{"id":237378,"date":"2022-04-17T08:21:34","date_gmt":"2022-04-17T07:21:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=237378"},"modified":"2022-04-17T08:21:34","modified_gmt":"2022-04-17T07:21:34","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-vigilia-pascal-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-vigilia-pascal-3\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa na Vig\u00edlia Pascal"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><em>N\u00e3o nos falta Cristo, n\u00e3o faltemos n\u00f3s!<\/em><\/p>\n<p>Celebrando a Vig\u00edlia Pascal e rememorando tudo quanto o texto sagrado nos trouxe, da cria\u00e7\u00e3o \u00e0 nova cria\u00e7\u00e3o de todas as coisas em Cristo, fazemos muito mais do que marcar uma data, ainda que sobremaneira importante.<\/p>\n<p>Importante para n\u00f3s, que aqui a podemos celebrar em paz; e n\u00e3o menos importante para os que a vivem entre a afli\u00e7\u00e3o da guerra, da Ucr\u00e2nia a outros lugares em que a humanidade apesar de tudo sobrevive. Sobreviv\u00eancia que a vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte assinala e garante. Com eles estamos em ora\u00e7\u00e3o, somando o nosso querer ao do pr\u00f3prio Deus da paz. Com eles permaneceremos, at\u00e9 que a guerra acabe e ainda depois.<\/p>\n<p>Na verdade, estamos na fonte duma nova vida que nos faz reviver a n\u00f3s \u2013 e por n\u00f3s certamente a muitos mais, como pode e deve acontecer. A P\u00e1scoa \u00e9 \u201cpassagem\u201d de Deus por n\u00f3s e passagem de tudo para Deus, que, Ele sim, \u00e9 finalmente a nossa Terra Prometida, conviv\u00eancia eterna e comunh\u00e3o perfeita.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m surpresa, circunstanciada e total. Circunstanciada como ouvimos, naquele t\u00famulo vazio que encheu de espanto quem o encontrou assim. Total sobretudo, porque nesse nada do que estava se assinalou o tudo que nos preenche agora: a vida ressuscitada de Cristo, que nos ressuscita tamb\u00e9m. S\u00e3o verdades que dizemos e cantamos com as palavras que a Liturgia nos oferece e sobretudo certezas com que Deus nos refaz.<\/p>\n<p>A conota\u00e7\u00e3o batismal desta Vig\u00edlia significa isso mesmo, com a P\u00e1scoa de Cristo a renovar-nos a n\u00f3s. Assim o seguimos no percurso que fez, encontrando-o tamb\u00e9m na cruz deste mundo, como ela subsiste no drama da vida, nossa e dos outros. A\u00ed mesmo encontramos a Cristo, para o seguirmos at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Fim que pareceu quase nada naquele t\u00famulo vazio e afinal foi tudo na vida que dali brotou. Porque totalmente entregue foi-nos inteiramente devolvida, como a sentimos em n\u00f3s e a celebramos sempre, como se l\u00e1 estiv\u00e9ssemos, como na verdade estamos.<\/p>\n<p>Diante do t\u00famulo vazio, concluamos que ressuscita com Cristo em Deus quem com Cristo se esvazia de si, para ser inteiramente de Deus como filho; e inteiramente para os outros, como verdadeiro irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tal nos conduz o Esp\u00edrito batismal que perfaz o caminho de Cristo em cada um de n\u00f3s. Por essa raz\u00e3o nos chamamos \u201ccrist\u00e3os\u201d, porque ungidos pelo mesmo Esp\u00edrito. Trata-se de algo de substantivo, que nos modifica realmente por dentro, e n\u00e3o de adjetivo ocasional e exterior. &#8211; Basta de \u201ccristianismos\u201d pretextuais e meramente decorativos, que tanto contrariam a causa do Evangelho!<\/p>\n<p>Vida ressuscitada \u00e9 vida que se esvazia de si, para ser preenchida pela caridade divina e assim mesmo se eternizar tamb\u00e9m, porque s\u00f3 a caridade nunca acabar\u00e1. Foi assim com Jesus, em todo o seu percurso humano. Se p\u00f4de dizer um dia: \u00abEu o Pai somos um s\u00f3\u00bb, foi porque nada retinha de si e nada o movia que n\u00e3o fosse a vontade de Deus Pai, que inteiramente assumia como tamb\u00e9m sua.<\/p>\n<p>Foi, nos trinta e poucos anos que viveu na terra, o que eternamente \u00e9 em Deus: uma vida inteiramente recebida e inteiramente retribu\u00edda. Assim o confessamos no Credo: \u00abDeus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro\u00bb. O Esp\u00edrito que assim o movia \u00e9 o que nos oferece no batismo, para o sermos igualmente, divinizados e eternos em Deus. Deste modo foi absolutamente para todos, porque a vontade de Deus Pai \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o de cada um, como a atua\u00e7\u00e3o de Jesus sempre demonstrou. E como h\u00e1 de prosseguir atrav\u00e9s de quantos recebem o seu Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u00c9 este e s\u00f3 este o crit\u00e9rio da santidade. Homens e mulheres de v\u00e1rios tempos e condi\u00e7\u00f5es, crian\u00e7as, adultos e anci\u00e3os que fossem, s\u00e3o venerados nos altares onde subiram porque antes desceram ao mais ch\u00e3o e comezinho da vida dos outros, nas variadas formas que a dedica\u00e7\u00e3o encontra para servir quem precisa. Esvaziados de si, como o t\u00famulo de Cristo estava ent\u00e3o, reviveram com Ele na caridade divina.<\/p>\n<p>Tudo isto e melhor dito ouvimo-lo h\u00e1 pouco a S\u00e3o Paulo, como escreveu aos crist\u00e3os de Roma, naquele primeir\u00edssimo tempo: \u00abTodos n\u00f3s que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela gl\u00f3ria do Pai, tamb\u00e9m n\u00f3s vivamos uma vida nova\u00bb.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 menos do que isto o que lembraremos daqui a pouco, na renova\u00e7\u00e3o das promessas batismais, quando \u201crenunciarmos ao pecado, para vivermos na liberdade dos filhos de Deus\u201d. O pecado \u00e9 o ego\u00edsmo que nos ret\u00e9m em n\u00f3s; a liberdade dos filhos de Deus \u00e9 a que Cristo partilha com quem realmente viva de Deus para os outros e com os outros em Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Infelizmente, \u00e9 certo que o mundo em que vivemos e em que muitos a custo sobrevivem apresenta-se demais como sepulcro fechado, como de facto assim \u00e9 por tanta morte, destrui\u00e7\u00e3o e escombro acumulado, por guerras e outros males que n\u00e3o faltam. Tamb\u00e9m em muitas vidas impedidas de nascer e noutras que desesperam de viver. Tamb\u00e9m em muitas solid\u00f5es e abandonos, que contrariam a verdade inquestion\u00e1vel de que \u201cviver \u00e9 conviver\u201d.<\/p>\n<p>Nestas e noutras situa\u00e7\u00f5es \u00e9 de sepulcros fechados que se trata e com pesada pedra a bloque\u00e1-los. Nesta Vig\u00edlia, por\u00e9m, clareada numa intensa luz pascal, o sepulcro vazio j\u00e1 proclama a vit\u00f3ria da vida sobre a morte, quando a pr\u00f3pria morte se transformar em vida, pela inteira caridade que a preencha. Assim com Cristo \u2013 e por Cristo em n\u00f3s e por n\u00f3s onde chegarmos.<\/p>\n<p>O Evangelho dizia-nos h\u00e1 pouco que, vendo o t\u00famulo vazio e apenas as ligaduras que restavam, \u00abPedro voltou para casa admirado com o que tinha sucedido\u00bb. Tamb\u00e9m n\u00f3s, que sabemos j\u00e1 o que o ap\u00f3stolo ainda n\u00e3o sabia em tal momento, n\u00e3o perdemos decerto a admira\u00e7\u00e3o por tudo o que a P\u00e1scoa nos oferece na inesgot\u00e1vel novidade da vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte.<\/p>\n<p>Por isso tamb\u00e9m voltaremos admirados para casa. E admiraremos muitos mais, quando a nossa pr\u00f3pria vida for, em Cristo, geradora de vida para os outros, sobretudo onde houver maior urg\u00eancia em que aconte\u00e7a. &#8211; N\u00e3o nos falta Cristo, n\u00e3o faltemos n\u00f3s!<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 16-17 de abril de 2022<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":237375,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343],"class_list":["post-237378","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237378","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237378"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237378\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/237375"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}