{"id":237254,"date":"2022-04-15T23:59:13","date_gmt":"2022-04-15T22:59:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=237254"},"modified":"2022-04-16T12:48:11","modified_gmt":"2022-04-16T11:48:11","slug":"homilia-do-bispo-de-beja-na-paixao-e-morte-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-beja-na-paixao-e-morte-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Beja na paix\u00e3o e morte do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->1 \u2013 \u201cDurante a sua vida mortal, Jesus dirigiu preces e s\u00faplicas com grandes clamores e l\u00e1grimas \u00c0quele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da Sua piedade. Apesar de ser Filho, aprendeu a obedi\u00eancia no sofrimento. E tendo atingido a Sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem, causa de salva\u00e7\u00e3o eterna\u201d.<\/p>\n<p>Excelent\u00edssimo senhor Vig\u00e1rio Geral, reverendos senhores C\u00f3negos, caros Padres e Di\u00e1conos, estimados Religiosos e Religiosas, Seminaristas e Fi\u00e9is Leigos e Leigas aqui presentes:<\/p>\n<p>Nestes dias que estamos vivendo, marcados por uma guerra no leste da Europa, as not\u00edcias trazem-nos os gritos e as l\u00e1grimas de tantas fam\u00edlias cujos membros, dia ap\u00f3s dia t\u00eam sido mortos. E n\u00e3o apenas nas not\u00edcias dos telejornais, mas tamb\u00e9m nos refugiados que chegam at\u00e9 n\u00f3s de m\u00e3os vazias, trazendo apenas a roupa que vestem, n\u00f3s vemos e ouvimos de novo os gritos, as preces e as l\u00e1grimas de Jesus Cristo que, sendo inocente, foi condenado \u00e0 morte, e morte de Cruz.<\/p>\n<p>Depois da experi\u00eancia t\u00e3o horrorosa da segunda guerra mundial muitos tinham pensado que, pelo menos entre gente civilizada, a guerra era, definitivamente, assunto do passado. Mas n\u00e3o. H\u00e1 pol\u00edticos pensando que, para sobreviverem, e crescerem e brilharem, precisam de matar. As guerras s\u00e3o express\u00f5es apenas mais descaradas da mesma realidade perversa que germina silenciosamente e cresce e se manifesta no cora\u00e7\u00e3o de gente n\u00e3o evangelizada e que, portanto, n\u00e3o conhece e n\u00e3o obedece ao Esp\u00edrito Santo. E \u00e9 assim que se matam milhares e milhares de crian\u00e7as no seio das suas m\u00e3es. Geradas sem amor, a vida \u00e9-lhes roubada ainda antes de terem nascido. Quantas pessoas e fam\u00edlias se arrastam carregando consigo durante uma vida inteira os pesos enormes de vidas rejeitadas e destro\u00e7adas? E quantos \u00f3dios carregam consigo homens e mulheres de lares desfeitos por div\u00f3rcios e separa\u00e7\u00f5es? Quantas crian\u00e7as crescem em fam\u00edlias monoparentais, com a falta de amor dos familiares, sobretudo dos pais? Quantos sofrimentos empurram, at\u00e9 ao suic\u00eddio, idosos que se sentem como trope\u00e7os para os outros ou jovens que n\u00e3o encontram no mundo o seu lugar? Quantos sofrimentos transformam em experi\u00eancias de inferno as vidas de tantas pessoas criadas por Deus para serem felizes? Perante estas realidades, surge inevitavelmente esta pergunta: onde est\u00e1 Deus? Porqu\u00ea tanta dor e tanta ang\u00fastia recaem sobre os fracos e os pobres da terra? Porqu\u00ea o sofrimento? Que sentido poder\u00e1 ter para a nossa vida?<\/p>\n<p>Esta \u00e9, no fundo, a pergunta que resume o livro de Job.<\/p>\n<p>2 &#8211; Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s: a resposta de Deus a esta quest\u00e3o \u00e9 surpreendente e temo-la hoje diante dos nossos olhos: \u00e9 Cristo, o Filho de Deus, o Inocente condenado \u00e0 morte, morto na Cruz por nosso amor, por amor de n\u00f3s. Onde est\u00e1 Deus nesta guerra da Ucr\u00e2nia? Nos Campos de Concentra\u00e7\u00e3o, em Auschwitz, onde estava Deus? No Calv\u00e1rio, onde estava Deus? Rejeitado e condenado \u00e0 morte, em Jesus Cristo morto na Cruz podemos ver a maior manifesta\u00e7\u00e3o de Deus neste mundo. Manifesta\u00e7\u00e3o negativa, certamente. E na tua exist\u00eancia, caro irm\u00e3o e irm\u00e3, onde vos podeis encontrar com Deus?<\/p>\n<p>Ser crist\u00e3o, possuir a sabedoria de Cristo, ter olhos e ouvidos despertos para a realidade divina \u00e9, no dizer de S\u00e3o Paulo, compreender isto: o que \u00e9 loucura de Deus \u00e9 mais s\u00e1bio que os homens e o que \u00e9 fraqueza de Deus \u00e9 mais forte que os homens. N\u00e3o \u00e9 na sabedoria do mundo nem nos poderes deste mundo que se pode encontrar Deus. Onde est\u00e3o atualmente os s\u00e1bios deste mundo? E os homens cultos? Muitos deles est\u00e3o fazendo armas sofisticadas e delineando esquemas estrat\u00e9gicos que servem para matar. Como Paulo afirmava vigorosamente aos Cor\u00edntios, os judeus pedem sinais e os gregos buscam a sabedoria, mas n\u00f3s anunciamos Cristo Crucificado, esc\u00e2ndalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para n\u00f3s os crentes, Cristo \u00e9 poder de Deus e sabedoria de Deus.<\/p>\n<p>3 &#8211; Quando, dentro de momentos, entrar solenemente nesta assembleia a \u00e1rvore da Cruz, como iremos receb\u00ea-la? Ajoelhando e adorando o Senhor que, morrendo nela, nos salvou. A Igreja manda-nos genufletir perante a Cruz, no dia de hoje e de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Sim, hoje iremos adorar a Cruz, car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Mas como faremos tal coisa se o primeiro mandamento nos pro\u00edbe adorar a n\u00e3o ser a Deus? \u00c9 claro que n\u00e3o adoramos a madeira de que \u00e9 feita a cruz, mas adoramos o Senhor nosso Deus que na cruz nos revelou \u201caquilo que os olhos n\u00e3o viram, os ouvidos n\u00e3o ouviram, nem passou pela mente do homem\u201d, a manifesta\u00e7\u00e3o do Seu Amor por cada um de n\u00f3s. Ele enviou ao mundo o Seu Filho Unig\u00e9nito para morrer crucificado no nosso lugar e em nosso favor e assim destruir o senhor da morte, quer dizer, o diabo, e libertar aqueles que estavam a vida inteira sujeitos \u00e0 escravid\u00e3o, pelo medo de morrer.<\/p>\n<p>Que vemos n\u00f3s na cruz?<\/p>\n<p>Antes de mais, ali vemos a consequ\u00eancia do nosso pecado: a morte do Filho de Deus. Ali vemos Cristo, novo Ad\u00e3o, adormecido. At\u00e9 ali O levou o Seu amor por n\u00f3s. Do Seu lado aberto, naquele sangue e naquela \u00e1gua vemos nascer a Igreja, nova Eva, a M\u00e3e de todos os crentes. Vemos a fonte da salva\u00e7\u00e3o onde se pode lavar todo o pecado do mundo.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio da Cruz \u00e9 o segredo da vida dos crist\u00e3os. Conheceis, certamente, esta palavra do Senhor: se algu\u00e9m quiser ser meu disc\u00edpulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Deixemos, irm\u00e3os, a infantilidade de quem deseja ser crist\u00e3o sem Cruz. Jesus nosso Senhor n\u00e3o fugiu da Sua cruz e ensina-nos a aceitarmos corajosamente a nossa. Tal como a coluna de nuvem que conduziu Israel no deserto era escura de dia e luminosa de noite, assim \u00e9 tamb\u00e9m a Cruz nas nossas vidas. Digamos que a Cruz tem dois lados: de um lado \u00e9 trevas, \u00e9 morte, \u00e9 tristeza, \u00e9 vergonha; do outro \u00e9 luz, \u00e9 vida, \u00e9 alegria e \u00e9 gl\u00f3ria. Se te v\u00eas sozinho perante ela, sem f\u00e9 e sem esperan\u00e7a, e te apavoras e a rejeitas, ela te esmagar\u00e1 com o seu peso. Mas se acreditas em Cristo Ressuscitado, come\u00e7ar\u00e1s a ver o seu lado glorioso. Ver\u00e1s que, aceitando-a, n\u00e3o est\u00e1s sozinho, porque o Senhor est\u00e1 contigo e a suporta contigo. Experimentar\u00e1s que o Seu jugo \u00e9 suave e a Sua carga \u00e9 leve.<\/p>\n<p>4 &#8211; \u201cApesar de ser Filho, Ele aprendeu a obedecer no sofrimento\u201d. Aprendeu a obedecer, e tornou-Se para todos os que Lhe obedecem, causa de salva\u00e7\u00e3o eterna. A obedi\u00eancia \u00e9 pr\u00f3pria dos disc\u00edpulos. O nosso Mestre, Jesus Cristo, \u201cfez-Se por nosso amor, obediente at\u00e9 \u00e0 morte e morte de Cruz\u201d.<\/p>\n<p>No terceiro canto do Servo do Senhor, no livro de Isa\u00edas, podemos escut\u00e1-lo: o Senhor deu-me l\u00edngua de disc\u00edpulo para que possa levar ao cansado uma palavra de alento.<\/p>\n<p>Jesus, servo, por nosso amor obediente at\u00e9 \u00e0 morte e morte de Cruz, n\u00f3s reconhecemos a vossa voz que nos convida: \u201cVinde a Mim, v\u00f3s todos que andais cansados e abatidos como ovelhas sem pastor, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre v\u00f3s o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de cora\u00e7\u00e3o e encontrareis descanso para as vossas almas, pois o meu jugo \u00e9 suave e a minha carga \u00e9 leve\u201d.<\/p>\n<p>Ensinai-nos Senhor, a amar a obedi\u00eancia. Ensinai-nos a reconhecer a vontade do Pai e a obedecer-Lhe. Pelo Vosso Esp\u00edrito, fazei-nos passar convosco deste mundo para Ele. Unindo-nos a V\u00f3s, deixemos de viver para n\u00f3s pr\u00f3prios e amemos os nossos irm\u00e3os com o mesmo amor que de V\u00f3s recebemos. Amen.<\/p>\n<p>S\u00e9 de Beja, 15 de abril de 2022<br \/>\n<em>D. Jo\u00e3o Marcos, bispo de Beja<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":176893,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[171],"class_list":["post-237254","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-beja"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237254\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/176893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}