{"id":237395,"date":"2022-04-17T12:30:05","date_gmt":"2022-04-17T11:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=237395"},"modified":"2022-04-17T11:54:06","modified_gmt":"2022-04-17T10:54:06","slug":"homilia-do-bispo-das-forcas-armadas-e-de-seguranca-no-domingo-de-pascoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-das-forcas-armadas-e-de-seguranca-no-domingo-de-pascoa\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a no Domingo de P\u00e1scoa"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->\u201cMaria Madalena foi de manh\u00e3zinha, ainda escuro, ao sepulcro\u201d (Jo 20, 1), tamb\u00e9m Pedro e Jo\u00e3o \u201ccorriam os dois juntos\u201d (Jo 20, 4), em dire\u00e7\u00e3o ao sepulcro. Eis, em poucas palavras, o retrato do que era a vida antes de Cristo: uma corrida que tinha a morte como meta; uma caminhada rumo \u00e0 sepultura. Essa era, de facto, a marca cultural das maiores civiliza\u00e7\u00f5es da antiguidade; baste recordar a afirma\u00e7\u00e3o, completamente aceite e vulgar, no helenismo, do ser-humano vir tratado como \u00abmortal\u00bb, e, no juda\u00edsmo, ningu\u00e9m escapava ao destino (mortal) da Geena. Tudo era resumido na express\u00e3o do homem \u00abser-para-a-morte\u00bb.<\/p>\n<p>Infelizmente, hoje, o mundo ainda continua a assistir, estupefacto e escandalizado, a fen\u00f3menos que pertencem a esse reino pr\u00e9 pascal de morte e trevas. A guerra, e concretamente a guerra na Ucr\u00e2nia, com toda a vaga de destrui\u00e7\u00e3o e crime ali cometido, fazem-nos recuar para o tempo, onde, o cemit\u00e9rio era a \u00fanica meta que se vislumbrava no horizonte da vida. Nunca as palavras de Jesus \u201ca Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas \u00e0 Luz, porque as suas obras eram m\u00e1s\u201d (Jo 3, 19) foram de tanta atualidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, eis que o sepulcro, lugar da morte e do fim, de s\u00fabito, vem transformado em fonte de um novo come\u00e7o. A Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus abala, sejam as estruturas das velhas e superadas antropologias, seja a pr\u00f3pria terra, uma vez que dentro desta, no seu seio, algo que vem do Alto a transforma em palco de uma irrup\u00e7\u00e3o inaudita. Sim, a Ressurrei\u00e7\u00e3o consiste na comunica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida de Deus a Jesus; o esplendor da vida divina vem infundido e derramado na humanidade de um verdadeiro homem, que jazia morto no sepulcro e que, por isso, ressuscitou, recebe em si a vida eterna, definitiva, de amor.<\/p>\n<p>A mesma vida nova, comunicada, que ressuscita Jesus Cristo, tamb\u00e9m por Ele, se estende a todos os que s\u00e3o batizados; ningu\u00e9m se ressuscita a si mesmo, s\u00f3 o Pai, pelo Filho e no Esp\u00edrito participa a Sua vida aos que salva. Ent\u00e3o, a verdadeira P\u00e1scoa, isto \u00e9 \u00aba passagem\u00bb, consiste na comunica\u00e7\u00e3o da Vida Plena que deixa de estar e permanecer apenas e s\u00f3 em Deus, para Ele pr\u00f3prio, a transmitir e comunicar, por Cristo, \u00e0 humanidade. Mas Cristo foi quem inaugurou a economia da rece\u00e7\u00e3o da Vida definitiva ressuscitada.<\/p>\n<p>Merc\u00ea desta infus\u00e3o, a pr\u00f3pria humanidade \u00e9 transformada: deixa de ser uma humanidade para a morte e passa a ser, humanidade para a plenitude de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, esta novidade e plenitude vem comunicada no Batismo, e, como tal, todo o crist\u00e3o a recebe. Ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 movido pela for\u00e7a imperiosa da morte, com os seus prazos irredut\u00edveis, nem t\u00e3o pouco pela inevitabilidade do pecado, mas sim pela for\u00e7a da gra\u00e7a que oferece a deslumbrante possibilidade de ser, de viver, e de fazer tudo em Cristo, sem bloqueios.<\/p>\n<p>No horizonte da nossa refer\u00eancia, emerge a figura de Jesus de Nazar\u00e9, o Filho de Deus feito homem que, a cada momento, divinizava os gestos que fazia, as a\u00e7\u00f5es que praticava, as a\u00e7\u00f5es que realizava, as palavras que proferia porque era Ele, enquanto verdadeiro Deus, o seu autor \u2013 agora, com a Ressurrei\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria natureza humana vem divinizada; assim n\u00f3s, crist\u00e3os: detentores da vida nova de ressuscitados, tamb\u00e9m os gestos que fazemos, as a\u00e7\u00f5es que praticamos, as palavras que proferimos devem ser divinas, n\u00e3o s\u00f3 porque feitas e ditas por pessoas divinizadas, pelo Batismo no Esp\u00edrito, mas porque det\u00eam o mesmo carater oblativo, amoroso, santificador dos gestos, a\u00e7\u00f5es e palavras do pr\u00f3prio Jesus Cristo.<\/p>\n<p>A Ressurrei\u00e7\u00e3o remete-nos, realmente, para a responsabilidade de sermos homens novos, a viver no patamar da plenitude, que \u00e9 o n\u00edvel da vida que possu\u00edmos. Ora, esse \u00e9 o patamar do amor, a Deus e ao pr\u00f3ximo, como tamb\u00e9m \u00e9 o n\u00edvel da santidade. Por isso, n\u00e3o se exige, ao crist\u00e3o, menos que a excel\u00eancia do amor incondicional aos irm\u00e3os e, por eles, dar a vida; tudo o que seja abaixo deste padr\u00e3o \u00e9 pr\u00e9-pascal e contr\u00e1rio aos crit\u00e9rios da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Palavra de Deus \u00e9 pr\u00f3spera em situar a presen\u00e7a da Mem\u00f3ria, no interior da narra\u00e7\u00e3o da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. Assim, S\u00e3o Pedro na primeira leitura, \u201cDeus ungiu com a for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo a Jesus de Nazar\u00e9, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Dem\u00f3nio, porque Deus estava com Ele.\u201d (Act10, 38) E tamb\u00e9m os dois homens, vestidos de branco que apareceram \u00e0s mulheres, junto ao sepulcro vazio, fazem apelo \u00e0 mem\u00f3ria \u00abLembrai-vos como Ele vos falou, quando estava na Galileia\u00bb e \u00abElas lembraram-se ent\u00e3o das palavras de Jesus.\u00bb ( Lc 24, 6.8). Se a Mem\u00f3ria \u00e9 a gram\u00e1tica da hist\u00f3ria, a Ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 a definitiva raz\u00e3o da Esperan\u00e7a, na medida em que escancara os horizontes do tempo, abrindo as portas da vida para a eternidade; a P\u00e1scoa, portanto, envolve mem\u00f3ria e esperan\u00e7a numa \u00fanica alian\u00e7a ao servi\u00e7o da vida. Realmente, cada acontecimento e fragmento da nossa exist\u00eancia, est\u00e1 destinado a ser Mem\u00f3ria, enquanto cada gesto, cada experi\u00eancia vivida, cada palavra dita, se torna, imediatamente, mem\u00f3ria, recorda\u00e7\u00e3o do passado. Agora, a Ressurrei\u00e7\u00e3o transforma cada ato, cada elemento da vida em ato de esperan\u00e7a, porque a vida, em cada instante e viv\u00eancia, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um mero \u00e1lbum que se vai enriquecendo com o passar do tempo e o acumular de acontecimentos, mas, com a Ressurrei\u00e7\u00e3o, a vida define-se como um caminho de novas etapas, construtoras de Esperan\u00e7a; cada instante do presente fica ao servi\u00e7o do futuro e serve \u00e0 sua edifica\u00e7\u00e3o. A vida deixou de ser um \u00e1lbum de p\u00e1ginas cerradas, e tornou-se um projeto que todos os dias \u00e9 enriquecido com novos materiais para a sua constru\u00e7\u00e3o. Que maravilhoso an\u00fancio!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, hoje o nosso olhar fixa-se nas palavras ditas \u00e0s primeiras testemunhas da Ressurrei\u00e7\u00e3o: \u201cCristo, ressuscitou; n\u00e3o est\u00e1 aqui.\u201d (Mc 16, 6) E, \u201cn\u00e3o est\u00e1 aqui\u201d, porque ele vive na vida de cada um; \u201cn\u00e3o est\u00e1 aqui\u201d, porque, agora, est\u00e1 em todos os ondes e em todas as circunst\u00e2ncias. \u201cN\u00e3o est\u00e1 aqui\u201d, porque a Sua Ressurrei\u00e7\u00e3o fez de cada nesga da vida um lugar da Sua presen\u00e7a, vencedor de todas as mortes.<\/p>\n<p>Acreditamos que as frentes de guerra &#8211; tanto geogr\u00e1ficas, como as da interioridade de cada um \u2013 pela gra\u00e7a da Ressurrei\u00e7\u00e3o, ser\u00e3o transformadas em rios de paz!<\/p>\n<p>Acreditamos que, tal como aquele sepulcro, onde jazia o corpo de Jesus, foi transformado em fonte de vida e esperan\u00e7a, tamb\u00e9m o mundo deixar\u00e1 de ser um campo de mart\u00edrio e de derramamento de sangue e se transformar\u00e1 num florido jardim de fraternidade. Acreditamos que o amor ser\u00e1 sempre mais forte do que a morte. Acreditamos que, em todos os \u00e2ngulos da terra, os homens dar-se-\u00e3o as m\u00e3os para se ajudarem reciprocamente e cessar\u00e3o de enviar, uns contra os outros, misseis, balas ou drones.<\/p>\n<p>Como dizia Jesus: \u201cO Pai ama o Filho e tudo p\u00f5e na sua m\u00e3o.\u201d (Jo 3, 35) Que o mundo sinta que, tanto o hoje, como o amanh\u00e3 da humanidade, foram colocados nas m\u00e3os de cada mulher e de cada homem para os constru\u00edrem na paz e no amor.<\/p>\n<p>Bas\u00edlica Real de Mafra, 17 de abril de 2022<\/p>\n<p><em>D. Rui Val\u00e9rio, Bispo das For\u00e7as Armadas e For\u00e7as de Seguran\u00e7a<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":177741,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[271],"class_list":["post-237395","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-ordinariato-castrense"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237395"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237395\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/177741"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}