{"id":23931,"date":"2007-04-06T19:21:23","date_gmt":"2007-04-06T19:21:23","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/06\/o-reino-que-nasce-da-cruz\/"},"modified":"2007-04-06T19:21:23","modified_gmt":"2007-04-06T19:21:23","slug":"o-reino-que-nasce-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-reino-que-nasce-da-cruz\/","title":{"rendered":"O Reino que nasce da Cruz"},"content":{"rendered":"<p>D. Manuel Clemente, na celebra\u00e7\u00e3o da adora\u00e7\u00e3o da cruz  <!--more--> PAIX\u00c3O DO SENHOR S\u00e9 do Porto, 6 de Abril de 2007, 15 horas Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, se h\u00e1 celebra\u00e7\u00e3o onde qualquer palavra de coment\u00e1rio s\u00f3 pode ser proferida com muita singeleza e mod\u00e9stia, \u00e9 certamente esta da Paix\u00e3o do Senhor. Ouvimos a sua narra\u00e7\u00e3o, nas palavras t\u00e3o meditadas e quase catequ\u00e9ticas do Evangelho segundo S\u00e3o Jo\u00e3o. Cabe-nos agora uma despojada e simples medita\u00e7\u00e3o. Detenho-me no interrogat\u00f3rio de Pilatos, precisamente quanto \u00e0 realeza de Jesus. Sabemos como, para a autoridade romana que ocupava Israel, este era o ponto mais sens\u00edvel, receosa que estava de subleva\u00e7\u00f5es e motins. E justamente o estaria, mas n\u00e3o com Jesus de Nazar\u00e9. Mas os seus inimigos insistiram nisso mesmo, deturpando-lhe a inten\u00e7\u00e3o e pressionando Pilatos, que, ainda assim, hesitava: \u201cSe o libertares, n\u00e3o \u00e9s amigo de C\u00e9sar: todo aquele que se faz rei \u00e9 contra C\u00e9sar!\u201d. Levaram a melhor, tocando num ponto melindroso para o governador romano, que acabou por lhes entregar Jesus, para ser crucificado. E no alto da cruz l\u00e1 ficou o letreiro, com a pretensa causa da condena\u00e7\u00e3o: \u201cJesus, o Nazareno, Rei dos Judeus\u201d\u2026 Mas fixemo-nos neste passo do di\u00e1logo entre o romano e Cristo: \u201cDisse-lhe Pilatos: \u2018Ent\u00e3o, tu \u00e9s rei?\u2019. Jesus respondeu-lhe: \u2018\u00c9 como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que \u00e9 da verdade escuta a minha voz\u2019. Disse-lhe Pilatos: \u2018Que \u00e9 a verdade?\u2019. N\u00e3o terminaram, de facto, nem a resposta de Cristo, com a defini\u00e7\u00e3o da sua realeza, nem a \u00faltima pergunta de Pilatos, que persiste em muito cepticismo ambiente. Realeza era dom\u00ednio, geralmente externo, dum senhor sobre os seus s\u00fabditos. Assim era a do imperador de Roma, em toda a roda do Mar Mediterr\u00e2neo, essa mesma que Pilatos representava na Judeia. Assentava numa estrutura administrativa e militar como nunca se vira at\u00e9 ai, criara um direito de que ainda hoje somos herdeiros, como normatividade geral para povos diversos, e procedimentos unificados para os cidad\u00e3os. Era sem d\u00favida um grande ganho para a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. Mas distinguia os cidad\u00e3os livres duma grande massa de escravos e canalizava para Roma riquezas de todo o lado. Significativamente, para o fim desse s\u00e9culo I da nossa era, j\u00e1 o livro do Apocalipse lhe referia as riquezas, mas tamb\u00e9m lhe profetizava o fim, que chegaria tr\u00eas s\u00e9culos depois: \u201cChorar\u00e3o tamb\u00e9m por ela e se lamentar\u00e3o os comerciantes da terra, porque ningu\u00e9m mais comprar\u00e1 as suas mercadorias: \u2018Os objectos de ouro e prata, de pedras preciosas e de p\u00e9rolas; [\u2026] vinho, azeite, flor de farinha e trigo, bois e ovelhas, cavalos e carros, escravos e prisioneiros. [\u2026] Ai da grande cidade! [\u2026] Porque bastou um momento para devastar t\u00e3o grande riqueza!\u201d (Ap 18, 11-17). Este era o reino que Pilatos representava em tal momento. Na enumera\u00e7\u00e3o que ouvimos, somam-se indistintamente mercadorias e escravos, coisas e pessoas, ou seja, pessoas coisificadas. Era habitual ent\u00e3o. E o que mais ressalta \u00e9 que foi o outro \u201cRei\u201d, t\u00e3o diferente e inesperado, que Pilatos tinha realmente diante de si, quem trouxe um novo entendimento de cada ser humano, onde tal indistin\u00e7\u00e3o entre coisas e pessoas n\u00e3o seria mais poss\u00edvel. Neste preciso ponto, o direito e a civiliza\u00e7\u00e3o evolu\u00edram, sobre bases indiscutivelmente evang\u00e9licas, naquelas regi\u00f5es onde o Cristianismo se implantou, com o tempo e o mart\u00edrio de muitos. Cumpre aqui lembr\u00e1-lo, quando ainda h\u00e1 quem se questione sobre as \u201cra\u00edzes crist\u00e3s\u201d da Europa&#8230; O melhor do que somos neste Velho Continente, que tarda tanto em rejuvenescer, como liberdade e dignidade pessoais, nasce tamb\u00e9m daqui, do comportamento e da palavra de Cristo, diante da opress\u00e3o que sofria.  Mas voltemos ao pret\u00f3rio. Diante de Pilatos, o homem de Roma, est\u00e1 agora Jesus, o \u201chomem das dores\u201d, j\u00e1 esbofeteado e humilhado. E a pergunta ressoa, entre o sarcasmo e a curiosidade: \u201cEnt\u00e3o, tu \u00e9s rei?\u201d. Para escutar de seguida a confirma\u00e7\u00e3o mais inaudita: \u201c\u00c9 como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que \u00e9 da verdade escuta a minha voz\u201d.  Sucederam-se reinos e imp\u00e9rios, dom\u00ednios v\u00e1rios sobre a face da terra. Alguns prometiam durar mil anos, outros pareciam sustentar-se bem. Mas n\u00e3o \u00e9 preciso ser muito idoso, para ter assistido j\u00e1 ao esboroamento de regimes e sistemas que ainda h\u00e1 poucas d\u00e9cadas prometiam ficar\u2026 J\u00e1 temos hist\u00f3ria que chegue para concluirmos que os reinos deste mundo, mesmo os que se distinguiram realmente por m\u00e9ritos e realiza\u00e7\u00f5es positivas, partilham todos da caducidade pr\u00f3pria das realidades temporais. Aparecem, desaparecem, d\u00e3o lugar a outros\u2026 E o que deles perdura \u00e9 exactamente o que os ultrapassa e tem necessariamente a ver com a humanidade subjacente, como base e projecto de longo termo. Aqui mesmo avulta a resposta de Jesus, definindo a sua realeza. Jesus reina como \u201ctestemunho da verdade\u201d. N\u00e3o sabemos o que se passou na consci\u00eancia de todos os que assistiram ao julgamento de Pilatos. Possivelmente, alguns reconheceram-se ent\u00e3o no reino de Cristo, tanto acertava aquela defini\u00e7\u00e3o com o sentimento profundo que mantinham: a verdade do homem estava ali mesmo, no Deus humanado que t\u00e3o serenamente respondia ao dominador romano. Estava ali, mesmo que depois tivesse a cruz como trono e os espinhos como coroa. Estavam ali a verdade, a dignidade e a liberdade do homem, mesmo preso e oprimido. Estava, ali e sempre em Jesus, a defini\u00e7\u00e3o do que somos e havemos de ser, de mais essencial e certo. N\u00f3s, todos n\u00f3s, os que j\u00e1 escut\u00e1mos a sua voz e os que ainda esperam ouvi-la. H\u00e1 nisto, certamente, uma decis\u00e3o a tomar. Em qual dos reinos nos inclu\u00edmos deveras? Sirva cada Sexta-feira Santa para um preito novo \u00e0 realeza de Cristo. Coloquemo-nos mais decididamente sob o seu mando e pend\u00e3o, ombro a ombro com todos aqueles onde a sua verdade se define ou definir\u00e1 de vez. Com todos os que afirmam, por palavras e condutas, a dignidade insubstitu\u00edvel de cada ser humano, criatura chamada \u00e1 filia\u00e7\u00e3o divina. Com todos os que n\u00e3o a sabem afirmar talvez, mas a adivinham no fundo dos seus cora\u00e7\u00f5es e consci\u00eancias, ainda que s\u00f3 surdamente protestem pela opress\u00e3o a que eles e outros estejam sujeitos. Esse \u00e9 o verdadeiro reino, anunciado e sofrido por Cristo, acolhido esta tarde por n\u00f3s. E outra admira\u00e7\u00e3o nos invade agora, que \u00e9 a de escutarmos a sua voz, mesmo que emitida vai para dois mil\u00e9nios, noutra terra e noutra l\u00edngua, sem nenhuma das grava\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que hoje a tornariam vi\u00e1vel. E de n\u00e3o a escutarmos apenas, mas nos parecer ainda mais n\u00edtida, com o apuramento que tantos s\u00e9culos v\u00e3o dando \u00e0 verdade que transmite.  \u2013 Grande e admir\u00e1vel realidade \u00e9 esta, irm\u00e3os e irm\u00e3s, a do reino de Cristo, insofism\u00e1vel, indel\u00e9vel e perene! Estamos aqui hoje por causa dela, como est\u00e3o tantos irm\u00e3os nossos por esse mundo al\u00e9m, revivendo o di\u00e1logo entre Jesus e Pilatos, para nos definirmos ainda mais, na verdade evang\u00e9lica sobre a humanidade e o mundo. Para o alastramento dessa mesma verdade, diante de todas as opress\u00f5es que firam a dignidade e a liberdade de qualquer pessoa, ou lesem a vida humana, da concep\u00e7\u00e3o \u00e0 morte natural de cada um.  Creio ainda, irm\u00e3os, ser precisamente neste ponto que podemos ultrapassar o cepticismo, de Pilatos ou de outros. Por parte do governador romano, o di\u00e1logo acabou com aquele \u201cQue \u00e9 a verdade?\u201d, entre o ir\u00f3nico e o desencantado. E depois de tantos debates ideol\u00f3gicos, que modernamente extremaram ou relativizaram posi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e pol\u00edticas, muitos contempor\u00e2neos nossos n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m disso.  Tem o Cristianismo a vantagem \u2013 \u00e9 justo consider\u00e1-la assim! \u2013 de nunca reduzir a verdade a um exerc\u00edcio de racioc\u00ednio, que a si pr\u00f3prio se validasse. Trata-se do \u201cVerbo encarnado\u201d, no que a Jesus Cristo se refere, verdade de Deus enunciada no mundo, numa vida e comportamento concretos que realmente se autenticaram. \u00c9 antiga a alega\u00e7\u00e3o de que \u201ccontra factos n\u00e3o h\u00e1 argumentos\u201d; e \u00e9 evang\u00e9lica a conclus\u00e3o de que a \u00e1rvore se reconhece pela bondade dos seus frutos. Pois a verdade estava ali mesmo, diante de Pilatos, na pessoa de Jesus, como se comprovou pela sua vit\u00f3ria sobre a morte; como se comprovou e comprova, por tanto bem que trouxe e traz \u00e0 dignifica\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o total de cada ser humano; como se confirma na capacidade permanente, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, para escoar e definir todas as verdadeiras aspira\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o humano, em termos de realiza\u00e7\u00e3o consistente e progressiva; como se confirma pelos mil gestos de bondade que induz e realiza em quantos se deixam tocar por ela, a verdade de Cristo, face ao mundo e para salva\u00e7\u00e3o do mundo.  E \u00e9 por isto mesmo, irm\u00e3os e irm\u00e3s, e \u00e9 por isto tudo a que nos leva o di\u00e1logo de Cristo, que nos reconhecemos ainda mais no seu reino; trazendo-lhe agora todas necessidades humanas, na maior das ora\u00e7\u00f5es universais.  + Manuel Clemente   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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