pela hist\u00f3ria. Mas h\u00e1 muito tempo que sinto alguma aus\u00eancia do aprofundamento deste di\u00e1logo entre ci\u00eancia e teologia, feito atrav\u00e9s da filosofia como campo comum onde o cientista e o te\u00f3logo encontram um espa\u00e7o dialogal. Por\u00e9m, nada dispensa o tempo gasto em saber aprender a actualizar estas realidades universais, de modo a que mudan\u00e7as na nossa linguagem n\u00e3o sejam modas, mas momentos de claridade que nos impulsionam a viver o que comunicamos. Hoje, parece-me que a divulga\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica \u00e9 t\u00e3o importante quanto a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas s\u00e3o raros ainda aqueles que trabalham pelo di\u00e1logo de ambas. Di\u00e1logo que implica saber aprender a actualidade a linguagem.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-242702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=242702"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242702\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=242702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=242702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=242702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}