{"id":237022,"date":"2022-04-15T14:18:27","date_gmt":"2022-04-15T13:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=237022"},"modified":"2022-04-15T14:20:02","modified_gmt":"2022-04-15T13:20:02","slug":"coimbra-homilia-da-missa-crismal-de-d-virgilio-antunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/coimbra-homilia-da-missa-crismal-de-d-virgilio-antunes\/","title":{"rendered":"Coimbra: Homilia da Missa Crismal de D. Virg\u00edlio Antunes"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/p>\n<p>Ao proclamar o texto da Profecia de Isa\u00edas na Sinagoga de Nazar\u00e9, Jesus assume a linha condutora de todo o seu minist\u00e9rio p\u00fablico, inicia a sua a\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o e salva\u00e7\u00e3o da humanidade e d\u00e1 cumprimento \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da vontade do Pai.<\/p>\n<p>As suas palavras conclusivas s\u00e3o de coment\u00e1rio ao texto que acaba de ler e de confirma\u00e7\u00e3o da sua miss\u00e3o: \u201cCumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir\u201d. Naquele \u201choje\u201d, Jesus inicia o cumprimento da grande promessa de Deus que \u00e9 todo o Antigo Testamento e inaugura a proclama\u00e7\u00e3o do \u201cano da gra\u00e7a do Senhor\u201d, que continuar\u00e1 presente dali para a frente.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, aquela a\u00e7\u00e3o e proclama\u00e7\u00e3o dirige-se \u00e0 comunidade crist\u00e3 nascente, \u00e0 Igreja e a todos os leitores do Evangelho: a Igreja assumir\u00e1 a miss\u00e3o de continuar a fazer a mesma proclama\u00e7\u00e3o de Jesus e os que a ouvirem poder\u00e3o acolher o presente da salva\u00e7\u00e3o de Deus que lhes \u00e9 oferecida nos futuros momentos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O Evangelista Lucas precede este texto com uma refer\u00eancia \u00e0 presen\u00e7a do Esp\u00edrito Santo na Pessoa de Jesus, numa alus\u00e3o ao batismo em que foi ungido e \u00e0 miss\u00e3o que vem realizar em favor da humanidade. \u00c9 o mesmo Esp\u00edrito Santo que realizou em Maria a obra de Deus, que conduziu Jesus ao deserto e que, agora, est\u00e1 presente n\u2019Ele para que se cumpra a vontade salv\u00edfica de Deus.<\/p>\n<p>O conte\u00fado do texto de Isa\u00edas lido por Jesus na Sinagoga de Nazar\u00e9 est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o daqueles que regressaram do ex\u00edlio da Babil\u00f3nia a Jerusal\u00e9m e que se encontram numa situa\u00e7\u00e3o particular de pobreza material, de cativeiro por causa da sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e social, de cegueira devido \u00e0 sua falta de esperan\u00e7a e de opress\u00e3o por causa dos seus pecados.<\/p>\n<p>Jesus assume a sua miss\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o com todos eles e em todas as suas situa\u00e7\u00f5es, como a assumir\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o com os que h\u00e3o de experimentar situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas naquele tempo e nos tempos que vir\u00e3o. Para eles proclama uma realidade nova, uma salva\u00e7\u00e3o que \u00e9 radicalmente diferente da que experimentaram naquela experi\u00eancia hist\u00f3ria enquanto Antigo Povo de Deus. Estamos diante de algumas categorias de pessoas que sempre existiram e que sempre existir\u00e3o.<\/p>\n<p>Num primeiro sentido, os pobres no Evangelho de Lucas s\u00e3o os que n\u00e3o t\u00eam os meios materiais necess\u00e1rios para viver. V\u00e1rias vezes Jesus fala da necessidade de os ricos os acolherem, de os auxiliarem e de partilharem com eles os seus bens, em atitude de justi\u00e7a e de caridade. Mas, os pobres, num segundo sentido, s\u00e3o os que sentem necessidade de Deus e est\u00e3o dispon\u00edveis para aceitar a Boa Nova de Jesus, de acordo com a primeira das bem-aventuran\u00e7as, na vers\u00e3o de Lucas: \u201cfelizes v\u00f3s, os pobres\u201d Lc 6, 20), ou na vers\u00e3o de Mateus: \u201cfelizes os pobres em esp\u00edrito\u201d (Mt 5, 3). Deste modo, nos pobres est\u00e3o inclu\u00eddos todos os que, humildemente, acreditam que a salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 no Senhor e n\u00e3o nas suas pr\u00f3prias capacidades ou na sua pr\u00f3pria vontade, pois \u00e9 sempre um dom recebido sem m\u00e9rito da sua parte.<\/p>\n<p>Os outros grupos de pessoas referidos, os cativos, os cegos e os oprimidos, s\u00e3o sempre constitu\u00eddos por pessoas dependentes e necessitadas de aux\u00edlio, liberta\u00e7\u00e3o, perd\u00e3o e consola\u00e7\u00e3o. Com o an\u00fancio da Boa Nova por meio da prega\u00e7\u00e3o e com a realiza\u00e7\u00e3o de sinais miraculosos, Jesus vem ao seu encontro e f\u00e1-los experimentar a miseric\u00f3rdia de Deus. A f\u00e9 que alguns manifestam \u00e9 o sinal de que viram, ouviram e experimentaram na carne, na mente e no cora\u00e7\u00e3o a a\u00e7\u00e3o de Deus por meio do seu Filho Jesus, o Messias prometido e agora presente no meio deles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os, sacerdotes! Sendo esta a feliz not\u00edcia do Senhor, somos verdadeiramente aben\u00e7oados e felizes se a acolhemos como pobres, cativos, cegos e oprimidos. Abundam em n\u00f3s os sinais dessa debilidade e pecado, que nos mostram como estamos carenciados dela e como precisamos de a escutar e de a acolher, com humildade de esp\u00edrito. N\u00e3o pode haver em n\u00f3s nenhuma forma de superioridade ou arrog\u00e2ncia que nos impe\u00e7am de acolher a salva\u00e7\u00e3o de Deus como um dom.<\/p>\n<p>Sempre que agimos como senhores do Evangelho ou como os ricos referidos pelos profetas ou por Jesus, estamos a confiar mais em n\u00f3s do que n\u2019Ele, estamos a rejeitar os m\u00e9ritos da salva\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada por Cristo na cruz e a p\u00f4r-nos no lugar do \u00danico Salvador. N\u00f3s somos servos de Deus e chamados a proclamar por palavras e obras a Boa Nova de Jesus Cristo, n\u00e3o por m\u00e9rito, mas por gra\u00e7a.<\/p>\n<p>No exerc\u00edcio do minist\u00e9rio que nos foi concedido e no lugar que ocupamos dentro da comunidade crist\u00e3, h\u00e1 muitas tenta\u00e7\u00f5es, e uma das maiores consiste precisamente em nos deixarmos deslumbrar pelo poder, tanto humano como espiritual, que \u00e9 sempre prejudicial para a vida do Povo de Deus. Reafirmamos, hoje, a consci\u00eancia de que somos servos e de que \u00e9 na pobreza material e espiritual que realizamos a nossa voca\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulos de Jesus, Aquele que, sendo rico se fez pobre e que, sendo Deus, se aniquilou para assumir a nossa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como havemos, ent\u00e3o, de anunciar a Boa Nova aos pobres, de proclamar a reden\u00e7\u00e3o aos cativos e a vista aos cegos, de restituir a liberdade aos cativos e proclamar o ano da gra\u00e7a do Senhor?<\/p>\n<p>Jesus \u00e9 o nosso mestre e o nosso modelo, o mestre e o modelo de toda a Igreja. As nossas palavras ser\u00e3o vazias de significado se n\u00e3o s\u00e3o as palavras de Cristo; os nossos gestos n\u00e3o entrar\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o da humanidade se n\u00e3o s\u00e3o realizados segundo o cora\u00e7\u00e3o de Cristo. Precisamos de nos deixar preencher pelo Esp\u00edrito Santo, Aquele que realiza em n\u00f3s a obra de Jesus; precisamos de um esp\u00edrito verdadeiramente pobre.<\/p>\n<p>Os te\u00f3logos t\u00eam-nos recordado frequentemente que sabemos pouco de Deus e conhecemos pouco do mundo, ou seja, das realidades experimentadas e vividas pela humanidade. Podemos ser crist\u00e3os e sacerdotes pouco adentrados nos mist\u00e9rios de Deus, por falta de teologia, de espiritualidade e de f\u00e9 encarnada na entrega da pr\u00f3pria vida. Nessa altura, tornamo-nos mundanos e emudecemos a Feliz Not\u00edcia que devia ecoar em n\u00f3s. Podemos tamb\u00e9m ser crist\u00e3os e sacerdotes distantes da realidade da vida dos nossos irm\u00e3os, incapazes de compreender e partilhar as suas alegrias e sofrimentos.\u00a0 Nessa altura, ofuscamos a luz de Cristo que dev\u00edamos fazer brilhar.<\/p>\n<p>Jesus mantem-se constantemente em uni\u00e3o \u00edntima com o Pai, conhece o Pai, ama o Pai, acolhe a sua vontade e realiza a obra que o Pai lhe entregou at\u00e9 \u00e0 morte de cruz.<\/p>\n<p>Jesus conhece os homens e mulheres, que vivem, se alegram e sofrem. Jesus conhece o mundo ao qual foi enviado, entra nas realidades humanas que encontra nos seus caminhos. A sua palavra \u00e9 libertadora, \u00e9 de perd\u00e3o, \u00e9 de est\u00edmulo, \u00e9 de confian\u00e7a e dirigida a pessoas concretas. Os seus gestos e sinais brotam do cora\u00e7\u00e3o de Deus e s\u00e3o suscitados por cada um dos que se lhe apresentam com cora\u00e7\u00e3o de pobre.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os, este \u00e9 o caminho da Igreja e \u00e9 o nosso caminho de sacerdotes e ministros do Evangelho. Com coragem renovada, comprometamo-nos a conhecer e amar mais a Deus, a conhecer e amar mais a humanidade que Jesus liberta e salva.<\/p>\n<p>Coimbra, 14 de abril de 2022<\/p>\n<p>Virg\u00edlio do Nascimento Antunes<\/p>\n<p>Bispo de Coimbra<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":4,"featured_media":236773,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[174],"class_list":["post-237022","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-coimbra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237022"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237022\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/236773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}