{"id":2408,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/bem-comum-e-solidariedade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"bem-comum-e-solidariedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bem-comum-e-solidariedade\/","title":{"rendered":"Bem comum e solidariedade"},"content":{"rendered":"<p>No passado dia 15 de Setembro, a Confer\u00eancia dos Bispos Portugueses deu a conhecer uma nota pastoral com o t\u00edtulo \u201cResponsabilidade solid\u00e1ria pelo bem comum\u201d. Documento oportuno no tempo dif\u00edcil que atravessamos: a dignidade da pessoa humana \u00e9 vilipendiada, o ego\u00edsmo e individualismo levam a pobreza a muitas fam\u00edlias. \u00c9 este documento que hoje gostaria de apresentar e incentivar \u00e0 leitura.    Os pecados sociais e a Dignidade da Pessoa Na \u201cintrodu\u00e7\u00e3o\u201d faz uma sucinta, mas viva, an\u00e1lise \u00e0 situa\u00e7\u00e3o social, apontado para o que chama de \u201cos pecados sociais\u201d; seguem-se-lhe duas partes &#8211;  as partes  maiores &#8211; com princ\u00edpios sociais  da doutrina social da Igreja (n.os 6-14) e a sua aplica\u00e7\u00e3o a determinadas \u00e1reas do \u201cbem comum\u201d (n.os 15-24); as duas \u00faltimas partes apontam para sinais de esperan\u00e7a na participa\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria e para as prioridades pastorais na \u00e1rea social. O documento conclui com um apelo \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica da sociedade e do bem comum, com solidariedade respons\u00e1vel.  Vou procurar reler algumas partes. Sem d\u00favida, tenho que decorar os pecados sociais ali expressos: todo o tipo de ego\u00edsmo e individualismo, o consumismo que engorda  o com\u00e9rcio livre e selvagem e gera pobres; a corrup\u00e7\u00e3o; o desajuste (desarmonia) do sistema fiscal  que pode provocar injusti\u00e7as graves; a irresponsabilidade de comportamento na estrada; a exagerada comercializa\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno desportivo; e, no ainda, a exclus\u00e3o social. Na apresenta\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios sociais, os Bispos fundamentam-nos pelo servi\u00e7o \u00e0 dignidade da pessoa humana, de toda a pessoa humana, pessoa que deve ocupar o centro de todos os esfor\u00e7os e a quem todas as economias e pol\u00edticas, institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es devem servir. Nos princ\u00edpios sociais os bispos apresentam a \u201cbusca do bem comum como horizonte da vida social, a solidariedade no bem comum, a subsidiariedade e a promo\u00e7\u00e3o da pessoa e da sociedade civil.  A  participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e sinais de esperan\u00e7a  Um aspecto interessante de toda a nota \u2013 que n\u00e3o \u00e9 comum a outros documentos &#8211; \u00e9 n\u00e3o ficar no abstracto. \u00c9 um texto que toca a vida, nos aspectos em que os \u201cpecados sociais\u201d a tornam mais fr\u00e1gil. Por isso, o documento aplica os princ\u00edpios a \u00e1reas concretas do bem comum: \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica e ao trabalho; exige \u00e9tica no mercado, pede que os media estejam ao servi\u00e7o do bem comum, que se defenda o ambiente &#8211; bem essencial para a vida da humanidade. O bem comum \u00e9 salientado ainda quando os Bispos falam do comportamento na estrada, na responsabilidade comum pelos impostos (de quem os deve pagar e de quem os gaste e administra); falam da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o.  O documento v\u00ea tamb\u00e9m sinais de participa\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, imbu\u00eddos de esperan\u00e7a: h\u00e1 atitudes novas frente aos problemas sociais que se denunciam; toma-se consci\u00eancia da sociedade como comunidade cultural;  emergem novas formas de educa\u00e7\u00e3o (para a vida, ambiente, valores, cidadania, democracia, solidariedade, bem comum); cresce o voluntariado que d\u00e1 rosto \u00e0 solidariedade, sente-se a solidariedade na promo\u00e7\u00e3o dos bem comum (sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, escola, comunica\u00e7\u00e3o social, emprego, economia, pol\u00edtica e justi\u00e7a).   Programa social Voltados para a Igreja, mas tamb\u00e9m para quantos partilham os valores \u00e9ticos e sociais da Igreja, os Bispos assinalam as prioridades de ac\u00e7\u00e3o que podem ultrapassar os gritantes problemas sociais e trazer ao pa\u00eds mais justi\u00e7a e bem-estar. 1. Fazer do ser humano o centro de todas as preocupa\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, pol\u00edticas, sociais e religiosas; 2. dizer sim \u00e0 vida em todas as situa\u00e7\u00f5es; 3. fazer da Fam\u00edlia a primeira e insubstitu\u00edvel escola de humaniza\u00e7\u00e3o e sociabilidade; 4. ver sempre na promo\u00e7\u00e3o da paz a defesa da vida; 5. a solidariedade \u00e9 imprescind\u00edvel para que se possa viver, dela depende o futuro de pessoas, povos e culturas; 6. os Bispos, por \u00faltimo, apelam \u00e0 identidade de Portugal: Portugal \u00e9 alma, uma m\u00edstica, uma cultura, \u00e9 um modo de ser no mundo, aberto a todas as culturas e povos, aberto \u00e0 universalidade. O Documento termina com um apelo \u00e0 esperan\u00e7a contra o pessimismo, \u00e0 confian\u00e7a contra o derrotismo, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o contra o passivismo, da paz contra o terrorismo, da cultura de vida contra as culturas da morte, da dignidade da vida contra a destrui\u00e7\u00e3o do ser humano.  A dignidade da pessoa humana A dignidade da pessoa humana \u00e9 for\u00e7a que atravessa todo o documento. Tudo o que \u00e9 reflectido, dito, enfatizado defendido, acautelado e pedido \u00e9 pela dignidade da pessoa humana, \u00e0 qual tudo deve servir. \u201cEsta dignidade \u00e9 inalien\u00e1vel e inviol\u00e1vel, porque o ser humano, criado \u00e0 imagem de Deus, redimido em Jesus Cristo e chamado \u00e0 felicidade eterna, tem o seu fundamento \u00faltimo em Deus, que habita no mais \u00edntimo do seu ser. (cf. n\u00ba 7)  \u201c\u2026. a no\u00e7\u00e3o de pessoa \u00e9 um instrumento central para descrever a imagem crist\u00e3 do ser humano.\u201d (cf. n\u00ba 6 ) \u00c9 a dignidade da pessoa humana que fundamenta \u201cos outros princ\u00edpios orientadores da compreens\u00e3o do ser humano em rela\u00e7\u00e3o com os outros seres humanos da comunidade. (Cf. n\u00ba 7)  \u2018Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em fun\u00e7\u00e3o do homem, como seu centro e seu termo&#8217; \u201d (cf, n\u00ba 6).  Dizem os Bispos: \u201cEstamos convictos de que a edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade humanizada, solid\u00e1ria e fraterna s\u00f3 se consegue em plenitude, na medida em que se recuperar e aprofundar o sentido de Deus na hist\u00f3ria humana, raiz e fonte inesgot\u00e1vel da dignidade da pessoa humana.\u201d (cf. n\u00ba  7)  Bem comum e a solidariedade Os bispos pedem para que o bem comum seja o horizonte de toda a vida social. Pois,  \u201cO bem comum de toda a fam\u00edlia humana \u00e9 aspira\u00e7\u00e3o fundamental do ser humano\u201d (cf. n\u00ba 8).  O conceito de bem comum aparece como \u201co conjunto de condi\u00e7\u00f5es da vida social que permitem, quer aos grupos, quer a cada um dos seus membros, atingir a sua pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o de um modo mais total e mais f\u00e1cil\u201d.(Vat. II); aparece tamb\u00e9m como \u201co conjunto das condi\u00e7\u00f5es sociais que permitem e favorecem nos homens o desenvolvimento integral da personalidade\u201d (Jo\u00e3o XXIII), e ainda como sendo \u201ca preocupa\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento espiritual e humano de todos e n\u00e3o com a busca do proveito particular (cf. n\u00ba 8). A solidariedade \u00e9 fundamentada racionalmente pela \u201csociabilidade natural da esp\u00e9cie humana\u201d e pelo exig\u00eancia indiscut\u00edvel e incontorn\u00e1vel da interdepend\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es sociais a qualquer n\u00edvel. Para os crist\u00e3os a solidariedade \u201cparece-se\u201d com a caridade. \u201cPor cima dos v\u00ednculos humanos e naturais (\u2026) delineia-se \u00e0 luz da f\u00e9,  um novo modelo de unidade do g\u00e9nero humano, no qual deve inspirar-se em \u00faltima inst\u00e2ncia a solidariedade\u201d. (cf. n\u00ba 10),  A contempla\u00e7\u00e3o da SS.ma Trindade faz, por \u00faltimo, compreender que crist\u00e3mente a solidariedade se chama comunh\u00e3o.  Esta Nota Pastoral pode ter muitas grelhas de leitura: por ela se podem aprender  os deveres do estado democr\u00e1tico no seu empenho pelo bem comum; poder-se-\u00e1 tamb\u00e9m saber a rela\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio livre com o trabalho, o desemprego e a exclus\u00e3o social; tamb\u00e9m os media nela poder\u00e3o encontrar o verdadeiro c\u00f3digo deontol\u00f3gico; o condutor autom\u00f3vel poder\u00e1 sentir-se tamb\u00e9m, ou n\u00e3o, \u201cconstrutor\u201d do bem comum. Uma leitura sob perspectiva ecol\u00f3gica \u00e9 tamb\u00e9m indispens\u00e1vel.  Terminando, e de um modo global, \u00e9 a defesa da pessoa humana, na sua dignidade total \u2013 natural e como imagem de Deus \u2013 que leva os Bispos, nesta nota pastoral, a falar do bem comum, como direito e dever,  de toda a pessoa que s\u00f3 se pode realizar em plenitude pelo exerc\u00edcio da solidariedade.   Pe. Ver\u00edssimo Teles     <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No passado dia 15 de Setembro, a Confer\u00eancia dos Bispos Portugueses deu a conhecer uma nota pastoral com o t\u00edtulo \u201cResponsabilidade solid\u00e1ria pelo bem comum\u201d. 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