{"id":24110,"date":"2007-04-16T16:13:55","date_gmt":"2007-04-16T16:13:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/16\/em-mutacao-cultural-transmitir-a-fe\/"},"modified":"2007-04-16T16:13:55","modified_gmt":"2007-04-16T16:13:55","slug":"em-mutacao-cultural-transmitir-a-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/em-mutacao-cultural-transmitir-a-fe\/","title":{"rendered":"<I>Em Muta\u00e7\u00e3o Cultural \u2013 Transmitir a F\u00e9<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Discurso de D. Jorge Ortiga na abertura dos trabalhos da Assembleia Plen\u00e1ria da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa <!--more--> A Assembleia Plen\u00e1ria da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa acontece entre duas datas verdadeiramente paradigm\u00e1ticas: o 80\u00ba Anivers\u00e1rio de Sua Santidade o Papa Bento XVI e o segundo anivers\u00e1rio da sua elei\u00e7\u00e3o como Papa. Recordamos estas datas num esp\u00edrito de comunh\u00e3o com o Magist\u00e9rio Petrino. Com ele, reconhecemos que Cristo, no dom da Eucaristia, vem ao nosso encontro tornando-nos companheiros de viagem do povo que servimos nas dioceses e no pa\u00eds para, em Seu nome, promovermos um humanismo integral de verdadeira felicidade. N\u00e3o posso deixar de formular votos de sincera comunh\u00e3o eclesial com D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos, D. Manuel Jos\u00e9 Mac\u00e1rio do Nascimento Clemente e D. Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Cavaco Carrilho, entretanto nomeados Bispos de Aveiro, Porto e Funchal. Identificamo-nos com as potencialidades e os problemas pastorais das suas dioceses, esperando uma renovada colabora\u00e7\u00e3o no servi\u00e7o que a Confer\u00eancia proporciona \u00e0 Igreja em Portugal. Continuaremos rezando pela sa\u00fade de D. Armindo Lopes Coelho e continuamos a contar com a dedica\u00e7\u00e3o eclesial do D. Ant\u00f3nio Baltazar Marcelino e de D. Teodoro de Faria.  Da agenda que iremos abordar retiro algumas considera\u00e7\u00f5es.  <b>1 \u2013 A F\u00e9 perante a muta\u00e7\u00e3o cultural<\/b> Esta Assembleia Plen\u00e1ria prossegue a reflex\u00e3o que deline\u00e1mos para o tri\u00e9nio 2005-2008: transmitir a f\u00e9 na sociedade portuguesa.  Numa partilha de experi\u00eancias e de esperan\u00e7as, recordo aquilo que afirmamos no Comunicado da \u00faltima Assembleia Extraordin\u00e1ria: \u201cReconhecemos que esta realidade social, em muitas das suas manifesta\u00e7\u00f5es, tem posto a descoberto, em v\u00e1rios aspectos, alguma fragilidade do processo evangelizador, mormente em rela\u00e7\u00e3o aos jovens. A nossa miss\u00e3o pastoral, por todos os meios ao nosso alcance, tem de visar este fen\u00f3meno da muta\u00e7\u00e3o cultural, pois s\u00f3 assim ajudaremos a que os grandes valores \u00e9ticos continuem presentes na compreens\u00e3o e no exerc\u00edcio da liberdade\u201d. Neste contexto, continuaremos a reflectir. Penso que se trata duma quest\u00e3o nevr\u00e1lgica e dum verdadeiro desafio para a vitalidade da Igreja. Com muita facilidade, corremos o risco de cair na mera elabora\u00e7\u00e3o de documentos como subs\u00eddios para a evangeliza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o imprescind\u00edveis, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes. A prepara\u00e7\u00e3o de manuais ou catecismos \u00e9 uma tarefa tremendamente complexa. Mais importante, por\u00e9m, s\u00e3o as pessoas que os v\u00e3o usar. Sem catequistas marcados pela f\u00e9, na sua dimens\u00e3o de conhecimento e experi\u00eancia quotidianos, os catecismos podem revelar-se est\u00e9reis. A f\u00e9 deve ser um encontro com Cristo, motivador de compromissos concretos e assumidos. Importa a alegria de ser disc\u00edpulo dum \u00fanico mestre. Para se atingir esse grau de ades\u00e3o, que sobrevive \u00e0s muta\u00e7\u00f5es culturais, torna-se necess\u00e1rio, um novo paradigma org\u00e2nico de evangeliza\u00e7\u00e3o. Urge apostar no acolhimento das pessoas que suscite a alegria do primeiro an\u00fancio, para prosseguir num processo catecumenal de catequese, que venha a desaguar numa pastoral de aprofundamento. S\u00f3 assim os crist\u00e3os estar\u00e3o presentes nos mais variados sectores da sociedade: fam\u00edlia, escola, comunica\u00e7\u00e3o social, sa\u00fade e tantos outros are\u00f3pagos. Estas pequenas c\u00e9lulas de ambiente podem contribuir para uma plenitude humana da sociedade portuguesa.  <b>2 \u2013 Paix\u00e3o pela vida e o novo quadro legal relativo ao aborto<\/b> Temos, diante de n\u00f3s, uma sociedade marcada por diversos factores fracturantes, mas o essencial da miss\u00e3o da Igreja consiste em dar mais qualidade \u00e0 vida, respeitando-a, promovendo-a e cuidando dela permanentemente. H\u00e1 valores e causas que nunca se perdem. Antes pelo contr\u00e1rio, a sua import\u00e2ncia vem ao de cima em tempos de crise. Como referimos, a prop\u00f3sito da quest\u00e3o do aborto, \u201cn\u00e3o ser\u00e1 o novo contexto legal que nos enfraquecer\u00e1 no prosseguimento desta luta. A Igreja continuar\u00e1 fiel \u00e0 sua miss\u00e3o de an\u00fancio do Evangelho da vida em plenitude e de den\u00fancia dos atentados contra a vida\u201d.  N\u00e3o posso deixar de formular uma breve considera\u00e7\u00e3o sobre a legisla\u00e7\u00e3o aprovada na sequ\u00eancia do referendo de 11 de Fevereiro \u00faltimo. Trata-se duma lei injusta a que, por isso, n\u00e3o podemos dar o nosso apoio. \u00c9 nosso dever continuar a insistir, positivamente, no valor da vida. O enquadramento jur\u00eddico da lei n\u00e3o se limita a despenalizar o aborto, mas faz desta pr\u00e1tica um direito, uma conduta legal e, por isso, pass\u00edvel da colabora\u00e7\u00e3o activa do Estado. A consci\u00eancia de todos os crist\u00e3os e das pessoas que d\u00e3o primazia ao direito \u00e0 vida n\u00e3o poder\u00e1 nunca resignar-se a aceitar esta lei. At\u00e9 porque em democracia n\u00e3o h\u00e1 leis intoc\u00e1veis e irrevers\u00edveis. Na tarefa de formar consci\u00eancias, prosseguiremos na proclama\u00e7\u00e3o dum direito negado aos mais vulner\u00e1veis seres humanos. Lamentamos, igualmente, que se tenham gorado as possibilidades de limitar as injusti\u00e7as que a lei encerra. Ao contr\u00e1rio do que foi proclamado durante a campanha por muitos partid\u00e1rios do \u201csim\u201d (alguns deles com not\u00f3rias responsabilidades legislativas e governativas) a legisla\u00e7\u00e3o aprovada n\u00e3o contempla um sistema de aconselhamento obrigat\u00f3rio que, sem negar a liberdade de op\u00e7\u00e3o da mulher, pudesse funcionar como elemento dissuasor. Na verdade, caso existissem alternativas v\u00e1lidas, a maioria das mulheres n\u00e3o optaria pelo aborto.\t Face ao quadro legal aprovado, a nossa atitude h\u00e1-de ser, pois, a de lutar pela forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias e pela mudan\u00e7a de mentalidades, que limite o mais poss\u00edvel o recurso a esta lei. Procuraremos, tamb\u00e9m, acompanhar a sua implementa\u00e7\u00e3o, estando atentos ao cumprimento dos (poucos) limites legais \u00e0 pr\u00e1tica do aborto. Neste \u00e2mbito, n\u00e3o esquecemos a necessidade de garantir o direito fundamental \u00e0 objec\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, o qual n\u00e3o pode acarretar para quem o exerce forma alguma de discrimina\u00e7\u00e3o ou preju\u00edzo na carreira profissional. E esfor\u00e7ar-nos-emos, sobretudo, por responder \u00e0 banaliza\u00e7\u00e3o do recurso ao aborto atrav\u00e9s de uma ac\u00e7\u00e3o redobrada de todas as comunidades crist\u00e3s, no apoio solid\u00e1rio \u00e0s mulheres gr\u00e1vidas e \u00e0s fam\u00edlias com dificuldades em assumir a maternidade. Todas as medidas de apoio \u00e0 maternidade ter\u00e3o o nosso apoio, venham de onde vierem. Na \u00f3rbita da Igreja j\u00e1 surgiram muitas iniciativas. Muitas se seguir\u00e3o.  <b>3 \u2013 Cuidar da vida como compromisso a reactualizar<\/b> Na sua miss\u00e3o de anunciar, a Igreja tem de privilegiar a Diaconia enquanto modo de se dizer e estar no mundo. A luta pela vida leva-nos a reconhecer o trabalho que j\u00e1 vamos efectuando no quotidiano de muitas institui\u00e7\u00f5es de solidariedade. \u00c9 dif\u00edcil de imaginar o que sucederia com a desist\u00eancia das comunidades crist\u00e3s. A presen\u00e7a da Igreja nesta \u00e1rea \u00e9 verdadeiramente significativa. Trata-se duma viv\u00eancia da mensagem crist\u00e3 a que nem sempre a sociedade civil e o Estado d\u00e3o o devido valor. Da\u00ed que esta ac\u00e7\u00e3o deveria encontrar um maior reconhecimento oficial na linha do princ\u00edpio de subsidiariedade \u2013 que a concep\u00e7\u00e3o de Estado moderno ali\u00e1s contempla \u2013 que n\u00e3o se pode restringir a meros subs\u00eddios. Estamos ao lado de todos e perto de cada um, o que significa que com eles vivemos um quotidiano de solidariedade. O nosso caminhar com todos s\u00f3 nos tem sido poss\u00edvel com um redobrado sentido de voluntariado que nos merece o maior reconhecimento pela gratuidade que o caracteriza.  No contexto duma cultura que valoriza a vida, n\u00e3o podemos esquecer a verdadeira identidade das Institui\u00e7\u00f5es da Igreja. S\u00e3o iguais na exig\u00eancia da qualidade e na paix\u00e3o pela excel\u00eancia. Mas, para al\u00e9m disso, devem ser verdadeiros testemunhos duma f\u00e9 que \u00e9 fermento de justi\u00e7a, de fraternidade e de igualdade. Sem equ\u00edvocos, e dando eco \u00e0s palavras do Papa, \u201ca voca\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s consiste em ser, unido a Jesus, p\u00e3o repartido para a vida do mundo\u201d (Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-Sinodal Sacramentum Caritatis, n\u00ba 88). \u201cN\u00e3o \u00e9 miss\u00e3o pr\u00f3pria da Igreja tomar nas suas m\u00e3os a batalha pol\u00edtica para se realizar a sociedade mais justa poss\u00edvel; todavia, ela n\u00e3o pode nem deve ficar \u00e0 margem da luta pela justi\u00e7a. A Igreja deve inserir-se nela pela via da argumenta\u00e7\u00e3o racional e deve despertar as for\u00e7as espirituais, sem as quais a justi\u00e7a, que sempre requer ren\u00fancias tamb\u00e9m, n\u00e3o poder\u00e1 afirmar-se nem prosperar\u201d (Sacramentum Caritatis, n\u00ba 89 e Carta Enc\u00edclica Deus Caritas est, n\u00ba  28).  <b>4 \u2013 Um corpo doutrinal a conhecer e viver<\/b> A preocupa\u00e7\u00e3o pela dignidade de todo e qualquer ser humano fez com que, ao longo dos tempos, se tenha articulado um conjunto doutrinal a que chamamos Doutrina Social da Igreja. A ocorr\u00eancia do 40\u00ba Anivers\u00e1rio da Populorum Progressio e do 20\u00ba Anivers\u00e1rio da Sollicitudo Rei Socialis interpela-nos para dar maior visibilidade a esta Doutrina. A sociedade portuguesa est\u00e1 hoje ferida por problemas sociais que afectam em profundidade uma maioria significativa da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos contentar-nos com o culto das apar\u00eancias e com discursos que disfar\u00e7am realidades perante as quais n\u00e3o podemos ficar indiferentes. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio \u2013 e talvez n\u00e3o seja conveniente \u2013 proceder a uma descri\u00e7\u00e3o exaustiva. Basta uma refer\u00eancia sum\u00e1ria para relembrar muito mal-estar e ang\u00fastia. O descontentamento dos jovens estudantes pode desaguar numa onda crescente de delinqu\u00eancia; o protesto contra as reformas na Seguran\u00e7a Social insinua perplexidade e d\u00favidas face ao amanh\u00e3; o desemprego ceifa perspectivas de futuro que nem uma imagina\u00e7\u00e3o acutilante e uma forma\u00e7\u00e3o profissional conseguem restabelecer; as desigualdades no acesso \u00e0 cultura e ao poder econ\u00f3mico acentuam-se. Poucos usufruem de tudo e muitos sofrem mergulhados em becos sem sa\u00edda. A desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia compromete o futuro da humanidade. O isolamento e a solid\u00e3o s\u00e3o sintomas duma desigualdade gritante onde os exclu\u00eddos crescem a um ritmo desenfreado. Na Populorum Progressio, o Papa Paulo VI manifestava um optimismo que come\u00e7a a ser defraudado. Fazia refer\u00eancia a uma humanidade que ent\u00e3o se aproximava do destino de felicidade tra\u00e7ado pelo Criador: \u201ccomo vagas na enchente da mar\u00e9 avan\u00e7am sobre a praia, cada uma um pouco mais que a antecedente, assim a humanidade avan\u00e7a no caminho da hist\u00f3ria\u201d (Populorum Progressio, n\u00ba 17). Afirmava ainda, \u201cpode ser que, no seu realismo, se enganem e n\u00e3o se tenham apercebido do dinamismo de um mundo que quer viver fraternalmente e que \u2013 apesar das suas ignor\u00e2ncias e dos seus erros, e at\u00e9 dos seus pecados, das suas reca\u00eddas na barb\u00e1rie e das longas divaga\u00e7\u00f5es fora do caminho da salva\u00e7\u00e3o \u2013 se vai aproximando lentamente, mesmo sem dar por isso, do seu criador\u201d (Populorum Progressio, n\u00ba 78). Parece um sonho que se tornou utopia, de tal modo que, h\u00e1 20 anos, Jo\u00e3o Paulo II se via j\u00e1 na obriga\u00e7\u00e3o de reconhecer que a humanidade pouco havia progredido porque \u201cas esperan\u00e7as de desenvolvimento, ent\u00e3o bem vivas, parecem hoje longe da sua realiza\u00e7\u00e3o\u201d (Sollicitudo Rei Socialis, n\u00ba 12). Da\u00ed que, como alerta prof\u00e9tico proclamasse: \u201ca situa\u00e7\u00e3o actual do mundo, do ponto de vista do desenvolvimento, nos deixa uma impress\u00e3o prevalentemente negativa\u201d (Sollicitudo Rei Socialis, n\u00ba 13). E hoje? Ningu\u00e9m, minimamente consciente, ignora que, apesar da evolu\u00e7\u00e3o em diversos aspectos, a vida humana perdeu qualidade. Evocar estes textos prof\u00e9ticos significa acolher, como desafio, \u201ca universalidade da quest\u00e3o social\u201d e fazer com que os princ\u00edpios sociais n\u00e3o sejam meras palavras de ordem mas fermento de ac\u00e7\u00e3o. \u201cA situa\u00e7\u00e3o actual deve ser enfrentada corajosamente, assim como devem ser combatidas e vencidas injusti\u00e7as que ela comporta. O desenvolvimento exige transforma\u00e7\u00f5es urgentes, profundamente inovadoras\u201d (Populorum Progressio, n\u00ba 30). Qual o melhor modo de comemorar os anivers\u00e1rios destas enc\u00edclicas? Levar a Doutrina Social da Igreja para os espa\u00e7os de debate p\u00fablico, conscientes da sua verdadeira originalidade, de que ela n\u00e3o pretende \u201cconferir poder \u00e0 Igreja sobre o Estado; nem quer impor, \u00e0queles que n\u00e3o compartilham a f\u00e9, perspectivas e formas de comportamento que pertencem a esta. Deseja simplesmente contribuir para a purifica\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e prestar a pr\u00f3pria ajuda para fazer com que aquilo que \u00e9 justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e, depois, tamb\u00e9m realizado\u201d (Deus Caritas est, n\u00ba 28).  <b>5 \u2013 Uma \u201calma\u201d para a Europa<\/b> Nesta linha de pensamento, pode ser oportuno aludir \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos 50 anos do Tratado de Roma (25 de Mar\u00e7o de 1957). Foram homens como Konrad Adenauer, Alcide De Gasperi, Robert Schuman que tornaram poss\u00edvel esta \u201csemente da Uni\u00e3o Europeia\u201d. Inspirados por grandes pensadores como: Emmanuel Mounier e Jacques Maritain, entre outros, este projecto, alicer\u00e7ou-se, nos valores da prosperidade e da paz. Sonhavam uma comunidade respeitadora das diferen\u00e7as, com um esp\u00edrito genuinamente humanista. Importaria recordar esta origem, pois o futuro da Europa n\u00e3o pode ignorar as suas ra\u00edzes culturais e hist\u00f3ricas. N\u00e3o ser\u00e3o estes valores dum aut\u00eantico humanismo, a \u201calma\u201d perdida que a Europa almeja encontrar?  Na fidelidade \u00e0s origens, espera-se um desenvolvimento com perspectivas econ\u00f3micas sociais e ambientais. N\u00e3o basta multiplicar considera\u00e7\u00f5es e medidas de ordem jur\u00eddica ou t\u00e9cnica. Sem um posicionamento moral e \u00e9tico, sem uma solidariedade efectiva capaz de suscitar uma profunda transforma\u00e7\u00e3o de modelos de comportamentos no consumo e na produ\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento integral e sustent\u00e1vel fica nas meras inten\u00e7\u00f5es. Nunca poderemos ignorar que o subdesenvolvimento desumanizante continua a conviver paredes-meias com o \u201csobredesenvolvimento\u201d alienante. A pessoa continua a ser vista como estat\u00edstica duma economia de mercado. Mas \u00e9, precisamente, a pessoa, na sua individualidade irrepet\u00edvel, a \u00fanica capaz de oferecer um desenvolvimento sustent\u00e1vel, criador duma distribui\u00e7\u00e3o equitativa das reservas do mundo e duma aten\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel de todos por cada um.  <b>6 \u2013 A Eucaristia cume e fonte duma humanidade renovada<\/b> Para delinear a verdadeira estrat\u00e9gia da ac\u00e7\u00e3o pastoral, partimos da Eucaristia que nos \u201chabilita e impele a um compromisso corajoso nas estruturas deste mundo para lhes conferir aquela novidade de rela\u00e7\u00f5es que tem a sua fonte inexaur\u00edvel no dom de Deus\u2026 Obriga-nos a fazer tudo o que for poss\u00edvel, em colabora\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es internacionais, estatais, privadas, para que cesse ou pelo menos diminua, no mundo, o esc\u00e2ndalo da fome e da subnutri\u00e7\u00e3o que padecem muitos milh\u00f5es de pessoas, sobretudo nos pa\u00edses em vias de desenvolvimento\u201d. A Eucaristia \u00e9 \u201cfonte e \u00e1pice da vida e da miss\u00e3o da Igreja\u201d, centro da vida do crist\u00e3o, \u00e9 manancial de p\u00e3o para todos na mesa da fraternidade.  Este \u00e9 o verdadeiro sentido da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Sacramentum Caritatis. Alguns \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social esquecerem o esp\u00edrito do documento, concentrando-se em quest\u00f5es meramente acidentais. Importa, pois, que os crist\u00e3os mergulhem neste, como em tantos outros documentos, para adquirir uma forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e esclarecida capaz de ultrapassar interpreta\u00e7\u00f5es minimalistas.  <b>7 \u2013 Conclus\u00e3o<\/b> Dominados por uma \u201c\u00e2nsia\u201d serena de transmitir a f\u00e9, conscientes das for\u00e7as adversas e convictos de que o segredo reside na ousadia de \u201cser\u201d Igreja, \u201cLuz dos Povos\u201d, &#8211; o que s\u00f3 depende de n\u00f3s \u2013 termino com palavras de Bento XVI: \u201c\u2026 A verdadeira alegria \u00e9 reconhecer que o Senhor permanece no nosso meio, companheiro fiel do nosso caminho\u201d (Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Sacramentum Caritatis, n\u00ba 97).  <i>+ Jorge Ferreira da Costa Ortiga, Presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discurso de D. 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