{"id":23860,"date":"2007-04-03T17:30:42","date_gmt":"2007-04-03T17:30:42","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/03\/quaresma-na-primeira-pessoa\/"},"modified":"2007-04-03T17:30:42","modified_gmt":"2007-04-03T17:30:42","slug":"quaresma-na-primeira-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/quaresma-na-primeira-pessoa\/","title":{"rendered":"Quaresma na primeira pessoa"},"content":{"rendered":"<p>Depois da experi\u00eancia da dor e da doen\u00e7a, Jos\u00e9 Dias explica o sofrimento como caminho de Ressurrei\u00e7\u00e3o. <!--more--> Como tempo lit\u00fargico, a Quaresma tem 40 dias intensos que ajudam os crist\u00e3os a chegar \u00e0 Festa das festas. A Quaresma de Jos\u00e9 Dias, leigo da diocese de Coimbra, tem mais dias. Depois de lhe diagnosticarem um tumor h\u00e1 cerca de um ano e dos tratamentos posteriores &#8220;tenho vivido um tempo interessante em termos de crescimento interior e de an\u00e1lise da realidade&#8221; &#8211; explicou \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA este Leigo. Com 65 anos celebrados no passado m\u00eas de Mar\u00e7o, Jos\u00e9 Dias real\u00e7a que est\u00e1 a viver duas Quaresmas em simult\u00e2neo. A do tempo lit\u00fargico e a pessoal. Ao recordar os momentos passados v\u00eam-lhe \u00e0 mem\u00f3ria &#8220;a grande sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia&#8221;. Habituado a um ritmo de vida alucinante, este engenheiro qu\u00edmico sentiu que &#8220;n\u00e3o tinha solu\u00e7\u00e3o para o problema&#8221;. E confessa duas consequ\u00eancias do tempo passado: &#8220;a da finitude humana e o da depend\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 com as pessoas mas tamb\u00e9m com Deus&#8221; Como sabe que os homens n\u00e3o resolvem tudo, aquele per\u00edodo de tempo &#8220;levou-me a uma experi\u00eancia de pobreza evang\u00e9lica e a uma disponibilidade interior&#8221;. E acrescenta: &#8220;aparentemente aumentou-me mais a f\u00e9&#8221;. Quando iam distribuir a Comunh\u00e3o na Unidade Hospitalar onde esteve &#8211; apesar do ambiente n\u00e3o ser muito prop\u00edcio \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o &#8211; Jos\u00e9 Dias revela que &#8220;tinha a sensa\u00e7\u00e3o que percebia melhor Deus nos meus colegas do quarto do que, propriamente, naquele exerc\u00edcio de f\u00e9 e sacramental&#8221;.  <b>A P\u00e1scoa de Maio<\/b> Como crist\u00e3o prepara-se para a P\u00e1scoa, a celebrar dia 8 de Abril, mas no pr\u00f3ximo m\u00eas de Maio tamb\u00e9m espera uma \u00abboa nova\u00bb. Em Dezembro fez uma TAC. Os tratamentos pararam porque este revelou que n\u00e3o tinha manchas pulmonares mas em Maio &#8220;terei de voltar a ver o estado dos acontecimentos&#8221;. E completa: &#8220;A minha ressurrei\u00e7\u00e3o &#8211; no sentido libertador &#8211; desta vez n\u00e3o \u00e9 em Abril mas em Maio&#8221;. A de Abril \u00e9 o fundamento de todas as outras mas &#8220;estou na expectativa da outra&#8221; &#8211; disse Jos\u00e9 Dias. Com o passar dos dias a expectativa ganha forma porque &#8220;n\u00e3o sei se terei de recome\u00e7ar novamente a  via sacra&#8221;. Apesar do sofrimento passado, Jos\u00e9 Dias frisou que n\u00e3o colocar\u00e1 estas recorda\u00e7\u00f5es roxas no ba\u00fa. &#8220;Elas fazem parte da minha vida&#8221;. A hist\u00f3ria dos homens e dos povos \u00e9 feita de aspectos negativos e positivos. Por isso  &#8211; acrescenta &#8211; &#8220;n\u00e3o podemos meter no ba\u00fa as coisas que nos desagradam&#8221;.  <b>Nova forma de olhar o mundo<\/b> A experi\u00eancia da doen\u00e7a deu-lhe uma nova forma de olhar o mundo. E relata um epis\u00f3dio: &#8220;Um dia destes fui \u00e0 Figueira da Foz &#8211; uma viagem que fiz muitas vezes &#8211; mas parei na Serra da Boa Viagem e fiquei a olhar extasiado. Parece que nunca tinha visto aquilo. Esta Quaresma que eu passei deu-me perspectivas novas. Olho para o mundo e para as pessoas de outra forma&#8221;. Com os anivers\u00e1rios pessoais passou-se algo parecido. &#8220;Nunca celebrei o anivers\u00e1rio, n\u00e3o ligava a isso, mas este ano senti necessidade de juntar, pelo menos, a fam\u00edlia&#8221;. E completa: &#8220;fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o que poderia ser a \u00faltima. Teve um valor diferente&#8221;. Apesar de ainda n\u00e3o ter feito uma leitura teol\u00f3gica sobre os momentos passados, Jos\u00e9 Dias sublinha que na sua via sacra pessoal, a cruz &#8220;pesou-lhe mais quando andava nos tratamentos&#8221;. Quando recebeu a not\u00edcia da doen\u00e7a aceitou-a com naturalidade. A sua esposa &#8211; \u00e9 m\u00e9dica &#8211; at\u00e9 disse ao m\u00e9dico que &#8220;eu estava mais bem preparado para receber a not\u00edcia do que ela&#8221;. As maiores dificuldades &#8220;senti-as durante o tratamento. Passava uma semana no hospital e duas em casa a recuperar&#8221;. Nessa altura sentia-se impotente e &#8220;n\u00e3o tinha vontade para fazer nada&#8221; mas &#8220;marcou-me muito em termos  de qualidade da minha f\u00e9&#8221; &#8211; confessou.  <b>Um doente privilegiado<\/b> N\u00e3o tinha consci\u00eancia disso mas, antes de ir para o hospital, ficava nervoso e tenso porque sabia o que ia encontrar. Na primeira vez &#8220;fui para l\u00e1 na desportiva&#8221; mas nas seguintes a &#8220;minha mulher dizia que eu mudava muito&#8221;. &#8220;N\u00e3o tinha queixas de dores mas era um mal estar generalizado&#8221; &#8211; recorda. Sentiu-se um doente privilegiado porque os familiares (esposa, filha ou irm\u00e3) levavam-lhe a comida ao hospital. &#8220;Nas refei\u00e7\u00f5es eu violentava-me para ter vontade de comer&#8221;. Elas &#8220;sofreram um calv\u00e1rio maior que o meu&#8221; porque &#8220;eu violentava a minha m\u00e3o para levar a comida \u00e0 boca&#8221;. Um processo doloroso mas sentiu que n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o para ser santo como relatam os livros dos santos. &#8220;Quero andar c\u00e1 mais tempo&#8221;. Por outro lado, Jos\u00e9 Dias tinha a expectativa que o sofrimento o aproximasse mais de Deus. &#8220;N\u00e3o sei se tal aconteceu&#8221;. E recorda: &#8220;Depois da comunh\u00e3o n\u00e3o me sentia especialmente melhor. Lembro-me do meu pai &#8211; esteve acamado muitos anos &#8211; quando acabava de receber a comunh\u00e3o ficava com os olhos brilhantes&#8221;. <b>Percebo melhor a dor<\/b> Os medicamentos e a ora\u00e7\u00e3o foram essenciais para o desaparecimento das manchas pulmonares. &#8220;Confiava nos dois mas cada um deles com perspectivas diferentes&#8221;. E adianta:  &#8220;Nunca pedi a Deus que me curasse mas que me desse for\u00e7a para eu viver em alegria este tempo&#8221;. Uma caminhada de aprendizagem visto que &#8220;conheci mais de perto a dor&#8221; e &#8220;aprendi a valorizar os gestos&#8221;. A fragilidade pr\u00f3pria da doen\u00e7a deu-lhe tamb\u00e9m for\u00e7a para estimular os colegas de quarto. Apesar de &#8220;n\u00e3o ter jeito para visitador hospitalar&#8221;, este leigo de Coimbra procurou ser &#8220;um bocado de \u00abBom Samaritano\u00bb&#8221;  Ser\u00e1 que h\u00e1 um Jos\u00e9 Dias antes e um Jos\u00e9 Dias depois da doen\u00e7a? &#8220;Objectivamente, acho que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7as substanciais&#8221; &#8211; respondeu rapidamente. Durante aquele tempo manteve as colunas no \u00abCorreio de Coimbra\u00bb e na revista \u00abAl\u00e9m-Mar\u00bb. &#8220;Foi violento mas impus a mim mesmo fazer isso&#8221;. Durante a Quaresma pessoal, Jos\u00e9 dias recebeu muitas cartas a encoraj\u00e1-lo mas &#8220;n\u00e3o tinha coragem e for\u00e7a para responder&#8221;. Nunca se sentiu revoltado e &#8220;n\u00e3o estava \u00e0 espera que Deus me tratasse melhor&#8221; devido ao facto de ser crist\u00e3o. Ficou mais rico e &#8220;percebo melhor a dor&#8221;. E avan\u00e7a: &#8220;Fazia-me falta esta experi\u00eancia porque andar a falar da op\u00e7\u00e3o pelos pobres sem ser pobre \u00e9 complicado&#8221;.  <b>A companhia do profeta Jeremias<\/b>  Passou muitos dias no hospital e alguns deles sem se poder mexer. &#8220;Tiraram-me pele de um lado para enxertar no outro&#8221; &#8211; disse. Esteve cerca de um m\u00eas e meio com as costas flageladas e &#8220;percebi um bocadinho melhor a flagela\u00e7\u00e3o de Cristo&#8221;. Depois deste per\u00edodo critico, Jos\u00e9 Dias revela que a B\u00edblia era o seu livro de cabeceira. &#8220;Aproveitei para fazer uma reflex\u00e3o sobre o profeta Jeremias &#8211; j\u00e1 gostava dele &#8211; mas aprofundei melhor o problema da voca\u00e7\u00e3o&#8221;. O sofrimento de Jeremias &#8220;ajudou-me imenso&#8221;. Para al\u00e9m deste livro do Antigo Testamento, Jos\u00e9 Dias contou que lia com frequ\u00eancia a \u00faltima parte do Serm\u00e3o da Montanha e a par\u00e1bola do Filho Pr\u00f3digo. No final da conversa, este pai de dois filhos disse &#8211; com um brilho nos olhos &#8211; que nunca desanimou. &#8220;Nunca me confrontei com Deus nem lhe exigi nada. Refilo mais com Deus na vida s\u00e3 do que na doen\u00e7a&#8221;. E conclui: &#8220;Senti um bocadinho de comunh\u00e3o com Jesus na Cruz&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois da experi\u00eancia da dor e da doen\u00e7a, Jos\u00e9 Dias explica o sofrimento como caminho de Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[174,206,275,91],"class_list":["post-23860","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-diocese-de-coimbra","tag-familia","tag-pascoa","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23860\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}