{"id":238523,"date":"2022-04-27T11:21:44","date_gmt":"2022-04-27T10:21:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=238523"},"modified":"2022-04-27T11:21:44","modified_gmt":"2022-04-27T10:21:44","slug":"saber-aprender-a-edificar-as-conversas-digitais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-edificar-as-conversas-digitais\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A edificar as conversas digitais"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>\u00abAma e faz o que quiseres.\u00bb<\/em> \u2014 diz Santo Agostinho. Mas ser\u00e1 que a cal\u00fania faz parte desse amor? Esta pergunta \u00e9 inc\u00f3moda e alguns podem estar neste momento a pensar que a pergunta n\u00e3o tem qualquer sentido porque uma cal\u00fania n\u00e3o \u00e9 um acto de amor. Por\u00e9m, numa <a href=\"https:\/\/www.wordonfire.org\/videos\/bishop-barrons-commentaries\/bishop-barron-on-social-media-and-the-catholic-culture-of-contempt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">reflex\u00e3o<\/a>; em 2020 do bispo americano Robert Barron que, durante algum tempo, interagia com os \u201cnovos ateus\u201d e lidava com os seus coment\u00e1rios negativos, notou essa mesma atitude nos \u00faltimos anos da parte de muitos cat\u00f3licos. E a experi\u00eancia tem sido de tal maneira caluniosa que levaram o bispo Barron a afirmar \u2014 <em>\u00abeu prefiro os ateus.\u00bb<\/em> \u00c9 um sinal da cultura do desprezo que entrou na mente cat\u00f3lica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_238524\" aria-describedby=\"caption-attachment-238524\" style=\"width: 1296px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-238524\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash.jpg\" alt=\"\" width=\"1296\" height=\"972\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash.jpg 1296w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash-1080x810.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash-980x735.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/alexander-shatov-mr4JG4SYOF8-unsplash-480x360.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1296px) 100vw, 1296px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-238524\" class=\"wp-caption-text\">imagem de Alexander Shatov em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>No percurso sinodal tem-se feito um esfor\u00e7o para que a partilha das nossas experi\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao modo de ser da Igreja e o que pode melhorar, se fa\u00e7a presencialmente. Mas \u00e9 natural que muitas pessoas acabem por faz\u00ea-las nas redes sociais por ser o lugar digital onde sentem que a sua voz \u00e9 ouvida (ou porque o conforto do sof\u00e1 \u00e9 irresist\u00edvel?). Mas a reserva manifestada pelo bispo Barron n\u00e3o \u00e9 isolada. Existem outros, como <a href=\"https:\/\/www.wook.pt\/livro\/ten-arguments-for-deleting-your-social-media-accounts-right-now-jaron-lanier\/23227679\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jaron Lanier<\/a>, pai da realidade virtual, e que conhece bem os meandros do <em>Sillicon Valley<\/em>, cuja experi\u00eancia pessoal mostra como os coment\u00e1rios que, originalmente, podiam ser espa\u00e7o de enriquecimento m\u00fatuo, tornam-se em verdadeiros adros de negativismo digital.<\/p>\n<p>No final dos anos 1970, Lanier partilha que, por vezes, sem se dar conta, entrava num jogo de insultos nos coment\u00e1rios que nada tinham naquela altura de reac\u00e7\u00f5es como os \u201cGostos\u201d ou qualquer algoritmo a quantificar o impacte de certos coment\u00e1rios no tempo de ecr\u00e3 das pessoas, de modo a evidenci\u00e1-los. O insulto depressa passava a ser algo normal. Nas palavras de Lanier \u2014 <em>\u00abera o tempo meteorol\u00f3gico humano ca\u00f3tico\u00bb<\/em>. E para evitar as tempestades, ele acabava por fingir ser simp\u00e1tico e media todas as palavras que usava. Ou seja, \u201chipocratizava-se\u201d. Como resolveu a quest\u00e3o? \u2014 <em>\u00abParei de usar aquilo porque n\u00e3o gostava de quem me estava a tornar. Conhecem o ad\u00e1gio de que devemos escolher o companheiro(a) na base de quem nos tornamos quando estamos perto dessa pessoa? Essa \u00e9 uma boa forma, tamb\u00e9m, de escolher as tecnologias.\u00bb<\/em> Curiosamente, o bispo Barron tem uma proposta diferente relacionada com quem, na sua opini\u00e3o, poderia ser o patrono da evangeliza\u00e7\u00e3o digital: S. Tom\u00e1s de Aquino.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s de Aquino procurava sempre criar uma conversa\u00e7\u00e3o construtiva e inteligente. Isso significa escutar com respeito qualquer voz e pensamento, independentemente das suas convic\u00e7\u00f5es. Da\u00ed que S. Tom\u00e1s entrasse muitas vezes em di\u00e1logo com fil\u00f3sofos pag\u00e3os, pensadores judeus, cientistas \u00e1rabes, sem atacar os seus oponentes, mas apresentando os seus argumentos do modo mais persuasivo e claro poss\u00edvel. Para isso, apresentava tamb\u00e9m os argumentos dos seus opositores e, segundo alguns, de um modo mais persuasivo do que eles pr\u00f3prios. Que atitude pode S. Tom\u00e1s inspirar ao cat\u00f3lico que pretende comentar na vida digital?<\/p>\n<p><em>\u00abAntes de algu\u00e9m carregar no \u201center\u201d e publicar algo nas redes sociais, ele ou ela deveriam perguntar-se a simples quest\u00e3o: \u201cestou a fazer isto por amor?\u201d\u00bb<\/em> \u2014 afirma o bispo Barron sobre a atitude que esperaria de qualquer cat\u00f3lico. E, seguramente, n\u00e3o est\u00e1 a pensar no amor pr\u00f3prio e \u00e0s suas ideias, mas no amor ao outro. Na <em>Fratelli Tutti<\/em>, escreve o Papa Francisco,<\/p>\n<blockquote><p>\u00abMuitas vezes confunde-se o di\u00e1logo com algo muito diferente: uma troca febril de opini\u00f5es nas redes sociais, muitas vezes pilotada por uma informa\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica nem sempre fi\u00e1vel. N\u00e3o passam de mon\u00f3logos que avan\u00e7am em paralelo, talvez impondo-se \u00e0 aten\u00e7\u00e3o dos outros pelo seu tom alto e agressivo. Mas os mon\u00f3logos n\u00e3o empenham a ningu\u00e9m, a ponto de os seus conte\u00fados aparecerem, n\u00e3o raro, oportunistas e contradit\u00f3rios. (200)<\/p>\n<p>(\u2026) O di\u00e1logo social aut\u00eantico pressup\u00f5e a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como poss\u00edvel que contenha convic\u00e7\u00f5es ou interesses leg\u00edtimos. A partir da pr\u00f3pria identidade, o outro tem algo para dar, e \u00e9 desej\u00e1vel que aprofunde e exponha a sua posi\u00e7\u00e3o para que o debate p\u00fablico seja ainda mais completo.\u00bb (203)<\/p><\/blockquote>\n<p>A cultura do desprezo vivida por quem adere a Cristo gera uma contradi\u00e7\u00e3o. Uma contradi\u00e7\u00e3o assumida pelo abandono de Deus que Jesus experimentou na cruz. Para superar a tenta\u00e7\u00e3o dessa cultura podemo-nos identificar com o sofrimento de Jesus, e pensar que entrar no jogo negativista dos coment\u00e1rios significa colocar-se na pele daqueles que escarnecem Jesus.<\/p>\n<p>O \u201cdireito\u201d ao coment\u00e1rio negativista \u00e9 justificado com o baluarte da verdade e da liberdade de express\u00e3o. Recordo-me de quando fui \u00e0 SIC em setembro de 2020, por convite, na sequ\u00eancia de um artigo que havia escrito sobre a reabertura das escolas ap\u00f3s o ver\u00e3o, estando ainda em plena pandemia. Um dos coment\u00e1rios dizia \u2014 <em>\u00abEste fala Panao estar calado.\u00bb<\/em> \u2014 e n\u00e3o posso esconder o quanto me ri e achei criativo. Talvez se fosse uma ofensa maior, n\u00e3o me teria rido e sentiria o efeito nefasto da cal\u00fania. Apesar da cultura do desprezo afectar mais do que a cultura da edifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos descartar que existem pessoas que procuram o bem dos outros nos coment\u00e1rios que fazem, cr\u00edticos ou n\u00e3o. O segredo est\u00e1 sempre na pergunta \u2014 <em>\u00abEstou a fazer isto por amor?\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Em \u201cSonhemos Juntos\u201d, na terceira parte dedicada ao tempo para agir, o Papa Francisco diz ser \u2014 <em>\u00ab(\u2026) o momento de restaurar a \u00e9tica da fraternidade e da solidariedade, regenerando v\u00ednculos de confian\u00e7a e de perten\u00e7a. Porque aquilo que nos salva n\u00e3o \u00e9 uma ideia, mas o encontro. Somente o rosto do outro \u00e9 capaz de despertar o melhor de n\u00f3s mesmos. (\u2026) Existe entre n\u00f3s um la\u00e7o que nos une e que, commumente, chamamos <\/em>solidariedade<em>. A solidariedade \u00e9 mais do que actos de generosidade (\u2026) \u00e9 o convite a abra\u00e7ar a realidade, unidos por la\u00e7os de reciprocidade. Sobre esta base s\u00f3lida poderemos construir um futuro melhor, diferente, mais humano.\u00bb<\/em> Que o sonho de Francisco seja o nosso tamb\u00e9m. Mas, para isso, importa saber aprender a edificar as conversas digitais, de modo a oferecer uma cultura da conversa\u00e7\u00e3o que, inspirada no exemplo de S. Tom\u00e1s, saiba orientar a evangeliza\u00e7\u00e3o digital para os relacionamentos comunit\u00e1rios profundos que transformam a nossa vida numa que seja autenticamente plena.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-238523","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=238523"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238523\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=238523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=238523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=238523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}