{"id":23660,"date":"2007-03-26T10:07:26","date_gmt":"2007-03-26T10:07:26","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/03\/26\/fermento-de-uma-nova-sociedade\/"},"modified":"2007-03-26T10:07:26","modified_gmt":"2007-03-26T10:07:26","slug":"fermento-de-uma-nova-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fermento-de-uma-nova-sociedade\/","title":{"rendered":"<i>Fermento de uma nova sociedade"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Bispo de Portalegre-Castelo Branco na Jornada Diocesana da Fam\u00edlia <!--more--> Nos nossos dias, a transforma\u00e7\u00e3o social \u00e9 um dos temas mais recorrentes nas publica\u00e7\u00f5es, nas jornadas de estudo e at\u00e9 nas conversas ocasionais. Mas as mudan\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o um exclusivo do nosso tempo. Sempre aconteceram. Pois a vida social dos povos est\u00e1 em permanente transforma\u00e7\u00e3o. Basta lan\u00e7ar um olhar r\u00e1pido sobre a Hist\u00f3ria para nos apercebermos da constate mudan\u00e7a no modo de vida, no estilo de rela\u00e7\u00e3o interpessoal, nos conhecimentos, nos interesses, nas profiss\u00f5es, nos tempos de trabalho e de lazer e at\u00e9 no sistema de valores.    As mudan\u00e7as umas vezes s\u00e3o lentas e superficiais e outras vezes s\u00e3o r\u00e1pidas e profundas. Quando as mudan\u00e7as s\u00e3o profundas e atingem o sistema de valores, s\u00e3o classificadas como muta\u00e7\u00e3o social. Na nossa sociedade as transforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o r\u00e1pidas e t\u00e3o profundas que poderemos dizer que estamos perante uma aut\u00eantica muta\u00e7\u00e3o social. As fam\u00edlias e as comunidades crist\u00e3s s\u00e3o as duas institui\u00e7\u00f5es onde essas transforma\u00e7\u00f5es se fazem sentir com mais acuidade, gerando graves problemas de adapta\u00e7\u00e3o aos novos modos de pensar e de viver.  As reac\u00e7\u00f5es perante estas novas realidades tendem a polarizar-se em dois extremos. Dum lado, os saudosistas, que n\u00e3o conseguem ver o que h\u00e1 de positivo nas mudan\u00e7as, apresentam-se como incondicionais defensores do passado, mas vivem desalentados e sem perspectivas de futuro. Do outro lado, os que rejeitam liminarmente o passado e aceitam acriticamente tudo o que \u00e9 apresentado como novidade, independentemente do seu valor, chegando mesmo a assumir a pr\u00f3pria inova\u00e7\u00e3o como um valor. Procuram no futuro o que s\u00f3 o passado lhes pode dar. S\u00e3o como \u00e1rvores sem ra\u00edzes, murcham antes de darem fruto.  Entre esses dois extremos, situam-se outros dois grupos: o grande n\u00famero dos conformistas, que n\u00e3o toma posi\u00e7\u00e3o e vai sendo empurrado pelos ventos da mudan\u00e7a; e uma outra parcela da sociedade, constitu\u00edda pelos que, sem abdicarem do passado, acreditam na for\u00e7a transformadora do fermento evang\u00e9lico e lutam por uma sociedade nova, baseada nos valores perenes do humanismo crist\u00e3o.  \u00c9 exactamente para este \u00faltimo grupo que apontam as leituras proclamadas nesta celebra\u00e7\u00e3o. Tanto o profeta Isa\u00edas como o ap\u00f3stolo Paulo nos convidam a percorrer os caminhos da adapta\u00e7\u00e3o aos novos tempos, com os olhos postos em Jesus Cristo, Aquele que vive para sempre e permanece igual a si mesmo, ontem, hoje e pelos s\u00e9culos. Na Sua mensagem encontramos o memorial do passado, a resposta para o presente e o projecto para o futuro.  Fixemo-nos nas leituras que acab\u00e1mos de ouvir. No meio das tribula\u00e7\u00f5es, o Povo de Israel caiu no desalento e, levado pelo saudosismo ineficaz, come\u00e7ou a evocar os tempos passados quando o Senhor abriu caminhos atrav\u00e9s do mar, para o libertar do Egipto. E lamentava-se porque Deus n\u00e3o realizava milagres e prod\u00edgios. \u00c9 nesse contexto que interv\u00e9m o profeta para dizer ao povo em nome de Deus: vou realizar uma coisa nova que j\u00e1 come\u00e7a a aparecer. N\u00e3o vos deixeis vencer pelo desalento, porque o que est\u00e1 para vir \u00e9 superior ao que j\u00e1 aconteceu.   S. Paulo, como todos sabemos, tamb\u00e9m foi objecto de interven\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias de Deus e nem por isso foi poupado \u00e0s tribula\u00e7\u00f5es. No entanto ele n\u00e3o ficou preso ao passado, como muito bem nos explica ao escrever com todo o entusiasmo: esquecendo o que fica para tr\u00e1s quero lan\u00e7ar-me para a frente e continuar a correr para a meta. S. Paulo j\u00e1 tinha encontrado a novidade de que falava o profeta Isa\u00edas. E essa novidade de tal modo o fascinou que n\u00e3o hesitou em esclarecer ainda melhor o seu pensamento: renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar Cristo e n\u2019Ele me encontrar.  Eis aqui, meus irm\u00e3os, o segredo para interpretar as realidades do tempo presente: olh\u00e1-la \u00e0 luz de Cristo. Na verdade, Jesus Cristo \u00e9 o \u00fanico Salvador da humanidade. O \u00fanico que pode responder a todas as aspira\u00e7\u00f5es do ser humano. Quem se encontra com Ele encontra o verdadeiro sentido da vida e, a partir da\u00ed, relativiza tudo o resto, quer se trate das tradi\u00e7\u00f5es antigas quer se trate das inova\u00e7\u00f5es da \u00faltima hora. Nem as tradi\u00e7\u00f5es nem as inova\u00e7\u00f5es t\u00eam valor em si mesmas. Umas e outras valem na medida em que ajudam a encher o vazio dos cora\u00e7\u00f5es e a descobrir o verdadeiro sentido da vida humana.  Tudo quanto fica dito pode aplicar-se tamb\u00e9m \u00e0 fam\u00edlia, que, entre n\u00f3s, est\u00e1 a atravessar uma das maiores crises da hist\u00f3ria, inserida no processo de muta\u00e7\u00e3o cultural em curso. A fam\u00edlia encontra-se num per\u00edodo dif\u00edcil e precisa de ser ajudada. Se quisermos ajud\u00e1-la, nem podemos ficar prisioneiros do passado, quando duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es partilhavam os seus bens e as suas vidas, nem alijar para tr\u00e1s das costas todo o tipo de responsabilidades, embarcando na aventura da inova\u00e7\u00e3o hedonista. A fam\u00edlia, como Deus a quer e no-la prop\u00f5e, s\u00f3 poder\u00e1 ser ajudada por quem olhar para ela com o olhar l\u00edmpido e misericordioso de Jesus Cristo, que n\u00e3o veio para condenar mas para salvar. \u00c9 por isso que n\u00e3o condena, n\u00e3o despreza, n\u00e3o fica indiferente perante os erros e os pecados cometidos contra a fam\u00edlia, antes aponta caminhos novos e regeneradores da pessoa humana, tal como fez com a mulher ad\u00faltera: ningu\u00e9m te condenou? Nem eu te condeno. Vai e n\u00e3o tornes a pecar.  Sempre houve e hoje tamb\u00e9m existem fragilidades no seio da fam\u00edlia. E quem se sente com o direito de levantar o bra\u00e7o para atirar a primeira pedra? O maior problema n\u00e3o s\u00e3o as fragilidades ocasionais. A fam\u00edlia est\u00e1 doente porque se deturpou a no\u00e7\u00e3o do pecado, do perd\u00e3o, da responsabilidade e do amor. Esqueceu-se que o pecado se ultrapassa com o perd\u00e3o e que o amor se consolida assumindo responsavelmente os compromissos. Ora quando estes princ\u00edpios n\u00e3o s\u00e3o tidos em conta, pensa-se que \u00e9 f\u00e1cil substituir a fam\u00edlia por outras institui\u00e7\u00f5es. A experi\u00eancia demonstra o contr\u00e1rio. Quando na fam\u00edlia se pratica o perd\u00e3o, se assumem as responsabilidades e se vive o amor verdadeiro, nenhuma outra institui\u00e7\u00e3o a pode substituir seja na promo\u00e7\u00e3o da felicidade pessoal seja na educa\u00e7\u00e3o dos filhos.  A Igreja assim o entende ao afirmar que o amor paterno-materno \u00e9 a fonte, a alma e a norma de toda a educa\u00e7\u00e3o (F.C.36), incluindo a educa\u00e7\u00e3o da f\u00e9, alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da palavra e do testemunho de vida crist\u00e3, refor\u00e7ados pelo respeito e pela ternura que s\u00f3 os pais podem dar (DGC,227). \u00c0 fam\u00edlia, enquanto igreja dom\u00e9stica, compete anunciar, celebrar e servir o Evangelho da Vida pela educa\u00e7\u00e3o dos filhos, da qual s\u00e3o os primeiros e principais respons\u00e1veis, pela vida di\u00e1ria de ora\u00e7\u00e3o e pelo servi\u00e7o de gratuidade que prestam uns aos outros. E onde poder\u00e1 a fam\u00edlia encontrar os meios necess\u00e1rios para cumprir todas estas obriga\u00e7\u00f5es? A resposta a esta pergunta \u00e9 o papa Bento XVI quem no-la d\u00e1 quando incita as fam\u00edlias crist\u00e3s a aurirem da Eucaristia inspira\u00e7\u00e3o e for\u00e7a para encherem de significado as suas vidas pela viv\u00eancia correcta do amor conjugal, pelo acolhimento da vida e pelo cumprimento da miss\u00e3o educadora dos filhos, que dever\u00e3o exercer como um verdadeiro minist\u00e9rio (Cf SC,19).  Se os casais crist\u00e3os tomarem consci\u00eancia de que a transmiss\u00e3o da f\u00e9 e o acompanhamento da vida crist\u00e3 dos filhos faz parte integrante do minist\u00e9rio que lhes \u00e9 confiado por Deus, atrav\u00e9s da Igreja, ao celebrarem o Matrim\u00f3nio, ent\u00e3o cada fam\u00edlia crist\u00e3 poder\u00e1 ser verdadeiro fermento de uma nova sociedade, respeitadora da vida e da dignidade da pessoa humana.  Castelo Branco, 25 de Mar\u00e7o de 2007  <i>+Jos\u00e9, Bispo de Portalegre-Castelo Branco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Bispo de Portalegre-Castelo Branco na Jornada Diocesana da Fam\u00edlia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,179,193,206],"class_list":["post-23660","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-diocese-de-portalegre-castelo-branco","tag-educacao","tag-familia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23660","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23660"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23660\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}