{"id":237421,"date":"2022-04-17T09:30:22","date_gmt":"2022-04-17T08:30:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=237421"},"modified":"2022-04-17T09:17:22","modified_gmt":"2022-04-17T08:17:22","slug":"pascoa-vemos-imagens-de-massacres-de-inocentes-deus-identifica-se-com-todo-este-sofrimento-pedro-vaz-patto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pascoa-vemos-imagens-de-massacres-de-inocentes-deus-identifica-se-com-todo-este-sofrimento-pedro-vaz-patto\/","title":{"rendered":"P\u00e1scoa: \u00abVemos imagens de massacres de inocentes. Deus identifica-se com todo este sofrimento\u00bb &#8211; Pedro Vaz Patto"},"content":{"rendered":"<p><em>Presidente da Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz evoca destrui\u00e7\u00e3o da guerra e as consequ\u00eancias da pandemia de Covid-19, apontando prioridades para o novo Governo em Portugal<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_162521\" aria-describedby=\"caption-attachment-162521\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-162521\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/patto2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-162521\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Joana Gon\u00e7alves\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Na sua tradicional mensagem de prepara\u00e7\u00e3o para a P\u00e1scoa, a Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz denunciou as vozes da destrui\u00e7\u00e3o e da guerra e as consequ\u00eancias da pandemia de Covid-19, , pedindo que a celebra\u00e7\u00e3o da ressurrei\u00e7\u00e3o passe pela aten\u00e7\u00e3o ao sofrimento dos outros e ao acolhimento de quem foge da viol\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p>Sim, a mensagem da P\u00e1scoa lembra-nos, por um lado, um Deus que n\u00e3o \u00e9 indiferente ao sofrimento das pessoas. O Filho de Deus identificou se com os sofredores, com as v\u00edtimas de injusti\u00e7a, com os doentes,&#8230;E \u00e9 particularmente oportuno nesta altura em que n\u00f3s todos os dias vemos imagens de destrui\u00e7\u00e3o de morte, de pessoas que fogem e que deixam tudo, deixam a sua fam\u00edlia;\u00a0 t\u00eam que separar da sua fam\u00edlia para ter um lugar mais seguro. Vemos imagens de massacres de inocentes. Deus identifica-se com todos este sofrimento. \u00c9 isto que nos lembra a P\u00e1scoa, mas tamb\u00e9m nos lembra, que \u00e9 a Ressurrei\u00e7\u00e3o, e a Ressurrei\u00e7\u00e3o diz-nos que a morte e a viol\u00eancia n\u00e3o t\u00eam a \u00faltima palavra e, portanto, est\u00e1 nos uma esperan\u00e7a que nos permite enfrentar de outra forma todas estas realidades &#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas \u00e9 incontorn\u00e1vel, parece-me sentir-se que esta P\u00e1scoa \u00e9 muito marcada pela guerra, pelas suas consequ\u00eancias. Do ponto de vista da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz, como \u00e9 que cheg\u00e1mos a este momento? A comunidade internacional n\u00e3o soube prever a situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que de facto n\u00e3o soube, mas eu pr\u00f3prio tamb\u00e9m fiquei surpreendido. Quer dizer, algumas pessoas alertaram para o regime russo, para a possibilidade de se expandir. J\u00e1 havia precedentes, como a invas\u00e3o da Crimeia, mas verdadeiramente, acho que todos fomos surpreendidos. Quer dizer, n\u00e3o imagin\u00e1vamos que se chegasse a este ponto de uma agress\u00e3o t\u00e3o n\u00edtida, t\u00e3o clara, uma viola\u00e7\u00e3o t\u00e3o clara da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, do direito internacional. Depois da Segunda Guerra Mundial aprendemos um pouco com a li\u00e7\u00e3o dessa Segunda Guerra Mundial. Houve institui\u00e7\u00f5es que foram criadas &#8211; as Na\u00e7\u00f5es Unidas e a Uni\u00e3o Europeia &#8211; precisamente para evitar que se repetisse uma trag\u00e9dia como essa. Portanto, essa \u00e9 agora outra quest\u00e3o sobre a qual a Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz deve refletir, e todos n\u00f3s. Que nova ordem internacional vai ser criada depois desta guerra? \u00c9 Evidente que n\u00e3o podemos ter ilus\u00f5es de que, de um momento para o outro, o risco de guerras, de repeti\u00e7\u00e3o de guerras vai desaparecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas corremos o risco de uma Guerra Fria alargada, como sugeriu o Papa Francisco ainda recentemente?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, parece que \u00e9 isso que se est\u00e1 a verificar. Ali\u00e1s, falava-se em Guerra Fria, mas a Guerra Fria, que existiu durante muitos anos depois da Segunda Guerra Mundial, n\u00e3o chegou a vias de facto. Quer dizer, n\u00e3o chegou a uma guerra verdadeira como esta que estamos a assistir agora. E isso \u00e9 que \u00e9 de facto preocupante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Publicou recentemente uma reflex\u00e3o sobre a resist\u00eancia n\u00e3o violenta em tempo de guerra. O Papa j\u00e1 disse que nenhuma vit\u00f3ria pode ser festejada sobre mortes e destro\u00e7os. Como \u00e9 que est\u00e1 a ser a resist\u00eancia civil \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Aquilo que gostar\u00edamos de salientar, e tamb\u00e9m temos feito esta reflex\u00e3o com os nossos colegas da Ucr\u00e2nia \u00e9 que n\u00e3o se nega o direito de leg\u00edtima defesa e o direito de leg\u00edtima defesa armada que est\u00e1 a decorrer na Ucr\u00e2nia, mas n\u00e3o podemos esquecer que a guerra \u00e9 sempre um mal. Pode ser um mal menor, mas \u00e9 sempre um mal. Deve ser sempre um \u00faltimo recurso. Devemos sempre esgotar todas as possibilidades de resolver os conflitos de outra forma, porque verdadeiramente a guerra deixa feridas que n\u00e3o beneficiam ningu\u00e9m, e portanto, isso choca-me um pouco. Verificar que os contendentes festejam, ou\u00a0quase que festejam o n\u00famero de baixas do inimigo, que at\u00e9 podem ser pessoas agressoras e, portanto, pessoas que nos amea\u00e7avam, mas n\u00e3o deixam de ser pessoas humanas e, portanto, nunca, nunca \u00e9 de\u00a0festejar a morte. A quest\u00e3o da resist\u00eancia n\u00e3o armada \u00e9 algo que tem exemplos hist\u00f3ricos e que devemos t\u00ea-los em mente, porque \u00e9 sempre uma possibilidade que n\u00e3o devemos rejeitar liminarmente.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falava dos contactos que est\u00e3o a ser mantidos com os cong\u00e9neres de outros pa\u00edses nas Comiss\u00f5es Nacionais, Justi\u00e7a e Paz. Como \u00e9 que tem corrido esse di\u00e1logo?<\/em><\/p>\n<p>Temos de um lado, os nossos colegas ucranianos que fazem este apelo ao aux\u00edlio tamb\u00e9m armado. S\u00e3o pessoas que est\u00e3o identificadas com a posi\u00e7\u00e3o do governo ucraniano e pretendem que os pa\u00edses da Europa em geral auxiliem tamb\u00e9m com armas este governo. Noutras comiss\u00f5es, n\u00f3s temos algumas retic\u00eancias. N\u00e3o questionamos o direito de leg\u00edtima defesa, mas lembramos esta possibilidade de haver outras formas de resist\u00eancia, que sejam formas de recusa de colabora\u00e7\u00e3o com as autoridades e que tamb\u00e9m exigem um sacrif\u00edcio heroico. Atrav\u00e9s dessas formas, as pessoas tamb\u00e9m arriscam a vida, quando recorrem \u00e0s armas e\u00a0esse \u00e9 um aspeto. Depois podemos perguntar at\u00e9 que ponto \u00e9 que se deve transigir em rela\u00e7\u00e3o a determinadas reivindica\u00e7\u00f5es? At\u00e9 que ponto \u00e9 que essa transig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma forma de premiar o infrator, ou se \u00e9 uma forma de evitar a guerra? \u00c0s vezes, quando se faz uma op\u00e7\u00e3o pela defesa armada, tem de se pensar sempre de acordo com a doutrina da Igreja, sen\u00e3o ser\u00e3o as consequ\u00eancias da guerra mais graves do que as consequ\u00eancias de n\u00e3o atuar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa mesma reflex\u00e3o tem estado muito presente, por exemplo, nas interven\u00e7\u00f5es do Papa Francisco, que ainda recentemente pedia que as duas partes estivessem dispon\u00edveis para fazer sacrif\u00edcios. Penso que vai ao encontro do que nos diz neste nesta sua reflex\u00e3o. A Santa S\u00e9 tem sido incans\u00e1vel na procura de uma solu\u00e7\u00e3o para a paz. O Papa, praticamente em todas as suas interven\u00e7\u00f5es, tem presente este cen\u00e1rio de guerra e admitiu recentemente que est\u00e1 a ponderar uma visita a Kiev.\u00a0No atual contexto, uma desloca\u00e7\u00e3o do Papa Francisco \u00e0 Ucr\u00e2nia teria algumas consequ\u00eancias no poder negocial da Santa S\u00e9 do seu ponto de vista?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil. N\u00e3o sei se ser\u00e1 vi\u00e1vel essa forma de media\u00e7\u00e3o. A desloca\u00e7\u00e3o do Papa \u00e9, antes de mais, um gesto simb\u00f3lico de solidariedade para com as v\u00edtimas da guerra. Mas n\u00e3o sei se h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es. Normalmente, as viagens do Papa n\u00e3o s\u00e3o apenas umas viagens num plano pol\u00edtico, diplom\u00e1tico de encontrar autoridades, neste caso do governo ucraniano\u00a0ou das autarquias locais, mas tamb\u00e9m normalmente s\u00e3o um encontro com os fi\u00e9is, com o povo crist\u00e3o, e isso ser\u00e1 mais dif\u00edcil de concretizar. Depois, o Secret\u00e1rio de Estado, o cardeal Parolin, disse que qualquer interven\u00e7\u00e3o do Papa n\u00e3o deveria ser interpretada como uma op\u00e7\u00e3o a favor de um ou de outro campo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Esse ser\u00e1 o grande problema, porque uma eventual desloca\u00e7\u00e3o do Papa pode indiciar ou pode a outra parte ver como uma tomada de posi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, isso tamb\u00e9m tem estado presente nestes di\u00e1logos que temos tido com os nossos colegas ucranianos e eles t\u00eam dito que gostariam que o Papa fosse mais claro no sentido de identificar quem \u00e9 a pot\u00eancia agressora, quem \u00e9 o respons\u00e1vel m\u00e1ximo pelas guerras, pelos massacres que estamos a assistir.\u00a0Mas eu vejo que da parte do Papa, da diplomacia da Santa S\u00e9 &#8211; neste caso, como em muitos outros &#8211; esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente do que se tem verificado noutras. Omitir ou n\u00e3o ter um discurso t\u00e3o agressivo, sem deixar de denunciar&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Refere-se \u00e0 import\u00e2ncia de n\u00e3o fechar portas, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 precisamente isso. N\u00e3o fechar a porta a uma eventual possibilidade de negocia\u00e7\u00e3o, em que o contributo da Santa S\u00e9 possa ser importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E um eventual encontro com o Patriarca de Moscovo, que foi avan\u00e7ada pela ag\u00eancia Reuters, e que ainda n\u00e3o foi confirmada pelo Vaticano, pode ser uma esp\u00e9cie de caminho alternativo para se chegar ao objetivo?<\/em><\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o do Papa junto do Patriarca Cirilo seria sem d\u00favida importante, porque de alguma maneira, o governo russo serve-se de &#8211; digamos -instrumentaliza este apoio da Igreja Ortodoxa para efeitos de propaganda. N\u00e3o quer dizer que \u00e9 uma componente religiosa, como algumas vezes se diz, uma componente religiosa da guerra. N\u00e3o \u00e9, porque n\u00e3o est\u00e1 em causa nenhum princ\u00edpio religioso, pelo contr\u00e1rio. Esta guerra \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mensagem do Cristianismo, seja cat\u00f3lica, ortodoxa, seja o que for, e isso tamb\u00e9m t\u00eam dito os cr\u00edticos ortodoxos do Patriarca de Moscovo. Mas, de facto, h\u00e1 esta instrumentaliza\u00e7\u00e3o que seria desej\u00e1vel que n\u00e3o que n\u00e3o se verificasse. E se houvesse outra atitude do Patriarca, poderia, de facto, isso alterar- se. N\u00e3o sei se de facto, um encontro do Papa com o Patriarca Cirilo seria suficiente para mudar a sua atitude.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas dando por exemplo uma ideia que o Papa Francisco lan\u00e7ou; a ideia de uma tr\u00e9gua de P\u00e1scoa teria em vista, por exemplo, esta mobiliza\u00e7\u00e3o de os respons\u00e1veis crist\u00e3os de dois pa\u00edses de enorme tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 para um momento simb\u00f3lico, pudesse abrir caminho \u00e0 paz. Uma proposta destas n\u00e3o deveria ter sido mais apoiada at\u00e9 pelos respons\u00e1veis pol\u00edticos, como uma porta que se poderia ter aberto?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, sem d\u00favida, sem d\u00favida. Mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m haver outra atitude, outra abertura que ainda n\u00e3o se verifica da parte da parte destes respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ap\u00f3s a sua viagem a Malta, o Papa Francisco denunciou a fal\u00eancia do sistema internacional na defesa dos mais fracos perante a l\u00f3gica dos mais fortes, dos poderosos. E falou mesmo da impot\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Podemos tirar efetivamente essa conclus\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o diria que que as Na\u00e7\u00f5es Unidas n\u00e3o t\u00eam atuado. De facto, o secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas tem sido muito claro a denunciar, pelo menos neste aspeto de den\u00fancia, daquilo que se est\u00e1 a verificar em rela\u00e7\u00e3o a esta guerra. Mas, para al\u00e9m disso, n\u00e3o se tem verificado, enfim, uma consequ\u00eancia\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 limites. Desde logo, o sistema de vota\u00e7\u00e3o no Conselho de Seguran\u00e7a que impede uma condena\u00e7\u00e3o clara da agress\u00e3o russa. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nova ordem internacional, da parte do Papa h\u00e1 propostas no sentido da limita\u00e7\u00e3o, do desarmamento. Nesta \u00faltima mensagem para o Dia Mundial da Paz fez uma sugest\u00e3o de destinar a um fundo para combater a fome as despesas que seriam poupadas atrav\u00e9s do desarmamento.<\/p>\n<p>Agora, o que n\u00f3s vemos \u00e9 que se prop\u00f5e uma nova ordem internacional em que haja mais despesas para a Defesa, precisamente porque esta guerra n\u00e3o \u00e9 algo de distante, a possibilidade da guerra, como n\u00f3s poder\u00edamos pensar anteriormente.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos pensar numa nova ordem internacional que seja o renascer daquilo que se experimentou antes da II Guerra Mundial, os conflitos de poder entre na\u00e7\u00f5es e entre blocos. N\u00e3o devemos desistir de continuar nessa senda, em vez de regredir, construindo uma nova ordem internacional que siga, no fundo, aquela l\u00f3gica \u201cse queres a paz, prepara a guerra\u201d. N\u00e3o, \u201cse queres a paz, prepara a paz\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que a comunidade internacional deve reagir perante ind\u00edcios de crimes de guerra e crimes contra a humanidade na Ucr\u00e2nia? <\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um Tribunal Penal Internacional e este tamb\u00e9m foi um progresso que n\u00f3s temos de saudar e de ter em conta, um progresso no sentido de dizer que na guerra n\u00e3o vale tudo e que, quando est\u00e3o em causa estes crimes &#8211; crimes de guerra, crimes contra a humanidade, genoc\u00eddio &#8211; \u00e9 afetada a humanidade no seu todo, n\u00e3o apenas as v\u00edtimas ou a na\u00e7\u00e3o que \u00e9 a v\u00edtima. H\u00e1 estes instrumentos que t\u00eam os seus limites, n\u00e3o podemos negar isso.<\/p>\n<p>Neste caso, o Tribunal Penal Internacional atua em rela\u00e7\u00e3o a pa\u00edses que aceitam a sua jurisdi\u00e7\u00e3o. A R\u00fassia n\u00e3o aceita a jurisdi\u00e7\u00e3o do Tribunal Penal Internacional; os Estados Unidos tamb\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 que diz\u00ea-lo. Isto limita, digamos, a possibilidade de tornar efetivas os julgamentos e condena\u00e7\u00f5es dos respons\u00e1veis por estes crimes de guerra ou contra a humanidade. Mas, mesmo assim, as pessoas que possam vir a ser investigadas neste \u00e2mbito podem, pelo menos, ficar com a sua liberdade de circula\u00e7\u00e3o limitada, porque nos outros pa\u00edses que aceitam essa jurisdi\u00e7\u00e3o j\u00e1 poder\u00e3o ser perseguidas criminalmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sabemos que a guerra tem consequ\u00eancias que se fazem sentir, obviamente tamb\u00e9m em Portugal, na vida concreta das pessoas. Estamos a iniciar uma nova Legislatura. Que expectativas tem para este novo Governo, agora com maioria absoluta? <\/em><\/p>\n<p>O facto de o Governo ter maioria absoluta cria um horizonte que permite uma certa estabilidade e uma certa coer\u00eancia de pol\u00edticas. Esse facto n\u00e3o deve servir para deixar de tentar consensos mais alargados em rela\u00e7\u00e3o a muitas mat\u00e9rias: foi o que se verificou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia, pelo menos durante algum tempo, e em rela\u00e7\u00e3o a tomadas mat\u00e9rias, em que houve uma coes\u00e3o que facilitou o trabalho. N\u00e3o estava em causa apenas o sucesso do Governo, estava em causa toda a harmonia social em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual somos respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Os tempos que se aproximam n\u00e3o s\u00e3o os mais favor\u00e1veis, n\u00e3o permitem grandes otimismos, precisamente por causa das consequ\u00eancias da guerra. H\u00e1 um desafio grande que \u00e9 o acolhimento agora destes refugiados da Ucr\u00e2nia, em rela\u00e7\u00e3o ao qual a sociedade civil tem agido com grande generosidade. \u00c9 aquele aspeto positivo que contrasta com todo o negativo que n\u00f3s vemos na guerra e que importa salientar. Nesta a\u00e7\u00e3o da sociedade civil, tamb\u00e9m \u00e9 importante que o Governo apoie, tamb\u00e9m \u00e9 um aspeto em que podemos conseguir consensos alargados.<\/p>\n<p>Sem esquecer que, tal como na pandemia, as consequ\u00eancias n\u00e3o se revelam de igual gravidade para todos, tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a estes fen\u00f3menos da infla\u00e7\u00e3o, h\u00e1 quem sofra mais e quem sofra menos. Normalmente s\u00e3o os que j\u00e1 est\u00e3o pior que sofrem mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em que outras \u00e1reas que deveria predominar esse consenso alargado? Lembro, por exemplo, a quest\u00e3o da lei da eutan\u00e1sia vetada pelo presidente da Rep\u00fablica, em que, de imediato, alguns partidos fizeram saber da sua disponibilidade para regressar ao tema. O Parlamento, nesta fase, deveria pensar no referendo<\/em>?<\/p>\n<p>A mim choca-me um pouco a prioridade que \u00e9 dada a este tema, apresentar uma proposta de legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia logo no primeiro dia de efetividade de fun\u00e7\u00f5es da Assembleia da Rep\u00fablica. A quest\u00e3o do referendo justifica-se, porque se repete agora um fen\u00f3meno que j\u00e1 se verificava na Legislatura anterior: os dois maiores partidos n\u00e3o tomaram uma posi\u00e7\u00e3o durante a campanha eleitoral e est\u00e3o divididos &#8211; uns mais do que outros, mas \u00e9 uma mat\u00e9ria que \u00e9 deixada \u00e0 liberdade de cada deputado e o sistema eleitoral n\u00e3o permite \u00e0 pessoa que vota num partido extinguir entre deputados que est\u00e3o a favor ou que est\u00e3o contra. Verdadeiramente, n\u00e3o me parece que haja do ponto de vista dos princ\u00edpios democr\u00e1ticos \u2013 substancialmente, porque formalmente poder\u00e1 haver, n\u00e3o digo que n\u00e3o, mas substancialmente &#8211; uma legitimidade democr\u00e1tica para votar sobre esta quest\u00e3o. E \u00e9 isso que torna justificado, em meu entender, o referendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ficaria surpreendido se algum partido avan\u00e7asse com a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de um referendo?<\/em><\/p>\n<p>Tenho de reconhecer que n\u00e3o h\u00e1 grandes probabilidades de vir a ser alterada a posi\u00e7\u00e3o que foi tomada na Legislatura anterior. Em todo o caso, os deputados s\u00e3o outros, pelo menos em grande. N\u00e3o \u00e9 demais tentar colocar esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Gostaria de dizer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia e \u00e0s li\u00e7\u00f5es que dever\u00edamos colher que h\u00e1 dois aspetos que que contradizem esta tentativa da legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia. Por um lado, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas que foram tomadas, houve grandes sacrif\u00edcios de um ponto de vista econ\u00f3mico, do ponto de vista de restri\u00e7\u00e3o das liberdades, ponto de vista social, etc. Grandes sacrif\u00edcios foram tomados para salvaguardar a vida das pessoas mais vulner\u00e1veis, dos idosos, mesmo que estas pessoas tivessem uma expectativa de vida reduzida, como \u00e9 natural.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o deixa de merecer prote\u00e7\u00e3o, mesmo nestas situa\u00e7\u00f5es, e justifica todos os sacrif\u00edcios que foram tomados. Acho que ningu\u00e9m se arrependeu e a eutan\u00e1sia contradiz isto. E contradiz porque, no fundo, v\u00eam dizer que em certas situa\u00e7\u00f5es a vida humana deixa de ser prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m a pandemia nos revelou a import\u00e2ncia, a dignidade e a nobreza da profiss\u00e3o m\u00e9dica e todas as profiss\u00f5es que lhe est\u00e3o associadas. A eutan\u00e1sia tamb\u00e9m contradiz esta miss\u00e3o essencial da profiss\u00e3o de m\u00e9dico, que \u00e9 salvar as vidas, que \u00e9 salvaguardar a vida humana, em todas as situa\u00e7\u00f5es, at\u00e9 o seu fim natural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s os entramos numa fase diferente, felizmente, da pandemia, j\u00e1 com alguns sinais de esperan\u00e7a. Um deles \u00e9 este regresso das celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e das v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 P\u00e1scoa. \u00c9 efetivamente, um sinal de esperan\u00e7a para o p\u00f3s-pandemia depois destes anos de limita\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Sim, de facto, h\u00e1 uma dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, p\u00fablica, do fen\u00f3meno religioso que n\u00e3o pode ser esquecida. A dada altura, fixei uma frase de um do ministro franc\u00eas que, uma vez que as pessoas podiam rezar em casa, n\u00e3o estava em causa a liberdade religiosa quando se faziam restri\u00e7\u00f5es de confinamento. N\u00e3o: a liberdade religiosa tem uma dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, social, p\u00fablica, que n\u00e3o pode ser esquecida e isso \u00e9 reconhecido por todas as declara\u00e7\u00f5es internacionais de Direitos Humanos, de reconhecimento da liberdade religiosa.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou com isto a dizer que n\u00e3o se justificassem algumas restri\u00e7\u00f5es, mas impedir em absoluto essa dimens\u00e3o comunit\u00e1ria e p\u00fablica da religi\u00e3o, pareceu-me negativo. \u00c9 bom que haja este retomar das celebra\u00e7\u00f5es, das tradi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da P\u00e1scoa, s\u00e3o motivo de alegria. Tamb\u00e9m nos ajudam a viver a P\u00e1scoa nesta dimens\u00e3o, porque n\u00e3o o fazemos sozinhos, mas fazemo-lo como comunidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidente da Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz evoca destrui\u00e7\u00e3o da guerra e as consequ\u00eancias da pandemia de Covid-19, apontando prioridades para o novo Governo em Portugal<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":162521,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-237421","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237421"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237421\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/162521"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}