{"id":23941,"date":"2007-04-08T00:21:51","date_gmt":"2007-04-08T00:21:51","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/08\/pascoa-muito-mais-do-que-uma-festa-da-primavera\/"},"modified":"2007-04-08T00:21:51","modified_gmt":"2007-04-08T00:21:51","slug":"pascoa-muito-mais-do-que-uma-festa-da-primavera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pascoa-muito-mais-do-que-uma-festa-da-primavera\/","title":{"rendered":"P\u00e1scoa: muito mais do que uma festa da Primavera"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Manuel Clemente na Vig\u00edlia Pascal <!--more--> VIG\u00cdLIA PASCAL NA NOITE SANTA S\u00e9 do Porto, 7 de Abril de 2007, 22 horas  Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s. \u00c9 esta vig\u00edlia t\u00e3o santa e esta noite t\u00e3o luminosa que quase se resumem nelas todas as coisas que temos de celebrar como crist\u00e3os na roda do ano. Grande gra\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m que se v\u00e1 recuperando o lugar da Vig\u00edlia Pascal, n\u00e3o s\u00f3 na liturgia mas tamb\u00e9m na vida das comunidades crentes. Muito h\u00e1 ainda a fazer, para que a P\u00e1scoa n\u00e3o se reduza ao cumprimento exterior do calend\u00e1rio, ainda que festivo, ou a uma simples festa da Primavera, ainda que sugestiva. N\u00e3o, meus irm\u00e3s e irm\u00e3s, absolutamente n\u00e3o. A P\u00e1scoa ultrapassa em absoluto o sentimento, ali\u00e1s bonito, das nossas reuni\u00f5es familiares, ou a sucess\u00e3o c\u00edclica, mas afinal fechada, das esta\u00e7\u00f5es do ano. A P\u00e1scoa \u00e9 passagem sim, mas definitiva, para o mundo de Deus, em que Cristo nos inclui pela sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Por isso mesmo nos exige mais do que simples como\u00e7\u00e3o humana; chama-nos fortemente \u00e0 renova\u00e7\u00e3o divina, no Esp\u00edrito de Cristo. Em suma, convers\u00e3o e n\u00e3o mera distrac\u00e7\u00e3o. Mesmo para os primeiros disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Cristo, para os que o tinham seguido desde a Galileia, a P\u00e1scoa foi, ao princ\u00edpio, demasiada novidade, porque ultrapassava qualquer das coisas conhecidas e punha em causa todas as previs\u00f5es habituais. Foi assim com eles, deve ser assim connosco.  O que n\u00f3s j\u00e1 sabemos, correntemente falando, n\u00e3o basta para a realidade pascal de Cristo. Os nossos quadros mentais formam-se na habitualidade e prev\u00eaem a partir dela. Tanto \u00e9 assim que a express\u00e3o art\u00edstica da ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre aproximativa, confessam-no os pr\u00f3prios criadores. N\u00e3o t\u00eam os escultores modelo para tal figura, n\u00e3o t\u00eam os pintores paleta para tanta luz, n\u00e3o t\u00eam os m\u00fasicos instrumentos para tal sonoridade. Tudo novo, tudo mais do que futuro, tudo inaudito e \u00faltimo. Quase como no ditado popular: \u201cqueremos dizer amor e falta-nos a boca\u201d. Mas n\u00e3o nos falte o cora\u00e7\u00e3o, antes se alargue em cada celebra\u00e7\u00e3o pascal!   Ouvimos, ao correr das leituras sagradas, o relato da cria\u00e7\u00e3o e, transtornada esta, o sucessivo an\u00fancio da nova cria\u00e7\u00e3o. Da primeira P\u00e1scoa e liberta\u00e7\u00e3o do cativeiro eg\u00edpcio, trouxeram-nos os profetas at\u00e9 \u00e0 \u00faltima P\u00e1scoa e liberta\u00e7\u00e3o do pecado e da morte: da morte, porque do pecado, cativeiro mais profundo e atroz. Refa\u00e7amos o caminho das mulheres do Evangelho: vamos ao sepulcro, admiremo-nos com a pedra removida e, ainda mais, com a aus\u00eancia do corpo, anteontem sepultado. Mas n\u00e3o nos amedrontemos com o an\u00fancio celeste: \u201cPorque buscais entre os mortos, Aquele que est\u00e1 vivo? N\u00e3o est\u00e1 aqui: ressuscitou!\u201d. N\u00e3o nos amedrontemos, porque j\u00e1 o conhecemos como crist\u00e3os. Crist\u00e3os somos, por isso mesmo, que o sabemos vivo e presente, vitorioso da morte e agora senhor das nossas vidas! E sobretudo, irm\u00e3os e irm\u00e3s, nunca mais o procuremos \u201centre os mortos\u201d, entre a poeira e os escombros dum passado t\u00e3o visto como esquecido. N\u00e3o, n\u00e3o o procuraremos \u201centre os mortos\u201d, como ainda o fazem os que s\u00f3 se interessam por Jesus como uma hist\u00f3ria mais, ou pseudo-alternativa, mesmo que assegure muitas vendas, em filme ou romance, com algum esc\u00e2ndalo \u00e0 mistura\u2026  N\u00e3o, irm\u00e3os e irm\u00e3s, Jesus Cristo vive, abrindo a nossa hist\u00f3ria, transmudando-a de humana em divina, porque repassada duma caridade imensa, que renova todas as coisas em Deus, princ\u00edpio e fim absoluto. E assim se autentica e afirma, na caridade que gera desde a primeira gera\u00e7\u00e3o crente, numa cadeia ininterrupta de f\u00e9 e de vida, eclesialmente transmitida.  Aquelas mulheres n\u00e3o o encontraram como o tinham visto sepultar; nem seria encontrado mais como um cad\u00e1ver reanimado qualquer. Far-se-\u00e1 \u201cver\u201d, onde, como e a quem quiser, mas como vislumbre da vida mais plena, a que a nossa passar\u00e1 tamb\u00e9m, por id\u00eantica caridade, vencedora em n\u00f3s do pecado e da morte. A esta luz \u00faltima, que o c\u00edrio pascal acendeu na noite, percebamos tamb\u00e9m a novidade imensa do nosso baptismo. Tamb\u00e9m ele supera qualquer rito arcaico. N\u00e3o \u00e9 mera lavagem, nem simples purifica\u00e7\u00e3o, gesto frequente nas religi\u00f5es diversas. Muito mais do que isso, muito al\u00e9m do que estas, o baptismo imerge-nos numa \u00e1gua abismal, para renascermos outros, no Esp\u00edrito de Cristo. Dizia-o S\u00e3o Paulo, com toda a clareza: \u201cFomos sepultados com Cristo pelo baptismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos para gl\u00f3ria do Pai, tamb\u00e9m n\u00f3s vivamos uma vida nova\u201d. Disse Santo Ireneu, no segundo s\u00e9culo da nossa era, que \u201ca gl\u00f3ria de Deus \u00e9 o homem vivo\u201d. E realmente o entendemos, quando contemplamos a humanidade como saiu das m\u00e3os do Criador, na terra emergente das \u00e1guas primordiais. Como se admirava o salmista: \u201c\u00d3 Senhor, nosso Deus, como \u00e9 admir\u00e1vel o vosso nome em toda a terra! [\u2026] Quando contemplo os c\u00e9us, obra das vossas m\u00e3os, a Lua e as estrelas que v\u00f3s criastes: que \u00e9 o homem para vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele vos preocupardes? Quase fizestes dele um ser divino; de gl\u00f3ria e de honra o coroastes!\u201d (Sl 8, 2-6).  Mas, se entendemos, nos melhores momentos, a gl\u00f3ria divina esplendente em cada ser humano, com prodigiosas capacita\u00e7\u00f5es de engenho, ci\u00eancia, arte e sensibilidade, tamb\u00e9m nos contristamos, em tantos outros, com as decep\u00e7\u00f5es e despistes de tanta vida esbanjada e tanta ocasi\u00e3o perdida, na vida nossa e alheia.  Tamb\u00e9m por isto, a frase de Santo Ireneu n\u00e3o acabava ali. Completa, diz o seguinte: \u201cA gl\u00f3ria de Deus \u00e9 o homem vivo e a vida do homem \u00e9 a vis\u00e3o de Deus\u201d. Di-lo como defini\u00e7\u00e3o e di-lo como advert\u00eancia: a humanidade de todos e de cada um manifesta o poder e a gl\u00f3ria de Deus, mais at\u00e9 do que o brilho da primeira Lua cheia da Primavera, que nos marca a P\u00e1scoa em cada ano; mas s\u00f3 e enquanto n\u00e3o se separar da eterna fonte de luz e de vida, que \u00e9 o mesmo Deus, antes se voltar constantemente para Ele, como seu alimento e subst\u00e2ncia: \u201ca vida do homem \u00e9 a vis\u00e3o de Deus\u201d. Assim est\u00e1, no pr\u00f3prio Deus, o Filho em rela\u00e7\u00e3o ao Pai, diz-nos, por sua vez S\u00e3o Jo\u00e3o, abrindo o quarto Evangelho: \u201cNo princ\u00edpio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus [como que voltado para Deus]; e o Verbo era Deus\u201d (Jo 1, 1). E essa vida, que recebe e retribui ao Pai, \u00e9 a que nos trouxe e traz, pelo dom do Esp\u00edrito: \u201cA quantos o receberam, aos que nele cr\u00eaem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus\u201d (Jo 1, 12). Isto somos n\u00f3s, os baptizados, filhos de Deus, renascidos em Cristo das \u00e1guas novas do Esp\u00edrito em que a humanidade se recria e o mundo inteiro finalmente respira, na gl\u00f3ria recuperada da cria\u00e7\u00e3o final. S\u00e3o magn\u00edficas as imagens desta \u00faltima gl\u00f3ria, conseguida na \u00e1gua viva que a todos transfigura; s\u00e3o magn\u00edficas, neste trecho do Apocalipse: \u201cMostrou-me, depois, \u2013 trata-se dum anjo ainda -, um rio de \u00e1gua viva, resplendente como cristal, que sa\u00eda do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da pra\u00e7a da cidade e nas margens do rio est\u00e1 a \u00e1rvore da Vida que produz doze colheitas de frutos [\u2026]. N\u00e3o mais haver\u00e1 noite, nem ter\u00e3o necessidade da luz da l\u00e2mpada, nem da luz do Sol, porque o Senhor Deus irradiar\u00e1 sobre eles a sua luz e ser\u00e3o reis pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos\u201d (Ap 22, 1-5).   Mal nos ficaria, irm\u00e3os e irm\u00e3s, se subestim\u00e1ssemos estas magn\u00edficas imagens, tomando-as por demasiado po\u00e9ticas e insuficientemente realistas para o dia a dia que levamos ou suportamos, n\u00f3s e os outros. Mal nos ficaria, de facto, porque o Baptismo em Cristo, nos mergulha precisamente nestas \u00faltimas coisas, em que a sua ressurrei\u00e7\u00e3o nos vai introduzindo tamb\u00e9m. E \u00e9 com o cora\u00e7\u00e3o cheio da \u00faltima gl\u00f3ria e luz, que seremos capazes de abrir clareiras onde s\u00f3 h\u00e1 sombra espessa em tantas vidas, de irradiar mais luz onde s\u00f3 enegrecem as trevas.  Chamavam ilumina\u00e7\u00e3o ao baptismo, os nossos irm\u00e3os antigos; e n\u00f3s o devemos repetir, pois de luz se trata, recebida de Deus e difundida pelos seus filhos e filhas, renascidos em Cristo, ele que \u201cera a luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina\u201d (Jo 1, 9). Como \u00e9 bom, como \u00e9 estimulante, deparar com algu\u00e9m baptizado, nas mais diversas circunst\u00e2ncias da vida! Da fam\u00edlia \u00e0 profiss\u00e3o, da vida social \u00e0 pol\u00edtica, da economia \u00e0 cultura, \u00e9 por ele ou ela que o Esp\u00edrito de Cristo ilumina e renova as coisas, dando realismo \u00e0s profecias b\u00edblicas e toda a consist\u00eancia \u00e0 esperan\u00e7a que alimenta a humanidade, apesar de tudo. Aqui nos queremos n\u00f3s, baptizados ou catec\u00famenos, nesta noite santa. Em gratid\u00e3o e compromisso, por tudo quanto a gra\u00e7a de Cristo continua no mundo, pelos cora\u00e7\u00f5es que renova. Para sairmos depois, como aquelas santas mulheres do Evangelho, que, \u201cvoltando do sepulcro, foram contar tudo isto aos Onze, bem como a todos os outros\u201d.  &#8211; H\u00e1 tanta gente \u00e0 espera do nosso testemunho pascal!  + Manuel Clemente                 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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