{"id":237059,"date":"2022-04-15T16:31:05","date_gmt":"2022-04-15T15:31:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=237059"},"modified":"2022-04-15T16:34:27","modified_gmt":"2022-04-15T15:34:27","slug":"237059-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/237059-2\/","title":{"rendered":"Bragan\u00e7a: Homilia do bispo em\u00e9rito na Sexta-feira da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor &#8211; Sexta-Feira Santa<\/p>\n<p>\u00abO meu reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo\u00bb (Jo 18,36) \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o program\u00e1tica de Jesus no di\u00e1logo com o procurador romano P\u00f4ncio Pilatos.<\/p>\n<p>As autoridades religiosas judaicas levaram Jesus a Pilatos porque as senten\u00e7as de morte eram da compet\u00eancia da autoridade colonial romana (Jo 18,31). Um dos motivos da condena\u00e7\u00e3o de Jesus foi a acusa\u00e7\u00e3o de Ele pretender ser rei, o que poderia p\u00f4r em causa a soberania pol\u00edtica do imperador romano. Apesar de ter declarado\u00a0 tr\u00eas vezes que n\u00e3o encontrava culpa alguma em Jesus (Jo 18, 31 e 19,4 e 6) e at\u00e9 de ter procurado libert\u00e1-lo (Jo 19,12), Pilatos intimidou-se perante a argumenta\u00e7\u00e3o de que se libertasse Jesus n\u00e3o era amigo de C\u00e9sar, pois todo aquele que se faz rei, como Jesus, \u00e9 contra C\u00e9sar (Jo 19,12), e acabou por entregar Jesus para ser crucificado (Jo 19,16). Foi uma decis\u00e3o tomada em nome do \u00abpoliticamente correto\u00bb, conforme aconteceu outras vezes na governa\u00e7\u00e3o de Pilatos.<\/p>\n<p>\u00abO meu reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo\u00bb (Jo 18,36), disse Jesus. E logo a seguir explicou a Pilatos: \u00ab\u00c9 como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que \u00e9 da verdade escuta a minha voz\u00bb (Jo 18, 37). Nesta segunda afirma\u00e7\u00e3o Jesus indica um crit\u00e9rio do seu reino, o da verdade, que \u00e9 bem diferente dos crit\u00e9rios mundanos. Um reino de verdade transforma as coisas n\u00e3o por imposi\u00e7\u00e3o da for\u00e7a exterior, mas a partir de dentro.<\/p>\n<p>No Antigo Testamento o futuro Messias \u00e9 anunciado, profetizado, sob a figura do Rei justo, descendente de David. \u00c9 o chamado Messianismo real, prefigurado em David que ficou na hist\u00f3ria de Israel como o governante que assegurou a paz e a justi\u00e7a. O Messias faria o mesmo em escala superlativa.<\/p>\n<p>Esta perspetiva real foi muito adulterada pelas vis\u00f5es pol\u00edticas de cada circunst\u00e2ncia. No tempo de Jesus imperava a ideia de Messias como libertador do jugo colonial romano. Por isso Jesus evitou ser aclamado rei pela multid\u00e3o mais de uma vez e at\u00e9 imp\u00f4s sil\u00eancio aos que o proclamavam Filho de Deus, o chamado segredo messi\u00e2nico. Mas na entrada em Jerusal\u00e9m assumiu o messianismo real, com restri\u00e7\u00f5es. O jumento como montada era a den\u00fancia do triunfalismo do messianismo pol\u00edtico que se afirmava aparatosamente na for\u00e7a dos cavalos e dos carros de guerra. Perante Pilatos, Jesus assumiu que era o Rei dos Judeus, mas corrigiu mais uma vez o messianismo real na sua vis\u00e3o pol\u00edtica: \u00abo meu reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo\u00bb (Jo 18,36).<\/p>\n<p>Uma segunda vertente do messianismo aparece no profeta Isa\u00edas com o Servo de Jav\u00e9, de Deus, o Servo sofredor, que carrega sobre si os pecados de todo o Povo. A liberta\u00e7\u00e3o que ir\u00e1 trazer \u00e9, antes de mais, interior e ser\u00e1 o triunfo da justi\u00e7a. \u00c9 o tema da primeira leitura da celebra\u00e7\u00e3o de hoje. Cito extratos: \u00abDesprezado e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento\u2026 Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores\u2026 Pelas suas chagas fomos curados\u2026 Como cordeiro levado ao matadouro, ele n\u00e3o abriu a boca\u2026 O justo, meu servo, justificar\u00e1 a muitos e tomar\u00e1 sobre si as suas inquidades. Por isso, Eu lhe darei as multid\u00f5es como pr\u00e9mio\u2026\u00bb. Pelo dramatismo do seu conte\u00fado, esta vis\u00e3o de Isa\u00edas \u00e9 por vezes classificada como o quinto evangelho da Paix\u00e3o.<\/p>\n<p>A reden\u00e7\u00e3o pelo sofrimento aparece tamb\u00e9m sublinhada na segunda leitura desta celebra\u00e7\u00e3o: \u00abApesar de ser Filho, aprendeu a obedi\u00eancia no sofrimento. E, tendo atingido a plenitude, tornou-se, para todos os que lhe obedecem, causa de salva\u00e7\u00e3o eterna\u00bb (Heb 5,9).<\/p>\n<p>Cristo realiza a converg\u00eancia das duas vertentes do messianismo: o messianismo real e o messianismo do Servo sofredor.<\/p>\n<p>Foram duas as causas da morte de Jesus: declarar-se Filho de Deus (Jo 19,7), divindade n\u00e3o reconhecida pela autoridade religiosa judaica, e ser apresentado por esta como perigo para o imperador romano por se dizer Rei dos Judeus.<\/p>\n<p>Mais importante do que estas causas para definir o sentido da morte de Jesus \u00e9 a atitude com que Ele pr\u00f3prio assumiu a sua morte. Tal significado ficou bem claro na institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia por Jesus na \u00faltima ceia: \u00abIsto \u00e9 o meu Corpo entregue por v\u00f3s\u2026 Este c\u00e1lice \u00e9 a nova alian\u00e7a no meu Sangue, derramado por v\u00f3s\u2026\u00bb (Lc 22, 19-20).<\/p>\n<p>Na sua morte, antecipada sacramentalmente na \u00faltima ceia, Cristo tomou sobre Si todos os pecados e dramas da humanidade. No Calv\u00e1rio surgiu uma nova humanidade, uma humanidade resgatada.<\/p>\n<p>Os crit\u00e9rios de vida desta nova humanidade n\u00e3o s\u00e3o os crit\u00e9rios do mundo, conforme explicou Jesus a Pilatos: \u00abSe o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu n\u00e3o fosse entregue aos Judeus\u00bb (Jo 18, 36). E acrescentou: \u00ab&#8230;vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que \u00e9 da verdade escuta a minha voz\u00bb (Jo 18, 37).<\/p>\n<p>\u00c9 este o reinado de Cristo: a verdade. Verdade na rela\u00e7\u00e3o com Deus pela adora\u00e7\u00e3o e verdade na rela\u00e7\u00e3o com os homens, nossos irm\u00e3os, pela caridade fraterna. Como declara o pref\u00e1cio da missa de Cristo Rei do Universo, no final do ano lit\u00fargico, o reinado de Jesus \u00e9 um reino de verdade e de vida, de santidade e de gra\u00e7a, de justi\u00e7a, de amor e de paz.<\/p>\n<p>\u00c9 este o padr\u00e3o que deve orientar e reger a nossa vida no relacionamento\u00a0 interpessoal. A teia das nossas rela\u00e7\u00f5es seria mais harmoniosa se fosse sempre pautada pela verdade, a justi\u00e7a, o amor e a paz.<\/p>\n<p>Tal norma de atua\u00e7\u00e3o vale tamb\u00e9m no plano das sociedades e das na\u00e7\u00f5es. Se a\u00ed reinassem sempre a verdade, a justi\u00e7a, o amor e a paz, o mundo de hoje seria bem diferente, para melhor, como infelizmente mostra a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o que vivemos agora na Europa com a guerra na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>O reino de Cristo n\u00e3o \u00e9 deste mundo, mas \u00e9 para este mundo.<\/p>\n<p>Catedral de Bragan\u00e7a, 15 de abril de 2022<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio Montes Moreira, Bispo em\u00e9rito de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":4,"featured_media":237060,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[173],"class_list":["post-237059","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-braganca-miranda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237059","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237059"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237059\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/237060"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}