{"id":24128,"date":"2007-04-17T10:53:36","date_gmt":"2007-04-17T10:53:36","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/17\/um-papa-pastoral\/"},"modified":"2007-04-17T10:53:36","modified_gmt":"2007-04-17T10:53:36","slug":"um-papa-pastoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-papa-pastoral\/","title":{"rendered":"Um Papa pastoral"},"content":{"rendered":"<p>No pr\u00f3prio dia em que Joseph Ratzinger foi escolhido pelo conclave como Papa, o te\u00f3logo Hans K\u00fcng declarava numa entrevista que &#8220;precisamos, mais do que duma figura medi\u00e1tica, de um Papa pastoral&#8221;. Talvez Bento XVI seja isso mesmo. E estes dois anos de pontificado devem ser lidos a essa luz. Foram dois anos reveladores de uma certa vis\u00e3o estrat\u00e9gica da Igreja e do mundo que a rodeia. Um mundo que aparece, aos olhos do Papa, em viragem de uma modernidade desequilibrada para uma p\u00f3s-modernidade sem refer\u00eancias. E se o Conc\u00edlio Vaticano II enunciou os fundamentos da reconcilia\u00e7\u00e3o da Igreja com o mundo moderno &#8211; afirmando a centralidade de uma eclesiologia de comunh\u00e3o e de uma teologia do mundo &#8211; os novos tempos, carregados de d\u00favida, de perplexidade e de esvaziamento do pensamento forte \u00e0s m\u00e3os de um pensamento d\u00e9bil, convocam, no entendimento de Bento XVI, um reposicionamento estrat\u00e9gico da Igreja. Esse entendimento \u00e9 o de que cabe \u00e0 Igreja assumir-se como guardi\u00e3 da invari\u00e2ncia, da perenidade de uma ordem de valores que o Papa v\u00ea amea\u00e7ada pelo que designou por &#8220;ditadura do relativismo&#8221;. \u00c9 isso que o faz insistir em que o Vaticano II \u00e9 um patrim\u00f3nio para assimilar e n\u00e3o uma din\u00e2mica para continuar a abrir. \u00c9 isso que o faz regressar ao Direito Natural para firmar em sedimenta\u00e7\u00f5es valorativas ancestrais a resist\u00eancia ao &#8220;pluralismo \u00e9tico&#8221;. \u00c9 isso, enfim, que o faz perspectivar a Europa como terra de miss\u00e3o por excel\u00eancia, crente de que a principal amea\u00e7a \u00e0 mundivid\u00eancia crist\u00e3 vem deste lado do mundo e do seu suposto decl\u00ednio cultural de sentido utilitarista e nihilista. Sem surpresa, por isso, estes dois anos de pontificado de Bento XVI t\u00eam sido menos &#8220;sociais&#8221; e mais &#8220;principiais&#8221; do que o legado do seu antecessor. \u00c9 certo que a sua enc\u00edclica &#8220;Deus caritas est&#8221; fica a marcar o pensamento social da Igreja, quer pelas portas entreabertas a discursos sobre a corporalidade que n\u00e3o t\u00eam tido respira\u00e7\u00e3o na governa\u00e7\u00e3o da Igreja (o que alguns j\u00e1 chamaram &#8220;a reabilita\u00e7\u00e3o do eros&#8221;), quer sobretudo pela fundamenta\u00e7\u00e3o densa de toda a actividade da Igreja &#8220;num amor que procura o bem integral do homem&#8221;. \u00c9 igualmente certo que, na senda de Jo\u00e3o Paulo II, Bento XVI se assume como um advers\u00e1rio da tese do choque de civiliza\u00e7\u00f5es, contrapondo-lhe o primado do respeito pela vida e pela paz. A este respeito, ali\u00e1s, estes dois anos trouxeram-nos repetidas advert\u00eancias do Papa contra &#8220;concep\u00e7\u00f5es religiosas aberrantes&#8221; que alimentam a viol\u00eancia irracional, reiteradas no equ\u00edvoco discurso de Ratisbona. Mas este \u00e9, essencialmente, um Papa apostado em deixar a marca do encontro da f\u00e9 com a raz\u00e3o, num processo que tem a verdade como refer\u00eancia absoluta, coincidente com Deus. Radica aqui a sua concep\u00e7\u00e3o do trabalho ecum\u00e9nico como di\u00e1logo teol\u00f3gico; e talvez radique nesta concep\u00e7\u00e3o das coisas a relativa indefini\u00e7\u00e3o do que sejam os &#8220;passos concretos&#8221; de que carece o ecumenismo para se fortalecer.  Que o fim do segundo ano de pontificado de Bento XVI fique marcado pelo sancionamento disciplinar de Jon Sobrino, voz qualificada da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m um sinal. De que Joseph Ratzinger n\u00e3o \u00e9 especialmente sens\u00edvel \u00e0 prioridade que Hans K\u00fcng apontava para o Papa na referida entrevista de 19 de Abril de 2005: &#8220;um Papa que coloque no centro da sua aten\u00e7\u00e3o os incontorn\u00e1veis grupos e indiv\u00edduos marginalizados no seio da pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica e que encontre solu\u00e7\u00f5es corajosas para os muitos problemas que se acumularam no seu interior&#8221;.  <i>Jos\u00e9 Manuel Pureza, Professor da Universidade de Coimbra<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No pr\u00f3prio dia em que Joseph Ratzinger foi escolhido pelo conclave como Papa, o te\u00f3logo Hans K\u00fcng declarava numa entrevista que &#8220;precisamos, mais do que duma figura medi\u00e1tica, de um Papa pastoral&#8221;. Talvez Bento XVI seja isso mesmo. E estes dois anos de pontificado devem ser lidos a essa luz. 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