{"id":237503,"date":"2022-04-16T11:52:03","date_gmt":"2022-04-16T10:52:03","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=237503"},"modified":"2022-04-17T11:53:42","modified_gmt":"2022-04-17T10:53:42","slug":"homilia-do-bispo-de-viana-do-castelo-na-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-viana-do-castelo-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Viana do Castelo na Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->\u00abApesar de ser Filho, aprendeu a obedi\u00eancia no sofrimento. E, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se, para todos os que Lhe obedecem, causa de salva\u00e7\u00e3o eterna\u00bb. Estas palavras da Carta aos Hebreus conduzem-nos \u00e0 profundidade do mist\u00e9rio que envolve a morte de Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p>Come\u00e7am por manifestar que n\u00e3o estamos perante mais um condenado \u00e0 morte mas sim Aquele que carrega sobre si todo o mal e todo o pecado que atinge a humanidade. E, adianta sublinhando que na obedi\u00eancia obtemos a salva\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>Por isso, o autor da Carta aos Hebreus exorta \u00e0 confian\u00e7a para irmos ao encontro d\u2019Aquele que conhece o sofrimento e experimenta a morte porque, deste modo, \u00e9 o sacerdote que nos conv\u00e9m. N\u00e3o oferece coisas exteriores a si mesmo, como acontecia na primeira Alian\u00e7a, mas oferece-se a Si mesmo.<\/p>\n<p>Com esta atitude, Jesus de Nazar\u00e9 inaugura um novo sacerd\u00f3cio do qual todos n\u00f3s, baptizados, participamos, j\u00e1 n\u00e3o \u00e1 maneira antiga, mas configurados a Jesus Cristo, somos chamados a entregarmo-nos a n\u00f3s mesmos em oferta a Deus e aos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>\u00c9 neste mist\u00e9rio insond\u00e1vel da morte do Filho de Deus que se revela a sorte do servo de Jav\u00e9 descrito t\u00e3o dramaticamente por Isaias. Na verdade, Isaias descreve os tra\u00e7os do Messias que para resgatar o Seu Povo e para o conduzir \u00e0 comunh\u00e3o com Deus \u00absuportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores\u00bb.<\/p>\n<p>Com esta descri\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica e com a revela\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio de Cristo sofredor, deparamo-nos com o itiner\u00e1rio da vida humana sujeita ao sofrimento e \u00e0 morte e perante os quais se geram perplexidades, d\u00favidas, desespero e desalento, mas sobretudo muitas interroga\u00e7\u00f5es que exigem uma resposta. Esta se n\u00e3o \u00e9 de ordem racional, ter\u00e1 de ser da ordem da experi\u00eancia, da comunh\u00e3o e do encontro com Aquele que nos pode oferecer a Vida em plenitude.<\/p>\n<p>O Concilio Vaticano II enfrenta esta quest\u00e3o dizer que \u00ab\u00e9 em face da morte que o enigma da condi\u00e7\u00e3o humana mais se adensa\u00bb (GS, 18). De facto, \u00abn\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a dor e a progressiva dissolu\u00e7\u00e3o do corpo que atormentam o homem, mas tamb\u00e9m, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre\u00bb (GS, 18).<\/p>\n<p>Desperta-se ent\u00e3o como \u00aba intui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o f\u00e1-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ru\u00edna total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa\u00bb (GS, 128). Deste modo, \u00abo germe de eternidade que nele existe, irredut\u00edvel \u00e0 pura mat\u00e9ria, insurge-se contra a morte\u00bb (GS, 18).<\/p>\n<p>Refere ainda o texto conciliar que \u00abtodas as tentativas da t\u00e9cnica, por muito \u00fateis que sejam, n\u00e3o conseguem acalmar a ansiedade do homem: o prolongamento da longevidade biol\u00f3gica n\u00e3o pode satisfazer aquele desejo duma vida ulterior, invencivelmente radicado no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb (GS, 18).<\/p>\n<p>Perante as grandes quest\u00f5es e sobretudo confrontado com a impot\u00eancia diante da morte, o mist\u00e9rio de Cristo revela-nos que \u00abcom efeito, Deus chamou e chama o homem a unir-se a Ele com todo o seu ser na perp\u00e9tua comunh\u00e3o da incorrupt\u00edvel vida divina\u00bb (GS, 18).<\/p>\n<p>Na verdade, ao deparamo-nos com a Revela\u00e7\u00e3o, \u00abesta vit\u00f3ria, alcan\u00e7ou-a Cristo ressuscitado, libertando o homem da morte com a pr\u00f3pria morte (GS, 18). Daqui que \u00aba f\u00e9, que se apresenta \u00e0 reflex\u00e3o do homem apoiada em s\u00f3lidos argumentos, d\u00e1 uma resposta \u00e0 sua ansiedade acerca do seu destino futuro; e ao mesmo tempo oferece a possibilidade de comunicar em Cristo com os irm\u00e3os queridos que a morte j\u00e1 levou, fazendo esperar que eles alcan\u00e7aram a verdadeira vida junto de Deus\u00bb (GS, 18).<\/p>\n<p>Tratando-se de uma experi\u00eancia de comunh\u00e3o na qual se entrela\u00e7am o mist\u00e9rio do homem com todos os seus dramas e o Mist\u00e9rio de Jesus Cristo com todo o Seu esplendor, somos convidados a percorrer o caminho de Jesus de Nazar\u00e9 tal como nos \u00e9 descrito no Evangelho desta celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma longa narra\u00e7\u00e3o que se inicia na entrega de Jesus at\u00e9 nos depararmos com Ele no Calv\u00e1rio. Come\u00e7a com a pergunta: a quem buscais? E termina com a expressiva interven\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 de Arimateia e de Nicodemos. Este \u00faltimo, certamente ainda se recordava das palavras de Jesus que diziam: \u00abDeus amou de tal maneira o mundo que lhe deu o Seu Filho \u00fanico, para que todo o que n\u2019Ele crer n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha a vida eterna\u00bb (Jo. 3, 14-15).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00f3s hoje devemos sentir-nos interpelados sobre a quem buscamos? Na verdade, estamos dispostos a percorrer o caminho de Jesus de Nazar\u00e9 que nos leva do sofrimento e da morte at\u00e9 \u00e0 experi\u00eancia da vida nova j\u00e1 presente em n\u00f3s pelo baptismo? Ou idealizamos um outro messias que se torna um \u00eddolo e que n\u00e3o tem poder de salvar?<\/p>\n<p>Estas perguntas s\u00e3o pertinentes para o nosso ser e para o nosso agir de crist\u00e3os.<\/p>\n<p>No dizer de S. Jo\u00e3o Paulo II, \u00abcomo consequ\u00eancia da obra salv\u00edfica de Cristo, o homem passou a ter, durante a sua exist\u00eancia na terra,\u00a0a esperan\u00e7a<em>\u00a0<\/em>da vida e da santidade eternas\u00bb (SD, 15). E prossegue este texto sublinhando \u00abainda que a vit\u00f3ria sobre o pecado e sobre a morte, alcan\u00e7ada por Cristo com a sua Cruz e a sua Ressurrei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o suprima os sofrimentos temporais da vida humana, nem isente do sofrimento toda a dimens\u00e3o hist\u00f3rica da exist\u00eancia humana, ela\u00a0projecta,<em>\u00a0<\/em>no entanto, sobre essa dimens\u00e3o e sobre todos os sofrimentos\u00a0uma luz nova. \u00c9 a luz do Evangelho, ou seja, da Boa Nova\u00bb (SD, 15).<\/p>\n<p>\u00c9 esta luz nova que n\u00f3s procuramos junto do mist\u00e9rio da morte de Cristo e \u00e9 esta Boa Nova que ansiamos na expectativa da Sua ressurrei\u00e7\u00e3o para testemunharmos perante os nossos concidad\u00e3os que a morte foi vencida e que vivemos na Vida Nova do Ressuscitado.<\/p>\n<p>Na verdade, aprofundarmos o mist\u00e9rio da morte conduz-nos \u00e0 certeza da ressurrei\u00e7\u00e3o. Neste sentido, reconhecemos que os que acompanham a Jesus de Nazar\u00e9 neste itiner\u00e1rio de sofrimento que conduz \u00e0 Sua morte s\u00e3o os mesmos que s\u00e3o agraciados pela novidade da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imploramos de Nossa Senhora das Dores, de S. Bartolomeu dos M\u00e1rtires, de S. Teot\u00f3nio e de S. Paulo VI que nos alcancem as gra\u00e7as divinas a partir do mist\u00e9rio da entrega de Jesus Cristo e nos conduzam pelos caminhos que nos levam \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o do mundo de hoje.<\/p>\n<p>Amen.<\/p>\n<p><em>D. Jo\u00e3o Lavrador, Bispo de Viana do Castelo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":237493,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[182],"class_list":["post-237503","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-viana-do-castelo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237503\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/237493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}