{"id":242085,"date":"2022-05-29T09:30:53","date_gmt":"2022-05-29T08:30:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=242085"},"modified":"2022-05-27T09:55:07","modified_gmt":"2022-05-27T08:55:07","slug":"igreja-media-nao-temos-outra-alternativa-senao-falar-sobre-as-coisas-com-verdade-e-transparencia-isabel-figueiredo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-media-nao-temos-outra-alternativa-senao-falar-sobre-as-coisas-com-verdade-e-transparencia-isabel-figueiredo\/","title":{"rendered":"Igreja\/Media: \u00abN\u00e3o temos outra alternativa sen\u00e3o falar sobre as coisas com verdade e transpar\u00eancia\u00bb &#8211; Isabel Figueiredo"},"content":{"rendered":"<p><em>A Igreja Cat\u00f3lica celebra o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, este ano com o tema \u2018Escutar com o ouvido do cora\u00e7\u00e3o\u2019. Um desafio lan\u00e7ado pelo Papa Francisco que guia a entrevista \u00e0 diretora do Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_227157\" aria-describedby=\"caption-attachment-227157\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-227157 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_2764-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-227157\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/LFS<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A mensagem do Papa para esta celebra\u00e7\u00e3o fala numa \u201cinfodemia\u201d, que desvaloriza o papel da imprensa. Este valor nobre que Francisco atribui ao jornalismo, com v\u00e1rios elogios ao trabalho de quem acompanha a guerra na Ucr\u00e2nia, por exemplo, \u00e9 um sinal forte, em tempos de crise no setor?<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim, completamente acordo contigo. Vinha a pensar, precisamente, no Papa Francisco e no que tem feito, em termos de mensagens para o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais &#8211; falo s\u00f3 destas duas \u00faltimas. porque s\u00e3o as que est\u00e3o mais pr\u00f3ximas de n\u00f3s \u2013 e ele lembra-me a figura do pai que nos d\u00e1 uma palmada e depois nos passa uma festa no cabelo. Ou seja, o Papa tem sido muito claro em termos de elogiar o trabalho dos jornalistas, afirmando que o trabalho dos jornalistas \u00e9 fundamental. No ano passado, ele disse-nos isso e falava na altura da pandemia. Ao mesmo tempo, disse: t\u00eam de gastar a sola de sapatos, t\u00eam de levantar-se do sof\u00e1 ir para a rua.<\/p>\n<p>Estava-nos a dizer: eu preciso de voc\u00eas, o vosso trabalho \u00e9 fundamental, mas \u00e9 preciso alterar qualquer coisa no vosso trabalho, sair. Este ano avan\u00e7a a mais um bocadinho, n\u00e3o \u00e9? Diz-nos que n\u00f3s temos de fazer a tal escuta com o ouvido do cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E \u00e9 o que acontece muitas vezes, quando fazemos uma pergunta a um convidado e\u00a0j\u00e1 estamos a pensar na pr\u00f3xima, em vez de ouvir a sua resposta\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente.\u00a0 Por isso \u00e9 que, eu pr\u00f3pria, fa\u00e7o este exerc\u00edcio que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, de ler as mensagens e tentar descortinar o que o Papa nos est\u00e1 a dizer, com uma introspe\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica, fundamental em qualquer trabalho e de um modo muito espec\u00edfico neste.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Temo-nos desinstalado como o Papa Francisco quer? <\/em><\/p>\n<p>Sim e n\u00e3o. Tamb\u00e9m algu\u00e9m dizia, a prop\u00f3sito de toda esta celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, que nestas mat\u00e9rias n\u00f3s n\u00e3o podemos ter respostas completamente assertivas. Temos de encontrar aqui o equil\u00edbrio. Eu penso que h\u00e1 sinais claros de uma vontade de estar fora e aproveito este momento aqui para elogiar &#8211; quase que me faltam as palavras &#8211;\u00a0o trabalho dos jornalistas em cen\u00e1rios de guerra. N\u00f3s, todos os dias, olhamos para os ecr\u00e3s da televis\u00e3o e ouvimos na r\u00e1dio o trabalho de quem est\u00e1 completamente desinstalado, sem saber o que \u00e9 que ser\u00e1 o dia de hoje, quanto mais o dia de amanh\u00e3. Portanto, nessa mat\u00e9ria, e porque a vida nos obrigou a isso mesmo, penso que os jornalistas foram obrigados a sair do conforto das reda\u00e7\u00f5es e do conforto do trabalho e do conforto da vida pac\u00edfica que, gra\u00e7as a Deus, n\u00f3s vivemos e desinstalaram-se completamente. S\u00e3o o exemplo vivo disso que me perguntaste. Agora, se ca\u00edmos aqui no nosso bem-estar, acho que ainda h\u00e1 muito a tentativa de fazer as coisas sentados \u00e0 secret\u00e1ria. Com uma justifica\u00e7\u00e3o que \u00e9 sempre recorrente e que tamb\u00e9m tem a sua verdade, que \u00e9 a falta de meios.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00f3s tamb\u00e9m temos de fazer este exerc\u00edcio de introspe\u00e7\u00e3o e de avalia\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, de autoavalia\u00e7\u00e3o e pensar em que \u00e9 que n\u00f3s conseguimos mudar.<\/p>\n<p>Por parte da Ecclesia, este esfor\u00e7o tem sido feito, para colocar em destaque o trabalho que \u00e9 feito pelas v\u00e1rias dioceses atrav\u00e9s do exerc\u00edcio dos secretariados diocesanos, mas n\u00e3o s\u00f3. \u00c9 um esfor\u00e7o real de n\u00f3s nos abrirmos e bem sei que h\u00e1 uma abertura e um sair da reda\u00e7\u00e3o diferente, mas \u00e9 um sair da reda\u00e7\u00e3o efetiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E contar com quem est\u00e1 no terreno? <\/em><\/p>\n<p>Contar com que est\u00e1 no terreno, exatamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais quis assinalar o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais com alunos do curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social da Universidade Cat\u00f3lica, para dar voz aos mais jovens. \u00c9 fruto de um desejo de renova\u00e7\u00e3o? A tem\u00e1tica religiosa interessa mesmo aos futuros jornalistas?<\/em><\/p>\n<p>Essa op\u00e7\u00e3o realmente n\u00e3o foi feita por acaso. Inicialmente, ela tinha como horizonte a Jornada Mundial da Juventude e a necessidade efetiva de dar palco aos jovens. Como tamb\u00e9m algu\u00e9m me chamava a aten\u00e7\u00e3o, no caso um jovem: os jovens n\u00e3o podem estar na Igreja s\u00f3 para arrumar os bancos dos sal\u00f5es paroquiais\u2026<\/p>\n<p>Come\u00e7ou efetivamente por a\u00ed, mas depois houve uma reflex\u00e3o um pouco mais aprofundada, ou seja, haver\u00e1 efetivamente interesse por parte dos estudantes de comunica\u00e7\u00e3o social pelo fen\u00f3meno religioso? Interessa-os, efetivamente? E numa conversa que tive, numa conversa de amizade, mas uma conversa s\u00e9ria com uma pessoa muito respons\u00e1vel por toda esta mat\u00e9ria, a resposta que me deu foi: Isabela, eles n\u00e3o t\u00eam interesse nenhum. \u00c9 uma coisa que nos preocupa, porque ou n\u00f3s conseguimos fazer efetivamente uma passagem de gera\u00e7\u00e3o, ou seja, ou n\u00f3s conseguimos formar novos jornalistas &#8211; homens e mulheres, rapazes e raparigas &#8211; que querem efetivamente fazer desta \u00e1rea de trabalho na informa\u00e7\u00e3o algo de s\u00e9rio e de respons\u00e1vel, capaz de ser transformador; ou ent\u00e3o estamos mal, porque qualquer dia s\u00e3o s\u00f3 os cabelos brancos que est\u00e3o nas reda\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 aqui uma quest\u00e3o que est\u00e1 relacionada e que tem a ver tamb\u00e9m com o que eles veem, pois foram-se perdendo grandes refer\u00eancias do trabalho especializado, que poderiam ser inspiradoras. O facto de as reda\u00e7\u00f5es terem vindo a perder este trabalho mais espec\u00edfico em determinadas \u00e1reas, apesar das exce\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m pode comprometer esta renova\u00e7\u00e3o geracional? <\/em><\/p>\n<p>Sim, claro, por isso mesmo \u00e9 que n\u00f3s queremos dar sinais efetivos de que estamos interessados em abrir esta janela aos mais novos. \u00c9 este o nosso horizonte de esperan\u00e7a e \u00e9 essa a nossa tentativa de fazer algo de diferente, colocando a realidade da comunica\u00e7\u00e3o social, com um acento religioso, no seio de uma sala de aula.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma maior profissionaliza\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o de todas, mas de v\u00e1rias.\u00a0 A quest\u00e3o \u00e9 que isto n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel a todos os n\u00edveis, ainda. Falta esta aten\u00e7\u00e3o de aplicar um Plano Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o que ajude todos a comunicar na Igreja e a comunicar a Igreja com mais rigor? <\/em><\/p>\n<p>Na verdade, havia um desejo enorme de ir ao terreno. Foi um dos meus compromissos p\u00fablicos. Fi-lo aqui tamb\u00e9m aos microfones da Renascen\u00e7a. E esse desejo est\u00e1\u00a0muito a meio g\u00e1s, porque a pandemia surgiu de uma maneira intensa, mas n\u00e3o justifica tudo e n\u00e3o \u00e9 justifica\u00e7\u00e3o para tudo. Eu espero retomar esse contacto local.<\/p>\n<p>Do contacto que j\u00e1 tive e que vou tendo noutras ocasi\u00f5es, sem ser propriamente em visitas espec\u00edficas, eu penso que sim. Penso que n\u00e3o h\u00e1 compara\u00e7\u00e3o com aquilo que eu conheci h\u00e1 20 anos atr\u00e1s, quando ia aos primeiros encontros, \u00e0s primeiras Jornadas de Comunica\u00e7\u00e3o Social em F\u00e1tima. Com todo o respeito, com tudo o que eu aprendi com toda a considera\u00e7\u00e3o por todos, comparar essa realidade com a realidade de hoje \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel, \u00e9ramos meia d\u00fazia de pessoas, \u00e9ramos sempre os mesmos. Lembro-me de anos em que n\u00f3s enchemos o audit\u00f3rio da <em>Domus Carmeli <\/em>com gente diferente e nova. Portanto, h\u00e1 uma mudan\u00e7a enorme e \u00e9 transversal ao pa\u00eds inteiro.<\/p>\n<p>Temos a quest\u00e3o de apontar as fragilidades, o que \u00e9 completamente correto, e a possibilidade de pensar na quest\u00e3o do plano nacional, mas \u00a0\u00e9 algo que tamb\u00e9m me tem vindo a criar novas d\u00favidas. Ou seja, se durante muito tempo achei que esse era o caminho certo, hoje em dia j\u00e1 n\u00e3o estou t\u00e3o certa disso, porque a diversidade e a riqueza do que se faz localmente tamb\u00e9m tem um caminho pr\u00f3prio para ser feito. E n\u00f3s temos muitas vezes a tend\u00eancia, falo por mim pr\u00f3pria, de desvalorizar as identidades locais e pensarmos que se conseguirmos ter uma estrutura nacional que manda em todos, a coisa funciona melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E isso pode descaracterizar? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9, n\u00e3o tenho a certeza se esse \u00e9 o melhor caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na rela\u00e7\u00e3o da Igreja com os media generalistas, sentem que ainda predomina uma cultura rec\u00edproca da \u201csuspeita\u201d e da desconfian\u00e7a? <\/em><\/p>\n<p>Eu acho que a suspeita e desconfian\u00e7a, infelizmente, se instalou na nossa vida, em todos os setores e neste tamb\u00e9m. Vinha a pensar na conversa que ia ter convosco e em como \u00e9 verdade que, por exemplo, as escolas nunca s\u00e3o not\u00edcia quando trabalham todos os dias com os seus alunos de uma forma regular e conseguem obter bons resultados. Naquela monotonia dos dias, as escolas n\u00e3o s\u00e3o not\u00edcia. As escolas s\u00e3o not\u00edcia quando h\u00e1 problemas graves, como tivemos recentemente nos Estados Unidos, ou quando h\u00e1 coisas que acontecem com uma greve de professores que faz com que os pais n\u00e3o possam ir trabalhar.<\/p>\n<p>Os hospitais n\u00e3o s\u00e3o not\u00edcia quando todos os dias salvam pessoas, fazem opera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00e3o not\u00edcia. S\u00e3o not\u00edcia quando h\u00e1 um problema enorme nas urg\u00eancias, quando h\u00e1 filas de carros, quando h\u00e1 uma bact\u00e9ria.\u00a0A suspei\u00e7\u00e3o e desconfian\u00e7a fazem parte da nossa forma de estar na vida e tamb\u00e9m aqui, na quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o social e na quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o social da Igreja, se instalou com todo o \u00e0-vontade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A chegada de um jornalista a uma determinada institui\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, por exemplo, \u00e9 sempre vista como sinal de que v\u00eam a\u00ed m\u00e1s not\u00edcias? <\/em><\/p>\n<p>Infelizmente, eu diria que andamos muito atr\u00e1s disso mesmo. Depois\u00a0 \u00a0dizem-me: o normal \u00e9 isso! O que \u00e9 not\u00edcia \u00e9 o mau. E eu respondo: aceito, mas nunca \u00e9 poss\u00edvel virar isto ao contr\u00e1rio? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conseguirmos que as coisas sejam feitas de uma outra maneira? E basta pensar na dimens\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o que se baseia na suspeita e na desconfian\u00e7a e na dimens\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o produzida, que se\u00a0baseia pura e simplesmente na capacidade de divulgar algo que est\u00e1 a acontecer, ou algo de bom ou\u00a0algo inovador, ou seja, o que for. \u00c9 um caminho e \u00e9 caracter\u00edstico do tempo que estamos a viver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas n\u00f3s enquanto profissionais tamb\u00e9m precisamos de ter a capacidade de vender as boas hist\u00f3rias? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 decisivo. O Papa Francisco j\u00e1 disse isso e insistiu. Tentei lembrar-me de exemplos positivos e lembrei-me das \u00faltimas reportagens que apareceram quando a Cartuxa saiu de Portugal, foram publicados \u00f3timos trabalhos. Por que \u00e9 que isto aconteceu? Aconteceu porque eles se iam embora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foi um momento extremo, n\u00e3o \u00e9? E tamb\u00e9m foi poss\u00edvel porque houve abertura por parte da institui\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, mas o motivo pelo qual eles foram procurados foi este. Foi o facto de se irem embora. E depois h\u00e1 outros trabalhos e lembro por exemplo o trabalho feito pela Catarina Canelas l\u00e1 em baixo, no Algarve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um trabalho feito sobre a prociss\u00e3o da M\u00e3e Soberana&#8230; <\/em><\/p>\n<p>Precisamente. Qual \u00e9 a dimens\u00e3o? \u00c9 altamente regional, tem qualquer coisa de diferente, do ponto de vista da imagem \u00e9 superbonito, foi feito. Portanto, esse \u00e9 um \u00f3timo exemplo de coisas que se podem e devem fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os \u00faltimos anos marcados pela crise da Covid trazem desafios espec\u00edficos para a imprensa crist\u00e3, que n\u00f3s sabemos que ainda tem muito ligado ao papel e ao regional. E h\u00e1 locais que se calhar economicamente s\u00e3o mais fr\u00e1geis.\u00a0 A nossa quest\u00e3o \u00e9 tentar saber se o Secretariado teve eco de dificuldades que tenham surgido nos \u00faltimos anos que tenham surgido na imprensa crist\u00e3? <\/em><\/p>\n<p>Claro que est\u00e1. \u00c9 \u00f3bvio que sim. Alguns jornais t\u00eam fechado e em muitos outros coloca-se a quest\u00e3o da sua viabilidade num futuro muito pr\u00f3ximo. Quando n\u00f3s conhecemos a realidade local, quando sa\u00edmos deste conforto em que estamos e desta centralidade em que vivemos, tamb\u00e9m percebemos que &#8211; nesses locais, nesses jornais regionais, nesse tipo de comunica\u00e7\u00e3o social &#8211; ainda se faz jornalismo de uma forma que j\u00e1 se perdeu em muitos outros lugares, principalmente aqui de Lisboa, mas tamb\u00e9m se pode falar do Porto.\u00a0 Nesses locais faz-se um jornalismo, muitas vezes, com uma qualidade que n\u00f3s desconhecemos e por isso acho tremendamente injusto pensarmos e dizermos: \u00e9 trabalho que n\u00e3o interessa. Eu acho que \u00e9 trabalho que interessa.<\/p>\n<p>Se a pandemia trouxe uma crise, todos n\u00f3s estamos perfeitamente conscientes que a guerra vai agravar essa crise.\u00a0 A m\u00e9dio, ou a muito curto prazo, a parte da economia vai ser muito mais asfixiante em todas as \u00e1reas. Eu acho que as solu\u00e7\u00f5es se v\u00e3o encontrar tamb\u00e9m localmente. Ou seja, t\u00eam de ser as pr\u00f3prias pessoas a defender aquilo que t\u00eam e n\u00f3s, que estamos \u00e0s vezes com um olhar mais de fora, temos de ter respeito e considera\u00e7\u00e3o para defender aqueles projetos. N\u00e3o podemos ser mais uma voz a dizer \u00a0\u201cn\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, vamos acabar com isto\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E em certos meios a necessidade de manter o papel vai ser importante ou n\u00e3o?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Perdoem-me a express\u00e3o, mas eu acho que isto \u00e9 um bocadinho como as modas femininas que v\u00e3o e v\u00eam e depois, passados uns anos, repete tudo outra vez. Ou seja, acho que n\u00f3s hoje em dia temos consci\u00eancia de que as pessoas consomem a informa\u00e7\u00e3o, especialmente atrav\u00e9s dos ecr\u00e3s, dos telem\u00f3veis e dos computadores, mas ainda mais dos telem\u00f3veis. Estamos conscientes de que os jovens est\u00e3o completamente limitados, no bom sentido da palavra. \u00c9 esta a ferramenta de contacto com o mundo. Agora, n\u00e3o me parece que o papel seja &#8211; a n\u00e3o ser pelo custo e o custo vai determinar que muito n\u00e3o \u00e9 o custo, o pr\u00f3prio custo do papel &#8211; um produto de comunica\u00e7\u00e3o que v\u00e1 desaparecer na hist\u00f3ria. N\u00e3o, n\u00e3o acredito. N\u00e3o acredito. Assim como n\u00e3o acredito que os livros &#8211; o objeto &#8211; v\u00e3o desaparecer. N\u00e3o me parece. Por muitas vers\u00f5es diferentes que n\u00f3s tenhamos de poder ler um livro hoje em dia no ecr\u00e3, eu acho que o livro em papel e o produto em papel n\u00e3o vai desaparecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na quest\u00e3o dos abusos sexuais verificamos um enorme esfor\u00e7o na Igreja por clarificar a situa\u00e7\u00e3o. Contudo, parece haver da parte alguma comunica\u00e7\u00e3o social &#8211; l\u00e1 est\u00e1 &#8211; alguma desconfian\u00e7a: Que mais \u00e9 necess\u00e1rio fazer para &#8211; n\u00e3o digo acabar -mas pelo menos atenuar esta desconfian\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>Nunca se pode dizer que j\u00e1 se fez tudo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se fez\u00a0tudo em nenhuma mat\u00e9ria. N\u00e3o tenho d\u00favidas que se tem feito o melhor que se \u00e9 capaz. N\u00e3o tenho d\u00favidas que se tem procurado ir \u00e0 frente, na forma de tratar destas mat\u00e9rias e ir \u00e0 frente de muitas outras situa\u00e7\u00f5es que ocorrem e que t\u00eam exatamente o mesmo conte\u00fado. Ou seja, dizendo as coisas com os nomes corretos: a Igreja tem trabalhado a quest\u00e3o dos abusos.\u00a0 N\u00e3o interessa aqui dizer se foi obrigado, ou se n\u00e3o foi obrigado, porque o normal \u00e9 dizer que foi obrigada. E isso \u00e9 o que \u00e9, o que se ouve e o que sai bem. Mas a Igreja tem-no feito e tem andado \u00e0 frente. \u00c9 como se fosse um comboio que vai a alta velocidade, a Igreja vai claramente \u00e0 frente. E por isso mesmo, a \u00fanica coisa que eu espero \u00e9 que isto seja como aqueles copos de \u00e1gua que transbordam. Ou seja, a minha esperan\u00e7a enquanto mulher, enquanto m\u00e3e, enquanto av\u00f3, enquanto profissional, \u00e9 que tudo isto que est\u00e1 a ser feito sobre a quest\u00e3o dos abusos na Igreja Cat\u00f3lica consiga ultrapassar as fronteiras da Igreja Cat\u00f3lica e consiga atingir a sociedade.<\/p>\n<p>Porque aquilo que n\u00f3s queremos com tudo isto \u00e9 claramente encontrar culpados, pedir perd\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas e isso em absoluto. Mas o que n\u00f3s tamb\u00e9m queremos \u00e9 que este tema n\u00e3o seja mais um tabu do qual n\u00e3o se pode falar e que consigamos chegar \u00e0s crian\u00e7as e aos jovens. Que, dessa forma consigam perceber at\u00e9 que ponto \u00e9 que a preven\u00e7\u00e3o pode come\u00e7ar em si pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Comiss\u00e3o Independente tem falado muitas vezes na quest\u00e3o da mudan\u00e7a cultural, de criar uma nova cultura de prote\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, isso \u00e9 fundamental. E, para isso, as coisas t\u00eam de ser faladas e t\u00eam de ser ditas. Se n\u00f3s falarmos de preven\u00e7\u00e3o aqui, ali e acol\u00e1, eu tenho esperan\u00e7a que, depois, aqui, ali e acol\u00e1, transborde para outras \u00e1reas completamente distintas. Portanto, uma crian\u00e7a que \u00e9 abusada tem de saber o que significa estar a ser abusada. Se este assunto for falado publicamente, teremos mais possibilidades de uma preven\u00e7\u00e3o efetiva.<\/p>\n<p>Obviamente, ningu\u00e9m gosta que estas coisas aconte\u00e7am. Nem na par\u00f3quia onde eu estou,\u00a0nem no movimento a que eu perten\u00e7o, nem na fam\u00edlia, que \u00e9 a minha fam\u00edlia, nem em lado nenhum. Eu n\u00e3o quero que isto aconte\u00e7a. \u00c9 um assunto horr\u00edvel, mas \u00e9 preciso falar sobre ele. \u00c9 claro que isto \u00e9 um bocado assustador, porque se falou muito de viol\u00eancia dom\u00e9stica e fala- se muito viol\u00eancia dom\u00e9stica. Nunca se fizeram tantas campanhas sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica e as mulheres continuam a morrer. E os homens tamb\u00e9m continuam a ser v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica. As coisas continuam a acontecer. Portanto, isto \u00e9 assustador, mas n\u00e3o temos outra alternativa sen\u00e3o falar sobre as coisas com verdade e transpar\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja Cat\u00f3lica celebra o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, este ano com o tema \u2018Escutar com o ouvido do cora\u00e7\u00e3o\u2019. 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