{"id":23415,"date":"2007-03-13T13:06:23","date_gmt":"2007-03-13T13:06:23","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/03\/13\/sacramentum-caritatis-2\/"},"modified":"2007-03-13T13:06:23","modified_gmt":"2007-03-13T13:06:23","slug":"sacramentum-caritatis-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sacramentum-caritatis-2\/","title":{"rendered":"Sacramentum Caritatis"},"content":{"rendered":"<p>Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-sinodal de Bento XVI ao episcopado, ao clero \u00e0s pessoas consagradas e aos fi\u00e9is leigos sobre a eucaristia fonte e \u00e1pice da vida e da miss\u00e3o da Igreja <!--more--> Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-sinodal <i>Sacramentum Caritatis<\/i> de Bento XVI ao episcopado, ao clero, \u00e0s pessoas consagradas e aos fi\u00e9is leigos sobre a eucaristia, fonte e \u00e1pice da vida e da miss\u00e3o da Igreja   <B>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/B> 1. SACRAMENTO DA CARIDADE 1, a Sant\u00edssima Eucaristia \u00e9 a doa\u00e7\u00e3o que Jesus Cristo faz de si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. Neste sacramento admir\u00e1vel, manifesta-se o amor \u00abmaior\u00bb: o amor que leva a \u00abdar a vida pelos amigos\u00bb (Jo 15,13). De facto, Jesus \u00abamou-os at\u00e9 ao fim\u00bb (Jo 13,1). Com estas palavras, o evangelista introduz o gesto de infinita humildade que Ele realizou: na vig\u00edlia da sua morte por n\u00f3s na cruz, p\u00f4s uma toalha \u00e0 cintura e lavou os p\u00e9s aos seus disc\u00edpulos. Do mesmo modo, no sacramento eucar\u00edstico, Jesus continua a amar-nos \u00abat\u00e9 ao fim\u00bb, at\u00e9 ao dom do seu Corpo e do seu Sangue. Que enlevo se deve ter apoderado do cora\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos \u00e0 vista dos gestos e palavras do Senhor durante aquela Ceia! Que maravilha deve suscitar, tamb\u00e9m no nosso cora\u00e7\u00e3o, o mist\u00e9rio eucar\u00edstico!  <B>O alimento da Verdade<\/B> 2. No sacramento do altar, o Senhor vem ao encontro do homem, criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus (Gn 1,27), fazendo-se seu companheiro de viagem. Com efeito, neste sacramento, Jesus torna-se alimento para o homem, faminto de verdade e de liberdade. Uma vez que s\u00f3 a verdade nos pode tornar verdadeiramente livres (Jo 8,36), Cristo faz-se alimento de Verdade para n\u00f3s. Com agudo conhecimento da realidade humana, Santo Agostinho p\u00f4s em evid\u00eancia como o homem se move espontaneamente, e n\u00e3o constrangido, quando encontra algo que o atrai e nele suscita desejo. Perguntando-se ele, uma vez, sobre o que poderia em \u00faltima an\u00e1lise mover o homem no seu \u00edntimo, o santo bispo exclama: \u00abQue pode a alma desejar mais ardentemente do que a verdade?\u00bb 2 De facto, todo o homem traz dentro de si o desejo insuprim\u00edvel da verdade \u00faltima e definitiva. Por isso, o Senhor Jesus, \u00abCaminho, Verdade e Vida\u00bb (Jo 14,6), dirige-se ao cora\u00e7\u00e3o anelante do homem que se sente peregrino e sedento, ao cora\u00e7\u00e3o que suspira pela fonte da vida, ao cora\u00e7\u00e3o mendigo da Verdade. Com efeito, Jesus Cristo \u00e9 a Verdade feita Pessoa, que atrai a si o mundo. \u00abJesus \u00e9 a estrela polar da liberdade humana: esta, sem Ele, perde a sua orienta\u00e7\u00e3o, porque, sem o conhecimento da verdade, a liberdade desvirtua-se, isola-se e reduz-se a est\u00e9ril arb\u00edtrio. Com Ele, a liberdade volta a encontrar-se a si mesma\u00bb.3 No sacramento da Eucaristia, Jesus mostra-nos de modo particular a verdade do amor, que \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia de Deus. Esta \u00e9 a verdade evang\u00e9lica que interessa a todo o homem e ao homem todo. Por isso, a Igreja, que encontra na Eucaristia o seu centro vital, esfor\u00e7a-se constantemente por anunciar a todos, em tempo prop\u00edcio e fora dele (opportune, importune: cf. 2Tm 4,2), que Deus \u00e9 Amor.4 Exactamente porque Cristo se fez alimento de Verdade para n\u00f3s, a Igreja dirige-se ao homem, convidando-o a acolher livremente o dom de Deus.  <B>O desenvolvimento do rito eucar\u00edstico<\/B> 3. Contemplando a hist\u00f3ria bimilen\u00e1ria da Igreja de Deus, sapientemente guiada pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, admiramos cheios de gratid\u00e3o o desenvolvimento ordenado no tempo das formas rituais em que fazemos mem\u00f3ria do acontecimento da nossa salva\u00e7\u00e3o. Desde as m\u00faltiplas formas dos primeiros s\u00e9culos, que resplandecem ainda nos ritos das Antigas Igrejas do Oriente, at\u00e9 \u00e0 difus\u00e3o do rito romano; desde as indica\u00e7\u00f5es claras do Conc\u00edlio de Trento e do Missal de S\u00e3o Pio V at\u00e9 \u00e0 renova\u00e7\u00e3o lit\u00fargica querida pelo Conc\u00edlio Vaticano II: em cada etapa da hist\u00f3ria da Igreja, a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, enquanto fonte e \u00e1pice da sua vida e miss\u00e3o, resplandece no rito lit\u00fargico em toda a sua multiforme riqueza. A XI Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, que decorreu de 2 a 23 de Outubro de 2005, no Vaticano, elevou um profundo agradecimento a Deus por esta hist\u00f3ria, reconhecendo nela a orienta\u00e7\u00e3o activa do Esp\u00edrito Santo. De modo particular, os padres sinodais reconheceram e reafirmaram o ben\u00e9fico influxo que teve, na vida da Igreja, a reforma lit\u00fargica posta em pr\u00e1tica a partir do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II.5 O S\u00ednodo dos Bispos p\u00f4de avaliar o acolhimento que a mesma teve depois da Assembleia conciliar; in\u00fameros foram os elogios; como l\u00e1 se disse, as dificuldades e alguns abusos assinalados n\u00e3o podem ofuscar a excel\u00eancia e a validade da referida renova\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, que cont\u00e9m riquezas ainda n\u00e3o plenamente exploradas. Trata-se, em concreto, de ler as mudan\u00e7as queridas pelo Conc\u00edlio dentro da unidade que caracteriza o desenvolvimento hist\u00f3rico do pr\u00f3prio rito, sem introduzir artificiosas rupturas.6  <B>O S\u00ednodo dos Bispos e o Ano da Eucaristia<\/B> 4. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio sublinhar a rela\u00e7\u00e3o do recente S\u00ednodo dos Bispos sobre a Eucaristia com o que sucedeu durante os \u00faltimos anos na vida da Igreja. Antes de mais, devemos pensar no Grande Jubileu do ano 2000, com o qual o meu amado predecessor, o servo de Deus Jo\u00e3o Paulo II, introduziu a Igreja no terceiro mil\u00e9nio crist\u00e3o; o Ano Jubilar teve, sem d\u00favida, uma caracteriza\u00e7\u00e3o intensamente eucar\u00edstica. Depois, n\u00e3o se pode esquecer que o S\u00ednodo dos Bispos foi precedido e, em certo sentido, preparado tamb\u00e9m pelo Ano da Eucaristia, estabelecido com grande clarivid\u00eancia por Jo\u00e3o Paulo II para toda a Igreja; teve in\u00edcio com o Congresso Eucar\u00edstico Internacional em Guadalajara, no m\u00eas de Outubro de 2004, e terminou a 23 de Outubro de 2005, no final da XI Assembleia Sinodal, com a canoniza\u00e7\u00e3o de cinco beatos que se distinguiram, de forma particular, pela sua piedade eucar\u00edstica: o bispo Jos\u00e9 Bilczewski, os sacerdotes Caetano Catanoso, Sigismundo Gorazdowski e Alberto Hurtado Cruchaga, e o religioso capuchinho F\u00e9lix de Nic\u00f3sia. Gra\u00e7as aos ensinamentos propostos por Jo\u00e3o Paulo II, na Carta Apost\u00f3lica Mane nobiscum Domine 7, e \u00e0s preciosas sugest\u00f5es da Congrega\u00e7\u00e3o para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos,8 numerosas foram as iniciativas que as dioceses e as diversas realidades eclesiais empreenderam para despertar e aumentar nos crentes a f\u00e9 eucar\u00edstica, para melhorar o cuidado das celebra\u00e7\u00f5es e promover a adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, para encorajar uma real solidariedade que, partindo da Eucaristia, atingisse os necessitados. Por \u00faltimo, \u00e9 preciso mencionar a import\u00e2ncia da \u00faltima Enc\u00edclica do meu venerado predecessor, a Ecclesia de Eucharistia,9 deixando-nos atrav\u00e9s dela uma segura refer\u00eancia do Magist\u00e9rio quanto \u00e0 doutrina eucar\u00edstica e um derradeiro testemunho do lugar central que este sacramento divino ocupava na sua vida.  <B>Finalidade do documento<\/B> 5. Esta Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal tem por objectivo recolher a multiforme riqueza de reflex\u00f5es e propostas surgidas na recente Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos \u2013 a come\u00e7ar dos Lineamenta at\u00e9 \u00e0s Propositiones, passando pelo Instrumentum laboris, as Relationes ante et post disceptationem, as interven\u00e7\u00f5es dos padres sinodais, auditores e delegados fraternos \u2013, com a inten\u00e7\u00e3o de explicitar algumas linhas fundamentais de empenho, tendentes a despertar na Igreja novo impulso e fervor eucar\u00edsticos. Consciente do vasto patrim\u00f3nio doutrinal e disciplinar acumulado no decurso dos s\u00e9culos \u00e0 volta da Eucaristia,10 neste documento, desejo sobretudo recomendar, acolhendo o voto dos padres sinodais,11 que o povo crist\u00e3o aprofunde a rela\u00e7\u00e3o entre o mist\u00e9rio eucar\u00edstico, a ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e o novo culto espiritual que deriva da Eucaristia, enquanto sacramento da caridade. Com esta perspectiva, pretendo colocar esta Exorta\u00e7\u00e3o na linha da minha primeira Carta Enc\u00edclica \u2013 Deus caritas est \u2013, na qual v\u00e1rias vezes falei do sacramento da Eucaristia pondo em evid\u00eancia a sua rela\u00e7\u00e3o com o amor crist\u00e3o, tanto para com Deus como para com o pr\u00f3ximo: \u00abO Deus encarnado atrai-nos todos a si. Assim se compreende por que motivo o termo agape se tenha tornado tamb\u00e9m um nome da Eucaristia; nesta, a agape de Deus vem corporalmente a n\u00f3s, para continuar a sua ac\u00e7\u00e3o em n\u00f3s e atrav\u00e9s de n\u00f3s\u00bb.12  <B>I PARTE EUCARISTIA, MIST\u00c9RIO ACREDITADO \u00abA obra de Deus consiste em acreditar naquele que Ele enviou\u00bb (Jo 6,29)  A f\u00e9 eucar\u00edstica da Igreja<\/B> 6. \u00abMist\u00e9rio da f\u00e9!\u00bb: com esta exclama\u00e7\u00e3o, pronunciada logo a seguir \u00e0s palavras da consagra\u00e7\u00e3o, o sacerdote proclama o mist\u00e9rio celebrado, e manifesta o seu enlevo diante da convers\u00e3o substancial do p\u00e3o e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor Jesus, realidade esta que ultrapassa toda a compreens\u00e3o humana. Com efeito, a Eucaristia \u00e9 por excel\u00eancia \u00abmist\u00e9rio da f\u00e9\u00bb: \u00ab\u00c9 o resumo e a s\u00famula da nossa f\u00e9\u00bb.13 A f\u00e9 da Igreja \u00e9 essencialmente f\u00e9 eucar\u00edstica e alimenta-se, de modo particular, \u00e0 mesa da Eucaristia. A f\u00e9 e os sacramentos s\u00e3o dois aspectos complementares da vida eclesial. Suscitada pelo an\u00fancio da Palavra de Deus, a f\u00e9 \u00e9 alimentada e cresce no encontro com a gra\u00e7a do Senhor ressuscitado que se realiza nos sacramentos: \u00abA f\u00e9 exprime-se no rito e este revigora e fortifica a f\u00e9\u00bb.14 Por isso, o sacramento do altar est\u00e1 sempre no centro da vida eclesial; \u00abgra\u00e7as \u00e0 Eucaristia, a Igreja renasce sempre de novo!\u00bb 15 Quanto mais viva for a f\u00e9 eucar\u00edstica no povo de Deus, tanto mais profunda ser\u00e1 a sua participa\u00e7\u00e3o na vida eclesial por meio duma ades\u00e3o convicta \u00e0 miss\u00e3o que Cristo confiou aos seus disc\u00edpulos. Testemunha-o a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da Igreja: toda a grande reforma est\u00e1, de algum modo, ligada \u00e0 redescoberta da f\u00e9 na presen\u00e7a eucar\u00edstica do Senhor no meio do seu povo.  <B>SANT\u00cdSSIMA TRINDADE E EUCARISTIA  O P\u00e3o descido do C\u00e9u<\/B> 7. O primeiro conte\u00fado da f\u00e9 eucar\u00edstica \u00e9 o pr\u00f3prio mist\u00e9rio de Deus, amor trinit\u00e1rio. No di\u00e1logo de Jesus com Nicodemos, encontramos uma afirma\u00e7\u00e3o esclarecedora a tal respeito: \u00abDeus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unig\u00e9nito, para que todo o homem que acredita nele n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha a vida eterna. Porque Deus n\u00e3o enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele\u00bb (Jo 3,16-17). Estas palavras revelam a raiz \u00faltima do dom de Deus. Na Eucaristia, Jesus n\u00e3o d\u00e1 \u00abalguma coisa\u00bb, mas d\u00e1-se a si mesmo; entrega o seu Corpo e derrama o seu Sangue. Deste modo, d\u00e1 a totalidade da sua pr\u00f3pria vida, manifestando a fonte origin\u00e1ria deste amor: Ele \u00e9 o Filho eterno que o Pai entregou por n\u00f3s. Noutro passo do Evangelho, depois de Jesus ter saciado a multid\u00e3o pela multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es e dos peixes, ouvimo-lo dizer aos interlocutores que vieram atr\u00e1s dele at\u00e9 \u00e0 sinagoga de Cafarnaum: \u00abMeu Pai \u00e9 que vos d\u00e1 o verdadeiro P\u00e3o que vem do C\u00e9u. O P\u00e3o de Deus \u00e9 o que desce do C\u00e9u para dar a vida ao mundo\u00bb (Jo 6,32-33), acabando por identificar-se Ele mesmo \u2013 a sua pr\u00f3pria carne e o seu pr\u00f3prio sangue \u2013 com aquele p\u00e3o: \u00abEu sou o P\u00e3o vivo que desceu do C\u00e9u. Quem comer deste P\u00e3o viver\u00e1 eternamente. E o p\u00e3o que Eu hei-de dar \u00e9 a minha carne que Eu darei pela vida do mundo\u00bb (Jo 6,51). Assim, Jesus manifesta-se como o P\u00e3o da vida que o Pai eterno d\u00e1 aos homens.  <B>Dom gratuito da Sant\u00edssima Trindade<\/B> 8. Na Eucaristia, revela-se o des\u00edgnio de amor que guia toda a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o (Ef 1,9-10; 3,8-11). Nela, o Deus-Trindade (Deus Trinitas), que em si mesmo \u00e9 amor (1Jo 4,7-8), envolve-se plenamente com a nossa condi\u00e7\u00e3o humana. No p\u00e3o e no vinho, sob cujas apar\u00eancias Cristo se nos d\u00e1, na ceia pascal (Lc 22,14-20; 1Cor 11,23-26), \u00e9 toda a vida divina que nos alcan\u00e7a e se comunica a n\u00f3s na forma do sacramento: Deus \u00e9 comunh\u00e3o perfeita de amor entre o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo. J\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o, o homem fora chamado a partilhar, em certa medida, o sopro vital de Deus (Gn 2,7). Mas, \u00e9 em Cristo morto e ressuscitado e na efus\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, dado sem medida (Jo 3,34), que nos tornamos participantes da intimidade divina.16 Assim, Jesus Cristo, que \u00abpelo Esp\u00edrito eterno se ofereceu a Deus como v\u00edtima sem mancha\u00bb (Heb 9,14), no dom eucar\u00edstico comunica-nos a pr\u00f3pria vida divina. Trata-se de um dom absolutamente gratuito, devido apenas \u00e0s promessas de Deus cumpridas para al\u00e9m de toda e qualquer medida. A Igreja acolhe, celebra e adora este dom, com fiel obedi\u00eancia. O \u00abmist\u00e9rio da f\u00e9\u00bb \u00e9 mist\u00e9rio de amor trinit\u00e1rio, no qual, por gra\u00e7a, somos chamados a participar. Por isso, tamb\u00e9m n\u00f3s devemos exclamar com Santo Agostinho: \u00abSe v\u00eas a caridade, v\u00eas a Trindade\u00bb.17  <B>EUCARISTIA: JESUS, VERDADEIRO CORDEIRO IMOLADO  A nova e eterna Alian\u00e7a, no sangue do Cordeiro<\/B> 9. A miss\u00e3o, que trouxe Jesus entre n\u00f3s, atinge o seu cumprimento no mist\u00e9rio pascal. Do alto da cruz, donde atrai todos a si (Jo 12,32), antes de \u00abentregar o Esp\u00edrito\u00bb, Jesus diz: \u00abTudo est\u00e1 consumado\u00bb (Jo 19,30). No mist\u00e9rio da sua obedi\u00eancia at\u00e9 \u00e0 morte, e morte de cruz (Fl 2,8), cumpriu-se a nova e eterna Alian\u00e7a. Na sua carne crucificada, a liberdade de Deus e a liberdade do homem juntaram-se definitivamente num pacto indissol\u00favel, v\u00e1lido para sempre. Tamb\u00e9m o pecado do homem ficou expiado, uma vez por todas, pelo Filho de Deus (Heb 7,27; 1Jo 2,2; 4,10). Como j\u00e1 tive ocasi\u00e3o de afirmar, \u00abna sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra si pr\u00f3prio, com o qual Ele se entrega para levantar o homem e salv\u00e1-lo \u2013 o amor na sua forma mais radical\u00bb.18 No mist\u00e9rio pascal, realizou-se verdadeiramente a nossa liberta\u00e7\u00e3o do mal e da morte. Na institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia, o pr\u00f3prio Jesus falara da \u00abnova e eterna Alian\u00e7a\u00bb, estipulada no seu sangue derramado (Mt 26,28; Mc 14,24; Lc 22,20). Esta finalidade \u00faltima da sua miss\u00e3o era bem evidente j\u00e1 no in\u00edcio da sua vida p\u00fablica; de facto, nas margens do Jord\u00e3o, quando Jo\u00e3o Baptista v\u00ea Jesus vir ter com ele, exclama: \u00abEis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo\u00bb (Jo 1,29). \u00c9 significativo que a mesma express\u00e3o apare\u00e7a, sempre que celebramos a Santa Missa, no convite do sacerdote para nos abeirarmos do altar: \u00abFelizes os convidados para a Ceia do Senhor. Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.\u00bb Jesus \u00e9 o verdadeiro Cordeiro pascal, que se ofereceu espontaneamente a si mesmo em sacrif\u00edcio por n\u00f3s, realizando assim a nova e eterna Alian\u00e7a. A Eucaristia cont\u00e9m nela esta novidade radical, que nos \u00e9 oferecida em cada celebra\u00e7\u00e3o.19  <B>A institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia<\/B> 10. Deste modo, a nossa reflex\u00e3o foi deter-se na institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia, durante a \u00daltima Ceia. O facto teve lugar no \u00e2mbito duma ceia ritual, que constitu\u00eda o memorial do acontecimento fundador do povo de Israel: a liberta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o do Egipto. Esta ceia ritual, associada com a imola\u00e7\u00e3o dos cordeiros (Ex 12,1-28.43-51), era mem\u00f3ria do passado, mas ao mesmo tempo tamb\u00e9m mem\u00f3ria prof\u00e9tica, ou seja, an\u00fancio duma liberta\u00e7\u00e3o futura; de facto, o povo experimentara que aquela liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha sido definitiva, pois a sua hist\u00f3ria ainda estava demasiadamente marcada pela escravid\u00e3o e pelo pecado. O memorial da antiga liberta\u00e7\u00e3o abria-se, assim, \u00e0 s\u00faplica e ao anseio por uma salva\u00e7\u00e3o mais profunda, radical, universal e definitiva. \u00c9 neste contexto que Jesus introduz a novidade do seu dom; na ora\u00e7\u00e3o de louvor \u2013 a Berakah \u2013, Ele d\u00e1 gra\u00e7as ao Pai n\u00e3o s\u00f3 pelos grandes acontecimentos da hist\u00f3ria passada, mas tamb\u00e9m pela sua pr\u00f3pria \u00abexalta\u00e7\u00e3o\u00bb. Ao instituir o sacramento da Eucaristia, Jesus antecipa e implica o sacrif\u00edcio da cruz e a vit\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o; ao mesmo tempo, revela-se como o verdadeiro Cordeiro imolado, previsto no des\u00edgnio do Pai, desde a funda\u00e7\u00e3o do mundo, como se l\u00ea na ICarta de Pedro (1,18-20). Ao colocar o dom de si mesmo neste contexto, Jesus manifesta o sentido salv\u00edfico da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, mist\u00e9rio este que se torna uma realidade renovadora da hist\u00f3ria e do mundo inteiro. Com efeito, a institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia mostra como aquela morte, de per si violenta e absurda, se tenha tornado, em Jesus, acto supremo de amor e liberta\u00e7\u00e3o definitiva da humanidade do mal.  <B>A figura deu lugar \u00e0 Verdade<\/B> 11. Como vimos, Jesus insere a sua novidade (novum) radical no \u00e2mbito da antiga ceia sacrificial hebraica. Uma tal ceia, n\u00f3s, crist\u00e3os, j\u00e1 n\u00e3o temos necessidade de a repetir. Como justamente dizem os Padres, figura transit in veritatem: aquilo que anunciava as realidades futuras cedeu agora o lugar \u00e0 pr\u00f3pria Verdade. O antigo rito consumou-se e ficou definitivamente superado, mediante o dom de amor do Filho de Deus encarnado. O alimento da verdade, Cristo imolado por n\u00f3s, p\u00f4s termo \u00e0s figuras (dat figuris terminum).20 Com a sua ordem \u00abFazei isto em mem\u00f3ria de Mim\u00bb (Lc 22,19; 1Cor 11,25), pede-nos para corresponder ao seu dom e represent\u00e1-lo sacramentalmente; com tais palavras, o Senhor manifesta, por assim dizer, a esperan\u00e7a de que a Igreja, nascida do seu sacrif\u00edcio, acolha este dom, desenvolvendo, sob a orienta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, a forma lit\u00fargica do sacramento. De facto, o memorial do seu dom perfeito n\u00e3o consiste na simples repeti\u00e7\u00e3o da \u00daltima Ceia, mas propriamente na Eucaristia, ou seja, na novidade radical do culto crist\u00e3o. Assim, Jesus deixou-nos a miss\u00e3o de entrar na sua \u00abhora\u00bb: \u00abA Eucaristia arrasta-nos no acto oblativo de Jesus. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de modo est\u00e1tico que recebemos o Logos encarnado, mas ficamos envolvidos na din\u00e2mica da sua doa\u00e7\u00e3o\u00bb.21 Ele \u00abarrasta-nos para dentro de si\u00bb.22 A convers\u00e3o substancial do p\u00e3o e do vinho no seu Corpo e no seu Sangue insere na cria\u00e7\u00e3o o princ\u00edpio duma mudan\u00e7a radical, como uma esp\u00e9cie de \u00abfiss\u00e3o nuclear\u00bb (para utilizar uma imagem hoje bem conhecida de todos n\u00f3s), verificada no mais \u00edntimo do ser; uma mudan\u00e7a destinada a suscitar um processo de transforma\u00e7\u00e3o da realidade, cujo fim \u00faltimo \u00e9 a transfigura\u00e7\u00e3o do mundo inteiro, at\u00e9 chegar \u00e0quela condi\u00e7\u00e3o em que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).  <B>O ESP\u00cdRITO SANTO E A EUCARISTIA  Jesus e o Esp\u00edrito Santo<\/B> 12. Com a sua palavra e com o p\u00e3o e o vinho, o pr\u00f3prio Senhor nos ofereceu os elementos essenciais do culto novo. A Igreja, sua Esposa, \u00e9 chamada a celebrar o banquete eucar\u00edstico, dia ap\u00f3s dia, em mem\u00f3ria dele. Deste modo, ela insere o sacrif\u00edcio redentor do seu Esposo na hist\u00f3ria dos homens e torna-o sacramentalmente presente em todas as culturas. Este grande mist\u00e9rio \u00e9 celebrado nas formas lit\u00fargicas que a Igreja, guiada pelo Esp\u00edrito Santo, desenvolve no tempo e no espa\u00e7o.23 A prop\u00f3sito, \u00e9 necess\u00e1rio despertar em n\u00f3s a consci\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o decisiva que exerce o Esp\u00edrito Santo no desenvolvimento da forma lit\u00fargica e no aprofundamento dos mist\u00e9rios divinos. O Par\u00e1clito, primeiro dom concedido aos crentes,24 activo j\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o (Gn 1,2), est\u00e1 presente, em plenitude, na vida inteira do Verbo encarnado: com efeito, Jesus Cristo \u00e9 concebido no seio da Virgem Maria por obra do Esp\u00edrito Santo (Mt 1,18; Lc 1,35); no in\u00edcio da sua miss\u00e3o p\u00fablica, nas margens do Jord\u00e3o, v\u00ea-o descer sobre si em forma de pomba (Mt 3,16 e par.); neste mesmo Esp\u00edrito, age, fala e exulta (Lc 10,21); e \u00e9 nele que Jesus pode oferecer-se a si mesmo (Heb 9,14). No chamado \u00abdiscurso de despedida\u00bb, referido por Jo\u00e3o, Jesus p\u00f5e claramente em rela\u00e7\u00e3o o dom da sua vida no mist\u00e9rio pascal com o dom do Esp\u00edrito aos seus (Jo 16,7). Depois de ressuscitado, trazendo na sua carne os sinais da Paix\u00e3o, pode derramar o Esp\u00edrito (Jo 20,22), tornando os seus disc\u00edpulos participantes da mesma miss\u00e3o dele (Jo 20,21). Em seguida, ser\u00e1 o Esp\u00edrito que ensina aos disc\u00edpulos todas as coisas, recordando-lhes tudo o que Cristo tinha dito (Jo 14,26), porque compete a Ele, enquanto Esp\u00edrito da verdade (Jo 15,26), introduzir os disc\u00edpulos na verdade total (Jo 16,13). Segundo narram os Actos, o Esp\u00edrito desce sobre os Ap\u00f3stolos reunidos em ora\u00e7\u00e3o com Maria, no dia de Pentecostes (2,1-4), e impele-os para a miss\u00e3o de anunciar a Boa-Nova a todos os povos. Portanto, \u00e9 em virtude da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que o pr\u00f3prio Cristo continua presente e activo na sua Igreja, a partir do seu centro vital que \u00e9 a Eucaristia.  <B>Esp\u00edrito Santo e celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica<\/B> 13. Neste horizonte, compreende-se a fun\u00e7\u00e3o decisiva que tem o Esp\u00edrito Santo na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica e, de modo particular, no que se refere \u00e0 transubstancia\u00e7\u00e3o. \u00c9 f\u00e1cil de comprovar a consci\u00eancia disto, mesmo nos Padres da Igreja; nas suas Catequeses, S\u00e3o Cirilo de Jerusal\u00e9m recorda que \u00abinvocamos Deus misericordioso para que envie o seu Santo Esp\u00edrito sobre as obla\u00e7\u00f5es que apresentamos a fim de Ele transformar o p\u00e3o em Corpo de Cristo e o vinho em Sangue de Cristo. O que o Esp\u00edrito Santo toca, \u00e9 santificado e transformado totalmente\u00bb.25 Tamb\u00e9m S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo assinala que o sacerdote invoca o Esp\u00edrito Santo, quando celebra o Sacrif\u00edcio: 26 \u00e0 semelhan\u00e7a de Elias, o ministro atrai o Esp\u00edrito Santo para que, \u00abdescendo a gra\u00e7a sobre a v\u00edtima, se incendeiem por meio dela as almas de todos\u00bb.27 \u00c9 extremamente necess\u00e1ria, para a vida espiritual dos fi\u00e9is, uma consci\u00eancia mais clara da riqueza da an\u00e1fora: esta, juntamente com as palavras pronunciadas por Cristo na \u00daltima Ceia, cont\u00e9m a epiclese, que \u00e9 invoca\u00e7\u00e3o ao Pai para que fa\u00e7a descer o dom do Esp\u00edrito, a fim de que o p\u00e3o e o vinho se tornarem o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, e para que \u00aba comunidade inteira se torne cada vez mais Corpo de Cristo\u00bb.28 O Esp\u00edrito, invocado pelo celebrante sobre os dons do p\u00e3o e do vinho colocados sobre o altar, \u00e9 o mesmo que re\u00fane os fi\u00e9is \u00abnum s\u00f3 Corpo\u00bb, tornando-os uma oferta espiritual agrad\u00e1vel ao Pai.29  <B>EUCARISTIA E IGREJA  Eucaristia, princ\u00edpio causal da Igreja<\/B> 14. Atrav\u00e9s do sacramento eucar\u00edstico, Jesus compromete os fi\u00e9is na sua pr\u00f3pria \u00abhora\u00bb; mostra-nos assim a liga\u00e7\u00e3o que quis, entre Ele mesmo e n\u00f3s, entre a sua pessoa e a Igreja. De facto, o pr\u00f3prio Cristo, no sacrif\u00edcio da cruz, gerou a Igreja como sua esposa e seu corpo. Os Padres da Igreja meditaram longamente sobre a semelhan\u00e7a que h\u00e1 entre a origem de Eva do lado de Ad\u00e3o adormecido (Gn 2,21-23) e a da nova Eva, a Igreja, do lado aberto de Cristo mergulhado no sono da morte: do seu lado trespassado \u2013 narra Jo\u00e3o \u2013 saiu sangue e \u00e1gua (Jo 19,34), s\u00edmbolo dos sacramentos.30 Um olhar contemplativo para \u00abAquele que trespassaram\u00bb (Jo 19,37) leva-nos a considerar a liga\u00e7\u00e3o causal entre o sacrif\u00edcio de Cristo, a Eucaristia e a Igreja. Com efeito, esta \u00abvive da Eucaristia\u00bb.31 Uma vez que nela se torna presente o sacrif\u00edcio redentor de Cristo, temos de reconhecer, antes de mais, que \u00abexiste um influxo causal da Eucaristia nas pr\u00f3prias origens da Igreja\u00bb.32 A Eucaristia \u00e9 Cristo que se d\u00e1 a n\u00f3s, edificando-nos continuamente como seu Corpo. Portanto, na sugestiva circularidade, entre a Eucaristia que edifica a Igreja e a pr\u00f3pria Igreja que faz a Eucaristia,33 a causalidade prim\u00e1ria est\u00e1 expressa na primeira f\u00f3rmula: a Igreja pode celebrar e adorar o mist\u00e9rio de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o pr\u00f3prio Cristo Se deu primeiro a ela, no sacrif\u00edcio da Cruz. A possibilidade que a Igreja tem de \u00abfazer\u00bb a Eucaristia est\u00e1 radicada totalmente na doa\u00e7\u00e3o que Jesus lhe fez de si mesmo. Tamb\u00e9m este aspecto nos persuade de qu\u00e3o verdadeira seja a frase de S\u00e3o Jo\u00e3o: \u00abEle amou-nos primeiro\u00bb (1Jo 4,19). Deste modo, tamb\u00e9m n\u00f3s confessamos, em cada celebra\u00e7\u00e3o, o primado do dom de Cristo; o influxo causal da Eucaristia, que est\u00e1 na origem da Igreja, revela em \u00faltima an\u00e1lise a preced\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 cronol\u00f3gica mas tamb\u00e9m ontol\u00f3gica do amor de Jesus relativamente ao nosso: ser\u00e1, por toda a eternidade, Aquele que nos ama primeiro.  <B>Eucaristia e comunh\u00e3o eclesial<\/B> 15. A Eucaristia \u00e9, pois, constitutiva do ser e do agir da Igreja. Por isso, a antiguidade crist\u00e3 designava com as mesmas palavras \u2013 corpus Christi \u2013 o corpo nascido da Virgem Maria, o corpo eucar\u00edstico e o corpo eclesial de Cristo.34 Bem atestado na tradi\u00e7\u00e3o, este dado faz crescer em n\u00f3s a consci\u00eancia da indissolubilidade entre Cristo e a Igreja. Oferecendo-se a si mesmo em sacrif\u00edcio por n\u00f3s, o Senhor Jesus preanunciou de modo eficaz no seu dom o mist\u00e9rio da Igreja. \u00c9 significativo o modo como a Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica II, ao invocar o Par\u00e1clito, formula a prece pela unidade da Igreja: \u00ab\u2026 participando no Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos, pelo Esp\u00edrito Santo, num s\u00f3 Corpo\u00bb. Esta passagem ajuda a compreender como a efic\u00e1cia (res) do sacramento eucar\u00edstico seja a unidade dos fi\u00e9is na comunh\u00e3o eclesial. Assim, a Eucaristia aparece na raiz da Igreja como mist\u00e9rio de comunh\u00e3o.35 O servo de Deus, Jo\u00e3o Paulo II, na sua Enc\u00edclica Ecclesia de Eucharistia, tinha j\u00e1 chamado a aten\u00e7\u00e3o para a rela\u00e7\u00e3o, entre Eucaristia e communio: falou do memorial de Cristo como sendo a \u00absuprema manifesta\u00e7\u00e3o sacramental da comunh\u00e3o na Igreja\u00bb.36 A unidade da comunh\u00e3o eclesial revela-se, concretamente, nas comunidades crist\u00e3s e renova-se no acto eucar\u00edstico que as une e diferencia em Igrejas particulares, \u00abin quibus et ex quibus una et unica Ecclesia catholica existit \u2013 nas quais e pelas quais existe a Igreja Cat\u00f3lica, una e \u00fanica\u00bb.37 \u00c9 precisamente a realidade da \u00fanica Eucaristia, celebrada em cada diocese ao redor do respectivo Bispo, que nos faz compreender como as pr\u00f3prias Igrejas particulares subsistam in e ex Ecclesia. De facto, \u00aba unicidade e indivisibilidade do Corpo eucar\u00edstico do Senhor implicam a unicidade do seu Corpo m\u00edstico, que \u00e9 a Igreja una e indivis\u00edvel. Do centro eucar\u00edstico surge a necess\u00e1ria abertura de cada comunidade celebrante, de cada Igreja particular: ao deixar-se atrair pelos bra\u00e7os abertos do Senhor, consegue-se a inser\u00e7\u00e3o no seu Corpo, \u00fanico e indiviso\u00bb.38 Por este motivo, na celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia, cada fiel encontra-se na sua Igreja, isto \u00e9, na Igreja de Cristo. Nesta perspectiva eucar\u00edstica, adequadamente entendida, a comunh\u00e3o eclesial revela-se realidade cat\u00f3lica por sua natureza.39 O facto de sublinhar esta raiz eucar\u00edstica da comunh\u00e3o eclesial pode contribuir eficazmente tamb\u00e9m para o di\u00e1logo ecum\u00e9nico com as Igrejas e com as Comunidades eclesiais que n\u00e3o est\u00e3o em plena comunh\u00e3o com a S\u00e9 de Pedro. Na realidade, a Eucaristia estabelece objectivamente um forte v\u00ednculo de unidade entre a Igreja Cat\u00f3lica e as Igrejas Ortodoxas, que conservaram genu\u00edna e integralmente a natureza do mist\u00e9rio da Eucaristia. Ao mesmo tempo, a relev\u00e2ncia dada ao car\u00e1cter eclesial da Eucaristia pode tornar-se elemento privilegiado tamb\u00e9m no di\u00e1logo com as Comunidades nascidas da Reforma.40  <B>EUCARISTIA E SACRAMENTOS  Sacramentalidade da Igreja<\/B> 16. O Conc\u00edlio Vaticano II lembrou que \u00abos restantes sacramentos, assim como todos os minist\u00e9rios eclesi\u00e1sticos e obras de apostolado, est\u00e3o vinculados com a sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Com efeito, na sant\u00edssima Eucaristia, est\u00e1 contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto \u00e9, o pr\u00f3prio Cristo, a nossa P\u00e1scoa e o P\u00e3o vivo que d\u00e1 aos homens a vida, mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Esp\u00edrito Santo: assim s\u00e3o eles convidados e levados a oferecer, juntamente com Ele, a si mesmos, os seus trabalhos e todas as coisas criadas\u00bb.41 Esta rela\u00e7\u00e3o \u00edntima da Eucaristia com os demais sacramentos e com a exist\u00eancia crist\u00e3 compreende-se, na sua raiz, quando se contempla o mist\u00e9rio da pr\u00f3pria Igreja como sacramento.42 A este respeito, o referido Conc\u00edlio afirmou que \u00aba Igreja, em Cristo, \u00e9 como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano\u00bb.43 Ela, enquanto \u00abpovo \u2013 como diz S\u00e3o Cipriano \u2013 reunido na unidade do Pai e do Filho e do Esp\u00edrito Santo\u00bb,44 \u00e9 sacramento da comunh\u00e3o trinit\u00e1ria. O facto de a Igreja ser \u00abuniversal sacramento da salva\u00e7\u00e3o\u00bb45 mostra que a \u00abeconomia\u00bb sacramental determina, em \u00faltima an\u00e1lise, o modo como Jesus Cristo \u00fanico Salvador, por meio do Esp\u00edrito, alcan\u00e7a a nossa vida na especificidade das suas circunst\u00e2ncias. A Igreja recebe-se e simultaneamente exprime-se nos sete sacramentos, pelos quais a gra\u00e7a de Deus influencia concretamente a exist\u00eancia dos fi\u00e9is para que toda a sua vida, redimida por Cristo, se torne culto agrad\u00e1vel a Deus. Nesta perspectiva, desejo sublinhar aqui alguns elementos, assinalados pelos padres sinodais, que podem ajudar a identificar a rela\u00e7\u00e3o dos diversos sacramentos com o mist\u00e9rio eucar\u00edstico.  <B>I EUCARISTIA E INICIA\u00c7\u00c3O CRIST\u00c3  Eucaristia, plenitude da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 <\/B> 17. Se verdadeiramente a Eucaristia \u00e9 fonte e \u00e1pice da vida e da miss\u00e3o da Igreja, temos de concluir, antes de mais, que o caminho de inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 tem como ponto de refer\u00eancia tornar poss\u00edvel o acesso a tal sacramento. A prop\u00f3sito, devemos interrogarmo-nos \u2013 como sugeriram os padres sinodais \u2013 se as nossas comunidades crist\u00e3s t\u00eam suficiente no\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo estreito que h\u00e1 entre Baptismo, Confirma\u00e7\u00e3o e Eucaristia; 46 de facto, \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer jamais que somos baptizados e crismados em ordem \u00e0 Eucaristia. Este dado implica o compromisso de favorecer, na ac\u00e7\u00e3o pastoral, uma compreens\u00e3o mais unit\u00e1ria do percurso de inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3. O sacramento do Baptismo, pelo qual somos configurados a Cristo,47 incorporados na Igreja e feitos filhos de Deus, constitui a porta de acesso a todos os sacramentos; atrav\u00e9s dele, somos inseridos no \u00fanico Corpo de Cristo (1Cor 12,13), povo sacerdotal. Mas \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o no sacrif\u00edcio eucar\u00edstico que aperfei\u00e7oa, em n\u00f3s, o que recebemos no Baptismo. Tamb\u00e9m os dons do Esp\u00edrito s\u00e3o concedidos para a edifica\u00e7\u00e3o do Corpo de Cristo (1Cor 12) e o crescimento do testemunho evang\u00e9lico no mundo.48 Portanto, a sant\u00edssima Eucaristia leva \u00e0 plenitude a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e coloca-se como centro e termo de toda a vida sacramental.49  <B>A ordem dos sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o<\/B> 18. A este respeito, \u00e9 necess\u00e1rio prestar aten\u00e7\u00e3o ao tema da ordem dos sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o. Na Igreja, h\u00e1 tradi\u00e7\u00f5es diferentes; esta diversidade \u00e9 patente nos costumes eclesiais do Oriente 50 e na pr\u00e1tica ocidental para a inicia\u00e7\u00e3o dos adultos,51 se comparada com a das crian\u00e7as.52 Contudo, tais diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o propriamente de ordem dogm\u00e1tica, mas de car\u00e1cter pastoral. Em concreto, \u00e9 necess\u00e1rio verificar qual seja a pr\u00e1tica que melhor pode, efectivamente, ajudar os fi\u00e9is a colocarem no centro o sacramento da Eucaristia, como realidade para qual tende toda a inicia\u00e7\u00e3o; em estreita colabora\u00e7\u00e3o com os Dicast\u00e9rios competentes da C\u00faria Romana, as Confer\u00eancias Episcopais verifiquem a efic\u00e1cia dos percursos de inicia\u00e7\u00e3o actuais, para que o crist\u00e3o seja ajudado, pela ac\u00e7\u00e3o educativa das nossas comunidades, a maturar cada vez mais at\u00e9 chegar a assumir na sua vida uma orienta\u00e7\u00e3o autenticamente eucar\u00edstica, de tal modo que seja capaz de dar raz\u00e3o da pr\u00f3pria esperan\u00e7a de maneira adequada ao nosso tempo (1Ped 3,15).  <B>Inicia\u00e7\u00e3o, comunidade eclesial e fam\u00edlia<\/B> 19. \u00c9 preciso ter sempre presente que toda a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 caminho de convers\u00e3o que h\u00e1-de ser realizada com a ajuda de Deus e em constante referimento \u00e0 comunidade eclesial, quer quando \u00e9 o adulto que pede para entrar na Igreja, como acontece nos lugares de primeira evangeliza\u00e7\u00e3o e em muitas zonas secularizadas, quer quando s\u00e3o os pais a pedir os sacramentos para seus filhos. A este respeito, desejo chamar a aten\u00e7\u00e3o sobretudo para a rela\u00e7\u00e3o entre inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e fam\u00edlia; na ac\u00e7\u00e3o pastoral, sempre se deve associar a fam\u00edlia crist\u00e3 ao itiner\u00e1rio de inicia\u00e7\u00e3o. Receber o Baptismo, a Confirma\u00e7\u00e3o e abeirar-se pela primeira vez da Eucaristia s\u00e3o momentos decisivos n\u00e3o s\u00f3 para a pessoa que os recebe mas tamb\u00e9m para toda a sua fam\u00edlia; esta deve ser sustentada, na sua tarefa educativa, pela comunidade eclesial em suas diversas componentes.53 Quero sublinhar aqui a relev\u00e2ncia da Primeira Comunh\u00e3o; para in\u00fameros fi\u00e9is, este dia permanece, justamente, gravado na mem\u00f3ria como o primeiro momento em que se percebeu, embora de forma ainda inicial, a import\u00e2ncia do encontro pessoal com Jesus. A pastoral paroquial deve valorizar adequadamente esta ocasi\u00e3o t\u00e3o significativa.  <B>II EUCARISTIA E SACRAMENTO DA RECONCILIA\u00c7\u00c3O  Sua liga\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca<\/B> 20. Os padres sinodais afirmaram, justamente, que o amor \u00e0 Eucaristia leva a apreciar cada vez mais tamb\u00e9m o sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o.54 Por causa da liga\u00e7\u00e3o entre ambos os sacramentos, uma catequese aut\u00eantica acerca do sentido da Eucaristia n\u00e3o pode ser separada da proposta dum caminho penitencial (1Cor 11,27-29). Constatamos \u2013 \u00e9 certo \u2013 que, no nosso tempo, os fi\u00e9is se encontram imersos numa cultura que tende a cancelar o sentido do pecado,55 favorecendo um estado de esp\u00edrito superficial que leva a esquecer a necessidade de estar na gra\u00e7a de Deus para se aproximar dignamente da comunh\u00e3o sacramental.56 Na realidade, a perda da consci\u00eancia do pecado engloba sempre tamb\u00e9m uma certa superficialidade na compreens\u00e3o do pr\u00f3prio amor de Deus. \u00c9 muito \u00fatil para os fi\u00e9is recordar-lhes os elementos que, no rito da Santa Missa, explicitam a consci\u00eancia do pr\u00f3prio pecado e, simultaneamente, da miseric\u00f3rdia de Deus.57 Al\u00e9m disso, a rela\u00e7\u00e3o entre a Euca-ristia e a Reconcilia\u00e7\u00e3o recorda-nos que o pecado nunca \u00e9 uma realidade exclusivamente individual, mas inclui sempre tamb\u00e9m uma ferida no seio da comunh\u00e3o eclesial, na qual nos encontramos inse-ridos pelo Baptismo. Por isso, como diziam os Padres da Igreja, a Reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 um baptismo laborioso (laboriosus quidam baptismus),58 sublinhando assim que o resultado do caminho de convers\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o restabelecimento da plena comunh\u00e3o eclesial, que se exprime no abeirar-se novamente da Eucaristia.59  <B>Alguns cuidados pastorais<\/B> 21. O S\u00ednodo lembrou que \u00e9 dever pastoral do Bispo promover na sua diocese uma decisiva recupera\u00e7\u00e3o da pedagogia da convers\u00e3o que nasce da Eucaristia e favorecer, entre os fi\u00e9is, a confiss\u00e3o frequente. Todos os sacerdotes se dediquem com generosidade, empenho e compet\u00eancia \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o.60 A prop\u00f3sito, procure-se que, nas nossas igrejas, os confession\u00e1rios sejam bem vis\u00edveis e expressivos do significado deste sacramento. Pe\u00e7o aos pastores que vigiem atentamente sobre a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, limitando a pr\u00e1tica da absolvi\u00e7\u00e3o geral exclusivamente aos casos previstos,61 permanecendo como forma ordin\u00e1ria de absolvi\u00e7\u00e3o apenas a pessoal.62 Vista a necessidade de descobrir novamente o perd\u00e3o sacramental, haja em todas as dioceses o Penitenci\u00e1rio.63 Por \u00faltimo, pode servir de v\u00e1lida ajuda para a nova tomada de consci\u00eancia desta rela\u00e7\u00e3o, entre a Eucaristia e a Reconcilia\u00e7\u00e3o, uma pr\u00e1tica equilibrada e conscienciosa da indulg\u00eancia, lucrada a favor de si mesmo ou dos defuntos. Com ela, obt\u00e9m-se \u00aba remiss\u00e3o, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados, cuja culpa j\u00e1 foi apagada\u00bb.64 O uso das indulg\u00eancias ajuda-nos a compreender que n\u00e3o somos capazes, s\u00f3 com as nossas for\u00e7as, de reparar o mal cometido e que os pecados de cada um causam dano a toda a comunidade; al\u00e9m disso, a pr\u00e1tica da indulg\u00eancia, implicando a doutrina dos m\u00e9ritos infinitos de Cristo bem como a da comunh\u00e3o dos santos, mostra-nos \u00abquanto estejamos, em Cristo, intimamente unidos uns aos outros e quanto a vida sobrenatural de cada um possa aproveitar aos outros\u00bb.65 Dado que a forma pr\u00f3pria da indulg\u00eancia prev\u00ea, entre as condi\u00e7\u00f5es requeridas, o abeirar-se da Confiss\u00e3o e da Comunh\u00e3o sacramental, a sua pr\u00e1tica pode sustentar eficazmente os fi\u00e9is no caminho da convers\u00e3o e na descoberta da centralidade da Eucaristia na vida crist\u00e3.  <B>III EUCARISTIA E UN\u00c7\u00c3O DOS ENFERMOS<\/B> 22. Jesus n\u00e3o se limitou a enviar os seus disc\u00edpulos a curar os doentes (Mt 10,8; Lc 9,2; 10,9), mas instituiu para eles tamb\u00e9m um sacramento espec\u00edfico: a Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos.66 A Carta de Tiago testemunha a presen\u00e7a deste gesto sacramental j\u00e1 na primitiva comunidade crist\u00e3 (5,14-16). Se a Eucaristia mostra como os sofrimentos e a morte de Cristo foram transformados em amor, a Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos, por seu lado, associa o doente \u00e0 oferta que Cristo fez de si mesmo pela salva\u00e7\u00e3o de todos, de tal modo que possa tamb\u00e9m ele, no mist\u00e9rio da comunh\u00e3o dos santos, participar na reden\u00e7\u00e3o do mundo. A rela\u00e7\u00e3o entre ambos os sacramentos aparece ainda mais clara quando se agrava a doen\u00e7a: \u00ab\u00c0queles que v\u00e3o deixar esta vida, a Igreja oferece-lhes, al\u00e9m da Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos, a Eucaristia como vi\u00e1tico\u00bb.67 Nesta passagem para o Pai, a comunh\u00e3o no Corpo e Sangue de Cristo aparece como semente de vida eterna e for\u00e7a de ressurrei\u00e7\u00e3o: \u00abQuem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no \u00faltimo dia\u00bb (Jo 6,54). Uma vez que o sagrado Vi\u00e1tico desvenda ao doente a plenitude do mist\u00e9rio pascal, \u00e9 preciso assegurar a sua administra\u00e7\u00e3o.68 A aten\u00e7\u00e3o e o cuidado pastoral por aqueles que se encontram doentes redunda, seguramente, em benef\u00edcio espiritual de toda a comunidade, sabendo que tudo o que fizermos ao mais pequenino, ao pr\u00f3prio Jesus o faremos (Mt 25,40).  <B>IV EUCARISTIA E SACRAMENTO DA ORDEM  Na pessoa de Cristo cabe\u00e7a<\/B> 23. O v\u00ednculo intr\u00ednseco, entre a Eucaristia e o sacramento da Ordem, deduz-se das pr\u00f3prias palavras de Jesus no Cen\u00e1culo: \u00abFazei isto em mem\u00f3ria de Mim\u00bb (Lc 22,19). De facto, na vig\u00edlia da sua morte, Ele instituiu a Eucaristia e ao mesmo tempo fundou o sacerd\u00f3cio da Nova Alian\u00e7a. Jesus \u00e9 sacerdote, v\u00edtima e altar: mediador entre Deus Pai e o povo (Heb 5,5-10), v\u00edtima de expia\u00e7\u00e3o (1Jo 2,2; 4,10) que se oferece a si mesma no altar da cruz. Ningu\u00e9m pode dizer \u00abisto \u00e9 o meu Corpo\u00bb e \u00abeste \u00e9 o c\u00e1lice do meu Sangue\u00bb sen\u00e3o em nome e na pessoa de Cristo, \u00fanico sumo sacerdote da nova e eterna Alian\u00e7a (Heb 8-9). O S\u00ednodo dos Bispos j\u00e1 se ocupara, noutras assembleias, do sacerd\u00f3cio ordenado, tanto no que diz respeito \u00e0 identidade do minist\u00e9rio,69 como \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos candidatos.70 Na presente circunst\u00e2ncia, importa-me, \u00e0 luz do di\u00e1logo realizado no \u00e2mbito da \u00faltima assembleia sinodal, sublinhar alguns valores que t\u00eam a ver com a rela\u00e7\u00e3o entre o sacramento eucar\u00edstico e a Ordem. Antes de mais nada, \u00e9 necess\u00e1rio reafirmar que a liga\u00e7\u00e3o entre a Ordem sacra e a Eucaristia \u00e9 vis\u00edvel precisamente na Missa que o bispo ou o presb\u00edtero preside, na pessoa de Cristo cabe\u00e7a (in persona Christi capitis). A doutrina da Igreja considera a ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a celebra\u00e7\u00e3o v\u00e1lida da Eucaristia.71 De facto, \u00abno servi\u00e7o eclesial do ministro ordenado, \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo que est\u00e1 presente \u00e0 sua Igreja, como Cabe\u00e7a do seu Corpo, pastor do seu rebanho, Sumo Sacerdote do sacrif\u00edcio redentor\u00bb.72 Certamente o ministro ordenado \u00abage tamb\u00e9m em nome de toda a Igreja, quando apresenta a Deus a ora\u00e7\u00e3o da mesma Igreja e, sobretudo, quando oferece o sacrif\u00edcio eucar\u00edstico\u00bb.73 Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio que os sacerdotes tenham consci\u00eancia de que, em todo o seu minist\u00e9rio, nunca devem colocar em primeiro plano a sua pessoa nem as suas opini\u00f5es, mas Jesus Cristo. Contradiz a identidade sacerdotal toda a tentativa de se colocarem a si mesmos como protagonistas da ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. Aqui, mais do que nunca, o sacerdote \u00e9 servo e deve continuamente empenhar-se por ser sinal que, como d\u00f3cil instrumento nas m\u00e3os de Cristo, aponta para Ele. Isto exprime-se de modo particular na humildade com que o sacerdote conduz a ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, obedecendo ao rito, aderindo ao mesmo com o cora\u00e7\u00e3o e a mente, evitando tudo o que possa dar a sensa\u00e7\u00e3o de um seu inoportuno protagonismo. Recomendo, pois, ao clero que n\u00e3o cesse de aprofundar a consci\u00eancia do seu minist\u00e9rio eucar\u00edstico como um servi\u00e7o humilde a Cristo e \u00e0 sua Igreja. O sacerd\u00f3cio, como dizia Santo Agostinho, \u00e9 um servi\u00e7o de amor (amoris officium),74 \u00e9 o servi\u00e7o do bom pastor, que oferece a vida pelas ovelhas (Jo 10,14-15).  <B>Eucaristia e celibato sacerdotal<\/B> 24. Os padres sinodais quiseram sublinhar como o sacerd\u00f3cio ministerial requer, atrav\u00e9s da ordena\u00e7\u00e3o, a plena configura\u00e7\u00e3o a Cristo. Embora respeitando a pr\u00e1tica e tradi\u00e7\u00e3o oriental diferente, \u00e9 necess\u00e1rio reiterar o sentido profundo do celibato sacerdotal, justamente considerado uma riqueza inestim\u00e1vel e confirmado tamb\u00e9m pela pr\u00e1tica oriental de escolher os bispos apenas de entre aqueles que vivem no celibato, ind\u00edcio da grande honra em que ela tem a op\u00e7\u00e3o do celibato, feita por numerosos presb\u00edteros. Com efeito, nesta op\u00e7\u00e3o do sacerdote encontram express\u00e3o peculiar a dedica\u00e7\u00e3o que o conforma a Cristo e a oferta exclusiva de si mesmo pelo Reino de Deus.75 O facto de o pr\u00f3prio Cristo, eterno sacerdote, ter vivido a sua miss\u00e3o at\u00e9 ao sacrif\u00edcio da cruz, no estado de virgindade, constitui o ponto seguro de refer\u00eancia para perceber o sentido da tradi\u00e7\u00e3o da Igreja Latina a tal respeito. Assim, n\u00e3o \u00e9 suficiente compreender o celibato sacerdotal em termos meramente funcionais; na realidade, constitui uma especial conforma\u00e7\u00e3o ao estilo de vida do pr\u00f3prio Cristo. Antes de mais, semelhante op\u00e7\u00e3o \u00e9 esponsal: a identifica\u00e7\u00e3o com o cora\u00e7\u00e3o de Cristo Esposo que d\u00e1 a vida pela sua Esposa. Em sintonia com a grande tradi\u00e7\u00e3o eclesial, com o Conc\u00edlio Vaticano II 76 e com os Sumos Pont\u00edfices 77 meus predecessores, corroboro a beleza e a import\u00e2ncia duma vida sacerdotal vivida no celibato como sinal expressivo de dedica\u00e7\u00e3o total e exclusiva a Cristo, \u00e0 Igreja e ao Reino de Deus, e, consequentemente, confirmo a sua obrigatoriedade para a tradi\u00e7\u00e3o latina. O celibato sacerdotal, vivido com maturidade, alegria e dedica\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o enorme para a Igreja e para a pr\u00f3pria sociedade.  <B>Escassez de clero e pastoral vocacional<\/B> 25. A prop\u00f3sito da liga\u00e7\u00e3o entre o sacramento da Ordem e a Eucaristia, o S\u00ednodo deteve-se sobre a dolorosa situa\u00e7\u00e3o que se tem vindo a criar em diversas dioceses a bra\u00e7os com a escassez de sacerdotes. Isto acontece n\u00e3o s\u00f3 em algumas zonas de primeira evangeliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m em muitos pa\u00edses de longa tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Para a solu\u00e7\u00e3o do problema contribui certamente uma distribui\u00e7\u00e3o mais equitativa do clero; mas, para isso, \u00e9 preciso um trabalho de sensibiliza\u00e7\u00e3o capilar. Os bispos empenhem, nas necessidades pastorais, os institutos de vida consagrada e as novas realidades eclesiais, no respeito do respectivo carisma, e solicitem todos os membros do clero a uma disponibilidade maior para irem servir a Igreja nos lugares onde houver necessidade, sem olhar a sacrif\u00edcios.78 Al\u00e9m disso, o S\u00ednodo debru\u00e7ou-se tamb\u00e9m sobre os cuidados pastorais a ter principalmente com os jovens para favorecer a sua abertura interior \u00e0 voca\u00e7\u00e3o sacerdotal. A solu\u00e7\u00e3o para tal carestia n\u00e3o se pode encontrar em meros estratagemas pragm\u00e1ticos; deve-se evitar que os bispos, levados por compreens\u00edveis preocupa\u00e7\u00f5es funcionais devido \u00e0 falta de clero, acabem por n\u00e3o realizar um adequado discernimento vocacional, admitindo \u00e0 forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o candidatos que n\u00e3o possuam as caracter\u00edsticas necess\u00e1rias para o servi\u00e7o sacerdotal.79 Um clero insuficientemente formado e admitido \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o sem o necess\u00e1rio discernimento dificilmente poder\u00e1 oferecer um testemunho capaz de suscitar noutros o desejo de generosa correspond\u00eancia \u00e0 voca\u00e7\u00e3o de Cristo. Na realidade, a pastoral vocacional deve empenhar a comunidade crist\u00e3 em todos os seus \u00e2mbitos.80 Obviamente, no referido trabalho pastoral capilar, est\u00e1 inclu\u00edda tamb\u00e9m a obra de sensibiliza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, muitas vezes indiferentes se n\u00e3o mesmo contr\u00e1rias \u00e0 hip\u00f3tese da voca\u00e7\u00e3o sacerdotal. Que elas se abram com generosidade ao dom da vida e eduquem os filhos para serem dispon\u00edveis \u00e0 vontade de Deus! Em resumo, \u00e9 preciso sobretudo ter a coragem de propor aos jovens o seguimento radical de Cristo, mostrando-lhes o seu encanto.  <B>Gratid\u00e3o e esperan\u00e7a<\/B> 26. Enfim, \u00e9 necess\u00e1rio ter maior f\u00e9 e esperan\u00e7a na iniciativa divina. Apesar da escassez de clero que se verifica em algumas regi\u00f5es, n\u00e3o deve esmorecer jamais a confian\u00e7a de que Cristo continua a suscitar homens que n\u00e3o hesitam em abandonar qualquer outra ocupa\u00e7\u00e3o para se dedicarem totalmente \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios sagrados, \u00e0 prega\u00e7\u00e3o do Evangelho e ao minist\u00e9rio pastoral. Nesta ocasi\u00e3o, desejo dar voz \u00e0 gratid\u00e3o da Igreja inteira por todos os bispos e presb\u00edteros que cumprem, com fiel dedica\u00e7\u00e3o e empenho, a pr\u00f3pria miss\u00e3o. Naturalmente, este agradecimento da Igreja estende-se tamb\u00e9m aos di\u00e1conos, a quem s\u00e3o impostas as m\u00e3os \u00abn\u00e3o em ordem ao sacerd\u00f3cio mas ao minist\u00e9rio\u00bb.81 Como recomendou a Assembleia do S\u00ednodo, dirijo um obrigado especial aos presb\u00edteros fidei donum que edificam a comunidade, com compet\u00eancia e generosa dedica\u00e7\u00e3o, anunciando-lhe a Palavra de Deus e repartindo o p\u00e3o da vida, sem pouparem as suas energias ao servi\u00e7o da miss\u00e3o da Igreja.82 Por fim, \u00e9 preciso agradecer a Deus pelos numerosos sacerdotes que tiveram de sofrer at\u00e9 ao sacrif\u00edcio da vida por servir a Cristo. Neles se manifesta, com a eloqu\u00eancia dos factos, o que significa ser sacerdote a fundo; trata-se de comoventes testemunhos que poder\u00e3o inspirar muitos jovens a seguirem por sua vez a Cristo e gastarem a sua vida pelos outros, encontrando precisamente assim a vida verdadeira.  <B>V. EUCARISTIA E MATRIM\u00d3NIO  Eucaristia, sacramento esponsal<\/B> 27. A Eucaristia, sacramento da caridade, apresenta uma rela\u00e7\u00e3o particular com o amor do homem e da mulher, unidos em matrim\u00f3nio. Aprofundar tal rela\u00e7\u00e3o \u00e9 uma necessidade do nosso tempo.83 V\u00e1rias vezes o papa Jo\u00e3o Paulo II teve ocasi\u00e3o de afirmar o car\u00e1cter esponsal da Eucaristia e a sua rela\u00e7\u00e3o peculiar com o sacramento do matrim\u00f3nio: \u00abA Eucaristia \u00e9 o sacramento da nossa reden\u00e7\u00e3o. \u00c9 o sacramento do Esposo, da Esposa\u00bb.84 Ali\u00e1s, \u00abtoda a vida crist\u00e3 tem a marca do amor esponsal, entre Cristo e a Igreja. J\u00e1 o Baptismo, entrada no povo de Deus, \u00e9 um mist\u00e9rio nupcial; \u00e9, por assim dizer, o banho de n\u00fapcias que precede o banquete das bodas, a Eucaristia\u00bb.85 Esta corrobora de forma inexaur\u00edvel a unidade e o amor indissol\u00faveis de cada matrim\u00f3nio crist\u00e3o. Neste, em virtude do sacramento, o v\u00ednculo conjugal est\u00e1 intrinsecamente ligado com a uni\u00e3o eucar\u00edstica entre Cristo esposo e a Igreja esposa (Ef 5,31-32). O consentimento rec\u00edproco, que o marido e a esposa trocam entre si em Cristo constituindo-os em comunidade de vida e de amor, tem tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o eucar\u00edstica; com efeito, na teologia paulina, o amor esponsal \u00e9 sinal sacramental do amor de Cristo pela sua Igreja, um amor que tem o seu ponto culminante na cruz, express\u00e3o das suas \u00abn\u00fapcias\u00bb com a humanidade e, ao mesmo tempo, origem e centro da Eucaristia. Por isso, a Igreja manifesta uma particular solidariedade espiritual a todos aqueles que fundaram a sua fam\u00edlia sobre o sacramento do Matrim\u00f3nio.86 A fam\u00edlia \u2013 igreja dom\u00e9stica 87 \u2013 \u00e9 um \u00e2mbito prim\u00e1rio da vida da Igreja, especialmente pelo papel decisivo que tem na educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos filhos.88 Neste contexto, o S\u00ednodo recomendou tamb\u00e9m o reconhecimento da miss\u00e3o singular que tem a mulher na fam\u00edlia e na sociedade, miss\u00e3o esta que h\u00e1-de ser protegida, salvaguardada e promovida.89 A sua dimens\u00e3o de esposa e m\u00e3e constitui uma realidade imprescind\u00edvel, que nunca deve ser desprezada.  <B>Eucaristia e unidade do Matrim\u00f3nio<\/B> 28. \u00c9 precisamente \u00e0 luz desta rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre Matrim\u00f3nio, fam\u00edlia e Eucaristia que se podem considerar alguns problemas pastorais. O v\u00ednculo fiel, indissol\u00favel e exclusivo que une Cristo e a Igreja e tem express\u00e3o sacramental na Eucaristia, est\u00e1 de harmonia com o dado antropol\u00f3gico primordial segundo o qual o homem deve unir-se de modo definitivo com uma s\u00f3 mulher, e vice-versa (Gn 2,24; Mt 19,5). Nesta linha de pensamento, o S\u00ednodo dos Bispos debru\u00e7ou-se sobre a pr\u00e1tica pastoral que deve ser seguida com as pessoas origin\u00e1rias de culturas onde \u00e9 praticada a poligamia, que recebem o an\u00fancio do Evangelho: quantos vivem em tal situa\u00e7\u00e3o e se abrem \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 devem ser ajudados a integrar o seu projecto humano na novidade radical de Cristo; no percurso do catecumenado, Cristo alcan\u00e7a-os na sua condi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e chama-os \u00e0 verdade plena do amor passando atrav\u00e9s das ren\u00fancias que s\u00e3o necess\u00e1rias para chegarem \u00e0 comunh\u00e3o eclesial perfeita. A Igreja acompanha-os com uma pastoral imbu\u00edda simultaneamente de suavidade e de firmeza,90 mostrando-lhes sobretudo a luz dos mist\u00e9rios crist\u00e3os que se reflecte sobre a natureza e os afectos humanos.  <B>Eucaristia e indissolubilidade do Matrim\u00f3nio<\/B> 29. Se a Eucaristia exprime a irreversibilidade do amor de Deus em Cristo pela sua Igreja, compreende-se por que motivo a mesma implique, relativamente ao sacramento do Matrim\u00f3nio, aquela indissolubilidade a que todo o amor verdadeiro n\u00e3o pode deixar de aspirar.91 Por isso, \u00e9 mais que justificada a aten\u00e7\u00e3o pastoral que o S\u00ednodo reservou \u00e0s dolorosas situa\u00e7\u00f5es em que se encontram n\u00e3o poucos fi\u00e9is que, depois de terem celebrado o sacramento do Matrim\u00f3nio, se divorciaram e contra\u00edram novas n\u00fapcias. Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contempor\u00e2neo que vai progressivamente corroendo os pr\u00f3prios ambientes cat\u00f3licos. Os pastores, por amor da verdade, s\u00e3o obrigados a discernir bem as diferentes situa\u00e7\u00f5es, para ajudar espiritualmente e de modo adequado os fi\u00e9is implicados.92 O S\u00ednodo dos Bispos confirmou a pr\u00e1tica da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10,2-12), de n\u00e3o admitir aos sacramentos os divorciados recasados, porque o seu estado e condi\u00e7\u00e3o de vida contradizem objectivamente aquela uni\u00e3o de amor entre Cristo e a Igreja que \u00e9 significada e realizada na Eucaristia. Todavia os divorciados recasados, n\u00e3o obstante a sua situa\u00e7\u00e3o, continuam a pertencer \u00e0 Igreja, que os acompanha com especial solicitude na esperan\u00e7a de que cultivem, quanto poss\u00edvel, um estilo crist\u00e3o de vida, atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o na Santa Missa ainda que sem receber a comunh\u00e3o, da escuta da Palavra de Deus, da adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, da ora\u00e7\u00e3o, da coopera\u00e7\u00e3o na vida comunit\u00e1ria, do di\u00e1logo franco com um sacerdote ou um mestre de vida espiritual, da dedica\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o da caridade, das obras de penit\u00eancia, do empenho na educa\u00e7\u00e3o dos filhos. Nos casos em que surjam legitimamente d\u00favidas sobre a validade do Matrim\u00f3nio sacramental contra\u00eddo, deve fazer-se tudo o que for necess\u00e1rio para verificar o fundamento das mesmas. H\u00e1 que assegurar, pois, no pleno respeito do direito can\u00f3nico,93 a presen\u00e7a no territ\u00f3rio dos tribunais eclesi\u00e1sticos, o seu car\u00e1cter pastoral, a sua actividade correcta e pressurosa; 94 \u00e9 necess\u00e1rio haver, em cada diocese, um n\u00famero suficiente de pessoas preparadas para o sol\u00edcito funcionamento dos tribunais eclesi\u00e1sticos. Recordo que \u00ab\u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o grave tornar a actua\u00e7\u00e3o institucional da Igreja nos tribunais cada vez mais acess\u00edvel aos fi\u00e9is\u00bb.95 No entanto, \u00e9 preciso evitar que a preocupa\u00e7\u00e3o pastoral seja vista como se estivesse em contraposi\u00e7\u00e3o com o direito; ao contr\u00e1rio, deve-se partir do pressuposto que o ponto fundamental de encontro entre direito e pastoral \u00e9 o amor pela verdade: com efeito, esta nunca \u00e9 abstracta, mas \u00abintegra-se no itiner\u00e1rio humano e crist\u00e3o de cada fiel\u00bb.96 Enfim, caso n\u00e3o seja reconhecida a nulidade do v\u00ednculo matrimonial e se verifiquem condi\u00e7\u00f5es objectivas que tornam realmente irrevers\u00edvel a conviv\u00eancia, a Igreja encoraja estes fi\u00e9is a esfor\u00e7arem-se por viverem a sua rela\u00e7\u00e3o segundo as exig\u00eancias da lei de Deus, como amigos, como irm\u00e3o e irm\u00e3; deste modo poder\u00e3o novamente abeirar-se da mesa eucar\u00edstica, com os cuidados previstos por uma comprovada pr\u00e1tica eclesial. Para que tal caminho se torne poss\u00edvel e d\u00ea frutos, deve ser apoiado pela ajuda dos pastores e por adequadas iniciativas eclesiais, evitando, em todo o caso, de aben\u00e7oar estas rela\u00e7\u00f5es para que n\u00e3o surjam entre os fi\u00e9is confus\u00f5es acerca do valor do matrim\u00f3nio.97 Vista a complexidade do contexto cultural em que vive a Igreja em muitos pa\u00edses, o S\u00ednodo recomendou ainda que se tivesse o m\u00e1ximo cuidado pastoral com a forma\u00e7\u00e3o dos nubentes e a verifica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via das suas convic\u00e7\u00f5es sobre os compromissos irrenunci\u00e1veis para a validade do sacramento do Matrim\u00f3nio. Um s\u00e9rio discernimento a tal respeito poder\u00e1 evitar que impulsos emotivos ou raz\u00f5es superficiais induzam os dois jovens a assumir responsabilidades que depois n\u00e3o poder\u00e3o honrar.98 Demasiado grande \u00e9 o bem que a Igreja e a sociedade inteira esperam do Matrim\u00f3nio e da fam\u00edlia, fundada sobre o mesmo, para n\u00e3o nos comprometermos a fundo neste \u00e2mbito pastoral espec\u00edfico; Matrim\u00f3nio e fam\u00edlia s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es cuja verdade deve ser promovida e defendida de qualquer equ\u00edvoco, porque todo o dano a elas causado \u00e9 realmente uma ferida que se inflige \u00e0 conviv\u00eancia humana como tal.  <B>EUCARISTIA E ESCATOLOGIA  Eucaristia, dom para o homem a caminho<\/B> 30. Se \u00e9 certo que os sacramentos s\u00e3o uma realidade que pertence \u00e0 Igreja peregrina no tempo 99, rumo \u00e0 plena manifesta\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria de Cristo ressuscitado, \u00e9 igualmente verdade que, sobretudo na liturgia eucar\u00edstica, nos \u00e9 dado saborear antecipadamente a consuma\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica para a qual todo o homem e a cria\u00e7\u00e3o inteira est\u00e3o a caminho (Rm 8,19s). O homem \u00e9 criado para a felicidade verdadeira e eterna, que s\u00f3 o amor de Deus pode dar; mas a nossa liberdade ferida extraviar-se-ia se n\u00e3o lhe fosse poss\u00edvel experimentar, j\u00e1 desde agora, algo da consuma\u00e7\u00e3o futura. Ali\u00e1s, para poder caminhar na direc\u00e7\u00e3o justa, o homem necessita de estar orientado para a meta final; esta, na realidade, \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo Senhor, vencedor do pecado e da morte, que se torna presente para n\u00f3s de maneira especial na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica. Deste modo, embora sejamos ainda \u00abestrangeiros e peregrinos\u00bb (1Ped 2,11) neste mundo, pela f\u00e9, participamos j\u00e1 da plenitude da vida ressuscitada. O banquete eucar\u00edstico, ao revelar a sua dimens\u00e3o intensamente escatol\u00f3gica, vem em ajuda da nossa liberdade a caminho.  <B>O banquete escatol\u00f3gico<\/B> 31. Reflectindo sobre este mist\u00e9rio, podemos dizer que Cristo, com a sua vinda, se colocou em sintonia com a expectativa presente no povo de Israel, na Humanidade inteira e fundamentalmente na pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. Com o dom de si mesmo, inaugurou objectivamente o tempo escatol\u00f3gico. Cristo veio chamar \u00e0 unidade o povo de Deus que andava disperso (Jo 11,52), manifestando claramente a inten\u00e7\u00e3o de congregar a comunidade da Alian\u00e7a para dar cumprimento \u00e0s promessas feitas por Deus a nossos pais (Jr 23,3; 31,10; Lc 1,55.70). Com o chamamento dos Doze \u2013 n\u00famero que evoca as doze tribos de Israel \u2013 e o mandato que lhes confiou na \u00daltima Ceia, antes da sua paix\u00e3o redentora, de celebrarem o seu memorial, Jesus manifestou que queria transferir, para a comunidade inteira por Ele fundada, a miss\u00e3o de ser, na hist\u00f3ria, sinal e instrumento da reunifica\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica que nele teve in\u00edcio. Por isso, em cada celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, realiza-se sacramentalmente a unifica\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica do povo de Deus. Para n\u00f3s, o banquete eucar\u00edstico \u00e9 uma antecipa\u00e7\u00e3o real do banquete final, preanunciado pelos profetas (Is 25,6-9) e descrito no Novo Testamento como \u00abas n\u00fapcias do Cordeiro\u00bb (Ap 19,7-9) que se h\u00e3o-de celebrar na comunh\u00e3o dos santos.100  <B>Ora\u00e7\u00e3o pelos defuntos<\/B> 32. A celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, na qual anunciamos a morte do Senhor e proclamamos a sua ressurrei\u00e7\u00e3o, enquanto aguardamos a sua vinda gloriosa, \u00e9 penhor da gl\u00f3ria futura, quando mesmo os nossos corpos ser\u00e3o glorificados. Ao celebrarmos o memorial da nossa salva\u00e7\u00e3o, refor\u00e7a-se em n\u00f3s a esperan\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o da carne, juntamente com a possibilidade de encontrarmos de novo, face a face, aqueles que nos precederam com o sinal da f\u00e9. Nesta linha, queria, juntamente com os padres sinodais, lembrar a todos os fi\u00e9is a import\u00e2ncia da ora\u00e7\u00e3o de sufr\u00e1gio, particularmente a celebra\u00e7\u00e3o de Missas, pelos defuntos para que, purificados, possam chegar \u00e0 vis\u00e3o beat\u00edfica de Deus.101 Sempre que descobrimos de novo a dimens\u00e3o escatol\u00f3gica presente na Eucaristia, celebrada e adorada, somos apoiados no nosso caminho e confortados na esperan\u00e7a da gl\u00f3ria (Rm 5,2; Tt 2,13).  <B>A EUCARISTIA E A VIRGEM MARIA<\/B>  33. Da rela\u00e7\u00e3o entre a Eucaristia e os restantes sacramentos, juntamente com o significado escatol\u00f3gico dos santos mist\u00e9rios, irrompe o perfil da vida crist\u00e3, chamada a ser em cada instante culto espiritual, oferta de si mesma agrad\u00e1vel a Deus. E, se \u00e9 verdade que nos encontramos todos ainda a caminho, rumo \u00e0 plena consuma\u00e7\u00e3o da nossa esperan\u00e7a, isto n\u00e3o impede de podermos j\u00e1 agora reconhecer, com gratid\u00e3o, que tudo aquilo que Deus nos deu, se realizou perfeitamente na Virgem Maria, M\u00e3e de Deus e nossa: a sua assun\u00e7\u00e3o ao C\u00e9u em corpo e alma \u00e9, para n\u00f3s, sinal de segura esperan\u00e7a, enquanto nos aponta a n\u00f3s, peregrinos no tempo, aquela meta escatol\u00f3gica que o sacramento da Eucaristia desde j\u00e1 nos faz saborear. Em Maria Sant\u00edssima, vemos perfeitamente realizada tamb\u00e9m a modalidade sacramental com que Deus alcan\u00e7a e envolve na sua iniciativa salv\u00edfica a criatura humana. Desde a anuncia\u00e7\u00e3o ao Pentecostes, Maria de Nazar\u00e9 aparece como uma pessoa cuja liberdade est\u00e1 completamente dispo-n\u00edvel \u00e0 vontade de Deus; a sua Imaculada Concei\u00e7\u00e3o revela-se propriamente na docilidade incondi-cional \u00e0 palavra divina. A f\u00e9 obediente \u00e9 a forma que a sua vida assume em cada instante perante a ac\u00e7\u00e3o de Deus: Virgem \u00e0 escuta, Ela vive em plena sintonia com a vontade divina; conserva no seu cora\u00e7\u00e3o as palavras que lhe chegam da parte de Deus e, dispondo-as \u00e0 maneira de um mosaico, aprende a compreend\u00ea-las mais a fundo (Lc 2,19.51); Maria \u00e9 a grande Crente que, cheia de confian\u00e7a, se coloca nas m\u00e3os de Deus, abandonando-se \u00e0 sua vontade.102 Um tal mist\u00e9rio vai crescendo de intensidade at\u00e9 chegar ao pleno envolvimento dela na miss\u00e3o redentora de Jesus; como afirmou o Conc\u00edlio Vaticano II, \u00abassim avan\u00e7ou a Virgem pelo caminho da f\u00e9, mantendo fielmente a uni\u00e3o com seu Filho at\u00e9 \u00e0 cruz. Junto desta, esteve, n\u00e3o sem des\u00edgnio de Deus (Jo 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho \u00fanico, e associando-se com cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e ao seu sacrif\u00edcio, consentindo com amor na imola\u00e7\u00e3o da v\u00edtima que dela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por m\u00e3e ao disc\u00edpulo, com estas palavras: mulher, eis a\u00ed o teu filho (Jo 19,26-27)\u00bb.103 Desde a anuncia\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 cruz, Maria \u00e9 aquela que acolhe a Palavra que nela se fez carne e foi at\u00e9 emudecer no sil\u00eancio da morte. \u00c9 ela, enfim, que recebe nos seus bra\u00e7os o corpo imolado, j\u00e1 ex\u00e2nime, daquele que verdadeiramente amou os seus \u00abat\u00e9 ao fim\u00bb (Jo 13,1). Por isso, sempre que, na liturgia eucar\u00edstica, nos abeiramos do Corpo e do Sangue de Cristo, dirigimo-nos tamb\u00e9m a ela que, por toda a Igreja, acolheu o sacrif\u00edcio de Cristo, aderindo plenamente ao mesmo. Justamente afirmaram os padres sinodais que \u00abMaria inaugura a participa\u00e7\u00e3o da Igreja no sacrif\u00edcio do Redentor\u00bb.104 Ela \u00e9 a Imaculada que acolhe incondicionalmente o dom de Deus, e, desta forma, fica associada \u00e0 obra da salva\u00e7\u00e3o. Maria de Nazar\u00e9, \u00edcone da Igreja nascente, \u00e9 o modelo para cada um de n\u00f3s saber como \u00e9 chamado a acolher a doa\u00e7\u00e3o que Jesus fez de si mesmo na Eucaristia.    <B>II PARTE EUCARISTIA, MIST\u00c9RIO CELEBRADO \u00abEm verdade, em verdade vos digo: N\u00e3o foi Mois\u00e9s que vos deu o p\u00e3o que vem do C\u00e9u; meu Pai \u00e9 que vos d\u00e1 o verdadeiro P\u00e3o que vem do C\u00e9u\u00bb (Jo 6,32)  Norma da ora\u00e7\u00e3o e norma de f\u00e9<\/B> 34. O S\u00ednodo dos Bispos reflectiu demoradamente sobre a rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre f\u00e9 eucar\u00edstica e celebra\u00e7\u00e3o, pondo em evid\u00eancia a liga\u00e7\u00e3o entre a norma da ora\u00e7\u00e3o (lex orandi) e a norma de f\u00e9 (lex credendi) e sublinhando o primado da ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. \u00c9 necess\u00e1rio viver a Eucaristia como mist\u00e9rio da f\u00e9, autenticamente celebrado, bem cientes de que \u00aba intelig\u00eancia da f\u00e9 (intellectus fidei) sempre est\u00e1 originariamente em rela\u00e7\u00e3o com a ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Igreja\u00bb:105 neste \u00e2mbito, a reflex\u00e3o teol\u00f3gica n\u00e3o pode prescindir jamais da ordem sacramental institu\u00edda pelo pr\u00f3prio Cristo; por outro lado, a ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica nunca pode ser considerada genericamente, prescindindo do mist\u00e9rio da f\u00e9. Com efeito, a fonte da nossa f\u00e9 e da liturgia eucar\u00edstica \u00e9 o mesmo acontecimento: a doa\u00e7\u00e3o que Cristo fez de si pr\u00f3prio no mist\u00e9rio pascal.  <B>Beleza e liturgia<\/B> 35. A rela\u00e7\u00e3o entre mist\u00e9rio acreditado e mist\u00e9rio celebrado manifesta-se, de modo peculiar, no valor teol\u00f3gico e lit\u00fargico da beleza. De facto, a liturgia, como ali\u00e1s a revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3, tem uma liga\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a beleza: \u00e9 esplendor da verdade (veritatis splendor). Na liturgia, brilha o mist\u00e9rio pascal, pelo qual o pr\u00f3prio Cristo nos atrai a si e chama \u00e0 comunh\u00e3o. Em Jesus, como costumava dizer S\u00e3o Boaventura, contemplamos a beleza e o esplendor das origens.106 Referimo-nos aqui a este atributo da beleza, vista n\u00e3o enquanto mero esteticismo, mas como modalidade com que a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcan\u00e7a, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de n\u00f3s mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira voca\u00e7\u00e3o: o amor.107 J\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o, Deus se deixa entrever na beleza e harmonia do universo (Sb 13,5; Rm 1,19-20). Depois, no Antigo Testamento, encontramos sinais grandiosos do esplendor da for\u00e7a de Deus, que se manifesta com a sua gl\u00f3ria atrav\u00e9s dos prod\u00edgios realizados no meio do povo eleito (Ex 14; 16,10; 24,12-18; Nm 14,20-23). No Novo Testamento, realiza-se definitivamente esta epifania de beleza, na revela\u00e7\u00e3o de Deus em Jesus Cristo: 108 Ele \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o plena da gl\u00f3ria divina. Na glorifica\u00e7\u00e3o do Filho, resplandece e comunica-se a gl\u00f3ria do Pai (Jo 1,14; 8,54; 12,28; 17,1). Mas, esta beleza n\u00e3o \u00e9 uma simples harmonia de formas; \u00abo mais belo dos filhos do homem\u00bb (Sl 45[44],3) misteriosamente \u00e9 tamb\u00e9m um indiv\u00edduo \u00absem distin\u00e7\u00e3o nem beleza que atraia o nosso olhar\u00bb (Is 53,2). Jesus Cristo mostra-nos como a verdade do amor sabe transfigurar inclusive o mist\u00e9rio sombrio da morte, na luz radiante da ressurrei\u00e7\u00e3o. Aqui o esplendor da gl\u00f3ria de Deus supera toda a beleza do mundo. A verdadeira beleza \u00e9 o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mist\u00e9rio pascal. A beleza da liturgia pertence a este mist\u00e9rio; \u00e9 express\u00e3o excelsa da Gl\u00f3ria de Deus e, de certa forma, constitui o C\u00e9u que desce \u00e0 terra. O memorial do sacrif\u00edcio redentor traz em si mesmo os tra\u00e7os daquela beleza de Jesus testemunhada por Pedro, Tiago e Jo\u00e3o, quando o Mestre, a caminho de Jerusal\u00e9m, quis transfigurar-se diante deles (Mc 9,2). Concluindo, a beleza n\u00e3o \u00e9 um factor decorativo da ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do pr\u00f3prio Deus e da sua revela\u00e7\u00e3o. Tudo isto nos h\u00e1-de tornar conscientes da aten\u00e7\u00e3o que se deve prestar \u00e0 ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica para que brilhe segundo a sua pr\u00f3pria natureza.  <B>A CELEBRA\u00c7\u00c3O EUCAR\u00cdSTICA, OBRA DE CRISTO TOTAL  Cristo inteiro: Cabe\u00e7a e Corpo<\/B> 36. A beleza intr\u00ednseca da liturgia tem, como sujeito pr\u00f3prio, Cristo ressuscitado e glorificado no Esp\u00edrito Santo, que inclui a Igreja na sua ac\u00e7\u00e3o.109 Nesta perspectiva, \u00e9 muito sugestivo recordar as palavras de Santo Agostinho que descrevem, de modo eficaz, esta din\u00e2mica de f\u00e9 pr\u00f3pria da Eucaristia; referindo-se precisamente ao mist\u00e9rio eucar\u00edstico, o grande santo de Hipona p\u00f5e em evid\u00eancia como o pr\u00f3prio Cristo nos assimila a si mesmo: \u00abO p\u00e3o que vedes sobre o altar, santificado com a Palavra de Deus, \u00e9 o Corpo de Cristo. O c\u00e1lice, ou melhor, aquilo que o c\u00e1lice cont\u00e9m, santificado com as palavras de Deus, \u00e9 Sangue de Cristo. Com estes [sinais], Cristo Senhor quis confiar-nos o seu corpo e o seu sangue, que derramou por n\u00f3s para a remiss\u00e3o dos pecados. Se os recebestes bem, v\u00f3s mesmos sois aquele que recebestes\u00bb.110 Assim, \u00abtornamo-nos n\u00e3o apenas crist\u00e3os, mas o pr\u00f3prio Cristo\u00bb.111 Nisto podemos contemplar a ac\u00e7\u00e3o misteriosa de Deus, que inclui a unidade profunda, entre n\u00f3s e o Senhor Jesus: \u00abDe facto, n\u00e3o se pode crer que Cristo esteja na cabe\u00e7a sem estar tamb\u00e9m no corpo, pois Ele est\u00e1 todo inteiro na cabe\u00e7a e no corpo (Christus totus in capite et in corpore)\u00bb.112  <B>Eucaristia e Cristo ressuscitado<\/B> 37. Visto que a liturgia eucar\u00edstica \u00e9 essencialmente ac\u00e7\u00e3o de Deus (actio Dei)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-sinodal de Bento XVI ao episcopado, ao clero \u00e0s pessoas consagradas e aos fi\u00e9is leigos sobre a eucaristia fonte e \u00e1pice da vida e da miss\u00e3o da Igreja<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[108,120,295,127,139,144,148,154,168,188,191,193,206,221,231,237,246,275,285,294,311,314,326],"class_list":["post-23415","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-da-eucaristia","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-catequese","tag-communio","tag-concilio-vaticano-ii","tag-congresso-eucaristico-internacional","tag-crianca","tag-diocese-da-guarda","tag-direito-canonico","tag-economia","tag-educacao","tag-familia","tag-historia-da-igreja","tag-imaculada-conceicao","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-pascoa","tag-patrimonio","tag-sacramentos","tag-sinodo-dos-bispos","tag-solidariedade","tag-vida-consagrada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23415","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23415"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23415\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}