{"id":234265,"date":"2022-03-30T10:24:11","date_gmt":"2022-03-30T09:24:11","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=234265"},"modified":"2022-03-30T10:24:11","modified_gmt":"2022-03-30T09:24:11","slug":"saber-aprender-a-sair-da-globalizacao-da-superficialidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-sair-da-globalizacao-da-superficialidade\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A sair da globaliza\u00e7\u00e3o da superficialidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em 2010, o P. Adolfo Nicol\u00e1s, sacerdote jesu\u00edta falava com a comunidade da B\u00e9lgica e referia algo que havia dialogado com universit\u00e1rios no M\u00e9xico \u2014 <em>a globaliza\u00e7\u00e3o da superficialidade<\/em>. Diz o P. Adolfo que \u2014 <em>\u00abo mundo est\u00e1 a tornar-se muito superficial. Temos mais informa\u00e7\u00e3o do que nunca, mas uma capacidade menor para pensar, reflectir e digerir essa informa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, existe uma globaliza\u00e7\u00e3o da superficialidade e n\u00f3s movemo-nos por sentimentos com base na primeira informa\u00e7\u00e3o que nos servem. E mesmo se as primeiras not\u00edcias est\u00e3o totalmente desviadas da realidade s\u00e3o essas que se colam \u00e0 nossa mente e n\u00e3o temos a capacidade de confirmar, estudar e ver se realmente s\u00e3o verdade ou n\u00e3o. E isto est\u00e1, tamb\u00e9m, a acontecer na Igreja.\u00bb<\/em> Creio que passados 12 anos, a situa\u00e7\u00e3o no mundo de hoje n\u00e3o est\u00e1 muito diferente ou talvez se tenha agravado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_234267\" aria-describedby=\"caption-attachment-234267\" style=\"width: 459px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/thisisengineering-raeng-8hgmG03spF4-unsplash-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-234267 \" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/thisisengineering-raeng-8hgmG03spF4-unsplash-2.jpg\" alt=\"\" width=\"459\" height=\"306\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/thisisengineering-raeng-8hgmG03spF4-unsplash-2.jpg 640w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/thisisengineering-raeng-8hgmG03spF4-unsplash-2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/thisisengineering-raeng-8hgmG03spF4-unsplash-2-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/thisisengineering-raeng-8hgmG03spF4-unsplash-2-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 459px) 100vw, 459px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-234267\" class=\"wp-caption-text\">Foto de ThisisEngineering RAEng em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>O tipo de discurso que ouvimos (ainda) sobre as vacinas da Covid-19 em muitos crist\u00e3os s\u00e3o um fruto da ced\u00eancia \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o. O facto das pessoas lerem algo que algu\u00e9m de confian\u00e7a lhes partilha, sobretudo nas redes sociais, mesmo que n\u00e3o corresponda \u00e0 realidade, \u00e9 essa superficialidade que fica dentro de n\u00f3s, afectando o modo de pensar e decidir. Depois, as pessoas procuram justifica\u00e7\u00e3o para aquilo que pensam num artigo ou outro de algu\u00e9m credenciado (que pode estar enganado ou mal interpretado) e desprezam os 100 artigos, tamb\u00e9m de pessoas credenciadas, que afirmam o contr\u00e1rio. Como podemos ajudar as pessoas a sair da superficialidade e a compreender o que se est\u00e1 a passar?<\/p>\n<p>Em \u201cOs Superficiais\u201d, o jornalista Nicolas Carr diz que \u2014 <em>\u00abos media n\u00e3o s\u00e3o apenas canais de informa\u00e7\u00e3o. Eles fornecem a mat\u00e9ria para o pensamento, mas formam, tamb\u00e9m, o processo de pensamento. E o que a Net parece estar a fazer \u00e9 a retirar a capacidade para a concentra\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em> A neuroplasticidade cerebral demonstra que o modo como pensamos n\u00e3o \u00e9 determinado pelos nossos genes, mas pelo modo como vivemos. Se aprender um instrumento musical muda o nosso c\u00e9rebro, tamb\u00e9m os nossos pensamentos exercem uma influ\u00eancia f\u00edsica sobre a massa cinzenta. De certa forma, podemos dizer que nos tornamos o que pensamos. E se o pensamento \u00e9 incapaz de digerir toda a informa\u00e7\u00e3o que recebe, tornando-se superficial, tamb\u00e9m n\u00f3s, gradualmente, tornamo-nos superficiais.<\/p>\n<p>No caso da Igreja corremos o risco de pensar que um discurso piedoso \u00e9 o suficiente para ajudar as pessoas a entender o que vivemos, o que Deus nos chama a viver, e a convid\u00e1-las a fazer, na liberdade, essa experi\u00eancia. Esperamos tocar o cora\u00e7\u00e3o das pessoas falando da superioridade moral das nossas convic\u00e7\u00f5es, mas o mundo j\u00e1 n\u00e3o funciona assim. Esse discurso, na pr\u00e1tica, torna-se mais uma adi\u00e7\u00e3o \u00e0 superficialidade que se vive, aumentando a sua globaliza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m ao n\u00edvel da espiritualidade e da vida que poderia ser profunda. Uma profundidade feita de sil\u00eancio, curiosidade, procura, paragem, paci\u00eancia e ir a fundo nas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Ian Stackhouse num livro de medita\u00e7\u00f5es intitulado \u201cO Dia \u00e9 Teu\u201d (n\u00e3o traduzido para portugu\u00eas) diz que \u2014 <em>\u00abtemos medo de parar; tememos a normalidade que a vida, fora da via r\u00e1pida, significar\u00e1; receamos a nossa pr\u00f3pria companhia. Uma das raz\u00f5es por que, tantas vezes, precisamos de consultar o correio eletr\u00f3nico, estar sempre a enviar mensagens ou ver televis\u00e3o com tanta frequ\u00eancia, \u00e9 esta: a perspectiva de viver connosco mesmos \u00e9 assustadora demais. Mas as consequ\u00eancias de vivermos em semelhante mundo acelerado est\u00e3o agora a surgir. Em toda a parte, dentro e fora das comunidades religiosas, as pessoas come\u00e7am a despertar para o facto de que semelhante estilo de vida \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 insustent\u00e1vel, mas tamb\u00e9m destrutivo.\u00bb<\/em> \u2014 Num mundo acelerado \u00e9 quase imposs\u00edvel pousar sobre os assuntos para reflectirmos sobre eles, e a superficialidade do sobrevoar constante pelo mar da informa\u00e7\u00e3o que da\u00ed resulta destr\u00f3i a oportunidade para crescermos em profundidade na nossa interioridade. Quer isso dizer que mais vale mantermo-nos na ignor\u00e2ncia e diminuir os fluxos de informa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o facto de ser hoje poss\u00edvel transmitir a informa\u00e7\u00e3o de modo mais acelerado que nos permite assistir \u00e0s necessidades da comunidade humana noutra parte do mundo, como acontece agora com a Ucr\u00e2nia? Ser\u00e1 que a busca de profundidade acaba por desviar a nossa aten\u00e7\u00e3o da urg\u00eancia em agir? De que serve reflectir sobre a fome se o que importa \u00e9 dar de comer? No passado dia 14 de mar\u00e7o, aos membros da associa\u00e7\u00e3o \u201cAnima\u201d para o social nos valores da empresa, o papa Francisco diz \u2014 <em>\u00ab\u00e9 necess\u00e1rio resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do ativismo e encontrar tempo para refletir, pensar, contemplar. Por vezes o ativismo destr\u00f3i a nossa interioridade; n\u00e3o estou a falar de religiosidade, mas de interioridade humana. Depois, optar por uma religi\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pessoal, mas antes h\u00e1 a interioridade humana.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Sair da globaliza\u00e7\u00e3o da superficialidade significa saber aprender a construir uma interioridade humana pautada por uma vida profunda. Uma vida informada, mas que reflecte sobre o que ouve e aprende a discernir as fontes cred\u00edveis das que alimentam teorias da conspira\u00e7\u00e3o ou desinformam. E n\u00e3o vale a pena prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o para estarmos a par daquilo que desinforma. A melhor forma de propagar uma desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 continuar a falar sobre essa.<\/p>\n<p>A nossa capacidade de comunicar ideias, experi\u00eancias e acontecimento \u00e9 \u00edmpar na hist\u00f3ria humana, mas exige o desenvolvimento simult\u00e2neo da nossa capacidade para interpretar os conte\u00fados comunicados. Esta capacidade requer o tempo que muitas pessoas pensa n\u00e3o ter, mas que se pode cultivar se reduzirmos a quantidade de informa\u00e7\u00e3o consumida, focalizando os nossos interesses.<\/p>\n<p>Antigamente, as pessoas eram capazes de ler um livro durante algum tempo, uma not\u00edcia de jornal ou reportagem at\u00e9 ao fim. Hoje, se n\u00e3o nos fizerem compreender o conte\u00fado no primeiro minuto, quebra-se a nossa aten\u00e7\u00e3o e perdemos o interesse. H\u00e1 que reparar a nossa capacidade de prestar aten\u00e7\u00e3o e saber juntar as linhas que perfazem o tecido da realidade. Saber distinguir a informa\u00e7\u00e3o relevante da irrelevante, isto \u00e9, aquilo que \u00e9 sinal no meio de algum ru\u00eddo. No sinal intuiremos a Voz do Esp\u00edrito Santo que nos conduz no caminho da profundidade.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-234265","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=234265"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234265\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=234265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=234265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=234265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}