{"id":241496,"date":"2022-05-22T09:56:32","date_gmt":"2022-05-22T08:56:32","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=241496"},"modified":"2022-05-22T09:56:32","modified_gmt":"2022-05-22T08:56:32","slug":"ucrania-refugiados-acolhimento-de-medio-e-longo-prazo-deve-ser-melhorado-andre-costa-jorge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ucrania-refugiados-acolhimento-de-medio-e-longo-prazo-deve-ser-melhorado-andre-costa-jorge\/","title":{"rendered":"Ucr\u00e2nia\/Refugiados: \u00abAcolhimento de m\u00e9dio e longo prazo deve ser melhorado\u00bb &#8211; Andr\u00e9 Costa Jorge"},"content":{"rendered":"<p><em>O coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) e diretor-geral do Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados (JRS) alerta para exist\u00eancia de casos que podem constituir situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia) <\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_241506\" aria-describedby=\"caption-attachment-241506\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-241506 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1168\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge-400x243.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge-1024x623.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge-768x467.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge-1536x934.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge-1080x657.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge-1280x779.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge-980x596.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/costa_jorge-480x292.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-241506\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Que balan\u00e7o faz do processo de acolhimento em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Bom. Comecemos pelo n\u00famero. \u00c9 um n\u00famero grande e pequeno. Diria que \u00e9 pequeno quando comparado com a realidade extraordin\u00e1ria que est\u00e1 a ser vivida pelos pa\u00edses que fazem fronteira com a Ucr\u00e2nia. E a\u00ed sim, acolhermos 37 mil, ou termos tido 37mil pedidos de prote\u00e7\u00e3o internacional, o que equivale a terem chegado a esse mesmo n\u00famero de pessoas a Portugal. Nem todas permanecer\u00e3o, ou algumas delas j\u00e1 dever\u00e3o ter sa\u00eddo, mas, independentemente disso, \u00e9 um n\u00famero grande para Portugal. Portugal acolheu neste espa\u00e7o tempo, em cerca de dois meses de conflito, um n\u00famero pr\u00f3ximo \u00e0s 40 mil pessoas \u00e9 de facto extraordin\u00e1rio. No entanto, numa vis\u00e3o mais ampla, Portugal \u00e9 o pa\u00eds mais extremo ocidental do outro lado do conflito. E a\u00ed sim, estamos a assistir \u00e0 chegada de 6 milh\u00f5es de pessoas. Os n\u00fameros j\u00e1 apontam para 6 milh\u00f5es de refugiados oriundos da Ucr\u00e2nia e esses n\u00fameros \u00e9 que s\u00e3o extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E sobretudo pela rapidez com que isto ocorre!<\/em><\/p>\n<p>Sim. O balan\u00e7o que fa\u00e7o \u00e9 que o acolhimento em Portugal foi feito no in\u00edcio de uma forma algo confusa e muitas pessoas chegavam, n\u00e3o sabiam para onde iam, com quem, e onde \u00e9 que iriam ser acolhidas. Os movimentos solid\u00e1rios n\u00e3o comunicavam com as autoridades. Nem sempre havia uma articula\u00e7\u00e3o correta. O pr\u00f3prio modelo de acolhimento era pouco claro e aquilo que nos parece \u00e9 que houve coisas positivas. Muitas mais positivas do que as negativas no balan\u00e7o que podemos fazer at\u00e9 agora. Houve uma resposta, em termos nacionais e europeus, de franca solidariedade para com as pessoas deslocadas \u00e0 for\u00e7a da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para al\u00e9m dessas situa\u00e7\u00f5es que aponta, a barreira lingu\u00edstica, \u00e9 uma das principais dificuldades ou a grande dificuldade?<\/em><\/p>\n<p>A barreira lingu\u00edstica \u00e9 quando as pessoas n\u00e3o conhecem a l\u00edngua do pa\u00eds de acolhimento \u00e9 uma barreira sempre. Agora eu creio que, no caso dos cidad\u00e3os ucranianos, n\u00e3o se tem verificado isso, quando comparado com outros migrantes que n\u00f3s acolhemos porque existe j\u00e1 em Portugal, h\u00e1 muitos anos, uma comunidade ucraniana residente e, portanto, isso permite de alguma forma que haja uma boa rede de int\u00e9rpretes naturais, de pessoas que vivem em Portugal e falam ucraniano e portugu\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E isso tamb\u00e9m contribuiu, para o para o facto de, apesar de sermos bastante perif\u00e9ricos relativamente ao resto do espa\u00e7o europeu, termos tantos refugiados no nosso pa\u00eds?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Sim, esses s\u00e3o pequenos aspetos de condi\u00e7\u00f5es que permitem e facilitam a perman\u00eancia e a integra\u00e7\u00e3o das pessoas em territ\u00f3rio nacional.\u00a0 Mas diria que n\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o mais determinante. Acho que aqui as condi\u00e7\u00f5es mais determinantes est\u00e3o no facto de as pessoas poderem projetar a sua vida no pa\u00eds de acolhimento, sentindo-se em liberdade e em seguran\u00e7a. Depois, h\u00e1 coisas muito objetivas e pr\u00e1ticas: poderem ter acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, seja o trabalho para os filhos, possam ter acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. E depois os aspetos tamb\u00e9m relacionados com a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, isto \u00e9, ter aqui amigos, ter pessoas com quem vivem, com quem falam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em rela\u00e7\u00e3o a essa mat\u00e9ria, uma pergunta que n\u00f3s queremos fazer tem a ver com a entrevista recente que deu, em que deixava algumas cr\u00edticas \u00e0 ideia que foi passando por alguns setores, at\u00e9 da parte do Estado, de que estar\u00edamos perante uma nova vaga de emigra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de refugiados, quando \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio, pois estamos a falar de pessoas que sa\u00edram \u00e0 for\u00e7a do seu pa\u00eds por causa de uma guerra. Essa clarifica\u00e7\u00e3o do estatuto esta feita?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o no sentido pr\u00e1tico, burocr\u00e1tico e administrativo do termo. As pessoas, do ponto de vista do discurso, falam em refugiados da Ucr\u00e2nia. O modelo de acolhimento legal em Portugal foi bem decidido, na nossa opini\u00e3o. Isto \u00e9, permitiu-se que as pessoas tenham um r\u00e1pido acesso a um conjunto de elementos burocr\u00e1ticos &#8211; n\u00fameros de seguran\u00e7a social, n\u00famero de identifica\u00e7\u00e3o fiscal, acesso \u00e0 sa\u00fade, n\u00famero de utente do sistema de sa\u00fade&#8230; Tudo isso \u00e9 extremamente positivo e r\u00e1pido. Portanto, as pessoas n\u00e3o entraram pela via de primeiro fazer o pedido de asilo, mas depois \u00e9 preciso pensar que estamos perante processos muito mais longos. N\u00e3o devemos olhar para estas pessoas como apenas imigrantes, porque de facto, aquilo que elas trazem com elas \u00e9 uma hist\u00f3ria de bastante sofrimento, que \u00e9 aquilo que encontramos no trabalho com refugiados. Isto \u00e9, s\u00e3o fam\u00edlias separadas, s\u00e3o pessoas que passaram por um processo traum\u00e1tico. \u00c9 nesse sentido que eu referi que devemos olhar para estas pessoas com o perfil que elas t\u00eam. Se pensarmos nestas pessoas\u00a0apenas como m\u00e3o de obra de trabalho, isso \u00e9 demasiado redutor.\u00a0Sobretudo n\u00e3o podemos canalizar a nossa energia e aten\u00e7\u00e3o para a dimens\u00e3o, por exemplo, da empregabilidade destas pessoas quando h\u00e1 outras quest\u00f5es nomeadamente quanto ao processo de acolhimento. E\u00a0depois, tudo isso acabou por se tornar muito evidente a prop\u00f3sito desta quest\u00e3o que, entretanto, acabou por dominar um pouco a aten\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica que tem a ver com a quest\u00e3o de Set\u00fabal. Isso n\u00e3o acontece com imigrantes. Isso s\u00f3 acontece a refugiados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesse processo de acolhimento \u00e9 preciso parar um pouco para refletir precisamente sobre toda essa pol\u00e9mica disputada em Set\u00fabal. Que erros \u00e9 que detetou e que li\u00e7\u00f5es devemos tirar de todo esse processo?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Eu penso que\u00a0existe ainda muita incerteza quanto ao procedimento no acolhimento. N\u00f3s entendemos que deve haver melhorias no acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. Portanto, o acolhimento de m\u00e9dio e longo prazo deve ser melhorado e n\u00e3o deve ser apenas visto esta dimens\u00e3o do acolhimento imediato, que tamb\u00e9m precisa de ser melhorado. A integra\u00e7\u00e3o em Portugal deve ser tamb\u00e9m mais focada naquilo que \u00e9 a perman\u00eancia de m\u00e9dia e longa dura\u00e7\u00e3o. Porque boa parte destes refugiados eles pr\u00f3prios diziam que vinham por pouco\u00a0tempo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas no caso de Set\u00fabal \u00e9 mais do que isso, n\u00e3o \u00e9? Porque alegadamente temos uma associa\u00e7\u00e3o de pessoas ligadas ao regime de Putin, a fazer o acolhimento desses refugiados em enorme fragilidade. Ser\u00e1, portanto, muito mais do que o problema que descreve, pois como dizia h\u00e1 a necessidade de as pessoas sentirem seguran\u00e7a. E provavelmente ao chegarem n\u00e3o se sentiam seguras?<\/em><\/p>\n<p>Bem sim \u00e9 isso. Alegadamente h\u00e1 a possibilidade de informa\u00e7\u00e3o que as pessoas transmitiram \u00e0s pessoas que eram respons\u00e1veis pelo seu acolhimento no terreno e a informa\u00e7\u00e3o que pode ser usada para fins dos interesses de uma das partes do conflito e, portanto, desde logo essa suspeita p\u00f5e em causa aquilo que s\u00e3o os deveres do Estado portugu\u00eas de prote\u00e7\u00e3o destas pessoas. \u00c9 t\u00e3o simples quanto isso. Portanto, independentemente daquilo que n\u00f3s\u00a0pensarmos sobre isto, aqui trata-se de o Estado ter o dever de garantir a prote\u00e7\u00e3o das pessoas. E quando digo a prote\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estou a falar s\u00f3 dos que est\u00e3o aqui,\u00a0mas tamb\u00e9m dos seus familiares que est\u00e3o no pa\u00eds de origem. Isto \u00e9 uma regra b\u00e1sica que, no acolhimento de refugiados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As diferentes institui\u00e7\u00f5es &#8211; Alto Comissariado, Governo, autarquia &#8211; n\u00e3o entraram numa esp\u00e9cie de jogo de passa culpa? <\/em><\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 o tipo de comportamento que muitas vezes n\u00f3s vamos assistindo em Portugal e\u00a0que tem a ver com a dificuldade de se\u00a0assumir responsabilidades nesta mat\u00e9ria. Eu acho que em primeiro lugar, o Estado tem que assumir as suas responsabilidades e eu creio que devemos ser esclarecidos de forma muito r\u00e1pida e clara, sobre quem tem responsabilidades na passagem de informa\u00e7\u00e3o. Se havia do lado dos sistemas de informa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a, a investiga\u00e7\u00e3o feita em torno desta associa\u00e7\u00e3o e das pessoas que fazem parte dessa associa\u00e7\u00e3o, devia ter sido transmitida \u00e0s autoridades municipais e ao Alto Comissariado a Informa\u00e7\u00e3o de que estas entidades &#8211; at\u00e9 por precau\u00e7\u00e3o &#8211; estas entidades n\u00e3o deviam participar no processo de acolhimento. Deviam ser exclu\u00eddas do processo de acolhimento, na minha opini\u00e3o. Como diz o ditado: depois de casa roubado, trancas \u00e0 porta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um pouco antes, est\u00e1vamos a falar das prioridades, das quest\u00f5es que s\u00e3o precisas aperfei\u00e7oar, neste processo de acolhimento. Que sinais ou marcas t\u00eam chamado mais a aten\u00e7\u00e3o na forma como as pessoas chegam?<\/em><\/p>\n<p>O primeiro aspeto que eu vejo \u00e9 que h\u00e1 o reconhecimento destas pessoas pelo apoio, o que est\u00e1 a ser feito pelos cidad\u00e3os em Portugal, pelo Governo e o Estado, em geral. Depois, h\u00e1 aspetos que, de alguma forma, constituem parte daquilo que encontramos no perfil de muitos outros refugiados, de muitas outras proveni\u00eancias: h\u00e1 uma hist\u00f3ria de sofrimento, de muita dificuldade em compreender imediatamente tudo aquilo que est\u00e1 a acontecer, sentem-se confusas, um pouco perdidas, n\u00e3o sabem muito bem como ser\u00e1 o amanh\u00e3. Expressam o desejo de regressar\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Muitos dos deslocados j\u00e1 se encontram integrados ou em vias disso, mas h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o de que alguns, como dizia, j\u00e1 sentem essa vontade de regressar \u00e0 Ucr\u00e2nia. Tem conhecimento desse tipo de situa\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Sim, todas as pessoas &#8211; ou diria 90%, 95% &#8211; que acolhemos desejam regressar. Por duas raz\u00f5es que vejo, at\u00e9 em coopera\u00e7\u00e3o com os afeg\u00e3os ou com os s\u00edrios: as pessoas acham que a Ucr\u00e2nia e o governo ucraniano v\u00e3o vencer esta guerra, h\u00e1 a perce\u00e7\u00e3o entre os ucranianos com quem vou contactando de que esta \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo, que cedo ou tarde v\u00e3o conseguir alcan\u00e7ar a paz, v\u00e3o conseguir regressar e reconstruir o seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 houve pessoas a regressar?<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1. Tem havido pessoas que regressam, algumas porque n\u00e3o pensavam ficar mais tempo do que aquilo que ficaram, isto \u00e9, um m\u00eas, dois meses; outras porque, apesar de a paz ainda n\u00e3o estar n\u00e3o ter sido alcan\u00e7ada, o balan\u00e7o que fazem \u00e9 que \u00e9 prefer\u00edvel regressar a permanecer. Aqui h\u00e1 aspetos como a dificuldade na aprendizagem da l\u00edngua, dificuldades de inser\u00e7\u00e3o, sentirem-se sozinhos, sentirem-se culpados por estarem c\u00e1 e n\u00e3o e n\u00e3o estarem a ajudar os seus familiares. H\u00e1 pessoas que sentem que aqui est\u00e3o bem, est\u00e3o em seguran\u00e7a, mas os seus familiares n\u00e3o est\u00e3o e, portanto, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de suportar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Houve uma quest\u00e3o que levantou ainda pouco que eu gostaria de voltar a falar dela. Teve a ver com a forma como se processou inicialmente um conjunto de movimenta\u00e7\u00f5es na sociedade civil. Houve muitas pessoas que manifestaram vontade de acolher refugiados em suas casas, por exemplo. Tem conhecimento de pessoas que t\u00eam manifestado dificuldade em manter esse compromisso assumido inicialmente e se pensa que houve demasiado voluntarismo?<\/em><\/p>\n<p>Temos encontrado situa\u00e7\u00f5es dessas. \u00c9 verdade. Pessoas que manifestaram, participaram e t\u00eam participado no processo de acolhimento, numa l\u00f3gica de curta dura\u00e7\u00e3o. Aconteceu em muitos lados que as pessoas nem sequer pensaram muito, agiram emocionalmente, foram tomadas decis\u00f5es emocionais. Depois, por outro lado, quer as iniciativas dos cidad\u00e3os, que as pr\u00f3prias autarquias, acabaram &#8211; ao encaminhar as pessoas para as respostas de acolhimento \u2013 por queimar algumas etapas que teriam sido importantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve tempo, para fazer a forma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para as pessoas que fazem o acolhimento. Tudo isso tem de ser trabalhado, n\u00e3o se sabe \u00e0 partida. Uma das dimens\u00f5es que temos vindo a trabalhar \u00e9, justamente, dar forma\u00e7\u00e3o aos volunt\u00e1rios que participam no acolhimento. N\u00f3s criamos uma realidade de voluntariado em Portugal, a que chamamos \u201ccomunidades de hospitalidade\u201d, que existem em todo o pa\u00eds: s\u00e3o grupos de volunt\u00e1rios organizados, a quem n\u00f3s demos forma\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de migra\u00e7\u00f5es e refugiados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Desde o in\u00edcio que a Igreja alertou para os riscos associados a este movimento de pessoas, chamando a aten\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico e para os abusos. \u00c0 PAR e ao JRS chegaram denuncias deste tipo?<\/em><\/p>\n<p>Acompanhamos algumas situa\u00e7\u00f5es que podem constituir situa\u00e7\u00f5es de abuso de posi\u00e7\u00e3o no acolhimento, \u00e9 verdade. Temos conhecimento de algumas situa\u00e7\u00f5es em que, quem acolhe, acaba por n\u00e3o conferir \u00e0 pessoa que foi acolhida condi\u00e7\u00f5es justas. Dou o exemplo de situa\u00e7\u00f5es que existem, que t\u00eam sido relatadas: pessoas que acolhem algu\u00e9m numa casa e oferecem tamb\u00e9m trabalho, mas depois n\u00e3o h\u00e1 pagamento de sal\u00e1rio porque a pessoa supostamente est\u00e1 a viver na casa. Isso \u00e9 absolutamente errado, pode constituir uma situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra. N\u00f3s, o que fazemos \u00e9 ajudar a retirar as pessoas refugiadas destas situa\u00e7\u00f5es e reportamo-las \u00e0s autoridades competentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Encerramos esta conversa com as mensagens do Papa Francisco, com os seus gestos, as suas viagens, que t\u00eam mantido o foco da comunidade internacional n\u00e3o s\u00f3 na Ucr\u00e2nia, mas tamb\u00e9m no grande drama do Mediterr\u00e2neo. \u00c9 importante esta chamada de aten\u00e7\u00e3o sobre o grande problema continua a existir \u00e0s portas da Europa?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 extremamente importante. A mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial de Refugiados e Migrantes fala em \u201cconstruir um futuro com os migrantes e refugiados\u201d. Sublinho aqui a palavra \u201ccom\u201d porque n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cpara\u201d, o Papa Francisco chama a aten\u00e7\u00e3o para a dimens\u00e3o coletiva. Tal como na ecologia, ningu\u00e9m est\u00e1 fora do problema.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o as sociedades mais ricas e mais poderosas que devem construir muros e afastar-se ou estar isoladas. O problema dos migrantes n\u00e3o \u00e9 um problema apenas dos migrantes, dos refugiados, dos deslocados, \u00e9 um problema do mundo, global. Vemos que, em muitas partes do mundo, h\u00e1 movimentos migrat\u00f3rios de popula\u00e7\u00f5es \u2013 ali\u00e1s, apenas uma parte dos migrantes chega \u00e0 Europa, grande parte das desloca\u00e7\u00f5es fazem-se noutros territ\u00f3rios, sobretudo nos pa\u00edses vizinhos de conflitos.<\/p>\n<p>Depois, tamb\u00e9m as quest\u00f5es ligadas a crises clim\u00e1ticas \u2013 secas, situa\u00e7\u00f5es de intemp\u00e9ries severas, como vimos em Mo\u00e7ambique, por exemplo &#8211; obrigam \u00e0 desloca\u00e7\u00e3o de enormes massas de pessoas. A forma como n\u00f3s respondermos ao drama daqueles que, por condi\u00e7\u00f5es adversas, t\u00eam de sair dos seus pa\u00edses de origem para procurar prote\u00e7\u00e3o e ref\u00fagio, como olharmos para essa realidade, determina e determinar\u00e1 tamb\u00e9m o sucesso das nossas pr\u00f3prias sociedades, a humanidade que queremos ser.<\/p>\n<p>Eu creio que o Papa Francisco tem sido uma voz \u00fanica no mundo; n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica voz, felizmente, que fala em defesa dos migrantes e dos refugiados, mas \u00e9 uma voz que tem falado desde sempre. A primeira a\u00e7\u00e3o do Papa Francisco no seu pontificado foi deslocar se a Lampedusa, justamente no Mediterr\u00e2neo, assinalando a import\u00e2ncia deste Mar ser um espa\u00e7o de hospitalidade, um espa\u00e7o de acolhimento e n\u00e3o um cemit\u00e9rio. No contexto em que vivemos, tamb\u00e9m alertar que n\u00e3o pode haver bons refugiados e maus refugiados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estas viagens que o Papa fez a Chipre e \u00e0 Gr\u00e9cia, com passagem por Lesbos, ou a Malta, j\u00e1 com a guerra em curso, alertam para a possibilidade de a comunidade internacional se esquecer da outra parte, olhando apenas e s\u00f3 para o conflito que agora se situa na Ucr\u00e2nia e com a R\u00fassia\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s temos o dever, como europeus, como concidad\u00e3os dos ucranianos, de providenciar tudo aquilo que for necess\u00e1rio para minorar o sofrimento dos nossos irm\u00e3os. Mas isso n\u00e3o nos pode fazer ter pol\u00edticas apenas para essa popula\u00e7\u00e3o e esquecer as outras pessoas que tamb\u00e9m precisam da nossa prote\u00e7\u00e3o, precisam da nossa solidariedade. O Papa Francisco, nessa dimens\u00e3o, tem sido muito claro: somos todos chamados a construir um futuro com os migrantes e com os refugiados<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) e diretor-geral do Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados (JRS) alerta para exist\u00eancia de casos que podem constituir situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":241506,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[291,631],"class_list":["post-241496","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-refugiados","tag-ucrania"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241496","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=241496"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241496\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/241506"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=241496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=241496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=241496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}