{"id":233332,"date":"2022-03-23T11:36:22","date_gmt":"2022-03-23T11:36:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=233332"},"modified":"2022-03-23T11:36:22","modified_gmt":"2022-03-23T11:36:22","slug":"saber-aprender-a-discernir-os-sinais-dos-tempos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-discernir-os-sinais-dos-tempos\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A discernir os sinais dos tempos"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Imagina um mundo em que uma m\u00e1quina garante que todas as pessoas conseguem comunicar com todas as outras atrav\u00e9s de um ecr\u00e3. Em 1909, para E. M. Forster, este mundo que vivemos durante o confinamento gerado pela pandemia em 2020, s\u00f3 poderia ser fruto da sua imagina\u00e7\u00e3o. Mas na sua pequena hist\u00f3ria futurista, um dia, a m\u00e1quina p\u00e1ra e a humanidade \u00e9 confrontada com a necessidade de um encontro novo com a realidade. Forster sabia ler os sinais dos tempos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_233334\" aria-describedby=\"caption-attachment-233334\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-233334\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"843\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr-1080x607.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr-1280x719.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr-980x551.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/CardMapr-480x270.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-233334\" class=\"wp-caption-text\">Foto de CardMapr em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com a renova\u00e7\u00e3o que o papa Francisco pretende fazer na linha do Conc\u00edlio Vaticano II \u00e0 C\u00faria Romana, um dos aspectos \u00e9 a abertura aos leigos para assumirem posi\u00e7\u00f5es de governo e responsabilidade. Mas esses leigos devem distinguir-se pela sua vida espiritual, boa experi\u00eancia pastoral, vida s\u00f3bria e amor aos pobres, permeados de um esp\u00edrito de comunh\u00e3o e servi\u00e7o e possu\u00edrem a <em>capacidade de discernir os sinais dos tempos.<\/em> Esta capacidade \u00e9 fundamental para \u201cevangelizarmos juntos\u201d num mundo movido pela tecnologia.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem muito segundos da nossa vida que n\u00e3o envolvam alguma tecnologia. Desde o despertador que nos acorda \u00e0 luz que apagamos, s\u00f3 mesmo quando dormimos n\u00e3o lidamos com tecnologia (a n\u00e3o ser que soframos de apneia). A vida e a tecnologia est\u00e3o a basear-se cada vez mais nos mesmos fluxos de informa\u00e7\u00e3o. Kevin Kelly, um dos fundadores da conhecida revista <em>Wired<\/em>, chama ao sistema de tecnologia que interconecta tudo no mundo, e que vibra \u00e0 nossa volta (e quantas vezes no bolso), o <em>technium<\/em>. \u00c9 como se a tecnologia possu\u00edsse vida pr\u00f3pria. Kelly diz que \u2014 <em>\u00abo technium quer o que n\u00f3s projectamos que queira e como n\u00f3s o orientamos. Mas juntamente com esses impulsos, o technium possui os seus desejos. Quer perceber-se a si mesmo, estruturar-se com n\u00edveis hier\u00e1rquicos, tal como a maioria dos grandes sistemas, profundamente interconectados, faz. O technium tamb\u00e9m quer o mesmo que todo o sistema vivente: perpetuar-se e sobreviver. E conforme cresce, os desejos inerentes ganham complexidade e for\u00e7a.\u00bb<\/em> Quando os desejos da tecnologia tornarem-se necessidade e n\u00f3s, humanos, estivermos no meio do caminho, o que nos acontecer\u00e1?<\/p>\n<p>A tecnologia \u00e9 um bem como express\u00e3o da nossa criatividade e co-cria\u00e7\u00e3o com Deus. Mas se cedemos ao que a tecnologia quer, teremos ainda livre-arb\u00edtrio? Um exemplo concreto. Quando proponho a algu\u00e9m que apague as suas contas das redes sociais, raramente encontro quem tenha coragem de o fazer. E apresentam-me muitos motivos para estarmos presentes nas redes sociais. Mas eu questiono-me se n\u00e3o ser\u00e1 antes um apego e a pessoa deixou de ser livre. Para testar bastaria viver sem essas redes durante todo o per\u00edodo da quaresma e, no fim, avaliar se, de facto, s\u00e3o uma tecnologia que traz um valor acrescentado \u00e0 sua vida. Esta filosofia t\u00edpica do minimalismo digital volta a colocar no centro das nossas escolhas e discernimento os valores em vez justificar os apegos com valores.<\/p>\n<p>A leitura dos sinais dos tempos para nos ajudar a discernir os caminhos de evangeliza\u00e7\u00e3o a seguir no s\u00e9culo XXI n\u00e3o passa por cedermos \u00e0s tecnologias, pois, \u00e9 assim que o mundo funciona. O racioc\u00ednio mais comum \u00e9 o de que se as pessoas est\u00e3o nas redes sociais, ent\u00e3o, n\u00f3s tamb\u00e9m devemos estar, bem como a Igreja deve estar. Mas por que raz\u00e3o n\u00e3o pensar o contr\u00e1rio? Isto \u00e9, se as pessoas est\u00e3o nas redes sociais e sabemos que essas s\u00e3o uma tecnologia de manipula\u00e7\u00e3o de massas, ent\u00e3o, por que n\u00e3o tir\u00e1-las de l\u00e1? Ser\u00e1 que a realidade f\u00edsica e a cultura do encontro face a face perdeu o seu encanto?<\/p>\n<p>No passado, a tecnologia de comunica\u00e7\u00e3o era um complemento que trazia valor ao que viv\u00edamos, mas nesta Era Digital tornou-se o foco principal de aten\u00e7\u00e3o de muitas pessoas. Recentemente, viajei de comboio e pude observar o comportamento das pessoas \u00e0 minha volta (e at\u00e9 o meu) voltados para os nossos ecr\u00e3s e pensei \u2014 a tecnologia domina a nossa aten\u00e7\u00e3o e a solitude de contemplar a paisagem j\u00e1 n\u00e3o atrai. Quantas pessoas n\u00e3o vi a olhar para o ecr\u00e3 do seu telem\u00f3vel, guardavam-no no bolso e n\u00e3o aguentavam mais do que um minuto at\u00e9 voltar a olhar para o ecr\u00e3.<\/p>\n<p>Estes sinais dos tempos mostram como \u00e9 importante pensar bem no relacionamento que temos com a tecnologia para n\u00e3o nos tornarmos os seus (da tecnologia) dispositivos. Jaron Lanier (um dos fundadores da realidade virtual), por exemplo, argumenta que as redes sociais <em>reduzem-nos<\/em> como pessoas para usufruirmos dos seus servi\u00e7os. O pre\u00e7o do uso gratuito \u00e9 a nossa aten\u00e7\u00e3o e privacidade. Ele d\u00e1 o exemplo das pessoas que dizem ter milhares de \u201camigos\u201d no Facebook. Ora, essa ideia s\u00f3 faz sentido se reduzirmos o valor da amizade. Pois, uma verdadeira amizade deveria introduzir cada pessoa \u00e0 inesperada estranheza do outro, diz Lanier \u2014 <em>\u00abcada pessoa que conhecemos \u00e9 um po\u00e7o de inexplorada diferen\u00e7a na experi\u00eancia de vida que n\u00e3o pode ser imaginada ou \u201cacessada\u201d de qualquer outro modo que n\u00e3o seja atrav\u00e9s de uma genu\u00edna interac\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Saber aprender a discernir os sinais dos tempos implica estarmos atentos ao modo como deixamos que a tecnologia afecta a nossa vida profunda. Num mundo onde o tempo que gastamos com Apps ascende a quase um ter\u00e7o do tempo em que estamos acordados (ver <a href=\"https:\/\/www.data.ai\/en\/insights\/market-data\/state-of-mobile-2022\/\">relat\u00f3rio<\/a>; da data.ai), o contacto que um ser humano tem com uma paisagem programada \u00e9 imenso. E como diz o especialista dos media Douglas Rushkoff \u2014 <em>\u00abna emergente, altamente programada paisagem \u00e0 nossa frente, ou tu criar\u00e1s o software ou ser\u00e1s o software. \u00c9 realmente assim t\u00e3o simples: programa ou s\u00ea programado.\u00bb<\/em> Nunca o discernimento do modo como podemos testemunhar a nossa f\u00e9 aos outros dependeu tanto de como nos relacionamos com a tecnologia, sendo s\u00e1bios em ler os sinais dos tempos. A tecnologia \u00e9 boa, mas n\u00e3o podemos ceder a tudo o que essa quer. H\u00e1 que preservar a nossa vontade para a oferecer livremente a Deus, de modo a criarmos dentro de n\u00f3s o espa\u00e7o para acolher a Sua vontade. E se Ele incarnou, assumindo um corpo numa realidade f\u00edsica, seria importante reflectir se o caminho tecnol\u00f3gico que seguimos n\u00e3o estar\u00e1 a des-incarnar-nos da realidade e a afastar-nos do caminho que Deus escolheu para estar pr\u00f3ximo de n\u00f3s. A proximidade genu\u00edna n\u00e3o \u00e9 virtualiz\u00e1vel.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-233332","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233332","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=233332"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233332\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=233332"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=233332"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=233332"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}