{"id":23932,"date":"2007-04-06T19:22:43","date_gmt":"2007-04-06T19:22:43","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/06\/o-sofrimento-do-inocente\/"},"modified":"2007-04-06T19:22:43","modified_gmt":"2007-04-06T19:22:43","slug":"o-sofrimento-do-inocente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-sofrimento-do-inocente\/","title":{"rendered":"O sofrimento do Inocente"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo, na celebra\u00e7\u00e3o de Adora\u00e7\u00e3o da Cruz <!--more--> \u201cO sofrimento do Inocente\u201d  Homilia na Paix\u00e3o do Senhor S\u00e9 Patriarcal, 6 de Abril de 2007    \t1. Contemplamos, hoje, o acontecimento decisivo da hist\u00f3ria da humanidade, fundador da nossa identidade crist\u00e3: a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, m\u00e1xima express\u00e3o do sofrimento inocente, fonte de sentido para todo o sofrimento humano. Inocente \u00e9 aquele que n\u00e3o tem culpa, que n\u00e3o merece o sofrimento que lhe \u00e9 infligido e que, por isso, \u00e9 injusto. O sentido do sofrimento do justo \u00e9 o problema que maiores interroga\u00e7\u00f5es gera nos crentes de Israel, para quem a \u00fanica raz\u00e3o compreens\u00edvel para o sofrimento era o ele ser um castigo pela infidelidade e pelo pecado. Como exclama o nosso poeta, \u201cque quem \u00e9 pecador sofra tormentos, enfim!&#8230; Mas as crian\u00e7as, Senhor?\u201d, mas o justo, Senhor, diria um crente de Israel. Foram-se procurando explica\u00e7\u00f5es: que os filhos pagariam pelos pecados de seus pais; o sofrimento sem causa aparente revela que h\u00e1 pecados ocultos que ningu\u00e9m conhece. S\u00f3 Deus conhece o cora\u00e7\u00e3o do justo, daquele que \u00e9 verdadeiramente inocente e na sua prova\u00e7\u00e3o s\u00f3 lhe resta abandonar-se na confian\u00e7a, atitude cantada pelo salmista: \u201cOs justos clamaram e o Senhor os ouviu,\u2026 muitas s\u00e3o as tribula\u00e7\u00f5es do justo, mas de todas o livra o Senhor (Sl. 33,18;20). O pr\u00f3prio autor da Carta aos Hebreus aplica a Cristo, no Seu sofrimento injusto, este abandono na confian\u00e7a: \u201cNos dias da Sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e s\u00faplicas, com um forte brado e com l\u00e1grimas, \u00c0quele que o podia livrar da morte e, por causa da Sua piedade, foi atendido\u201d (He. 5,7). Este abandono confiante do justo sofredor nas m\u00e3os de Deus aponta j\u00e1 para onde se encontra o sentido do sofrimento inocente, que s\u00f3 Deus pode conhecer. Mas est\u00e1-se ainda longe da fecundidade salv\u00edfica do sofrimento do justo, que se nos manifestar\u00e1 na Cruz de Cristo, em Quem o sofrimento aparece como um acto de louvor a Deus, express\u00e3o m\u00e1xima da caridade, onde se purificam os cora\u00e7\u00f5es marcados pelo pecado. Que o justo re\u00fane na sua fidelidade o destino de todo o povo, j\u00e1 aparecera como dimens\u00e3o que se foi acentuando; mas que o sofrimento inocente do justo fosse o elemento decisivo dessa fecundidade colectiva, s\u00f3 \u00e9 atribu\u00eddo ao Messias esperado, descrito na figura do Servo sofredor e obediente.  2. Aqui tocamos no aspecto essencial do sofrimento inocente: s\u00f3 o justo, no seu cora\u00e7\u00e3o puro \u00e9 capaz de oferecer o sofrimento como acto de louvor, sofrimento do homem, que se aproxima do sofrimento de Deus. \u00c9 quando o sofrimento se torna louvor que ele \u00e9 fecundo e redentor. O sofrimento \u00e9 uma realidade permanente na experi\u00eancia humana, que n\u00e3o atinge a sua express\u00e3o fecunda devido \u00e0 impureza do cora\u00e7\u00e3o humano, incapaz de o aceitar e oferecer. O pecado torna est\u00e9ril o sofrimento. A realidade do pecado sublinha a actualidade da Cruz de Cristo. N\u00f3s precisamos, para a nossa reden\u00e7\u00e3o, que Cristo continue a oferecer-Se a Deus por n\u00f3s. S\u00f3 Cristo \u00e9 verdadeiramente inocente e, por isso, s\u00f3 o Seu sofrimento \u00e9 redentor. Mas purificados no Seu sangue e unidos a Ele no baptismo, podemos sofrer n\u2019Ele e com Ele, que faz suas as nossas dores e as oferece ao Pai, em acto de louvor. Em Cristo a nossa dor ganha a densidade do sofrimento inocente, naquela pureza reconstru\u00edda pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que Ele infunde em n\u00f3s. \u00c9 nesse sentido que S\u00e3o Paulo diz que n\u00f3s sentimos, na nossa carne, o que falta aos sofrimentos de Cristo. A reconstru\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia, pelo perd\u00e3o dos pecados, tem em n\u00f3s, como primeiro fruto maravilhoso, o podermos viver, com sentido redentor, o nosso sofrimento, o que significa poder celebrar a Eucaristia, isto \u00e9, oferecer com Cristo o nosso sofrimento no mesmo acto de louvor em que Ele oferece o seu.  3. Transformado em acto de louvor, o sofrimento inocente reveste-se de caracter\u00edsticas, que Jesus referiu ao enunciar os bem-aventurados, aqueles que vivem ao ritmo do Reino dos C\u00e9us: \u201cBem-aventurados os que sofrem, porque ser\u00e3o consolados\u201d (Mt. 5,5). O sofrimento oferecido gera a sua pr\u00f3pria consola\u00e7\u00e3o. A primeira qualidade deste sofrimento inocente dos bem-aventurados, \u00e9 a mansid\u00e3o. O justo que sofre n\u00e3o se revolta, n\u00e3o acusa, nem Deus, nem os homens, n\u00e3o desespera. O Profeta Isa\u00edas j\u00e1 sublinhara essa atitude no sofrimento do Servo: \u201cMaltratado, resignava-se e n\u00e3o abria a boca. Como o cordeiro levado ao matadouro e a ovelha sem voz ante aqueles que a tosquiam, nem sequer abriu a boca\u201d (Is. 53,7). Esta mansid\u00e3o sobressai no Senhor Jesus como obedi\u00eancia filial: \u201cApesar de ser Filho, aprendeu, de quanto sofrera, o que \u00e9 obedecer\u201d (Heb. 5,8). A mansid\u00e3o tem n\u2019Ele uma origem, a fidelidade \u00e0 vontade do Pai, o que nos anuncia o des\u00edgnio insond\u00e1vel de Deus de salvar a humanidade atrav\u00e9s do sofrimento inocente. Esta obedi\u00eancia filial h\u00e1-de transformar-se, em n\u00f3s, seus disc\u00edpulos, em identifica\u00e7\u00e3o com a sua miss\u00e3o, aceitando sofrer com Ele e como Ele sofre: \u201cQuando atingir a Sua plenitude, tornou-se, para todos aqueles que Lhe obedecem, causa de salva\u00e7\u00e3o eterna\u201d (Heb. 5,9).  4. O sofrimento do justo, oferecido como acto de louvor, \u00e9 a mais bela express\u00e3o da caridade e tem a grandeza e a dignidade da liberdade. Jesus mostrou-o bem, na sua Paix\u00e3o, perante o Sumo Sacerdote, perante o Governador Romano, perante os soldados que O procuram no Jardim das Oliveiras e depois executam a senten\u00e7a. Que paz, repassada de amor, transpareceu na resposta ao \u201cbom ladr\u00e3o\u201d, \u201choje mesmo estar\u00e1s comigo no para\u00edso\u201d (Lc. 23,43), ou quando diz a Sua M\u00e3e, \u201ceis o teu filho\u201d (Jo. 19,26). Tantas vezes, na Igreja, identificamos esta grandeza no sofrimento dos crist\u00e3os, na liberdade serena dos m\u00e1rtires, na aceita\u00e7\u00e3o silenciosa da dor, na aceita\u00e7\u00e3o da morte como um momento de liberta\u00e7\u00e3o. Em todo o sofrimento oferecido, com a mansid\u00e3o do Servo, Deus \u00e9 louvado e aprofunda-se, misteriosamente, a reden\u00e7\u00e3o do mundo. H\u00e1 um ano, disse-vos aqui, neste mesmo dia: \u201cS\u00f3 Deus conhece a for\u00e7a redentora do sofrimento oferecido, em uni\u00e3o aos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo\u201d.  5. O sofrimento inocente abre o cora\u00e7\u00e3o do justo para a universalidade do amor salv\u00edfico de Deus. Na vida normal \u00e9 comum, mesmo nas pessoas piedosas, rezarmos por este, intercedermos por aquele. Quando o crente, com o cora\u00e7\u00e3o purificado, fazendo um com Cristo, se abandona ao sofrimento aceite e oferecido, abre-se \u00e0 universalidade da salva\u00e7\u00e3o, participa dos sentimentos de Jesus na Cruz, o Qual, de bra\u00e7os abertos, abra\u00e7a a humanidade de todos os tempos. Esse \u00e9 sempre o horizonte da Igreja, sobretudo quando celebra a Eucaristia e que hoje, nesta celebra\u00e7\u00e3o, se exprime na ora\u00e7\u00e3o por todos os homens, crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os, crentes e descrentes, actores de um drama cuja amplitude desconhecem e que encontra na Cruz de Cristo a chave da sua compreens\u00e3o. Nesta universalidade da nossa ora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos deixar de dar um lugar especial a essas multid\u00f5es imensas que, neste momento, sofrem a viol\u00eancia, a injusti\u00e7a, a dor f\u00edsica ou a solid\u00e3o espiritual: os culpados e os inocentes, sobretudo as crian\u00e7as, mortas, abusadas, exploradas, agredidas na sua inoc\u00eancia. Ofere\u00e7amos n\u00f3s, porque o podemos fazer, em Cristo, todo esse sofrimento; aprendamos com Ele a sofrer; ajudemos os outros a oferecer a sua dor. E ao adorarmos a Cruz do Senhor, abracemos nela todo o sofrimento do mundo.  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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