{"id":235579,"date":"2022-04-10T09:30:05","date_gmt":"2022-04-10T08:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=235579"},"modified":"2022-04-10T09:51:22","modified_gmt":"2022-04-10T08:51:22","slug":"sociedade-nao-pode-desistir-de-caminhar-no-sentido-da-vida-d-manuel-clemente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sociedade-nao-pode-desistir-de-caminhar-no-sentido-da-vida-d-manuel-clemente\/","title":{"rendered":"\u00abSociedade n\u00e3o pode desistir de caminhar no sentido da vida\u00bb &#8211; D. Manuel Clemente"},"content":{"rendered":"<p><em>O cardeal-patriarca de Lisboa \u00e9 o convidado da entrevista semanal conjunta Renascen\u00e7a\/Ecclesia, no dia em que a emissora cat\u00f3lica de Portugal celebra o seu 85.\u00ba anivers\u00e1rio. Uma conversa que passa pela atualidade nacional e internacional, da guerra na Ucr\u00e2nia \u00e0 Jornada Mundial da Juventude de 2023<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_235611\" aria-describedby=\"caption-attachment-235611\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-235611 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cardeal-310408f11-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-235611\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<em>Esta \u00e9 uma r\u00e1dio que j\u00e1 acompanhou muitas gera\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m fez parte da sua vida. Teve aqui um programa durante v\u00e1rios anos. Tem saudades de fazer r\u00e1dio?<\/em><\/p>\n<p>Tenho, tenho, porque era um contacto n\u00e3o presencial, mas muito direto, atrav\u00e9s da r\u00e1dio, com muita gente. Recordo-me que a certa altura se fez uma contagem e para um programa ao domingo de manh\u00e3 &#8211; que demorava uma hora, entre as 10h e as 11h, e que eu fazia com a Francisca Favilla e o \u00d3scar Daniel \u2013 cheg\u00e1mos a ter audi\u00eancias de 100 mil pessoas, a uma hora t\u00e3o in\u00f3spita! E quase 20 por cento dessa audi\u00eancia era constitu\u00edda por gente entre os 18 e os 25 anos, o que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nada habitual a essa hora de domingo.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos, al\u00e9m da refer\u00eancia ao Evangelho de cada domingo &#8211;\u00a0 o programa chamava-se &#8216;O Dia do Senhor&#8217; &#8211; alguma atualidade eclesial e, numa terceira parte, eu respondia a quest\u00f5es que as pessoas iam pondo, e foi muito interessante.\u00a0Gravei esse programa aqui em Lisboa desde os meus tempos de bispo auxiliar, come\u00e7ou em 2001. Depois quando fui para o Porto, em 2007, ainda continuou e durou at\u00e9 2013. Foram 12 anos, todos os domingos.<\/p>\n<p>Era muito curioso porque, quando cheguei ao Porto, como bispo &#8211; era uma zona que conhecia mal &#8211; chegava a alguma aldeia e diziam-me &#8216;ainda h\u00e1 bocadinho estive consigo\u2019. Onde? \u2018Na r\u00e1dio, todos os domingos&#8217;&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ia tendo ecos dessa audi\u00eancia&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Era muito interessante esse contacto que o programa permitia com muita gente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que import\u00e2ncia atribui \u00e0 exist\u00eancia de \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social com matriz cat\u00f3lica &#8211; como \u00e9 o caso de Renascen\u00e7a e da ag\u00eancia Ecclesia -, para a pr\u00f3pria Igreja?<\/em><\/p>\n<p>A import\u00e2ncia vem da convic\u00e7\u00e3o que temos &#8211; falando em termos pessoais, mas tamb\u00e9m com objetividade &#8211; de que a vis\u00e3o crist\u00e3 das coisas, o Evangelho na vida, continua a ser t\u00e3o importante como \u00e9 desde h\u00e1 dois mil anos a esta parte. E h\u00e1 apet\u00eancia da parte do audit\u00f3rio, que \u00e0s vezes nem sequer \u00e9 confessional ou religioso, no sentido estrito do termo, mas que se interessa pelas coisas que o Evangelho traz, direta ou indiretamente. Da\u00ed que tenha\u00a0toda a import\u00e2ncia e conveni\u00eancia, principalmente como servi\u00e7o \u00e0 sociedade,\u00a0porque aquilo que entendemos que \u00e9 bom e positivo, tamb\u00e9m \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o oferec\u00ea-lo aos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Preocupa-o a crise que tem atingido o setor da comunica\u00e7\u00e3o social, que se acentuou com a pandemia e que tamb\u00e9m atinge os media ligados \u00e0 Igreja?<\/em><\/p>\n<p>Claro que nos preocupa a todos, e felicito aqui a r\u00e1dio Renascen\u00e7a pela maneira como, com a administra\u00e7\u00e3o do D. Am\u00e9rico Aguiar e dos seus colaboradores, tem conseguido ultrapassar essas dificuldades. Porque aquilo que n\u00e3o \u00e9 estatal vive do apoio que a sociedade lhe d\u00e1, e sociedade neste caso tem a ver com a economia, e a economia tem a ver com publicidade, e se falta essa base, o andamento normal das coisas e a perman\u00eancia dos custos \u00e9 um problema. Mas, tem-se conseguido enfrentar\u00a0e resolver positivamente.<\/p>\n<p>Acompanho com aten\u00e7\u00e3o o trabalho que aqui se faz, da parte da administra\u00e7\u00e3o e de todos os colaboradores. \u00c9 uma crise, al\u00e9m daquilo que a pandemia trouxe, o que agora esta guerra traz tamb\u00e9m tem reflexos econ\u00f3micos fort\u00edssimos, al\u00e9m dos humanit\u00e1rios, que se v\u00e3o reverter no custo de vida da popula\u00e7\u00e3o. Tudo o que tem a ver com dinheiro, circula\u00e7\u00e3o de dinheiro e com apoio que da\u00ed pode vir, agora fica mais dificultado.<\/p>\n<p>Esta crise, que tem mais a ver com essa parte econ\u00f3mica, financeira e de manuten\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o, depois liga-se a outra, que podemos considerar uma crise de crescimento em termos de comunica\u00e7\u00e3o: \u00e9 que\u00a0n\u00e3o comunicamos hoje como antes, j\u00e1 n\u00e3o digo h\u00e1 85 anos, quando come\u00e7ou a r\u00e1dio Renascen\u00e7a, mas at\u00e9 h\u00e1 menos tempo\u2026 A maneira de comunicar, de estar presente na vida das pessoas, com todo o progresso tecnol\u00f3gico que se verifica, \u00e9 outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o permanente para quem reflete neste setor: o desafio que as redes sociais trazem, onde a informa\u00e7\u00e3o circula rapidamente e muitas vezes sem obriga\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. A guerra na Ucr\u00e2nia veio mostrar a import\u00e2ncia que tem uma informa\u00e7\u00e3o rigorosa e cred\u00edvel, para que o p\u00fablico possa acompanhar o que est\u00e1 a acontecer?<\/em><\/p>\n<p>Tem uma grande import\u00e2ncia, porque\u00a0sabemos que realidades t\u00e3o negativas como as guerras e os conflitos tamb\u00e9m t\u00eam uma vertente de propaganda fort\u00edssima, que entra quase na log\u00edstica. Da\u00ed que tenhamos de ter uma cautela redobrada\u00a0&#8211; at\u00e9 porque o acesso direto \u00e0s fontes fica dificultado, e \u00e0s vezes at\u00e9 impossibilitado &#8211; para termos uma informa\u00e7\u00e3o o mais consistente poss\u00edvel, verdadeira, no sentido de corresponder \u00e0 realidade e aos factos, e que \u00e9 muito importante para que as pessoas possam ser informadas e pensar devidamente. Ali\u00e1s,\u00a0h\u00e1 um debate agora acerca da veracidade de muitas das informa\u00e7\u00f5es\u00a0que chegam, da contamina\u00e7\u00e3o que podem ter com propaganda de um lado ou de outro, e como isto tudo depois dificulta nos termos uma vis\u00e3o clara das coisas, para podermos ter uma decis\u00e3o correta em termos de opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por isso \u00e9 que tamb\u00e9m \u00e9 importante ter rep\u00f3rteres nos locais, que possam ir confrontado esses v\u00e1rios lados.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito importante, e quantos mais melhor, e at\u00e9 com diferentes posturas, porque a realidade pode ser observada de muito lado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como historiador como \u00e9 que olha para o que est\u00e1 a acontecer na Ucr\u00e2nia?<\/em><\/p>\n<p>Como a Hist\u00f3ria mostra, assim numa amplitude maior de vis\u00e3o dos acontecimentos, estamos mais uma vez numa fronteira complicada.<\/p>\n<p>Esta Europa do Atl\u00e2ntico aos Urais \u00e9 tudo menos homog\u00e9nea. H\u00e1 aquilo que acontece na Europa latina, nestes pa\u00edses com os quais temos rela\u00e7\u00e3o mais direta, e at\u00e9 lingu\u00edstica &#8211; Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, Fran\u00e7a, It\u00e1lia -, e depois na Europa mais alargada, que inclui outras proveni\u00eancias, germ\u00e2nicas e de outras origens, com as quais temos rela\u00e7\u00f5es muito antigas, quase desde a funda\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds, como a Alemanha e a Inglaterra.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que\u00a0para pessoas que s\u00e3o da minha gera\u00e7\u00e3o &#8211; nasci em 1948, ainda na primeira metade do s\u00e9culo passado -, quando fal\u00e1vamos em Europa, ela acabava na Alemanha, praticamente, porque logo a seguir \u00e0 II Guerra Mundial estabeleceu-se a cortina de ferro e o que se passava para l\u00e1 da Alemanha, n\u00f3s sab\u00edamos que era Europa, nos mapas estava nesse continente, mas o sentimento de Europa n\u00e3o era t\u00e3o direto. Tamb\u00e9m sabemos que a partir dos anos 50 a constru\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia \u00e9 toda ela da Alemanha para c\u00e1, e assim foi at\u00e9 aos anos 80, \u00e0 queda dessa fronteira\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso tamb\u00e9m justifica as interven\u00e7\u00f5es sucessivas de Jo\u00e3o Paulo II a dizer que a Europa tinha de respirar com os dois pulm\u00f5es&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Ou n\u00e3o fosse ele polaco! Ali\u00e1s, um dos grandes contributos que a elei\u00e7\u00e3o de um Papa polaco trouxe &#8211; e n\u00e3o nos esque\u00e7amos que foi em 78, ainda a uma d\u00fazia de anos da queda do bloco sovi\u00e9tico &#8211; n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 vida europeia, mas tamb\u00e9m \u00e0 vida mundial, foi trazer\u00a0essa outra parte da Europa para o centro da cristandade cat\u00f3lica. Agora temos a outra fronteira, que vai al\u00e9m destes pa\u00edses, que \u00e9 a fronteira com a R\u00fassia, que tamb\u00e9m tem andado para l\u00e1 e para c\u00e1 muito tempo ao longo da hist\u00f3ria, concretamente esta zona da Ucr\u00e2nia, mas tamb\u00e9m outras, como a pr\u00f3pria Pol\u00f3nia, que teve v\u00e1rias reparti\u00e7\u00f5es ao longo dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Depois ainda h\u00e1 a fronteira que vem da velha distin\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio romano do Oriente e do Ocidente, que \u00e9 a que passa pelos Balc\u00e3s. Tudo isso, que parece uma antiqualha, n\u00e3o \u00e9, e vem ao de cima com muita frequ\u00eancia nestas alturas mais conflituosas, ou porque realmente ainda existem essas clivagens, ou porque elas s\u00e3o aproveitadas para fazerem autolegitima\u00e7\u00f5es daquilo que se quer fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Temos visto neste conflito l\u00edderes religiosos, crist\u00e3os, a usar esse fundo hist\u00f3rico, teol\u00f3gico e ideol\u00f3gico, para justificar a interven\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia. Onde \u00e9 que est\u00e1 Deus neste conflito?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1 em todo o lado,\u00a0como sabemos, partimos do Catecismo: Deus est\u00e1 na terra, no c\u00e9u e em toda a parte. Agora, concretamente na nossa tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, em que olhamos para Deus com os olhos que Jesus Cristo nos d\u00e1, esse\u00a0&#8216;todo o lado&#8217; significa &#8216;em toda a gente&#8217;,\u00a0porque acreditamos que a encarna\u00e7\u00e3o de Deus em Jesus Cristo o alarga a cada pessoa.\u00a0N\u00e3o h\u00e1 outra perspetiva crist\u00e3 sen\u00e3o ter esta amplitude de vis\u00e3o. Mais uma raz\u00e3o para n\u00e3o podermos admitir coisas deste g\u00e9nero, como est\u00e3o a acontecer, porque a guerra nunca \u00e9 uma maneira de resolver conflitos.<\/p>\n<p>A guerra defensiva pode-se perceber em algumas circunst\u00e2ncias, com certeza, defender o que \u00e9 seu, tanto quanto se possa defender e com o m\u00ednimo de estragos poss\u00edvel do outro lado, mas uma guerra ofensiva, uma invas\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds, isto \u00e9 completamente inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acredita que ser\u00e1 poss\u00edvel uma visita do Papa a Kiev?<\/em><\/p>\n<p>O Papa Francisco pronunciou-se sobre isso agora na sua visita a Malta, e aludiu \u00e0quilo que ele tem, e a Igreja, e que pela Igreja a sociedade tem ao seu dispor, que \u00e9 a experi\u00eancia diplom\u00e1tica da Santa S\u00e9.<\/p>\n<p>H\u00e1 esta particularidade de que a Santa S\u00e9 est\u00e1 presente em quase toda a geografia mundial, com representa\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, mesmo em pa\u00edses que n\u00e3o s\u00e3o de maioria cat\u00f3lica, mas gostam de ter essa presen\u00e7a, e tem esta especificidade de ser a \u00fanica diplomacia cujos agentes s\u00e3o de todos os pa\u00edses. Os diplomatas de um pa\u00eds s\u00e3o desse pa\u00eds, os diplomatas da Santa S\u00e9 s\u00e3o dos cinco continentes, t\u00eam uma grande experi\u00eancia acumulada e ao mesmo tempo uma grande capacidade de aproxima\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias que v\u00eam dessa pluralidade dos seus membros. Ainda agora, o enviado do Papa \u00e0 Ucr\u00e2nia \u00e9 um cardeal polaco, mais pr\u00f3ximo de toda essa realidade e cultura. Esteve aqui tamb\u00e9m em Lisboa (quando veio presidir em F\u00e1tima \u00e0 Consagra\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia e da R\u00fassia ao Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria) e tive ocasi\u00e3o de conversar com ele, sobretudo de o ouvir, e essa sensibilidade quase de origem ajuda muito.<\/p>\n<p>O Papa respondeu que a diplomacia da Santa S\u00e9 est\u00e1 a fazer todo o poss\u00edvel, n\u00e3o s\u00f3 para travar este conflito, mas tamb\u00e9m para se tornar presente e ajudar, e para verificar se \u00e9 oportuna uma visita papal. Porque resta saber se \u00e9 oportuna, n\u00e3o basta aqui ter a boa inten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Saber que efeito poder\u00e1 ter esse envolvimento mais pessoal do Papa. Voltamos \u00e0 propaganda, e \u00e0 possibilidade de a visita ser aproveitada por uma das partes&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Isso ser\u00e1, certamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por isso \u00e9 preciso ponderar?<\/em><\/p>\n<p>Ter muito cuidado, porque\u00a0aqui a boa vontade n\u00e3o chega. \u00c9 sempre indispens\u00e1vel, mas \u00e9 preciso depois o acerto, e a\u00ed a diplomacia &#8211; e uma t\u00e3o treinada como \u00e9 a da Santa S\u00e9 &#8211; ajuda com certeza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que v\u00ea a onda de solidariedade\u00a0que se gerou em Portugal para responder a esta crise da guerra?<\/em><\/p>\n<p>Vejo-a\u00a0de uma maneira muito positiva, e\u00a0\u00e9 mais um caso em que a sociedade antecede o Estado, o que \u00e9 natural, e \u00e9 melhor que seja assim at\u00e9. Foram tantas as iniciativas que logo apareceram e se concretizaram. Estou a lembrar-me de par\u00f3quias na nossa diocese, mas aconteceu com outras, que em colabora\u00e7\u00e3o com autarquias, bombeiros e miseric\u00f3rdias organizaram idas l\u00e1, trouxeram e j\u00e1 instalaram as pessoas, e antes organizaram essa rece\u00e7\u00e3o. Depois, no caso da Igreja cat\u00f3lica, h\u00e1 as nossas redes C\u00e1ritas, quer diocesanas quer a C\u00e1ritas Portuguesa, e outras parcerias que temos como a PAR, de apoio aos refugiados.<\/p>\n<p>A sociedade andou muito mais depressa do que as pr\u00f3prias estruturas oficiais,\u00a0o que \u00e9 natural, porque a parte estrutural \u00e9 estrutural, implica j\u00e1 institucionaliza\u00e7\u00e3o, ter instaladas as respostas, isso demora sempre algum tempo. Agora,\u00a0a sociedade n\u00e3o esteve \u00e0 espera do Estado nesse sentido de organiza\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, at\u00e9 impulsionou a que as estruturas oficiais trabalhassem de acordo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Referiu a C\u00e1ritas, que a fez uma campanha especial para a Ucr\u00e2nia, que em cerca de um m\u00eas 506 mil euros. Uma contribui\u00e7\u00e3o bastante grande&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim.\u00a0Aparecem nestas alturas generosidades que n\u00e3o estar\u00edamos a contar que fossem assim t\u00e3o grandes.\u00a0Mas, mais uma vez, como h\u00e1 pouco fal\u00e1vamos da diplomacia, \u00e9 preciso tamb\u00e9m compet\u00eancia, ver como \u00e9 que se canaliza todo esse apoio de uma maneira correta e com futuro, n\u00e3o esquecendo que desta vez n\u00e3o \u00e9 um caso de imigrantes.\u00a0S\u00e3o refugiados, um movimento de massas, de fuga,\u00a0que v\u00eam como podem vir, trazendo o que podem e \u00e0 espera, para j\u00e1, de terem sossego e paz, mas com certeza que a sua ideia \u00e9, assim que possam, voltar \u00e0s suas terras e casas, recuperar as suas conviv\u00eancias, a come\u00e7ar pela fam\u00edlia que l\u00e1 deixaram.<\/p>\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos que houve, e h\u00e1, grande dificuldade para sa\u00edrem os homens, por causa da defesa do pa\u00eds, por isso vem a parte feminina da fam\u00edlia, e as crian\u00e7as e os idosos, mas a vontade que t\u00eam \u00e9 de reconstituir o seu quadro de vida, tanto quanto poss\u00edvel e o mais depressa poss\u00edvel. Portanto, \u00e9 diferente um refugiado de um imigrante, embora depois haja conex\u00f5es, refugiados que se tornam imigrantes, e por a\u00ed fora. Tamb\u00e9m temos casos desses. Que haja disponibilidade, boa vontade, colabora\u00e7\u00f5es, tudo bem, mas ao mesmo tempo dar a isto o melhor seguimento poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o grande esfor\u00e7o ser\u00e1 depois na reconstru\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia.<\/em><\/p>\n<p>Para l\u00e1, mas para aqueles que c\u00e1 ficarem tamb\u00e9m garantir que isto se fa\u00e7a da melhor maneira poss\u00edvel, e sem gastar mal aquilo que pode ser bem gasto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos iniciar a Semana Santa, este ano j\u00e1 sem restri\u00e7\u00f5es nas celebra\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante\u00a0poder retomar a tradi\u00e7\u00e3o, sobretudo nesta altura da P\u00e1scoa, que \u00e9 t\u00e3o importante para os crist\u00e3os?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito importante, para os crist\u00e3os e at\u00e9 para a sociedade como tal, em rela\u00e7\u00e3o a isto que nos diz mais diretamente respeito, a celebra\u00e7\u00e3o da Semana Santa, como a outros momentos de conv\u00edvio e confraterniza\u00e7\u00e3o que fazem parte da vida social das pessoas.\u00a0Todos n\u00f3s precisamos disto.<\/p>\n<p>As pessoas da psicologia e \u00e1reas conexas t\u00eam-nos alertado muito:\u00a0a pandemia\u00a0&#8211; como as outras pandemias e pestes que assolaram a humanidade &#8211;\u00a0passa, como tudo passa, mas o que sobra na vida e mem\u00f3ria das pessoas, isso demora mais tempo a passar, da\u00ed que seja muito importante retomarmos estes ritmos de conviv\u00eancia. E\u00a0estas conviv\u00eancias que come\u00e7aram por ser lit\u00fargicas para os crist\u00e3os &#8211; estou a falar do Natal, da P\u00e1scoa, dos padroeiros das terras, etc &#8211; acabam por ter uma proje\u00e7\u00e3o na sociedade como um todo, mesmo em pessoas que j\u00e1 n\u00e3o o fazem confessionalmente, mas aproveitam essas alturas para se reunirem e reencontrarem, e isto \u00e9 muito importante para a vida social.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, em termos de Semana Santa, claro que \u00e9 important\u00edssimo. Ali\u00e1s, toda a liturgia crist\u00e3 h\u00e1 dois mil anos come\u00e7a \u00e0 volta deste n\u00facleo pascal, a come\u00e7ar pela celebra\u00e7\u00e3o do domingo, o dia da Ressurrei\u00e7\u00e3o, depois a pouco e pouco come\u00e7aram a celebrar-se tamb\u00e9m os dias anteriores da Paix\u00e3o, e com o tempo tamb\u00e9m se instalou o costume quaresmal dos 40 dias. Mas,\u00a0isto depois fez sociedade, agregou pessoas, criou ritmos \u00e0 volta de algu\u00e9m\u00a0que, como acreditamos, \u00e9 muito central para sermos outra coisa, quer em termos pessoais quer em termos comunit\u00e1rios, que \u00e9 Jesus Cristo.\u00a0Da\u00ed que seja muito bom que o possamos fazer, com cautela, porque a pandemia ainda n\u00e3o passou.\u00a0Tenhamos muito cuidado com as regras, em espa\u00e7os fechados termos a m\u00e1scara, manter o distanciamento poss\u00edvel,\u00a0regras que julgo que em grande parte at\u00e9 ficar\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O papel da Igreja Cat\u00f3lica no momento da suspens\u00e3o das celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, e na implementa\u00e7\u00e3o de regras muito claras, foi importante n\u00e3o s\u00f3 para as comunidades cat\u00f3licas, mas para a pr\u00f3pria sociedade, para que houvesse um clima de paz social na supera\u00e7\u00e3o da pandemia?<\/em><\/p>\n<p>Eu\u00a0creio que foi mesmo muito importante. E n\u00e3o sou s\u00f3 eu,\u00a0isso tem sido unanimemente verificado, at\u00e9 analistas n\u00e3o confessionais sublinharam esse papel, at\u00e9 porque n\u00f3s come\u00e7amos antes (do pa\u00eds confinar)\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E houve contactos com o governo, sistem\u00e1ticos.<\/em><\/p>\n<p>Houve, mas ainda antes dos contactos\u2026 eu estava nessa altura ainda na presid\u00eancia da Confer\u00eancia Episcopal, reuni imediatamente e tivemos a consci\u00eancia de que era para travar logo. Porque havia muita coisa marcada, est\u00e1vamos no princ\u00edpio da Quaresma, com aqueles ritmos de celebra\u00e7\u00f5es e prociss\u00f5es, e\u00a0percebemos que dada a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 o desconhecimento do que aquilo acarretaria\u00a0&#8211; nunca t\u00ednhamos sido surpreendidos desta maneira, pelo menos nas nossas gera\u00e7\u00e3es mais pr\u00f3ximas -,\u00a0era necess\u00e1rio travar qualquer oportunidade de cont\u00e1gio\u00a0e isso significava celebra\u00e7\u00f5es, prociss\u00f5es, catequeses, reuni\u00f5es. Pass\u00e1mos rapidamente para uma Igreja medi\u00e1tica, mas foi com certeza um contributo importante, e como tal tem sido reconhecido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta experi\u00eancia de dois anos que todos vivemos tamb\u00e9m teve reflexos e provocou altera\u00e7\u00f5es na pr\u00e1tica religiosa. Isso preocupa-o? Houve muita gente que se afastou e ainda n\u00e3o voltou? Os jovens<\/em>?<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 cedo para fazermos essa avalia\u00e7\u00e3o. Porque h\u00e1 aqui muita coisa que \u00e9 natural, ou seja, as pessoas se foram t\u00e3o restringidas nos seus ritmos habituais, tamb\u00e9m n\u00e3o passam imediatamente para uma conduta diferente, e estamos a falar n\u00e3o numa realidade de semanas, mas de dois anos, com interrup\u00e7\u00f5es e voltas atr\u00e1s. Tudo isto cria uma certa\u00a0resist\u00eancia \u00e0 normalidade.\u00a0Por um lado h\u00e1 vontade, por outro h\u00e1 receio. E n\u00e3o esque\u00e7amos que a nossa popula\u00e7\u00e3o portuguesa \u00e9 muito envelhecida, temos quase um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o acima dos 60 anos, e muitas pessoas com dificuldades de mobilidade, para sair de casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dificuldades que tamb\u00e9m se agravaram com a pandemia&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Portanto, h\u00e1 aqui um conjunto de fatores. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos mais novos,\u00a0as catequeses foram muitas vezes interrompidas, as atividades de f\u00e9rias, tudo isso ficou entre parentesis. Retomar isso n\u00e3o \u00e9 imediato. H\u00e1 vontade? H\u00e1, vamos ver como \u00e9 que isto agora se vai recompondo. Mas\u00a0creio que tamb\u00e9m pode trazer, e nalguns casos trar\u00e1,\u00a0mais consci\u00eancia daquilo que se estava a fazer, n\u00e3o apenas porque era costume, mas porque realmente faz falta e a comunidade \u00e9 o meu lugar, concretamente a comunidade crist\u00e3.\u00a0H\u00e1 aqui qualquer coisa que vai de certa maneira recuperar-se e de outra transformar-se, espero que para melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em fevereiro de 2019, participou na cimeira mundial convocada pelo Papa para definir novas estrat\u00e9gia na preven\u00e7\u00e3o e combate ao abuso sexual de menores. Em Portugal foram criadas comiss\u00f5es diocesanas e uma comiss\u00e3o independente, que est\u00e1 a recolher testemunhos, sobre estes casos. Pensa que este \u00e9 o caminho correto, a ser seguido?<\/em><\/p>\n<p>Nem vejo outro. Quando temos pela frente um problema, a primeira coisa que temos de fazer \u00e9 enfrent\u00e1-lo. Para j\u00e1, temos de saber detet\u00e1-lo, saber o que \u00e9, a sua dimens\u00e3o, e \u00e9 isso que estamos a fazer.<\/p>\n<p>Depois, montar estruturas de resposta, de acolhimento das pessoas que foram ofendidas, de resposta a essa problem\u00e1tica, e sobretudo de preven\u00e7\u00e3o. Como sabemos, sem alijar responsabilidades, isto \u00e9 algo que nos toca a todos, como sociedade, as estat\u00edsticas est\u00e3o a\u00ed, n\u00e3o \u00e9? Da nossa parte, estamos a fazer aquilo que nos compete e, com certeza que outros o far\u00e3o tamb\u00e9m, porque isto s\u00f3 se pode resolver no geral. Ningu\u00e9m nasce na Igreja, as pessoas aparecem na Igreja, mas n\u00e3o nasceram nem foi l\u00e1 que a sua vida se estruturou, de certa maneira. Tem de ser encarado como um problema da sociedade; naquilo que nos compete, temos de o encarar, tamb\u00e9m, e responder da melhor maneira.<\/p>\n<p>Foi aquilo que se fez, com a r\u00e1pida instala\u00e7\u00e3o das comiss\u00f5es diocesanas \u2013 nas 21 dioceses do pa\u00eds h\u00e1 comiss\u00f5es estabelecidas, compostas por especialistas no campo da psicologia, judicial, v\u00e1rias perten\u00e7as, mas todas elas trazendo a sua compet\u00eancia profissional \u2013 e depois, agora, criando uma coordena\u00e7\u00e3o nacional, para que o trabalho das comiss\u00f5es diocesanas possa ser ainda mais apoiado. Al\u00e9m disso, tivemos a iniciativa de criar uma comiss\u00e3o independente, para fazer um estudo, hist\u00f3rico, de h\u00e1 muitas d\u00e9cadas, para que se possa enquadrar e perceber melhor a quest\u00e3o, porque realmente \u00e9 uma quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Creio que n\u00e3o poder\u00edamos fazer de outra maneira e aquilo que estamos a fazer est\u00e1 certo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Alguma coisa do que foi sendo divulgado at\u00e9 agora, nomeadamente pela comiss\u00e3o independente, o surpreendeu?<\/em><\/p>\n<p>Infelizmente n\u00e3o. At\u00e9 porque, como digo, o tempo hist\u00f3rico \u00e9 muito largo. Alguns dados que a comiss\u00e3o independente tem apurado v\u00e3o na linha de outros que se apuraram noutros pa\u00edses, ou seja, \u00e9 uma quest\u00e3o que estava muito presente, sobretudo, at\u00e9 aos anos 90 e que a partir da\u00ed \u2013 at\u00e9 por uma outra consci\u00eancia que a sociedade, no seu conjunto, foi tomando em rela\u00e7\u00e3o a esta problem\u00e1tica e que n\u00e3o tinha, at\u00e9 a\u00ed \u2013 foi diminuindo. O que tem aparecido, em rela\u00e7\u00e3o a Portugal, aparece em rela\u00e7\u00e3o aos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Como se tem dito, e eu tamb\u00e9m o digo, em muitos destes casos n\u00e3o se espera grande espetacularidade, porque as pessoas querem ser ouvidas, n\u00e3o querem ser expostas, j\u00e1 sofreram que chegue.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O compromisso da Igreja \u00e9 o total esclarecimento dos casos?<\/em><\/p>\n<p>Com certeza, exatamente. A grande maioria deles j\u00e1 est\u00e1 prescrito, passou muito tempo, mas a Igreja segue o seu caminho, concretamente escutando e apoiando quem tenha sido ofendido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em termos pol\u00edticos temos um novo Governo e um novo Parlamento, onde j\u00e1 se sabe que a eutan\u00e1sia vai voltar a ser discutida e votada, por iniciativa do Bloco de Esquerda. Como \u00e9 que comenta essa inten\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Comento, mais uma vez, remetendo \u00e0 sociedade. Sabemos que, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, h\u00e1 um enorme contraste face \u00e0quilo que o Evangelho prop\u00f5e \u2013 \u00e9 a atitude de Jesus Cristo, que est\u00e1 em todas as fronteiras da vida, n\u00e3o dispensa nenhuma quer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as que na altura eram incur\u00e1veis, como os leprosos, quer em rela\u00e7\u00e3o a qualquer situa\u00e7\u00e3o em que a vida estivesse em causa, Jesus est\u00e1 sempre do lado da vida. N\u00f3s hoje sabemos, como nunca soubemos, onde \u00e9 que essa vida come\u00e7a. Agora n\u00e3o falo de eutan\u00e1sia, falo da conce\u00e7\u00e3o, do que dever\u00edamos fazer e n\u00e3o fazemos suficientemente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida em gesta\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o est\u00e1 nem legalmente protegida, com a permiss\u00e3o do aborto nos termos em que se faz, nem prevenida: realmente, h\u00e1 muitos problemas em rela\u00e7\u00e3o a algumas conce\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o foram queridas, que surgem em rela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o do tipo do amor nem humanas. Como sociedade, dever\u00edamos estar presentes nessas situa\u00e7\u00f5es, para dar uma resposta no sentido de dizer: \u201cA vida que a\u00ed est\u00e1 \u00e9 uma vida que, para n\u00f3s, tamb\u00e9m \u00e9 preciosa, tamb\u00e9m conta. Para ti \u00e9 um problema, estamos aqui contigo, vamos resolver todos juntos esse problema\u201d. Para n\u00f3s esse \u00e9 um valor, que prezamos, \u00e9 o valor da vida, mas temos de apoiar aquelas situa\u00e7\u00f5es em que tudo isso \u00e9 muito complexo.<\/p>\n<p>Nunca tivemos tanta evid\u00eancia que, desde a conce\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um cont\u00ednuo vital que, se n\u00e3o for barrado, vai dentro do \u00fatero materno, e depois, ter o seu seguimento. Nunca tivemos tanta evid\u00eancia disto como agora, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 a primeira nem a segunda vez que vou a casa das pessoas e elas come\u00e7am a mostrar as fotografias dos filhos, e com quatro meses j\u00e1 t\u00eam nome e tudo. Nunca houve tanta consci\u00eancia disso e t\u00e3o pouca coincid\u00eancia, em termos de resposta social a esta problem\u00e1tica. Porque existe, mas n\u00e3o resolve, na minha opini\u00e3o, juntando a um mal outro mal, que \u00e9 o desaparecimento daquela vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a quest\u00e3o coloca-se na eutan\u00e1sia, quando se prop\u00f5e a morte como solu\u00e7\u00e3o para um sofrimento intoler\u00e1vel?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, obviamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos relativamente \u00e0 atitude da sociedade\u2026<\/em><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atitude da sociedade, sim, o descomprometimento. At\u00e9 porque n\u00f3s sabemos, com a pr\u00e1tica dos cuidados paliativos, onde eles s\u00e3o realmente oferecidos \u2013 e sei disso, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, em termos de companhia, nalguns casos -, essa \u00faltima fase da vida que est\u00e1 limitada, porque a doen\u00e7a vai ter o seu desfecho, tanto quanto \u00e9 previs\u00edvel, pode ser vivida serenamente. Se for acompanhada. Recordo-me, ainda n\u00e3o foi assim h\u00e1 tantos meses, que fui visitar uma pessoa conhecida, que nem era crente, e estava numa unidade de cuidados paliativos, e tinha toda a sua agenda ocupada com v\u00e1rias coisas que queria terminar.<\/p>\n<p>Porque tinha esse cuidado paliativo, fazia das tr\u00eas, quatro semanas que tinha como previs\u00e3o de vida umas semanas preenchidas. E outros casos\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 poss\u00edvel? Esses momentos de serenidade e paz s\u00e3o poss\u00edveis?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e3o acess\u00edveis, esse \u00e9 que \u00e9 o problema, o desafio que n\u00f3s dever\u00edamos ter e temos \u2013 continuaremos a ter, independentemente do aspeto legal, porque nem em rela\u00e7\u00e3o ao aborto nem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 eutan\u00e1sia, caso se venha a aprovar, a sociedade pode desistir de caminhar no sentido da vida e de ser consequente. N\u00e3o s\u00e3o batalhas perdidas, a causa da vida \u00e9 uma frente constante. Ali\u00e1s, tem consignado o apoio de v\u00e1rios credos, que se t\u00eam pronunciado, isto sem falar nos pronunciamentos dos sucessivos baston\u00e1rios da Ordem dos M\u00e9dicos e outras inst\u00e2ncias da sociedade. Este \u00e9 que \u00e9 o ponto: temos de caminhar, de maneira consequente, no sentido da promo\u00e7\u00e3o da vida em todas as suas fases. N\u00e3o estamos a dizer que a vida tem de ser necessariamente a daquele figurino que a publicidade mostra, com capacidades de eterna juventude, por a\u00ed fora, n\u00e3o: \u00e9 a pessoa como ela \u00e9, com a sua fragilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 favor\u00e1vel a que se realize um referendo sobre a Eutan\u00e1sia?<\/em><\/p>\n<p>O referendo, neste aspeto, tem muito de epis\u00f3dico e de fal\u00edvel. N\u00e3o sei se \u00e9 a melhor maneira. O que os referendos podem servir como ocasi\u00e3o de esclarecimento, ou seja, h\u00e1 mais pessoas a pronunciar-se sobre o assunto, mais elementos que chegam, desde que se consiga manter a serenidade, o respeito m\u00fatuo, o verdadeiro di\u00e1logo e n\u00e3o mon\u00f3logos \u00e0 for\u00e7a. Tem-se verificado que s\u00e3o oportunidades de esclarecimento, agora que resolvam\u2026 Tivemos dois referendos ao aborto, com resultados diferentes, mas o problema continua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Lisboa prepara-se para acolher no pr\u00f3ximo ano a Jornada Mundial da Juventude. Os preparativos est\u00e3o a correr como previsto? O que \u00e9 que mais o preocupa?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um desafio enorme e temos 16 meses, ou seja, \u00e9 j\u00e1 depois de amanh\u00e3. Foi adiado, por causa da pandemia, mas agora \u00e9 em 2023, vamos fazer o melhor poss\u00edvel e, como o Papa tamb\u00e9m tem referido, \u00e9 uma grande oportunidade para a sociedade, para a juventude mundial, de refrescamento, para utilizar a sua linguagem, esperemos que j\u00e1 numa altura p\u00f3s-pand\u00e9mica. Que a juventude mundial, em torno daquilo que a mensagem crist\u00e3 lhe ofere\u00e7a, rejuvenes\u00e7a, e com ela rejuvenes\u00e7a tamb\u00e9m a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E sente os jovens portugueses mobilizados para este momento?<\/em><\/p>\n<p>Esta Jornada, a iniciativa, partiu da\u00ed. Posso diz\u00ea-lo com conhecimento direto: neste momento, sou o bispo em fun\u00e7\u00f5es mais antigo, e logo desde a primeira vez que fui \u00e0 Confer\u00eancia Episcopal, em novembro de 1999, comecei a reparar que havia esta ideia. At\u00e9 porque muitos j\u00e1 t\u00ednhamos participado. Depois, come\u00e7amos a fazer contas e a questionar a possibilidade de se fazer algo aqui, com este tamanho, porque come\u00e7aram a ganhar grande n\u00famero de participantes, no princ\u00edpio eram dezenas de milhares, depois centenas de milhares, milh\u00f5es\u2026 come\u00e7ou tudo a ser mais complicado e acredito mesmo que, l\u00e1 para Roma, n\u00e3o seja muito f\u00e1cil encontrar candidaturas, sobretudo nalguns pa\u00edses onde gostaria de o fazer, mas n\u00e3o h\u00e1 possibilidades.<\/p>\n<p>O que acabou por impulsionar mais a iniciativa, n\u00e3o s\u00f3 de Lisboa, mas da Confer\u00eancia Episcopal no seu todo, de se propor esta Jornada em Portugal veio, sobretudo, da movimenta\u00e7\u00e3o juvenil. N\u00e3o sei se as pessoas se d\u00e3o conta do que acontece neste tri\u00e2ngulo, por exemplo: Miss\u00e3o Pa\u00eds, que envolve milhares de estudantes universit\u00e1rios, no intervalo entre os dois semestres, que v\u00e3o durante uma semana para determinada localidade, participar na vida da popula\u00e7\u00e3o, quer da comunidade crist\u00e3 quer das pessoas em geral, fazendo encontros, refletindo; os N\u00facleos de Estudantes Cat\u00f3licos, nas universidades, que j\u00e1 s\u00e3o dezenas, pelo pa\u00eds; e depois as atividades de voluntariados, como os campos de f\u00e9rias que fazem para outros adolescentes, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia, muitos deles com iniciativas para substituir o pessoal dos lares, que foi afetado pela Covid. H\u00e1 aqui uma din\u00e2mica juvenil, alguns deles agregados em movimentos ligados a institutos religiosos ou espiritualidades, como as Equipas Jovens de Nossa Senhora, e foi desta gente, em grand\u00edssima parte, que veio o impulso de irmos para a frente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acredito que seja uma prepara\u00e7\u00e3o vivida com muita emo\u00e7\u00e3o. O Papa j\u00e1 manifestou a sua vontade de estar com os jovens, em Lisboa, e de visitar F\u00e1tima, nessa viagem. O programa est\u00e1 perto de ser definido, tem havido muitos contactos nesse sentido?<\/em><\/p>\n<p>Sim, o programa j\u00e1 est\u00e1 mais ou menos estabelecido. Esta Jornada j\u00e1 vem dos anos 80, o programa basicamente tem aquele grande encontro numa quinta-feira; depois, o grande momento coletivo, na sexta-feira, \u00e9 a Via-Sacra p\u00fablica; no s\u00e1bado \u00e9 a vig\u00edlia que dura toda a noite, porque as pessoas ficam no local, at\u00e9 \u00e0 Missa de encerramento e envio no domingo de manh\u00e3. Isto depois \u00e9 complementado com centenas de catequeses que se fazem nessas manh\u00e3s, durante a Jornada; \u00e9 prefaciado por encontros nas dioceses, na semana anterior, e imagino que no ver\u00e3o do pr\u00f3ximo ano, a partir de julho, comece a chegar gente, at\u00e9 se concentrarem depois em Lisboa, na primeira semana de agosto. O programa em si est\u00e1 mais ou menos estabelecido, o Papa gosta sempre de complementar a sua presen\u00e7a, sabemos que aqui ir\u00e1 a F\u00e1tima, j\u00e1 manifestou essa vontade e todos n\u00f3s temos todo o gosto que o fa\u00e7a, e \u00e0s vezes ele ainda junta mais outras coisas, uma visita a um ou outro local que ele ache mais importante ir, como sinal da presen\u00e7a da Igreja. Ainda h\u00e1 uma certa margem de manobra, mas os dias s\u00e3o aqueles, a Jornada \u00e9 aquela semana [1 a 6 de agosto de 2023].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 entusiasmo para este grande evento que Lisboa vai receber?<\/em><\/p>\n<p>O entusiasmo transborda. Julgo, tenho dito isto, que aquilo que j\u00e1 est\u00e1 em campo, ou seja, o tecido que se montou com os Comit\u00e9s Paroquiais, Vicariais e Diocesanas, at\u00e9 ao central, o Comit\u00e9 Local, tudo isto tem instalado no terreno de todo o pa\u00eds uma organiza\u00e7\u00e3o e movimenta\u00e7\u00e3o juvenil que vai ficar e criar uma rede de Pastoral Juvenil renovada em Portugal, n\u00e3o tenho d\u00favidas. Quem ganha este balan\u00e7o n\u00e3o quer ficar parado\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Muito obrigado por conversar connosco nesta ocasi\u00e3o especial, os 85 anos da Renascen\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p>85 anos de uma r\u00e1dio que n\u00e3o se chama Renascen\u00e7a por acaso. Naquela altura, em Portugal, havia muita vontade de renascer, at\u00e9 havia revistas com esse t\u00edtulo, portanto, havia um sentimento de relan\u00e7amento do pa\u00eds em que a Igreja quis participar, com esta feliz iniciativa do Monsenhor Lopes da Cruz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cardeal-patriarca de Lisboa \u00e9 o convidado da entrevista semanal conjunta Renascen\u00e7a\/Ecclesia, no dia em que a emissora cat\u00f3lica de Portugal celebra o seu 85.\u00ba anivers\u00e1rio. Uma conversa que passa pela atualidade nacional e internacional, da guerra na Ucr\u00e2nia \u00e0 Jornada Mundial da Juventude de 2023<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":235611,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-235579","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/235579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=235579"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/235579\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/235611"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=235579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=235579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=235579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}