{"id":23938,"date":"2007-04-08T00:14:41","date_gmt":"2007-04-08T00:14:41","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/08\/olhar-o-mundo-a-partir-da-cruz\/"},"modified":"2007-04-08T00:14:41","modified_gmt":"2007-04-08T00:14:41","slug":"olhar-o-mundo-a-partir-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/olhar-o-mundo-a-partir-da-cruz\/","title":{"rendered":"Olhar o mundo a partir da Cruz"},"content":{"rendered":"<p>Bispo de Aveiro na celebra\u00e7\u00e3o de Adora\u00e7\u00e3o da Cruz <!--more--> SEXTA-FEIRA SANTA CELEBRA\u00c7\u00c3O DA PAIX\u00c3O DO SENHOR Catedral de Aveiro, 6 de Abril de 2007  \u201cOlhar o mundo a partir da Cruz\u201d  1.\tO Santo Padre Bento XVI convidou-nos, no in\u00edcio da Quaresma a \u201colhar para Aquele que trespassaram\u201d. Nesta tarde de Sexta-Feira Santa tem redobrado sentido este apelo do Santo Padre. \u201cOlhar Aquele que trespassaram\u201d significa contemplar o \u201cServo Sofredor\u201d de que nos falava Isa\u00edas e n\u2019Ele descobrir Aquele que suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores (Is. 52,15). Neste olhar a Cruz, contemplativos do mist\u00e9rio santo da nossa reden\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estamos s\u00f3s. Connosco, de olhar fixo no Crucificado est\u00e3o todos os que sofrem, caminhando com p\u00e9s magoados nos trilhos da dor, da doen\u00e7a, das prova\u00e7\u00f5es, dos des\u00e2nimos ou do pecado. Se formos capazes de olhar tamb\u00e9m n\u00f3s o mundo a partir da Cruz de Cristo veremos alargado o nosso campo de vis\u00e3o aos horizontes do mundo e de toda a exist\u00eancia humana. A Cruz manifesta-nos a plenitude do amor feito doa\u00e7\u00e3o, entrega e obla\u00e7\u00e3o redentoras. S\u00f3 este amor d\u00e1 sentido \u00e0 vida. Na Cruz a Humanidade deixa de ser v\u00edtima do pecado e da morte para iniciar a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o, fascinada pelo valor incondicional e sagrado da vida e da liberta\u00e7\u00e3o do mal, do pecado e da morte. Quando a Cruz pesa sobre algu\u00e9m todos n\u00f3s somos necess\u00e1rios e imprescind\u00edveis para partilhar o seu peso, mesmo que a nossa ajuda pare\u00e7a insignificante perante a imensid\u00e3o da dor. Mesmo quando somos chamados a ajudar quem veio para a todos servir. Compreendemos, assim, a miss\u00e3o do Cireneu, da Ver\u00f3nica, das mulheres de Jerusal\u00e9m, do disc\u00edpulo Jo\u00e3o e sobretudo da M\u00e3e de Jesus. A M\u00e3e \u00e9 sempre quem melhor compreende o mist\u00e9rio da dor e mais alivia o peso da Cruz. O caminho do Calv\u00e1rio n\u00e3o prescinde de cireneus que partilhem a dor e que reparem a humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica e o desprezo da indiferen\u00e7a, que s\u00e3o em todos os tempos da hist\u00f3ria duas das mais angustiantes e demolidoras experi\u00eancias humanas. 2. \tChegado ao Calv\u00e1rio crucificaram Jesus. No auge da Crucifix\u00e3o Jesus pronuncia algumas palavras que nos revelam, nesta hora da sua doa\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte, a dimens\u00e3o infinita do seu amor por n\u00f3s e por todos. \u201cPai perdoa-lhes porque eles n\u00e3o sabem o que fazem\u201d. O perd\u00e3o torna-se, assim, uma verdadeira loucura de amor: um verdadeiro dom que s\u00f3 o Pai pode conceder, porque s\u00f3 Ele \u00e9 rico de miseric\u00f3rdia. Jesus desculpou os indesculp\u00e1veis. Esta sua atitude d\u00f3cil e tranquila incomodou ainda mais os seus inimigos. Nem assim respeitavam a sua dor e zombavam dele. Apenas um criminoso, ali crucificado a seu lado, implorou de Jesus que se lembrasse dele quando estivesse no seu reino (Lc. 23, 42). A reac\u00e7\u00e3o de Jesus foi acolh\u00ea-lo de imediato, sem cl\u00e1usulas nem condi\u00e7\u00f5es: \u201cHoje mesmo entrar\u00e1s no Para\u00edso\u201d (Lc. 23, 43). A Humanidade sempre recorreu a Deus. E sempre O procurou. Mesmo que seja por caminhos estranhos. Mesmo que seja na hora \u00faltima e no momento final da vida. Uma outra impressionante palavra \u00e9 a que Jesus diz a sua M\u00e3e. Maria, M\u00e3e de Jesus estava de p\u00e9 junto da Cruz. Jesus sabia da sua dor e diz-lhe: \u201cMulher eis a\u00ed o teu Filho\u201d. E olhando para Jo\u00e3o diz-lhe: \u201cFilho eis a\u00ed a tua M\u00e3e\u201d (Jo. 19, 26). E a \u00faltima palavra surpreendentemente serena e confiante dita no \u00e2mago da sua entrega \u00e9 esta: \u201cPai nas tuas m\u00e3os entrego O meu Esp\u00edrito\u201d. \u00c9 a manifesta\u00e7\u00e3o de que tudo est\u00e1 cumprido. A Humanidade est\u00e1 salva. O regresso ao Pai \u00e9 agora poss\u00edvel. Est\u00e1 restabelecido em Alian\u00e7a nova e a eterna o di\u00e1logo entre Deus e o Universo, entre o Pai e a Humanidade. Renovar em perman\u00eancia esta Alian\u00e7a \u00e9 a miss\u00e3o da Igreja. E a Igreja come\u00e7a aqui. No auge do sofrimento e da doa\u00e7\u00e3o em que o Cora\u00e7\u00e3o do Crucificado trespassado pela lan\u00e7a do soldado jorra sangue e \u00e1gua. 3. \tNesta tarde de Sexta-Feira Santa continuamos, dois mil anos depois, no limiar do terceiro mil\u00e9nio e nos alvores de tempos novos, de profunda mudan\u00e7a civilizacional, a olhar o Crucificado e a rezar-lhe, com convic\u00e7\u00e3o, com verdade e com insist\u00eancia. Quando vires, Senhor Jesus, pobres na nossa cidade, gente sem p\u00e3o nem abrigo, sem mesa e sem lar nas nossas terras\u2026  Faz nosso o Teu olhar. Para que as nossas portas se abram, as nossas m\u00e3os se estendam e o nosso p\u00e3o se reparta, porque \u201cfechar os olhos diante dos pobres torna-nos cegos diante de V\u00f3s, \u00f3 Jesus\u201d. Quando encontrares, Senhor, multid\u00f5es sem rumo e sem rosto, jovens sem horizontes e sem projectos, bra\u00e7os sem trabalho e sem emprego\u2026 Faz nossos os Teus passos. Para que as nossas ruas ganhem sentido, o nosso futuro recupere encanto e a terra que pisamos nos ofere\u00e7a firmeza e confian\u00e7a. Quando sentires, Senhor, l\u00e1grimas tristes e magoadas de crian\u00e7as sem fam\u00edlia, sem escola ou sem terra e de idosos, irm\u00e3os g\u00e9meos da solid\u00e3o, do des\u00e2nimo e do abandono\u2026 Faz nosso o Teu Cora\u00e7\u00e3o. Para que a vida seja defendida e respeitada, como direito sagrado e valor eterno, cres\u00e7a em liberdade e em paz e os mais velhos recebam em presen\u00e7a, afecto e respeito o que nos d\u00e3o em sabedoria, em exemplo e em b\u00ean\u00e7\u00e3o. Quando souberes, Senhor, que h\u00e1 Calv\u00e1rios levantados em lugares de gente abandonada e inocente, cruzes de dor erguidas em holocaustos de sofrimento e cora\u00e7\u00f5es rasgados em momentos de desprezo\u2026 Faz nossas as Tuas dores. Para que encontremos coragem humana, decis\u00e3o crente e determina\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica para percorrer caminhos de Via-Sacra e partilhar as dores dos irm\u00e3os sem ningu\u00e9m. \u201cS\u00f3 o servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo \u00e9 que abre os meus olhas para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele ma ama\u201d (Bento XVI, Deus caritas est, 18). Quando, Senhor Jesus, os sil\u00eancios demorados, as aus\u00eancias inexplicadas ou as atitudes agressivas e violentas ferirem o amor fiel dos esposos, a harmonia sagrada dos lares e a paz aben\u00e7oada das fam\u00edlias\u2026 Ensina-lhes de novo a par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo e a coragem do perd\u00e3o nascido da Cruz. Para que as fam\u00edlias reencontrem o caminho do di\u00e1logo, da unidade, do amor reconhecido e ajudem solidariamente todos os lares em sofrimento e todos os cora\u00e7\u00f5es magoados por causa do amor rompido, da vida rejeitada ou da viol\u00eancia escondida. Quando ouvires, Senhor, ora\u00e7\u00f5es de s\u00faplica, de louvor e de gratid\u00e3o e c\u00e2nticos de alegria em comunidades vivas de f\u00e9, de entusiasmo e de comunh\u00e3o\u2026 Fala-nos da Tua Igreja. Para que a vida e a miss\u00e3o da Igreja se centrem em Ti, Senhor Jesus, e na Eucaristia e cres\u00e7am a partir da palavra e dos sacramentos, da for\u00e7a do Evangelho e da beleza da Liturgia, da santidade de vida de todos os seus membros e do fasc\u00ednio permanente da Caridade. Pe\u00e7o-vos, Senhor, que a Igreja de Aveiro n\u00e3o se canse de contemplar a Cruz e o Crucificado e seja sempre sacramento de salva\u00e7\u00e3o para o Mundo. 4.\tAlargando o horizonte do nosso olhar e a s\u00faplica da nossa ora\u00e7\u00e3o para l\u00e1 dos umbrais desta Catedral de Aveiro e pensando em todos quantos est\u00e3o em comunh\u00e3o connosco atrav\u00e9s da R\u00e1dio Renascen\u00e7a eu rezo com o Beato Charles de Foucauld, um profeta de um amor sem medida: \u201cSenhor Jesus, n\u00e3o te bastou transformar  cada pena e cada causa da cruz em fontes de alegria eterna; abra\u00e7ando-as Tu mesmo, fizeste delas motivo de esperan\u00e7a. Tu aceitaste a pobreza, a fome, as l\u00e1grimas e as persegui\u00e7\u00f5es; de modo que, depois de ti, quem chora, quem \u00e9 pobre, tem fome, \u00e9 perseguido, torna-se semelhante a ti. Como \u00e9s bom, \u00f3 Jesus, que at\u00e9 ao fim do mundo, transformaste os nossos males  em alegrias e fontes de vida eterna!\t\t(M.S.E. 288) O teu Cora\u00e7\u00e3o, que nos amou at\u00e9 aceitar a morte no Calv\u00e1rio, amou-nos como quando nos dizia: \u00abEis a tua M\u00e3e\u00bb e derramar\u00e1 sobre n\u00f3s, com a generosidade desse amor,  as suas gra\u00e7as e b\u00ean\u00e7\u00e3os, para dar ajuda, amparo, fortaleza, coragem e salva\u00e7\u00e3o a cada um destes teus filhos t\u00e3o amados que hoje te acolhem, e imploram sa\u00fade e b\u00ean\u00e7\u00e3o\u201d (M.S.E.V. 89) 5.\tJunto da Cruz estava Maria, a M\u00e3e de Jesus. Na M\u00e3e de Jesus vemos os tra\u00e7os do rosto terno de todas as nossas m\u00e3es, marcado por doloroso sentimento. Quero rezar nesta tarde de Sexta-feira Santa com redobrado fervor pelas nossas M\u00e3es e por todas as m\u00e3es, b\u00ean\u00e7\u00e3o e ber\u00e7o da vida e da f\u00e9 de cada um de n\u00f3s. Rezo com as palavras do Santo Padre Bento XVI: \u201cSanta Maria, M\u00e3e de Deus, V\u00f3s destes ao mundo a luz verdadeira, Jesus, vosso Filho \u2013 Filho de Deus. Entregastes-Vos completamente ao chamamento de Deus e assim Vos tornastes fonte da bondade que brota d&#8217;Ele. Mostrai-nos Jesus. Guiai-nos para Ele. Ensinai-nos a conhec\u00ea-Lo e a am\u00e1-Lo\u201d  + Ant\u00f3nio Francisco dos Santos, Bispo de Aveiro <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bispo de Aveiro na celebra\u00e7\u00e3o de Adora\u00e7\u00e3o da Cruz<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,154,170,187,206,246,91,294],"class_list":["post-23938","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-crianca","tag-diocese-de-aveiro","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-liturgia","tag-quaresma","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23938"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23938\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}