{"id":23589,"date":"2007-03-21T17:45:46","date_gmt":"2007-03-21T17:45:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/03\/21\/d-manuel-clemente-sobre-a-diocese-do-porto\/"},"modified":"2007-03-21T17:45:46","modified_gmt":"2007-03-21T17:45:46","slug":"d-manuel-clemente-sobre-a-diocese-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/d-manuel-clemente-sobre-a-diocese-do-porto\/","title":{"rendered":"D. Manuel Clemente sobre a Diocese do  Porto"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista ao novo Bispo do Porto, que avan\u00e7a perspectivas para um minist\u00e9rio que inicia no pr\u00f3ximo Domingo <!--more--> No dia 25 de Mar\u00e7o, a Diocese do Porto acolhe o seu novo Bispo, nomeado pela Santa S\u00e9 com a data de 22 de Fevereiro deste ano. A entrada solene ter\u00e1 in\u00edcio \u00e0s 16 horas deste Domingo, com uma solene celebra\u00e7\u00e3o na Catedral. A tomada de posse oficial ser\u00e1 realizada este s\u00e1bado, dia 24, na Casa Episcopal, perante o Conselho ou Col\u00e9gio de Consultores (constitu\u00eddo pelos membros do Cabido da Catedral). A partir desse acto oficial, D. Manuel Clemente \u00e9 empossado como Bispo da Diocese. Em entrevista ao Programa <i>70&#215;7<\/i>, o novo Bispo do Porto avan\u00e7a perspectivas para o seu minist\u00e9rio.  <i>E &#8211; Que aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Cultura, na Diocese do Porto? <\/i> DMC \u2013 O Porto sempre se distinguiu pela aten\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura e pelos dinamismos culturais. E devo mesmo dizer que, em termos de altera\u00e7\u00f5es na sociedade portuguesa e na rela\u00e7\u00e3o da Igreja com a sociedade, o Porto teve um papel pioneiro, sobretudo na \u00e9poca que eu mais estudei quando tinha mais vagar para a Hist\u00f3ria, que \u00e9 o princ\u00edpio da nossa contemporaneidade, o s\u00e9c. XIX e o princ\u00edpio do s\u00e9c. XX. Os movimentos culturais do Porto, mesmo entre o laicado cat\u00f3lico, foram verdadeiramente pioneiros, em termos portugueses. E n\u00f3s hoje temos at\u00e9 uma implanta\u00e7\u00e3o da Igreja na sociedade, nesse di\u00e1logo Igreja\/Sociedade\/Cultura, que \u00e9 muito herdeira de realidades que tiveram no Porto um dos seus principais centros.  <i>E \u2013 Como pode o Bispo Diocesano conjugar prioridades entre uma variedade de actividades, di\u00e1logo institucional, dinamiza\u00e7\u00e3o pastoral? <\/i> DMC \u2013 As nossas prioridades s\u00e3o as do minist\u00e9rio apost\u00f3lico da Igreja. S\u00e3o tr\u00eas. A primeira tem a ver com o an\u00fancio do Evangelho, a evangeliza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita e, \u00e0s vezes impl\u00edcita, o que eu farei com o outros senhores Bispos que est\u00e3o no Porto, com todos os padres seculares e religiosos, com os di\u00e1conos e com os fi\u00e9is leigos que est\u00e3o profundamente empenhados nas diversas miss\u00f5es de evangeliza\u00e7\u00e3o e de catequese. Depois a realiza\u00e7\u00e3o dessa mesma evangeliza\u00e7\u00e3o nos actos sacramentais, na liturgia e em tudo aquilo que a ela leva porque a celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 grande lugar da proclama\u00e7\u00e3o e da realiza\u00e7\u00e3o da Palavra anunciada. Depois tudo isto se desdobra na ac\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-caritativa, numa presen\u00e7a que continue e actualize, concretamente na Diocese do Porto, toda essa pujan\u00e7a caritativa que sai do comportamento de Jesus Cristo e que define os seus disc\u00edpulos: \u00e9 pela maneira como nos amarmos uns aos outros, isto vem no Evangelho, que seremos reconhecidos como disc\u00edpulos de Jesus Cristo. \u00c9 este conjunto de fun\u00e7\u00f5es que definem o minist\u00e9rio apost\u00f3lico. O Bispo est\u00e1 no centro de uma comunh\u00e3o diocesana. Activa, promove e, de certa maneira unifica, tudo o que se faz nestas tr\u00eas realiza\u00e7\u00f5es do Evangelho.  <i>E \u2013 Tem tamb\u00e9m fun\u00e7\u00f5es institucionais de ser a imagem de uma Igreja local? <\/i> DMC \u2013 Acaba por ser o rosto, porque est\u00e1 exactamente no centro. Mas eu gostaria que a Igreja do Porto continue a ter um rosto muito evang\u00e9lico, mas muito diversificado em todos os seus componentes. \u00c9 do rosto da Igreja do Porto, como de uma Igreja particular, o seu bispo como h\u00e3o-de ser rosto todos aqueles e aquelas que d\u00e3o isso mesmo: rosto ao Evangelho, na sua pr\u00e1tica, na sua proclama\u00e7\u00e3o (do laicado \u00e0 vida religiosa, \u00e0 vida sacerdotal), por tudo isto tem de ser rosto de Cristo. \u00c9 importante que numa Igreja particular, no caso nesta do Porto, tudo aquilo que os crist\u00e3os cat\u00f3licos fa\u00e7am a partir da sua f\u00e9 seja uma presen\u00e7a muito vis\u00edvel, muito activa, muito sugestiva at\u00e9 deste Cristo ressuscitado que est\u00e1 presente no mundo atrav\u00e9s da sua Igreja.  <i>E \u2013 H\u00e1 momentos em que o Bispo Diocesano tem de intervir? <\/i> DMC \u2013 Com certeza. E tem uma interven\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.  <i>E \u2013 Tamb\u00e9m uma interven\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter social, pol\u00edtico e econ\u00f3mico? <\/i> DMC \u2013 Tamb\u00e9m. E que s\u00e3o dificilmente previs\u00edveis. O Porto tem uma grande galeria de prelados ao longo dos s\u00e9culos. Mas, para falar do \u00faltimo s\u00e9culo, houve prelados que se distinguiram muito nessa sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade, aos tempos que vivia e \u00e0s dificuldades que se apresentavam. As duas figuras que s\u00e3o mais conhecidas s\u00e3o o Sr. D. Ant\u00f3nio Barroso, nos tempos da Primeira Rep\u00fablica, e o Sr. D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, em tempos mais pr\u00f3ximos de n\u00f3s, nos anos 50 e 60 e depois nos anos 70, j\u00e1 a seguir \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, em que ele continua com uma presen\u00e7a muito activa, muito l\u00facida, muito esclarecedora. Mas, eu tenho a certeza que se lhes fossemos perguntar se previam um episcopado assim, eles talvez dissessem que n\u00e3o. Portanto, s\u00e3o as circunst\u00e2ncias que levam a um determinado tipo de tomadas posi\u00e7\u00e3o e que s\u00e3o, repito, dificilmente previs\u00edveis. Mas desde que o Esp\u00edrito actue \u2013 e isso est\u00e1 garantido \u2013 e que encontre bons receptores que tomem as posi\u00e7\u00f5es devidas, as coisas acontecem. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, a \u00fanica coisa que eu tenho de ter \u00e9 prop\u00f3sito e disponibilidade. Mas n\u00e3o \u00e9 menos importante, desta grande galeria de prelados portuenses, a actua\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, fiel, muitas vezes sofrida e certamente persistente de muitos outros bispos que, no dia-a-dia, sustentaram a vida de uma Igreja na discri\u00e7\u00e3o, o que tamb\u00e9m est\u00e1 muito presente nas p\u00e1ginas do Evangelho.  <i>E \u2013 O bispo tem que criar sintonias, tem que criar proximidades com aqueles que quer servir, tem que ser um deles? <\/i> DMC \u2013 Julgo que ele tem, sobretudo, que reconhecer as sintonias que o pr\u00f3prio Esp\u00edrito de Jesus Cristo sustenta na Igreja.  Numa perspectiva de f\u00e9, e at\u00e9 constata\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria da Igreja, do que foi acontecendo, n\u00f3s reparamos que a maior oportunidade \u00e9 aquela que lhe d\u00e1 o Esp\u00edrito de Jesus Cristo. Ou seja, a Igreja existe porque o Esp\u00edrito de Jesus Cristo a cria e recria e sustenta ao longo das gera\u00e7\u00f5es e dos s\u00e9culos, mantendo sempre viva e dispon\u00edvel essa proposta evang\u00e9lica. Por isso eu acredito que na Igreja do Porto, como em todas as igrejas particulares, o Esp\u00edrito de Jesus Cristo suscita constantemente &#8211; \u00e0s vezes onde menos se detecta \u00e0 primeira vista e dificilmente chega \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o social &#8211; mas vai suscitando iniciativas, disponibilidades, aquilo a que n\u00f3s chamamos carismas, gra\u00e7as espec\u00edficas para a constru\u00e7\u00e3o da Igreja. O papel do Bispo \u00e9 estar muito atento a tudo aquilo que o Esp\u00edrito vai suscitando, e n\u00e3o digo trazendo para a ribalta, mas aproveitando, integrando, chamando. Por isso o seu papel, mais do que ser uma posi\u00e7\u00e3o de topo, \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de centro (em termos evang\u00e9licos uma posi\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, como Jesus se apresenta quando lava os p\u00e9s aos disc\u00edpulos). O que requer \u00e9 uma aten\u00e7\u00e3o constante ao \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, porque essa \u00e9 a sua maior oportunidade. Ou seja: eu sei que hoje e em todos os dias em que eu estiver no Porto, o Esp\u00edrito de Jesus Cristo suscitar\u00e1 em muito homem e muita mulher crist\u00e3 desta Diocese disponibilidades, inten\u00e7\u00f5es, vontades, iniciativas que s\u00e3o fecunda\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito para que a Igreja no Porto realize a sua obra, que \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o hoje do Evangelho de sempre.  <i>E \u2013 At\u00e9 que ponto \u00e9 necess\u00e1rio entranhar-se na cultura do Porto, ser portista \u2013 n\u00e3o em termos desportivos \u2013 estar atento \u00e0 realidade do Porto? <\/i> DMC \u2013 Sem d\u00favida, eu falei da realidade que o Esp\u00edrito cria. Mas essa realidade \u00e9 uma realidade de cria\u00e7\u00e3o e portanto existe com dinamismos de sociedade, culturas e mentalidades pr\u00f3prias em cada parte da terra, com as suas riquezas espec\u00edficas. Por isso a disponibilidade tem que ser muito grande para conhecer, para ouvir. A ac\u00e7\u00e3o do Bispo n\u00e3o \u00e9 uma ac\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria, \u00e9 ac\u00e7\u00e3o no centro de uma igreja. Tudo o que sejam dinamismos de participa\u00e7\u00e3o, de partilha, de conviv\u00eancia, de cultura e de debate \u00e9 priorit\u00e1rio. Aqui n\u00e3o pode haver, como nalgumas corridas de bicicleta, umas fugas do pelot\u00e3o, porque o bispo vai no centro do pelot\u00e3o. E \u00e0s vezes at\u00e9 tem que ir atr\u00e1s, como se dizia antes, no co\u00e7o da prociss\u00e3o, empurrando. Outras vezes ter\u00e1 de ir \u00e0 frente. Mas isso o Esp\u00edrito \u00e9 que suscitar\u00e1 e lembrar\u00e1.   <i>E \u2013 Falemos da realidade eclesial e social do Porto. Que imagem conserva dela? <\/i> DMC \u2013 Uma realidade muito diversificada e complexa. Tem uma grande concentra\u00e7\u00e3o urbana, no Porto e nas cidades vizinhas, mas tem depois uma grande zona meia urbana ou ainda com muitas caracter\u00edsticas de ruralidade, porque o Porto vem l\u00e1 das \u201cfraldas\u201d do Mar\u00e3o at\u00e9 ao mar. Tudo isso \u00e9 muito diversificado, embora seja muito unificado em termos contempor\u00e2neos, porque as vias de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 quer f\u00edsicas ou de outro g\u00e9nero, como \u00e9 a inform\u00e1tica que nos p\u00f5e em qualquer lado em qualquer momento \u2013 faz com que as antigas realidades estanques hoje sejam muito unificadas. Pode-se viver numa zona rural e ter muitos tra\u00e7os de mentalidade t\u00edpica urbana e cosmopolita. E isso tamb\u00e9m acontece numa diocese como o Porto. Mas, como disse h\u00e1 um m\u00eas quando saudei a Diocese, tenho que conhecer, tenho que ver, tenho que ouvir.  Esta diversifica\u00e7\u00e3o pode ser uma diversifica\u00e7\u00e3o positiva. Eu venho de uma Diocese, como \u00e9 o Patriarcado de Lisboa, onde h\u00e1 uma zona urbana muito grande, uma zona semi-urbana e uma zona dita rural com cerca de 100 quil\u00f3metros de extens\u00e3o para Norte. E isto mostra-se positivo. N\u00e3o s\u00f3 para o clero e outros ministros pastorais que preferem e at\u00e9 lhes faz bem variar de um tipo para outro tipo de zona. Quer porque esta variedade cultural enriquece o conjunto, desde que seja aproximada. Portanto, isto pode ser uma vantagem.  <i>E \u2013 No caso do Porto h\u00e1 distin\u00e7\u00f5es claras entre a zona Sul e a zona Norte? <\/i> DMC \u2013 Vamos vendo, sobre isso n\u00e3o posso dizer mais\u2026 Calculo que sim, que existam. Realmente parecem-me zonas distintas, mas vamos l\u00e1 ver at\u00e9 onde pode ir a sua complementaridade.  <i>E \u2013 Durante algum tempo chegou mesmo a falar-se em constituir a\u00ed duas outras dioceses? <\/i> DMC \u2013 \u00c9 um tema que de vez em quando vem ao de cima. A hist\u00f3ria das dioceses, das igrejas particulares, ao longo dos s\u00e9culos variou muito. N\u00f3s temos tradi\u00e7\u00f5es de dioceses muito pequenas, mais pequenas at\u00e9 do que par\u00f3quias urbanas em n\u00famero de habitantes. E temos outras tradi\u00e7\u00f5es, de grandes dioceses, at\u00e9 muito maiores do que as de Portugal, onde se consegue uma certa complementaridade, distribuindo servi\u00e7os, mantendo uma certa centralidade na administra\u00e7\u00e3o diocesana a par com uma certa localiza\u00e7\u00e3o e regionaliza\u00e7\u00e3o na escala de servi\u00e7os. Ainda h\u00e1 tempos falava com os respons\u00e1veis da Diocese de Paris (nos anos 70 a Diocese de Paris foi subdividida numa s\u00e9rie de dioceses) e hoje o ju\u00edzo n\u00e3o \u00e9 un\u00edvoco: h\u00e1 quem ache que sim, que foi um benef\u00edcio e h\u00e1 quem ponha d\u00favidas sobre a dificuldade em servir uma popula\u00e7\u00e3o que, apesar de tudo, acaba por ser pluri-diocesana, porque est\u00e1 constantemente a mover-se entre duas ou tr\u00eas dioceses e isso tamb\u00e9m traz dificuldade a uma certa unidade de conjunto do trabalho (embora estivesse previsto na altura que houvesse uma complementaridade entre essas dioceses que parece n\u00e3o se ter realizado tanto). Nos dois modelos h\u00e1 potencialidade. Vamos a ver!  <i>E \u2013 Ser\u00e1 pertinente pensar numa diocese da Feira ou de Penafiel? <\/i> DMC \u2013 Nos dois modelos de uma grande diocese, com zonas distintas e com complementaridade de trabalho ou v\u00e1rias dioceses pequenas, isso \u00e9 um debate que est\u00e1 hoje em aberto na Igreja, no que \u00e9 melhor para a realiza\u00e7\u00e3o local da Igreja. Vou ver, vou conhecer, vou ouvir\u2026 vou servir!  <i>E \u2013 \u00c9 uma diocese onde o movimento ecum\u00e9nico j\u00e1 fez hist\u00f3ria. A continuar? <\/i> DMC \u2013 E mais uma vez uma hist\u00f3ria bastante pioneira em Portugal. A dif\u00edcil hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es ecum\u00e9nicas em Portugal tamb\u00e9m teve no Porto etapas muito importantes e muito determinantes. A nossa pr\u00f3pria credibilidade como testemunhas do Evangelho tem alguma depend\u00eancia da maneira como n\u00f3s entendemos os crist\u00e3os. E sabemos mesmo que o movimento ecum\u00e9nico tem nas suas ra\u00edzes estes contrastes que depois dificultavam a miss\u00e3o, sobretudo a miss\u00e3o ad gentes. Da\u00ed que seja uma prioridade. Ele decorre a v\u00e1rios n\u00edveis: o da ora\u00e7\u00e3o, uma ora\u00e7\u00e3o empenhada. Estar mesmo dispon\u00edvel para construir ou reconstruir aquela unidade que Esp\u00edrito deseja para a Igreja e que n\u00f3s n\u00e3o sabemos muito bem qual seja nos seus contornos. O movimento ecum\u00e9nico arrancou com for\u00e7a nosso final do s\u00e9c. XIX, mas quando chegou aos anos 30 do s\u00e9c. XX come\u00e7ou a ter algumas dificuldades sobre os passos a dar em seguida. E n\u00e3o s\u00f3 entre n\u00f3s cat\u00f3licos e os nossos outros irm\u00e3os crist\u00e3os n\u00e3o-cat\u00f3licos, mas mesmo entre aqueles que se agregavam no Conselho Mundial das Igrejas: a partir de certa altura come\u00e7ou a ser dif\u00edcil divisar bem o que seria o futuro do Movimento Ecum\u00e9nico. Abriu-se, ent\u00e3o, esta fase chamada do Ecumenismo espiritual, em que n\u00f3s estamos, que requer da nossa parte uma disponibilidade grande e de convic\u00e7\u00e3o para construir ou reconstruir aquela unidade que s\u00f3 o Esp\u00edrito de Cristo nos encaminhar\u00e1 para tal. Depois h\u00e1 o empenho em causas comuns e que s\u00e3o evangelicamente potenciadas. E o Evangelho \u00e9 a heran\u00e7a de n\u00f3s todos \u2013 cat\u00f3licos, protestantes, ortodoxos, todos os crist\u00e3os &#8211; , ou seja o servi\u00e7o das pessoas. E a\u00ed, com certeza que nos havemos de entender. E tenho a certeza de que se n\u00f3s nos entendermos nesta disponibilidade orante e neste servi\u00e7o concreto \u00e0 sociedade em causas comuns que s\u00e3o evangelicamente potenciadas e determinadas, tamb\u00e9m nos encontraremos no resto.  <i>E \u2013 Como resolver quest\u00f5es como a do envelhecimento do clero na Diocese? <\/i> DMC \u2013 \u00c9 um problema n\u00e3o s\u00f3 do clero, mas da sociedade em geral. N\u00f3s hoje temos um problema de rejuvenescimento das lideran\u00e7as, em qualquer um dos sectores. Temos dificuldade porque a popula\u00e7\u00e3o juvenil e as novas gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o escassas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s gera\u00e7\u00f5es mais idosas.  <i>E \u2013 Ser\u00e1 um princ\u00edpio entregar lideran\u00e7as a jovens? <\/i> DMC \u2013 Temos que ir vendo&#8230; E h\u00e1 outra coisa que est\u00e1 acontecendo: n\u00e3o s\u00f3 prolongando o servi\u00e7o das gera\u00e7\u00f5es mais envelhecidas, aproveitando o que elas trazem de sabedoria acumulada (e isso s\u00f3 a vida d\u00e1), mas tamb\u00e9m as escolhas vocacionais mais tarde. E n\u00f3s temos reparado que, em v\u00e1rias dioceses, muito do dito recrutamento vocacional que era feito em idades quase infantis, come\u00e7a a ser feito em idades mais adultas ou de jovens adultos, quer da universidade quer provindo da vida profissional. Reporto-me mais uma vez ao contacto que tive com a Diocese de Paris. E Paris \u00e9 um caso de Pastoral Vocacional bem conseguida, em Fran\u00e7a, com dezenas de seminaristas maiores (que naquela altura andavam pelos 70) e praticamente voca\u00e7\u00f5es adultas, vindos da universidade ou do meio profissional e a partir descobertas do cristianismo, n\u00e3o redescobertas porque n\u00e3o o ganharam em casa. Em Fran\u00e7a a laiciza\u00e7\u00e3o da sociedade a partir dos anos 60 foi muito mais forte do que em Portugal e isso fez \u2013 sempre dizendo o que l\u00e1 ouvi \u2013 que n\u00e3o se desse essa passagem da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 para os filhos. E depois fam\u00edlias com um filho ou filha dificilmente conseguem um bom ambiente quando aparece uma voca\u00e7\u00e3o quer para a vida sacerdotal quer para a vida religiosa. A problem\u00e1tica \u00e9 mais lata do que simplesmente quantitativa.  <i>E \u2013 A responsabiliza\u00e7\u00e3o crescente dos leigos \u00e9 inevit\u00e1vel? <\/i> DMC \u2013 \u00c9 fundamental. Ali\u00e1s faz parte da motiva\u00e7\u00e3o geral em termos de cidadania. As pessoas n\u00e3o podem ser motivadas para a participa\u00e7\u00e3o em termos de cidadania, na vida social, pol\u00edtica e cultural, e depois serem menorizadas no \u00e2mbito eclesial. Porque as pessoas s\u00e3o um todo. Ali\u00e1s, h\u00e1 \u00e1reas espec\u00edficas em que o laicado n\u00e3o \u00e9 supletivo da miss\u00e3o do clero, mas tem um papel pr\u00f3prio e espec\u00edfico, como baptizados. A nossa condi\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 de baptizados e confirmados, para sermos testemunhas de Jesus Cristo na sociedade, independentemente da especifica\u00e7\u00e3o em termos de sacramento de matrim\u00f3nio, de sacramento da ordem ou de consagra\u00e7\u00e3o religiosa. E esse \u00e9 um trabalho comum de baptizados na sociedade. E, repito, h\u00e1 miss\u00f5es que s\u00e3o espec\u00edficas dos leigos. E eu tenho-as percebidos, at\u00e9 pela meu itiner\u00e1rio pessoal. Como j\u00e1 cheguei ao sacerd\u00f3cio depois da vida universit\u00e1ria, lembro-me muito bem que, na minha juventude, quando punha a hip\u00f3tese vocacional, me sentir n\u00e3o digo dividido, mas um tanto perplexo entre um caminho eclesial como padre ou de continuar no sentido laical, com um tipo de actividades no campo cultural, social e at\u00e9 pol\u00edtico (aut\u00e1rquico, no caso) que me seduziram. Depois optei por esta, de servi\u00e7o mais interno na Igreja, mas com muita projec\u00e7\u00e3o externa. Por isso eu sei, at\u00e9 por experi\u00eancia pr\u00f3pria, distinguir entre aquilo que \u00e9 espec\u00edfico de um carisma laical e que tem necessariamente de ser valorizado, porque h\u00e1 trabalhos, h\u00e1 presen\u00e7as &#8211; no \u00e2mbito da fam\u00edlia, da sociedade, da pol\u00edtica, da cultura, da profiss\u00e3o, do mundo empresarial \u2013 que \u00e9 um trabalho especificamente laical e ao servi\u00e7o do qual n\u00f3s, ministros ordenados, estamos para os sustentar dentro desta grande tradi\u00e7\u00e3o eclesial da Palavra e dos sacramentos. Mas \u00e9 um trabalho especificamente da grand\u00edssima maioria da Igreja que s\u00e3o os seus leigos.  <i>E \u2013 Qual a import\u00e2ncia de ter um centro da Universidade Cat\u00f3lica na Diocese? <\/i> DMC \u2013 \u00c9 uma import\u00e2ncia e \u00e9 uma grande responsabilidade. Porque a Universidade Cat\u00f3lica n\u00e3o resume a presen\u00e7a cat\u00f3lica na universidade (que \u00e9 a presen\u00e7a dos cat\u00f3licos e cat\u00f3licas que l\u00e1 est\u00e3o que, com o seu empenhamento e o seu profissionalismo, trazem tamb\u00e9m, explicita ou implicitamente, a luz evang\u00e9lica ao mundo dos saberes). A Universidade Cat\u00f3lica, no conjunto do meio universit\u00e1rio e da cultura \u00e9 um alfobre e quase um laborat\u00f3rio de presen\u00e7a cat\u00f3lica no campo do pensamento e da cultura. E por isso tem que ter n\u00e3o s\u00f3 uma grande compet\u00eancia naquilo que faz, mas tamb\u00e9m uma grande abertura e uma grande presen\u00e7a no mundo universit\u00e1rio em geral.  <i>E \u2013 Continuar\u00e1 a ela ligado? <\/i> DMC \u2013 Como disse a um dos respons\u00e1veis da Universidade Cat\u00f3lica do Porto, eu sou da casa! Estou na universidade cat\u00f3lica h\u00e1 30 e tal anos\u2026 N\u00e3o ser\u00e1 como quando era um professor \u201cpraticante\u201d e activo, mas na aten\u00e7\u00e3o e no acompanhamento \u00e9 com certeza uma prioridade.  <i>E \u2013 Que aten\u00e7\u00e3o aos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, tamb\u00e9m pelas responsabilidades que tem na Comiss\u00e3o Episcopal que preside? <\/i> DMC \u2013 Sendo a principal miss\u00e3o do Bispo a Evangeliza\u00e7\u00e3o, isso hoje significa comunica\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, a minha presen\u00e7a persistente nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, quer no Programa Ecclesia h\u00e1 quase 10 anos, quer na R\u00e1dio Renascen\u00e7a aos Domingos de manh\u00e3 falando com tanta gente do pa\u00eds &#8211; e digo falando por causa do retorno que muitas dessas conversas t\u00eam, e muitos diocesanos do Porto que me t\u00eam pedido que n\u00e3o acabe com estas manh\u00e3s na Renascen\u00e7a\u2026  <i>E \u2013 E n\u00e3o v\u00e3o acabar? <\/i> DMC \u2013 Vamos ver\u2026  <i>E \u2013 No Programa Ecclesia j\u00e1 estamos certos que n\u00e3o acabam&#8230; <\/i> DMC \u2013 Exactamente\u2026 &#8211; porque s\u00e3o muito espec\u00edficas do primeiro dever do Bispo que \u00e9 ser evangelizador (ali\u00e1s compartilhando nisso a fun\u00e7\u00e3o com todos os outros bispos do Col\u00e9gio em que estou integrado, concretamente a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa). Hoje em dia evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o social porque nos potencia a chegada a todo o lado e a muita gente que n\u00e3o vai \u00e0s nossas igrejas, mas ouve e que de alguma maneira tamb\u00e9m come\u00e7a a ser Igreja, pelo menos a interessar-se por ela.  <i>E \u2013 O caso D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes dividiu a Diocese do Porto? <\/i> DMC \u2013 \u00c9 um caso que tem meio s\u00e9culo e eu nessa altura n\u00e3o estava na Diocese, era um jovem cat\u00f3lico militante\u2026  <i>E \u2013 Mas estudou-o! <\/i> DMC \u2013 Claro que estudei e \u00e9 um caso dign\u00edssimo de desassombro episcopal no exerc\u00edcio do minist\u00e9rio, numa fun\u00e7\u00e3o claramente prof\u00e9tica na sociedade portuguesa, na leitura dos sinais dos tempos (que logo a seguir o Conc\u00edlio definiria como pr\u00f3pria da actividade da Igreja e dos seus ministros). \u00c9 um caso que, da minha parte, requer uma grande homenagem e um grande reconhecimento. As suas repercuss\u00f5es na Diocese do Porto, eu sobre essa n\u00e3o posso falar circunstanciadamente. Mas eu julgo que o clero do Porto, no seu conjunto, acabou por ultrapassar alguma distin\u00e7\u00e3o que existisse na altura e hoje \u00e9 sobretudo um clero empenhado em continuar a melhor heran\u00e7a dos seus antecessores no sentido do servi\u00e7o da sociedade e da Igreja, claro est\u00e1.  <i>E \u2013 N\u00e3o existir\u00e3o ainda sequelas\u2026?<\/i> DMC \u2013 Admito que possam existir, mas julgo que n\u00e3o s\u00e3o determinantes no conjunto da Diocese e do presbit\u00e9rio Porto.  <i>E \u2013 Com que atitudes inicia o trabalho episcopal na Diocese do Porto? <\/i> DMC \u2013 Com total disponibilidade. Algo que a vida vai ensinando (e eu gosto muito de aprender). A vida n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa de programado ou de planeado por cada um de n\u00f3s, nem deve s\u00ea-lo! Deve requerer da nossa parte uma grande disponibilidade para o seu acontecer. Sobretudo quando n\u00f3s somos crentes e acreditamos que Deus \u00e9 o grande autor da Hist\u00f3ria e o seu Esp\u00edrito \u00e9 que vai trabalhando. Agora p\u00f5e-me nestas circunst\u00e2ncias\u2026 Ele dir\u00e1!  Entrevista a emitir no programa 70&#215;7 da RTP2, no dia 25 de Mar\u00e7o, Domingo. <b>Momentos da entrevista<\/b> <object classid=\"CLSID:6BF52A52-394A-11d3-B153-00C04F79FAA6\"id=\"player\" width=\"320\" height=\"260\"><param name=\"url\" value=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/videos\/bispodoporto.wmv\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/videos\/ bispodoporto.wmv\" \/><param name=\"showcontrols\" value=\"true\" \/><param name=\"autostart\" value=\"false\" \/><!--[if !IE]>-->   <object type=\"video\/x-ms-wmv\" data=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/videos\/ bispodoporto.wmv\" width=\"320\" height=\"260\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/videos\/ bispodoporto.wmv\"\/><param name=\"autostart\" value=\" false\" \/><param name=\"controller\" value=\"true\" \/><\/object>   <!--<![endif]--><\/object> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista ao novo Bispo do Porto, que avan\u00e7a perspectivas para um 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