{"id":238141,"date":"2022-04-24T09:31:29","date_gmt":"2022-04-24T08:31:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=238141"},"modified":"2022-04-24T10:30:46","modified_gmt":"2022-04-24T09:30:46","slug":"ucrania-solidariedade-criacao-de-rede-tem-sido-fundamental-ines-nabais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ucrania-solidariedade-criacao-de-rede-tem-sido-fundamental-ines-nabais\/","title":{"rendered":"Ucr\u00e2nia\/Solidariedade: \u00abCria\u00e7\u00e3o de rede tem sido fundamental\u00bb &#8211; In\u00eas Nabais"},"content":{"rendered":"<p><em>Mais de 5 milh\u00f5es de pessoas fugiram da Ucr\u00e2nia, desde o in\u00edcio da guerra. Os dados s\u00e3o do Alto-comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (ACNUR). Por c\u00e1, a comunidade ucraniana duplicou desde o in\u00edcio da invas\u00e3o e, de acordo com os \u00faltimos dados oficiais do Governo, os pedidos de prote\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria concedidos j\u00e1 ultrapassaram os 31 mil.\u00a0No dia em que passam dois meses da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pelas tropas russas, In\u00eas Nabais \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia; a leiga mission\u00e1ria do Sant\u00edssimo Redentor trabalha na comunidade de Vila Nova de Gaia, que se tem dedicado ao acolhimento de refugiados.<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_238105\" aria-describedby=\"caption-attachment-238105\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-238105 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1536\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2.jpeg 2048w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-510x382.jpeg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-1080x810.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-1280x960.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-980x735.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-04-22-at-12.01.51-2-480x360.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-238105\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Henrique Cunha\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Quantas pessoas j\u00e1 foram acolhidas nas vossas instala\u00e7\u00f5es no Semin\u00e1rio de Cristo Rei, em Vila Nova de Gaia?<\/em><\/p>\n<p>41 j\u00e1 s\u00e3o recolocadas em habita\u00e7\u00f5es definitivas. Ainda temos connosco, como habita\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, cerca de 60: 22 s\u00e3o crian\u00e7as e a maior parte mulheres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para quem est\u00e1 no terreno j\u00e1 h\u00e1 quase dois meses, quais s\u00e3o as principais dificuldades e ss principais barreiras? <\/em><\/p>\n<p>Eu diria que a principal barreira \u00e9 mesmo a l\u00edngua. De resto, acho que todos os esfor\u00e7os s\u00e3o feitos para que para que nos entendamos e tem corrido, tem corrido bem, dentro de todas as limita\u00e7\u00f5es que uma situa\u00e7\u00e3o de improviso gera\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>T\u00eam recorrido a int\u00e9rpretes?<\/em><\/p>\n<p>Sim, n\u00f3s temos uma comunidade ucraniana que j\u00e1 se reunia no espa\u00e7o do Semin\u00e1rio Redentorista de Cristo Rei, de h\u00e1 13 anos a esta parte, e eles s\u00e3o, digamos assim, as pessoas que nos est\u00e3o a ajudar no acolhimento dos seus companheiros, nossos companheiros tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que est\u00e1 a ser a coordena\u00e7\u00e3o do trabalho, em particular a necess\u00e1ria articula\u00e7\u00e3o com as autoridades? <\/em><\/p>\n<p>Isto nasceu por uma iniciativa muito espont\u00e2nea, porque t\u00ednhamos uma comunidade ucraniana, que j\u00e1 se reunia naquele espa\u00e7o, que veio naquela primeira vaga. Sentimos esta necessidade de acolhimento que agora est\u00e1 a ser outra vez uma necessidade para n\u00f3s, redentoristas, porque somos os da Reden\u00e7\u00e3o, que significa resgate. No fundo, \u00e9 isso que estamos a tentar, disponibilizando os meios que temos e toda a nossa, as nossas estruturas org\u00e2nicas, tudo o que n\u00f3s temos, p\u00f4r ao servi\u00e7o dessa Reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Referia-me \u00e0 articula\u00e7\u00e3o do trabalho que \u00e9 necess\u00e1rio com as autoridades\u2026<\/em><\/p>\n<p>Era a\u00ed que eu queria chegar, porque na realidade, quando eu digo que n\u00e3o me sinto coordenadora de nada, \u00e9 porque eu pe\u00e7o muita ajuda. N\u00e3o vamos aqui inventar a roda: antes do dia 24 [de fevereiro] estavam a entrar em Portugal refugiados de outras proveni\u00eancias e existe gente que, diariamente, se entrega a esta causa, j\u00e1 h\u00e1 muito tempo. A primeira \u201cparceria\u201d que que come\u00e7amos por fazer foi pedir ajuda ao Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados &#8211; JRS. Liguei de imediato ao Dr. Andr\u00e9 Costa Jorge e disse lhe: temos aqui esta estrutura, temos aqui uma comunidade, faz todo o sentido abrirmos as nossas portas &#8211; como tamb\u00e9m abrimos e colaboramos com eles, na altura da Plataforma de Apoio aos Refugiados, e acolhemos fam\u00edlias s\u00edrias. Voltamos a recorrer a quem realmente sabe tecnicamente, em termos tamb\u00e9m de coordena\u00e7\u00e3o com as pr\u00f3prias autoridades, SEF, Alto Comissariado e por a\u00ed fora. Recorremos logo de imediato a eles, que nos t\u00eam orientado, porque nestas coisas \u00e9 preciso saber o que se est\u00e1 a fazer e n\u00f3s s\u00f3 nos sentimos seguros se tivermos os parceiros certos, como neste caso s\u00e3o eles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s falamos j\u00e1 de um esfor\u00e7o inicial de acolhimento, mas este esfor\u00e7o vai naturalmente ter uma continuidade, que \u00e9 o de um trabalho de integra\u00e7\u00e3o. Para essa integra\u00e7\u00e3o, sabemos que \u00e9 necess\u00e1rio responder a quest\u00f5es de emprego e de habita\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 se sente na comunidade?<\/em><\/p>\n<p>Quando falamos em 41 pessoas que j\u00e1 foram recolocadas, foi exatamente nesse sentido: foram para uma habita\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, definitiva, com contratos de comodato, em alguns dos casos, assinados, para a prote\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias pessoas, com a possibilidade de emprego, aulas de portugu\u00eas. Em todo este processo, nas diferentes vertentes, tem sido feito esse acompanhamento. Mais uma vez volto a referir, com muita ajuda do JRS e com toda a restante rede que fomos criando, porque acho que o segredo est\u00e1 aqui, est\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o de rede. N\u00f3s sozinhos n\u00e3o conseguimos fazer nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que essa rede, quem envolve?<\/em><\/p>\n<p>Tudo isto come\u00e7ou, como estava a dizer, com uma iniciativa muito espont\u00e2nea, porque vimos desesperados os nossos companheiros ucranianos que j\u00e1 c\u00e1 estavam, a pensarem nas suas fam\u00edlias. S pergunta que o padre Rui Santiago, o superior provincial, fez ao a um dos respons\u00e1veis da comunidade foi: Como \u00e9 que n\u00f3s podemos ajudar? E estavam, naturalmente, alguns deles preocupados com os seus familiares, porque n\u00e3o tinham como os receber. Ent\u00e3o a\u00ed foi a abertura de portas.<\/p>\n<p>Gerou-se o primeiro movimento de angaria\u00e7\u00e3o de bens para levar para as zonas fronteiri\u00e7as, nomeadamente Pol\u00f3nia, para servir quem estava ali na linha da frente e os campos de refugiados que, entretanto, se foram criando junto \u00e0 fronteira.<\/p>\n<p>Assim que come\u00e7amos a receber as primeiras pessoas, tentamos pedir ajuda, nomeadamente \u00e0s c\u00e2maras municipais, porque n\u00e3o pod\u00edamos manter aquela agita\u00e7\u00e3o toda num sal\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e1 minimamente preparado para ser um centro log\u00edstico. Foi a\u00ed que tivemos a visita da senhora vereadora Catarina Ara\u00fajo, da C\u00e2mara Municipal do Porto, que se comoveu com o que estava a acontecer, t\u00e3o rapidamente.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Foi a partir da\u00ed que surgiu a Frente Atl\u00e2ntica?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, tivemos reuni\u00f5es e nasceu o \u2018Somos todos Ucr\u00e2nia\u2019, com as tr\u00eas c\u00e2maras municipais envolvidas [Porto, Vila Nova de Gaia e Matosinhos]. Esta cria\u00e7\u00e3o de rede tem sido fundamental.<\/p>\n<p>As c\u00e2maras municipais t\u00eam respondido a todos os nossos pedidos, nomeadamente nas pessoas dos vereadores e dos pr\u00f3prios presidentes. N\u00e3o podemos dizer o contr\u00e1rio. E depois tamb\u00e9m ao n\u00edvel da ARS Norte, ao n\u00edvel de cuidados de sa\u00fade, tudo o que eu pe\u00e7o \u00e9 imediatamente respondido, porque muitas pessoas chegam, fazem os testes COVID, v\u00e3o depois fazer uma consulta para o chamado check-up geral. Temos feito esta gest\u00e3o muito articulada com esta rede de pessoas, que \u00e9 o mais importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Disse que cerca de 40 pessoas j\u00e1 est\u00e3o integradas e com trabalho, uma parte delas. Arranjam emprego com alguma facilidade? Em que \u00e1reas?<\/p>\n<p>V\u00e1rias \u00e1reas. \u00c9 evidente que, no caso dos nossos companheiros ucranianos, est\u00e3o a ter a sorte de conseguirem quase sempre arranjar emprego na \u00e1rea em que j\u00e1 trabalhavam, por exemplo, o caso de um arquiteto que, neste momento, j\u00e1 est\u00e1 num gabinete de Arquitetura. Tamb\u00e9m temos casos de engenheiros eletrot\u00e9cnico e engenheiros mec\u00e2nicos que v\u00e3o ser repositores em algumas cadeias de distribui\u00e7\u00e3o alimentar.<\/p>\n<p>Temos um grupo que nos est\u00e1 a apoiar &#8211; mais uma vez, s\u00e3o as pessoas que est\u00e3o \u00e0 frente, esta empatia que as pessoas que est\u00e3o a chefiar determinadas \u00e1reas proporcionam e sensibilizam internamente e que faz toda a diferen\u00e7a. Estamos a falar da Sonae, nomeadamente da loja Continente de Vila Nova de Gaia, que tem sido um parceiro fant\u00e1stico. N\u00f3s precisamos das mais pequenas coisas, para as casas de banho, os quartos, a limpeza, e os produtos foram doados.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quem chega sem nada, acaba por precisar de tudo o que podemos imaginar\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o todos os que chegam sem nada, mas todos necessitam de ser resgatados. Isto \u00e9 muito importante, porque depois tamb\u00e9m h\u00e1 esta situa\u00e7\u00e3o: \u201cah, mas eu estou a ver aqui carros estacionados ucranianos de uma determinada gama\u201d&#8230; Sim, mas foi o \u00fanico meio que sobrou para fugirem e agora, c\u00e1, precisam de coisas t\u00e3o simples como conseguirem ter uma morada para poder abrir uma conta banc\u00e1ria. E \u00e9 nesse aspeto que estamos a ajudar. N\u00e3o est\u00e3o todas as pessoas no mesmo patamar. N\u00f3s temos pessoas capazes de pagar rendas na ordem dos 500 euros, no m\u00e1ximo, est\u00e1 a ser complicado por causa da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que j\u00e1 existia antes e agora\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. N\u00f3s fazemos, sob as instru\u00e7\u00f5es do JRS &#8211; ainda n\u00e3o existe nada formal entre n\u00f3s, mas eles t\u00eam sido de um profissionalismo, estamos a falar de gente que se entrega realmente \u00e0 causa, n\u00e3o precisa de ser apenas o voluntariado pelo voluntariado. T\u00eam sido aqueles que nos aconselham a desenvolver todos os procedimentos que temos de desenvolver. Estamos a falar de uma rede: JRS c\u00e2maras municipais, ARS Norte, entidades privadas, o segredo est\u00e1 aqui. N\u00f3s s\u00f3 conseguimos ajudar se formos humildes, o suficiente, para perceber que n\u00e3o conseguimos fazer nada sozinhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Temos ainda muito presentes as imagens dos primeiros dias da guerra, em que houve uma avalanche solid\u00e1ria dos portugueses, mas a guerra j\u00e1 vai em dois meses. Esta onda solid\u00e1ria mant\u00e9m-se, ou com o desgaste dos dias, das m\u00e1s not\u00edcias e do terror, das necessidades constantes, o conflito come\u00e7ou a ficar no esquecimento, como acontece com tantos outros?<\/em><\/p>\n<p>Seria injusta se n\u00e3o valorizasse mais a rede que est\u00e1 criada do que propriamente essa parte, mas temos sentido realmente, nalgumas situa\u00e7\u00f5es, que as pessoas j\u00e1 perderam aqui algum interesse. J\u00e1 passou aquele mediatismo e temos situa\u00e7\u00f5es bastante complicadas &#8211; de pessoas que resolvem receber nas suas pr\u00f3prias casas, abrindo a sua intimidade para uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 tempor\u00e1ria, mas mais definitiva. E isto \u00e9 um perigo. Depois pode gerar conflitos, porque estamos a falar de pessoas diferentes, culturas diferentes e torna se muito complicado. E depois temos pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o como essa. Temos pessoas que nos telefonam a dizer onde \u00e9 que eu posso ir buscar apoio? O que \u00e9 que eu agora fa\u00e7o? E ainda por cima, com o n\u00edvel de vida, entretanto, a subir. Iniciativas particulares, e de gente que achou que podia fazer tudo sozinho\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e3o agora a sentir dificuldades?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e3o e depois recorrem, evidentemente, a quem se tenta muscular atrav\u00e9s disto, de uma rede. N\u00f3s tentamos ajudar da maneira que podemos, porque essas pessoas tamb\u00e9m se viram numa situa\u00e7\u00e3o de dificuldade. Parece contradit\u00f3rio o que eu vou dizer, mas para ajudar, n\u00f3s temos de ser muito racionais. A emo\u00e7\u00e3o pode jogar contra a pr\u00f3pria ajuda, dizer \u2018n\u00e3o\u2019 \u00e0s vezes \u00e9 estar a dizer \u2018sim\u2019 a uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00f3 para precisar. Tem conhecimento de muitas situa\u00e7\u00f5es iguais \u00e0quelas como estava a descrever?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, algumas, sim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem a ver com o facto de as pessoas terem respondido muito epidermicamente sem\u00a0procurar uma rede de apoio?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 isso mesmo. Esse \u00e9 o perigo. Primeiro e mais uma vez, a JRS aqui tem um lema que, para mim, acho que \u00e9 fundamental: ajudar a integrar com a m\u00e1xima autonomia. Depois temos aqui os dois extremos. pessoas que tratam infantilmente quem chega, o que n\u00e3o pode acontecer, porque as pessoas t\u00eam de ser aut\u00f3nomas, t\u00eam de ser integradas para a autonomia; e pessoas que reagiram a uma situa\u00e7\u00e3o, porque viram na televis\u00e3o, tiveram imensa pena e n\u00e3o refletiram no m\u00e9dio e longo prazo, ent\u00e3o reagiram. Isto prejudica, porque depois vai tirar o foco a quem est\u00e1 nestas redes de trabalho e tem de andar a apagar fogos de outros lados. A situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 em si n\u00e3o foi planeada; ningu\u00e9m nos avisou que ia estourar uma guerra. O senhor Putin n\u00e3o nos avisou\u00a0para n\u00f3s prepararmos aqui as coisas, portanto, n\u00f3s estamos a reagir. Tudo o que n\u00f3s temos criado tem sido em termos de espa\u00e7os de log\u00edstica, tem sido constru\u00eddo e em rea\u00e7\u00e3o. Portanto, n\u00e3o houve aqui planeamento. Planeamento \u00e9 agora pensar no que temos de continuar a pensar no futuro.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 aqui uma preocupa\u00e7\u00e3o que tem sido manifestada por v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es da Igreja Cat\u00f3lica, e pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, desde a primeira hora que \u00e9 a quest\u00e3o daquilo que falava de muitas iniciativas individuais e do risco que houve nas fronteiras do tr\u00e1fico e abuso em contexto de grande fragilidade. Queria perguntar-lhe se lhe chegaram relatos destas situa\u00e7\u00f5es de pessoas que efetivamente tenham conseguido fugir a essas tentativas de tr\u00e1fico e de explora\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio Redentorista Cristo Rei, n\u00e3o temos nenhum caso desses, mas sabemos que aconteceram. H\u00e1 aqui um bra\u00e7o desta rede que eu n\u00e3o estava a referir e que \u00e9 muito importante por causa desta situa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s pedimos para ter ajuda ao n\u00edvel de prote\u00e7\u00e3o policial, precisamente para evitar situa\u00e7\u00f5es menos boas e at\u00e9 bastante perversas de gente que quer avan\u00e7ar com tentativas de abordagem e de aproveitamento. Isto porque n\u00f3s temos ali crian\u00e7as, temos as m\u00e3es. Depois, tamb\u00e9m, sabemos que existe este tipo de situa\u00e7\u00f5es; de gente que procura para trabalhos for\u00e7ados e ent\u00e3o para n\u00f3s estarmos protegidos tamb\u00e9m temos aqui esta ajuda da pol\u00edcia de proximidade, que \u00e9 a mesma que faz o trabalho na escola e que \u00e9 que tamb\u00e9m tem sido incans\u00e1vel connosco e ajudado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Outra situa\u00e7\u00e3o muito ligada a esta quest\u00e3o dos refugiados tem a ver com a discrimina\u00e7\u00e3o. O Alto-Comiss\u00e1rio para as Migra\u00e7\u00f5es, Ant\u00f3nio Vitorino, alertou para essa situa\u00e7\u00e3o e, numa recente entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a, o presidente da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa das Migra\u00e7\u00f5es denunciou que nas fronteiras, pessoas de tez mais escura foram ficando para tr\u00e1s. Tem ideia deste fen\u00f3meno, chegaram-lhe den\u00fancias desta discrimina\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim. A realidade de refugiados n\u00e3o existe s\u00f3 com os ucranianos. Portanto, esta realidade de refugiados est\u00e1 todos os dias a acontecer. Quem desenvolve realmente um bom trabalho em Portugal relativamente a esta quest\u00e3o de acolhimento, e integra\u00e7\u00e3o de migrantes e refugiados, \u00e9 a mesmo a JRS. Sinceramente, acho mesmo. O que n\u00f3s fazemos \u00e9 efetivamente isto; \u00e9 p\u00f4r-nos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o destas entidades para podermos tamb\u00e9m cumprir aqui a nossa miss\u00e3o, o nosso carisma.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Estava a dizer que existem situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Existem. Existem porque, por exemplo, situa\u00e7\u00f5es como o tr\u00e1fico humano. Por estes dias, tamb\u00e9m por causa da rede que temos aqui criada com a Prote\u00e7\u00e3o Civil do Porto, recebemos pessoas, senegaleses, que foram enganados numa rede de tr\u00e1fico humano. Esta realidade acontece ao minuto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Era um conjunto grande de pessoas?<\/em><\/p>\n<p>Era. Era um conjunto grande de pessoas e que n\u00f3s acolhemos a altas horas da noite no semin\u00e1rio, porque \u00e9 essa nossa voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que chegaram?<\/em><\/p>\n<p>Foi a Prote\u00e7\u00e3o Civil do Porto que pediu e n\u00f3s ajudamos. Basicamente \u00e9 assim que esta rede funciona. E sem querer aqui entrar em pormenores, ficam a perceber que realmente estamos a falar de uma realidade que ultrapassa qualquer tipo de pa\u00eds e qualquer tipo de cor de pele. E \u00e9 evidente que os ucranianos est\u00e3o a ter uma estrada mais livre para entrar porque s\u00e3o europeus do que propriamente um afeg\u00e3o ou um s\u00edrio, ou algu\u00e9m de outra proveni\u00eancia, nomeadamente mediterr\u00e2nica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando \u00e0 quest\u00e3o da Ucr\u00e2nia, j\u00e1 tem a perce\u00e7\u00e3o de pessoas que est\u00e3o a regressar depois, por exemplo, da sa\u00edda das tropas russas das \u00e1reas em volta de Kiev e se de alguma forma s\u00e3o pressionadas para este regresso por motivos profissionais ou familiares? <\/em><\/p>\n<p>Sentimos isso diretamente com duas m\u00e3es, com dois filhos cada uma, que regressaram a Kiev porque os maridos estavam l\u00e1 e os meninos n\u00e3o aguentavam as saudades dos pais. Foi a \u00fanica situa\u00e7\u00e3o, nestas circunst\u00e2ncias, elas disseram: In\u00eas n\u00f3s vamos querer regressar. Eu perguntei se tinham certeza, se era seguro, mas \u00e9 evidente que esta quest\u00e3o de n\u00e3o sabermos o que far\u00edamos no lugar destas pessoas. A \u00fanica coisa que n\u00f3s fizemos foi preparar os lanches para a grande jornada de viagem que iriam fazer. Elas estavam em carro pr\u00f3prio e regressaram. E este foi o \u00fanico caso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E mant\u00eam contacto com eles?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim. N\u00e3o est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o propriamente f\u00e1cil, mas sentem-se mais felizes por estarem perto dos que amam. \u00c9 perfeitamente natural. Pessoalmente custou-me bastante, mas \u00e9 mesmo assim que funciona.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Recorrendo \u00e0 sua experi\u00eancia, h\u00e1 necessidade de melhorar, ou apurar os mecanismos de defesa e de prote\u00e7\u00e3o do acolhimento de refugiados?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 tanto caminho a fazer. Eu acho que o segredo, mais uma vez desculpem-me a insist\u00eancia, est\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o de rede. Quanto mais n\u00f3s tentamos fazer as coisas por n\u00f3s pr\u00f3prias e por um grupo de amigos que se resolve reunir e agora forma mais uma associa\u00e7\u00e3o e agora forma mais isto; s\u00f3 vai gerar ru\u00eddo e confus\u00e3o. E n\u00e3o vamos cumprir a miss\u00e3o \u00faltima que \u00e9 de ajudar toda a gente que merece. N\u00f3s somos todos h\u00f3spedes de uma terra chamada Planeta; um s\u00edtio chamado Planeta, um pa\u00eds chamado Planeta, se assim quisermos dizer, e, portanto, toda a gente tem o direito a ter paz, meios de sobreviv\u00eancia e qualidades, at\u00e9 de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Quanto mais se unirem esfor\u00e7os e menos houver preocupa\u00e7\u00e3o com proje\u00e7\u00e3o, protagonismos e houver aqui a humildade de reconhecer que n\u00f3s em rede funcionamos. Esta express\u00e3o e este clich\u00e9 do \u201cJuntos Somos mais Fortes\u201d \u00e9 de facto verdade. S\u00f3 \u00e9 pena que as coisas depois fiquem um bocadinho estragadas quando entram muito no discurso. Mas s\u00f3 assim somos capazes de fazer um verdadeiro trabalho de reden\u00e7\u00e3o, de libertar estas pessoas, sejam elas da proveni\u00eancia de onde forem; venham em barcos de borracha, venham em carros topo de gama, precisam igualmente de ser acolhidas, recebidas, integradas. E que encontrem abra\u00e7os, e que encontrem a possibilidade e oportunidade de refazerem as suas vidas, porque n\u00f3s n\u00e3o somos ningu\u00e9m para julgar quem \u00e9 que merece ou n\u00e3o e por isso vamos fazer o bem s\u00f3 porque est\u00e1 bem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de 5 milh\u00f5es de pessoas fugiram da Ucr\u00e2nia, desde o in\u00edcio da guerra. Os dados s\u00e3o do Alto-comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (ACNUR). Por c\u00e1, a comunidade ucraniana duplicou desde o in\u00edcio da invas\u00e3o e, de acordo com os \u00faltimos dados oficiais do Governo, os pedidos de prote\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria concedidos j\u00e1 ultrapassaram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":238105,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[290,314,631],"class_list":["post-238141","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-redentoristas","tag-solidariedade","tag-ucrania"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238141","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=238141"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238141\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/238105"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=238141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=238141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=238141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}