{"id":232373,"date":"2022-03-15T09:00:04","date_gmt":"2022-03-15T09:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=232373"},"modified":"2022-03-14T16:28:58","modified_gmt":"2022-03-14T16:28:58","slug":"lusofonias-nao-ha-guerras-justas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-nao-ha-guerras-justas\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; N\u00e3o h\u00e1 guerras justas\u2026"},"content":{"rendered":"<p><em>Tony Neves, em Roma<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-232377\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/angola-kuito-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Esta guerra na Ucr\u00e2nia vira-nos as tripas do avesso. Porque nem \u00e9 a primeira e, provavelmente, n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima. Mas come\u00e7a como todas e os efeitos s\u00e3o quase sempre os mesmos: mortes, feridos, deslocados, destrui\u00e7\u00f5es, fome, abusos, oportunismos, tr\u00e1ficos de toda a esp\u00e9cie, economias desfeitas e\u2026os culpados s\u00e3o sempre os outros! Infelizmente, para trag\u00e9dia de muitos (e lucros de uns poucos), a hist\u00f3ria parece dar poucas li\u00e7\u00f5es, n\u00e3o aprendemos quase nada do passado e levamos muito pouco para o futuro.<\/p>\n<p>N\u00e3o me venham com conversas do tipo \u2018esta guerra \u00e9 justa\u2019 ou \u2018dar esta resposta militar \u00e9 fazer a guerra justa\u2019, porque este conceito antigo j\u00e1 caducou. O jesu\u00edta Francisco Mota, publicou no \u2018Ponto SJ\u2019 de 9 de mar\u00e7o o provocante artigo \u2018tr\u00eas notas sobre a guerra\u2019. Cita as tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es que, no s\u00e9c. V, S. Agostinho apresentava para uma guerra justa: a causa tem de ser ela pr\u00f3pria justa; a inten\u00e7\u00e3o tem de ser recta; a autoridade que sanciona a interven\u00e7\u00e3o tem que ter legitimidade para a fazer\u2019. Ora, nem com crit\u00e9rios do s\u00e9c. V, quando as armas eram as que eram, uma guerra actual podia ser justa! Mas o P. Francisco Mota acrescenta novos desenvolvimentos: \u2018o uso da for\u00e7a s\u00f3 pode ter lugar como interven\u00e7\u00e3o de \u00faltimo recurso; tem de haver probabilidade de sucesso na interven\u00e7\u00e3o a ter in\u00edcio\u2019. Ora, mais uma vez, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para fazer guerra hoje! Mas temos de ir mais longe e mais fundo: S. Agostinho n\u00e3o acha que o pior da guerra sejam as mortes, dores e destrui\u00e7\u00f5es provocadas, mas muito mais que isso: \u2018a possibilidade de se ganhar amor \u00e0 viol\u00eancia, de se ficar apegado ao poder\u2019 \u2013 diz ainda Francisco Mota, para quem a guerra nunca \u00e9 nem nunca ser\u00e1 uma resposta!<\/p>\n<p>O papa Francisco tem sido, desde a primeira hora do seu pontificado, muito claro sobre estes temas. Mas pego s\u00f3 na Fratelli Tutti onde volta a falar da \u2018terceira guerra mundial por peda\u00e7os\u2019 (n\u00ba25). Diz no fim que \u2018cada morte violenta diminui-nos como pessoas. A viol\u00eancia gera mais viol\u00eancia, o \u00f3dio gera mais \u00f3dio, e a morte mais morte. Temos de quebrar esta corrente que aparece como inelut\u00e1vel\u2019 (FT 227). Garante: \u2018Jesus Cristo nunca convidou a fomentar a viol\u00eancia e a intoler\u00e2ncia\u2019 (238). Diz: \u2018a guerra \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de todos os direitos e uma agress\u00e3o dram\u00e1tica do meio ambiente\u2019 (257). Garante: \u2018toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra \u00e9 um fracasso da pol\u00edtica e da humanidade, uma rendi\u00e7\u00e3o vergonhosa, uma derrota perante as for\u00e7as do mal\u2019. Quando a resposta actual, de todos os quadrantes do mundo \u00e9 aumentar o or\u00e7amento em gastos militares, o Papa insiste: \u2018com o dinheiro usado em armas e noutras despesas militares, constituamos um Fundo mundial para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos pa\u00edses mais pobres, a fim de que os seus habitantes n\u00e3o recorram a solu\u00e7\u00f5es violentas e enganadoras, nem precisem de abandonar os seus pa\u00edses \u00e0 procura de uma vida mais digna\u2019 (262).<\/p>\n<p>Olhemos aos sinais do Papa. Muito antes de come\u00e7ar a guerra na Ucr\u00e2nia, j\u00e1 apelava a um di\u00e1logo que impedisse o in\u00edcio dos combates. Logo que a guerra arrancou, ele foi at\u00e9 \u00e0 embaixada russa pedir o calar das armas e oferecer a Igreja como mediadora. Continuou a apelar ao cessar fogo e \u00e0 protec\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es, repetindo: \u2018Calem-se as armas! Quem faz a guerra esquece a humanidade\u2019! Lan\u00e7ou um dia de jejum e ora\u00e7\u00e3o (a quarta-feira de cinzas) pela paz na Ucr\u00e2nia. Mais recentemente, mandou dois dos seus cardeais mais influentes \u00e0 Ucr\u00e2nia e pa\u00edses vizinhos para mostrar a proximidade afectiva e efectiva do papa e da Igreja cat\u00f3lica \u00e0s pessoas v\u00edtimas da guerra. Com estes cardeais seguiu muita ajuda humanit\u00e1ria\u2026<\/p>\n<p>Em resumo, o mundo n\u00e3o aprende li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria. Estive h\u00e1 30 anos debaixo de uma guerra id\u00eantica \u00e0s que est\u00e3o hoje a sofrer as pessoas que se encontram dentro das cidades bombardeadas. Devo confessar que, no Huambo e no Kuito (foto), n\u00e3o ficou nenhuma casa intacta e, quase todas, ficaram parcialmente ou totalmente destru\u00eddas, imposs\u00edveis de ser habitadas. Muitas pessoas morreram, outras ficaram feridas e milhares conseguiram fugir para as matas. Os hospitais, escolas e Igrejas foram bombardeados, derrubando aquela tese ing\u00e9nua segundo a qual as tropas atacam s\u00f3 alvos militares. Conclu\u00ed por experi\u00eancia pr\u00f3pria que a guerra \u00e9 a mais frontal viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. Desde que se comece, n\u00e3o h\u00e1 mais nada a fazer, nem se pode pedir nada aos militares que, atirados para linhas da frente, fazem o dram\u00e1tico jogo do \u2018ou mato ou morro\u2019.<\/p>\n<p>Dialoguemos. N\u00e3o temos alternativa humana. \u00c9 urgente um cessar fogo. Acolhamos de bra\u00e7os abertos os refugiados. Mandemos para as linhas da frente ajuda humanit\u00e1ria. Rezemos. Esta guerra pode parar a qualquer momento. E, para bem de todos, devia parar j\u00e1. Ou melhor, nem sequer devia ter come\u00e7ado!<\/p>\n<p>Duas notas finais: a Europa est\u00e1 a abrir portas e janelas a quem foge da Ucr\u00e2nia (t\u00e3o bom), quando ergueu e ergue muros a quem foge doutras guerras e trag\u00e9dias (t\u00e3o mau)! Acabo de ler um artigo a recordar que h\u00e1 mais guerras e viol\u00eancia para al\u00e9m da Ucr\u00e2nia: Burkina Faso, L\u00edbia, Mali, Mo\u00e7ambique, Nig\u00e9ria, R. Centro-Africana, R. D. Congo, Som\u00e1lia, Sud\u00e3o, Sud\u00e3o do Sul, Daguest\u00e3o, Chech\u00eania, S\u00edria, Afeganist\u00e3o, Mianmar, Filipinas, Paquist\u00e3o, Tail\u00e2ndia, Iraque, Israel e Palestina, I\u00e9men, Eti\u00f3pia.<\/p>\n<p>Se nenhuma destas guerras nasceu justa, tamb\u00e9m n\u00e3o faz sentido responder com guerra \u00e0 guerra. S\u00f3 o di\u00e1logo \u00e9 ponte para a paz.<\/p>\n<div class=\"ast-oembed-container \" style=\"height: 100%;\"><iframe title=\"Spotify Embed: LUSOFONIAS - N\u00e3o h\u00e1 guerras justas\u2026\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/4ru1IBmzTyeNajZSi2Eue8?si=0TZ1Ov-sQkCVbZg7diP1bg&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, em Roma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":114253,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-232373","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=232373"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232373\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=232373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=232373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=232373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}