{"id":23942,"date":"2007-04-08T12:33:09","date_gmt":"2007-04-08T12:33:09","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/08\/homilia-do-domingo-de-pascoa-do-bispo-do-porto\/"},"modified":"2007-04-08T12:33:09","modified_gmt":"2007-04-08T12:33:09","slug":"homilia-do-domingo-de-pascoa-do-bispo-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-domingo-de-pascoa-do-bispo-do-porto\/","title":{"rendered":"Homilia do Domingo de P\u00e1scoa do Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p>DOMINGO DE P\u00c1SCOA DA RESSURREI\u00c7\u00c3O DO SENHOR S\u00e9 do Porto, 8 de Abril de 2007, 11 horas  Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, tudo quanto celebr\u00e1mos chegou ao fim, ao ponto \u00f3mega que Cristo nos ganhou (cf. Ap 1, 8), com a sua vit\u00f3ria sobre a morte, o \u201cultimo inimigo a ser destru\u00eddo\u201d (1 Cor 15, 26). Celebramos hoje a vit\u00f3ria de Cristo, celebramos em esperan\u00e7a a nossa vit\u00f3ria com ele, a conseguir dia a dia, na gra\u00e7a pascal que nos foi dada. Morrer para o pecado, renascer para a vida plena e infinda, esta a celebra\u00e7\u00e3o do eterno hoje, do \u201cDomingo que n\u00e3o tem ocaso\u201d. Era o princ\u00edpio deste dia, madrugada ainda. Madalena vai ao sepulcro e encontra a pedra rolada. Corre a chamar Pedro, que se precipita, ele e o \u201cdisc\u00edpulo predilecto de Jesus\u201d. Chega este mais depressa, v\u00ea as ligaduras no ch\u00e3o, deixa Pedro entrar primeiro. L\u00e1 estavam as ligaduras e tamb\u00e9m o sud\u00e1rio que cobrira a cabe\u00e7a de Jesus, enrolado \u00e0 parte\u2026 Porqu\u00ea a insist\u00eancia do evangelista neste ponto? Responde um exegeta: \u201c\u00c9 que as ligaduras e o len\u00e7ol estavam espalmados no ch\u00e3o da pedra tumular, ao passo que o len\u00e7o que o Senhor tivera em volta da cabe\u00e7a n\u00e3o estava espalmado no ch\u00e3o, mas mantinha a forma da cabe\u00e7a que envolvera. Ou seja, Jesus sa\u00edra, ressuscitado, ningu\u00e9m o tinha desembrulhado\u201d (Nova B\u00edblia dos Capuchinhos).  Fosse como fosse, a perplexidade continuava. At\u00e9 que entrou o outro disc\u00edpulo. E este \u201cviu e acreditou\u201d. \u2013 E porque viu, porque acreditou? Viu pela urg\u00eancia, acreditou pelo amor. Connosco, irm\u00e3os e irm\u00e3s, n\u00e3o ser\u00e1 doutra maneira. Veremos pela urg\u00eancia e acreditaremos pelo amor. O Senhor ressuscitado \u00e9 maior do que o mundo, mas torna-se presente em cada local e momento, para os que querem mesmo v\u00ea-lo e lhe divisam a figura. \u00c9 o mesmo que falar de urg\u00eancia e de amor, da urg\u00eancia e do amor, como aconteceu com o \u201cdisc\u00edpulo predilecto\u201d, que todos havemos de ser.  \u00c9 recorrente a alus\u00e3o b\u00edblica e a tradi\u00e7\u00e3o espiritual. N\u00e3o nos lembramos, porventura, de como a m\u00edstica crist\u00e3 tanto se inspirou no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, para nos transmitir tal sentimento e o seu triunfo? Como diz a esposa pela Igreja que somos, adivinhando o esposo, que para n\u00f3s \u00e9 Cristo, Cristo ressuscitado: \u201cA voz do meu amado! Ei-lo que chega, correndo pelos montes, saltando sobre as colinas. [\u2026] O meu amado \u00e9 para mim e eu para ele, ele \u00e9 o pastor entre os l\u00edrios, at\u00e9 que rebente o dia e as sombras desapare\u00e7am\u201d (Cant 2, 8.16-17). Ou ainda. \u201cEu dormia, mas de cora\u00e7\u00e3o desperto. Chamam! \u00c9 a voz do meu amado, batendo \u00e0 porta\u201d (Cant 4, 2). E, finalmente, nos vers\u00edculos porventura mais glosados pela tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica, com a voz da Igreja e da alma crente, na uni\u00e3o com Cristo ressuscitado sempre: \u201cGrava-me como selo em teu cora\u00e7\u00e3o, como selo no teu bra\u00e7o, porque forte como a morte \u00e9 o amor. [\u2026] Nem as \u00e1guas caudalosas conseguir\u00e3o apagar o fogo do amor, nem as torrentes o podem submergir\u201d (Cant 8, 6-7). \u00c9 a linguagem da poesia, decerto. Mas para o nosso encontro com o Deus vivo, para a nossa experi\u00eancia da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, outra, mais prosaica n\u00e3o chegaria. N\u00f3s somos os \u201cdisc\u00edpulos predilectos\u201d de Cristo, que por isso mesmo o enxergamos mais depressa, como s\u00f3 a urg\u00eancia do amor consegue. N\u00e3o s\u00f3 por n\u00f3s, mas para dizermos aos outros que ele est\u00e1 vivo e consigo nos vivifica a todos, fazendo-nos tamb\u00e9m vencer a morte. Quando clamamos hoje \u201cCristo ressuscitou! Aleluia!\u201d, n\u00e3o soltamos meramente um brado jubiloso, transmitimos isso sim a subst\u00e2ncia do Evangelho, para os que sabem e para os que desconhecem.  A urg\u00eancia e o amor, que levaram o \u201cdisc\u00edpulo predilecto\u201d a chegar mais depressa ao sepulcro vazio e a descortinar jucundo o significado daqueles sinais da ressurrei\u00e7\u00e3o, s\u00e3o apenas a nossa parte dum caminho m\u00fatuo, cujo impulso, ali\u00e1s, tem em Deus o seu princ\u00edpio e fim, como nos ensina Cristo: \u201cNingu\u00e9m pode vir a mim, se o Pai que me enviou o n\u00e3o atrair; e Eu hei-de ressuscit\u00e1-lo no \u00faltimo dia\u201d (Jo 6, 44). Por isso nos exorta Tiago, num vers\u00edculo de oiro: \u201cAproximai-vos de Deus e Ele aproximar-se-\u00e1 de v\u00f3s\u201d (Tg 4, 8). E por isso nos fala Cristo ressuscitado com igual clareza, num passo do Apocalipse, n\u00e3o menos doirado: \u201cOlha que Eu estou \u00e0 porta e bato: se algu\u00e9m ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cerarei com ele e ele comigo\u201d. Sendo esta ceia a participa\u00e7\u00e3o na sua vit\u00f3ria sobre a morte, continua: \u201cAo que vencer, farei que se sente comigo no meu trono, assim como Eu venci e estou sentado com meu Pai, no seu trono\u201d (Ap 4).    Tanto assim \u00e9, t\u00e3o verdadeiro sempre, que quem mais ama mais divisa, que pouco depois o mesmo Evangelho de Jo\u00e3o nos narra como no lago, onde os disc\u00edpulos nada tinham pescado por si e pescado muito por Cristo, foi o mesmo a reconhecer na margem a presen\u00e7a e a voz do Ressuscitado: \u201cEnt\u00e3o, o disc\u00edpulo que Jesus amava disse a Pedro: \u2018\u00c9 o Senhor!\u2019 (Jo 21, 7).   Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, n\u00f3s todos que agora iniciamos cinquenta dias especialmente pascais, que conclus\u00f5es tiraremos de quanto vai aqui dito e lembrado, como resultado do que a Semana Santa nos deixou? Direi tr\u00eas coisas, outras tantas consequ\u00eancias, espirituais e apost\u00f3licas. Mais intimidade com Cristo, mais reconhecimento da sua presen\u00e7a, mais aten\u00e7\u00e3o aos outros, quais suas figuras. Mais intimidade com Cristo, pela ora\u00e7\u00e3o, pela medita\u00e7\u00e3o da sua palavra, pela pr\u00e1tica sacramental. Passa necessariamente pelo profundo acolhimento e certa guarda de quanto Cristo nos disse, comunicando-nos n\u00e3o meras ideias, mas a pr\u00f3pria conviv\u00eancia divina: \u201cSe algu\u00e9m me tem amor, h\u00e1-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amar\u00e1, e N\u00f3s viremos a ele e nele faremos morada\u201d (Jo 14, 23).  \u2013 Que podemos ambicionar mais, irm\u00e3os e irm\u00e3s, do que a pr\u00f3pria vida divina? E que \u201cf\u00e1cil\u201d se torna alcan\u00e7\u00e1-la, pela guarda da palavra de Cristo! Porque esperamos, retendo-nos na conversa ociosa que tantas vezes mantemos connosco e com os outros, e nos adia ou distrai\u2026 Lembremos antes a declara\u00e7\u00e3o de Paulo aos Colossenses, absolutamente pascal: \u201cV\u00f3s morrestes e a vossa vida est\u00e1 escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo se manifestar, ent\u00e3o tamb\u00e9m v\u00f3s vos manifestareis com Ele em gl\u00f3ria\u201d (Cl 3, 3-4). Mais intimidade com Cristo ressuscitado, pela intensa vida sacramental. Nele fomos baptizados, para apenas dele vivermos agora, sempre e cada vez mais. Como est\u00e1 igualmente prometido e dispon\u00edvel da sua parte, com grande e total realismo: \u201cEu sou o p\u00e3o vivo, o que desceu do C\u00e9u: se algu\u00e9m comer deste p\u00e3o, viver\u00e1 eternamente; e o p\u00e3o que Eu hei-de dar \u00e9 a minha carne, pela vida do mundo. [\u2026] Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei-de ressuscit\u00e1-lo no \u00faltimo dia\u201d (Jo 6, 51.54). Tempo pascal, tempo de redobrado reconhecimento de Cristo. Assim se despede Jesus, no termo do Evangelho de S\u00e3o Mateus, para afinal ficar ainda mais connosco, na sua presen\u00e7a ressuscitada: \u201cE sabei que Eu estarei convosco at\u00e9 ao fim dos tempos\u201d (Mt 28, 20). \u2013 Quanta aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos h\u00e1-de suscitar esta promessa! Como n\u00e3o disporemos de algum tempo, dia a dia, para vivermos intensamente esta presen\u00e7a, diante de algum sacr\u00e1rio, fazendo mais recolhimento\u2026 E como desperdi\u00e7ar a luz, a for\u00e7a, a gra\u00e7a, que tal aten\u00e7\u00e3o nos daria\u2026 Tempo pascal, tempo ainda e sempre de aten\u00e7\u00e3o aos outros, sinais de Cristo no mundo. Porque devemos gravar fortemente, na consci\u00eancia e no cora\u00e7\u00e3o, que o Ressuscitado nos espera nos irm\u00e3os e que, por cada aten\u00e7\u00e3o nossa, se abre mais a porta do Reino que nos aguarda. Queira Deus \u2013 e, de facto, n\u00e3o quer Deus outra coisa! \u2013 que ent\u00e3o se estabele\u00e7a com cada um de n\u00f3s este di\u00e1logo: \u201cEnt\u00e3o, os justos v\u00e3o responder-lhe [a Cristo Rei]: \u2018Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando ter vimos doente ou na pris\u00e3o, e fomos visitar-te?\u2019 E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: \u2018Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes\u2019\u201d (Mt 25, 37-40).  Por tudo isto e finalmente, reconhe\u00e7amos que o Ressuscitado est\u00e1 connosco para sempre. Mas que o seu reconhecimento requer da nossa parte urg\u00eancia e amor, que se aproximem da urg\u00eancia e do amor com que quis vir ao nosso encontro e morrer por n\u00f3s. E que a uni\u00e3o com ele, que nos vai ressuscitando desde j\u00e1, se activa pela palavra e pelos sacramentos, e se concretiza e garante pelo amor a todos de quantos verdadeiramente nos aproximamos, dia a dia, caso a caso. Esta \u00e9 a P\u00e1scoa, que os cinquenta dias que come\u00e7amos apenas inaugurar\u00e3o!  + Manuel Clemente   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOMINGO DE P\u00c1SCOA DA RESSURREI\u00c7\u00c3O DO SENHOR S\u00e9 do Porto, 8 de Abril de 2007, 11 horas Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, tudo quanto celebr\u00e1mos chegou ao fim, ao ponto \u00f3mega que Cristo nos ganhou (cf. Ap 1, 8), com a sua vit\u00f3ria sobre a morte, o \u201cultimo inimigo a ser destru\u00eddo\u201d (1 Cor 15, 26). 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