{"id":23812,"date":"2007-04-02T10:40:43","date_gmt":"2007-04-02T10:40:43","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/04\/02\/cristo-e-a-plenitude-do-homem\/"},"modified":"2007-04-02T10:40:43","modified_gmt":"2007-04-02T10:40:43","slug":"cristo-e-a-plenitude-do-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cristo-e-a-plenitude-do-homem\/","title":{"rendered":"<i>Cristo \u00e9 a plenitude do homem<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Catequese do Cardeal-Patriarca de Lisboa no Domingo de Ramos <!--more-->  1. Reflectimos, ao longo da Quaresma, nas raz\u00f5es do nosso acreditar, ou seja, sobre a base racional da nossa f\u00e9. Atitude verdadeiramente humana, a f\u00e9 \u00e9 um dom de Deus. Nela encontram-se o que de mais profundo tem a natureza do homem e a ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s. Ele que nos criou, acompanha-nos na busca da plenitude da vida, em cujo dinamismo se situa a f\u00e9. Este encontro do humano com o divino, exprime realisticamente o mist\u00e9rio do homem e realizou-se plenamente em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, encarna\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus. Pela f\u00e9 o homem participa de Jesus Cristo, encontro maravilhoso da divindade com a humanidade, em Quem encontra a sua pr\u00f3pria plenitude. Jesus Cristo \u00e9 o verdadeiro fundamento e a base s\u00f3lida da nossa f\u00e9, em todas as suas dimens\u00f5es, enquanto express\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s e das nossas mais belas capacidades de buscarmos a verdade. \tEsta caminhada quaresmal s\u00f3 podia conduzir-nos ao encontro com Jesus Cristo, que a Liturgia contempla nesta Semana Maior, na Sua P\u00e1scoa, plenitude humana definitivamente conseguida, pela vit\u00f3ria de Deus sobre o pecado e a morte, no triunfo maravilhoso da vida. Como Jo\u00e3o Paulo II no in\u00edcio do seu Pontificado, apetece-nos exclamar, no termo da nossa caminhada quaresmal e no in\u00edcio da semana pascal: \u201cA \u00fanica orienta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, a \u00fanica direc\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia, da vontade e do cora\u00e7\u00e3o para n\u00f3s \u00e9 esta: na direc\u00e7\u00e3o de Cristo, Redentor do homem, na direc\u00e7\u00e3o de Cristo, Redentor do mundo. Para Ele queremos olhar, porque s\u00f3 n\u2019Ele, Filho de Deus, est\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o, exclamando como Pedro: Para quem iremos n\u00f3s Senhor?! Tu tens Palavras de vida eterna\u201d1.  \tA Palavra eterna \t2. Pedro encontrou a verdadeira raz\u00e3o para acreditar e ficar com Jesus: Ele \u00e9 a Palavra eterna (cf. Jo. 6,68ss). Jesus Cristo \u00e9 a humaniza\u00e7\u00e3o do \u201cLogos\u201d eterno, o Verbo divino. Ele \u00e9 o pensamento divino, tornado Palavra na comunica\u00e7\u00e3o reveladora com os homens. E esse Verbo eterno pode entrar em di\u00e1logo com os homens porque estes participam dessa intelig\u00eancia divina, foram criados \u00e0 imagem de Deus. Antes de se revelar, Deus criou os homens com essa participa\u00e7\u00e3o do Logos, que os tornava capazes de acolher a revela\u00e7\u00e3o. Por isso, ao contemplarmos Jesus Cristo, a primeira atitude espont\u00e2nea \u00e9 abrir, para O escutar, a nossa intelig\u00eancia, vontade e cora\u00e7\u00e3o, tudo aquilo que constitui a espiritualidade do homem e o torna capaz de escutar Deus. \tA nossa ades\u00e3o a Jesus Cristo envolve, desde o primeiro momento, a nossa intelig\u00eancia. A racionalidade da nossa f\u00e9 enra\u00edza no Verbo eterno de Deus, porque Ele, antes de se fazer Homem, era, desde toda a eternidade, a intelig\u00eancia divina (cf. Jo. 1,1-3) e criou-nos inteligentes como Ele, que \u201c\u00e9 a imagem de Deus invis\u00edvel, por quem todas as coisas foram feitas\u201d (Col. 1,15-16). O homem foi criado como a intelig\u00eancia do Universo e por isso o Verbo eterno p\u00f4de fazer-Se homem. A f\u00e9 em Cristo \u00e9 o encontro de duas intelig\u00eancias, a humana e a divina; para o homem, criado \u00e0 imagem de Deus, tudo em Cristo \u00e9 intelig\u00edvel. O pr\u00f3prio \u201cmist\u00e9rio\u201d, escondido desde todos os s\u00e9culos em Deus (cf. 1Co. 2,8ss), abre-se \u00e0 compreens\u00e3o do homem, quando a sua intelig\u00eancia se encontra com Cristo, Verbo de Deus.  \tPorque Cristo \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o do Logos eterno de Deus, Ele \u00e9 a verdade e o caminho para o Pai. A verdade ser\u00e1 sempre, no cora\u00e7\u00e3o do homem, a irradia\u00e7\u00e3o da luz da intelig\u00eancia divina e ao toc\u00e1-la, o homem percebe que essa verdade nos conduz ao Pai, o Deus eterno. \tPorque Cristo \u00e9 o Verbo eterno, para acreditar n\u2019Ele basta escut\u00e1-l\u2019O. A Palavra escuta-se e assim gera o encontro entre duas intelig\u00eancias e dois cora\u00e7\u00f5es. \u201cEste \u00e9 o Meu Filho bem amado\u2026 escutai-O\u201d (Mt. 17,5). Escutar Jesus \u00e9 o principal caminho para o enraizamento da f\u00e9. Escut\u00e1-l\u2019O nas suas Palavras, nos seus gestos, nos seus milagres, nos seus sil\u00eancios; escut\u00e1-l\u2019O na sua maneira de viver e de morrer, escut\u00e1-l\u2019O na Igreja e na maneira de estar e de a amar, ser capaz de O escutar na palavra dos seus disc\u00edpulos. Escut\u00e1-l\u2019O \u00e9 aprender e isso \u00e9 tarefa e dignidade da nossa intelig\u00eancia.  \tEscutando Jesus Cristo, conhecemos o Pai \t3. Em Jesus Cristo a nossa intelig\u00eancia abre-se ao conhecimento do insond\u00e1vel mist\u00e9rio de Deus. Talvez ainda n\u00e3o tenhamos percebido a radicalidade da afirma\u00e7\u00e3o: Cristo \u00e9 o \u00fanico caminho: \u201cEu e o Pai somos um s\u00f3\u201d; \u201cquem Me v\u00ea, v\u00ea o Pai\u201d, o que equivale a dizer, quem Me conhece, conhece o Pai. \tO conhecimento de Deus a que temos acesso, por Jesus Cristo, ensina-nos o que Deus Pai \u00e9 para n\u00f3s, um Pai misericordioso, que nos ama e deseja ser amado por n\u00f3s, que n\u00e3o quer a morte do pecador, mas deseja, para ele, a vida. A nossa intelig\u00eancia abre-se a esse mist\u00e9rio, antes de mais contemplando o que Jesus Cristo foi para Deus, Seu Pai, como Homem que \u00e9 Filho: \u201cS\u00f3 Ele satisfez ao eterno amor do Pai, aquela paternidade que desde o princ\u00edpio se expressou na cria\u00e7\u00e3o do mundo\u2026 S\u00f3 Ele correspondeu \u00e0quela paternidade de Deus e aquele amor, de certo modo rejeitado pelo homem\u201d. Na obedi\u00eancia e no amor filial de Jesus Cristo, entendemos o mist\u00e9rio da nossa reden\u00e7\u00e3o, fruto do amor misericordioso de Deus. \u201cA reden\u00e7\u00e3o do mundo, aquele tremendo mist\u00e9rio do amor em que a cria\u00e7\u00e3o foi renovada, \u00e9, na sua raiz mais profunda, a plenitude da justi\u00e7a num cora\u00e7\u00e3o humano, no cora\u00e7\u00e3o do Filho Primog\u00e9nito\u201d2. \tTudo o que Deus deseja para o homem realizou-o plenamente no cora\u00e7\u00e3o do Filho e, assim, n\u2019Ele, podemos conhecer o insond\u00e1vel amor de Deus por n\u00f3s. Ao contr\u00e1rio de todas as filosofias e sabedorias humanas que chegaram ao conhecimento de Deus, Jesus Cristo \u00e9 um caminho existencial, experiencial, para chegar a conhecer Deus. Captamos o que Deus \u00e9, no que Ele faz por n\u00f3s. E fez tudo isso em plenitude na pessoa do Verbo encarnado. Verdadeiramente chegar a Deus \u00e9 uma \u201cimita\u00e7\u00e3o\u201d de Jesus Cristo, conhecer o que Deus \u00e9 para n\u00f3s, \u00e9 reconhecer e contemplar o que Ele \u00e9 em Jesus Cristo. Jesus disse um dia aos disc\u00edpulos: \u201cV\u00f3s chamais-Me Mestre e dizeis bem, porque o sou\u201d (Jo. 13,13). Ele \u00e9 sempre e em tudo, o nosso Mestre, o que nos ensina o conhecimento de Deus.  \tUnindo-nos a Jesus Cristo, conhecemos o homem \t4. Este \u00e9 um dos aspectos mais exigentes da f\u00e9 crist\u00e3: ter em Jesus Cristo a compreens\u00e3o do homem. \u00c9 exigente, porque toca de perto o concreto da nossa exist\u00eancia. Toda a aventura do conhecimento humano tem sido marcada por essa busca da compreens\u00e3o do homem, do sentido da sua vida, do seu destino, da natureza da sua realiza\u00e7\u00e3o, em felicidade. Todas as antropologias filos\u00f3ficas e culturais procuraram compreender o homem a partir de si mesmo. Ora Jesus Cristo aparece-nos como \u201co Homem\u201d; n\u2019Ele eu posso continuar a procurar a compreens\u00e3o do homem, a partir do Homem. Ele \u00e9 mais do que um modelo, ponto de refer\u00eancia comparativo. A f\u00e9 proporciona-nos uma uni\u00e3o vital com Cristo, como dizia Paulo: \u201cPara mim viver \u00e9 Cristo\u201d. \u00c9 da densidade dessa uni\u00e3o que brota a compreens\u00e3o de n\u00f3s mesmos. Jo\u00e3o Paulo II exprimiu, assim, esta densidade existencial: \u201cCristo, Redentor do mundo, \u00e9 Aquele que penetrou, de uma maneira singular e que n\u00e3o se pode repetir, no mist\u00e9rio do homem e entrou no seu cora\u00e7\u00e3o\u201d. E citando o Conc\u00edlio Vaticano II: \u201cNa realidade, s\u00f3 no mist\u00e9rio do Verbo encarnado se esclarece, verdadeiramente, o mist\u00e9rio do homem\u201d3.  Desta compreens\u00e3o do homem, em Cristo, brota o sentido definitivo da sua vida com os outros, da sua morte, do sofrimento e da dor, sobretudo do amor. Em Cristo percebemos que o homem n\u00e3o pode viver sem amor. Citando, de novo, a Redemptor Hominis: \u201cO homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente, deve, com a sua inquietude, incerteza e tamb\u00e9m fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Deve mergulhar n\u2019Ele com tudo o que \u00e9 (\u2026) Quando se realiza, no homem, este processo profundo, produz frutos de adora\u00e7\u00e3o a Deus e de profunda maravilha perante si pr\u00f3prio\u201d4. Esta vis\u00e3o cristoc\u00eantrica do homem \u00e9 a base da antropologia crist\u00e3, isto \u00e9, da doutrina da Igreja acerca do homem, fundamento da sua dignidade, da exig\u00eancia \u00e9tica da sua exist\u00eancia, do horizonte da sua plena realiza\u00e7\u00e3o. \u201cA Igreja, que n\u00e3o cessa de contemplar o mist\u00e9rio de Cristo, sabe, com a certeza da f\u00e9, que a Reden\u00e7\u00e3o que se verificou na Cruz, restitui definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua exist\u00eancia no mundo, sentido que havia perdido, em grande parte, por causa do pecado\u201d5. Este \u00e9 o contributo da Igreja para a cultura, atrav\u00e9s da evangeliza\u00e7\u00e3o: proclamar a grandeza e a dignidade do homem, recuperadas na reden\u00e7\u00e3o. \u201cA tarefa fundamental da Igreja de todos os tempos e, de modo particular, do nosso tempo, \u00e9 a de dirigir o olhar do homem e de endere\u00e7ar a consci\u00eancia e a experi\u00eancia de toda a humanidade, para o mist\u00e9rio de Cristo\u201d6.  6. Nesta Semana Pascal somos chamados a faz\u00ea-lo, atrav\u00e9s da Liturgia, na profundidade da nossa f\u00e9. Assim, cada P\u00e1scoa celebrada ser\u00e1 redescoberta do sentido da vida do homem e da sua hist\u00f3ria.  S\u00e9 Patriarcal, 1 de Abril de 2007 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catequese do Cardeal-Patriarca de Lisboa no Domingo de Ramos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[127,144,199,237,246,275,91],"class_list":["post-23812","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-espiritualidade","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-pascoa","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23812","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23812"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23812\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}