{"id":23060,"date":"2007-02-22T14:51:56","date_gmt":"2007-02-22T14:51:56","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/02\/22\/mensagem-do-arcebispo-de-braga-para-a-quaresma\/"},"modified":"2007-02-22T14:51:56","modified_gmt":"2007-02-22T14:51:56","slug":"mensagem-do-arcebispo-de-braga-para-a-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-do-arcebispo-de-braga-para-a-quaresma\/","title":{"rendered":"Mensagem do Arcebispo de Braga para a Quaresma"},"content":{"rendered":"<p>A Quaresma acontece sempre como uma gra\u00e7a renovada que o Ano Lit\u00fargico nos oferece. Infelizmente, deixamo-nos possuir pela rotina e a sua incid\u00eancia na vida dos crist\u00e3os e das comunidades come\u00e7a a ser diminuta. Poderemos restituir-lhe o significado original?  Reconhe\u00e7o que a vida moderna coloca muitas condicionantes. Importa, por isso, \u201cimpor-se\u201d um programa, exigente e sereno, a n\u00edvel pessoal e comunit\u00e1rio.  <b>1. \u201cH\u00e3o-de olhar para aquele que trespassaram\u201d (Jo. 19,37 [Zc 12,10]).<\/b> O Santo Padre conduz-nos, na sua habitual mensagem da Quaresma, para a redescoberta do essencial do cristianismo. Orienta-o a profecia, recordada por Cristo, e que continua a ser eloqu\u00eancia sublime. Na cruz encontramos o amor oblativo (\u00e1gape) de quem s\u00f3 busca o bem do outro assim como o apelo de quem espera uma correspond\u00eancia (eros). Deus d\u00e1 tudo e \u00e9 o Seu amor gratuito que est\u00e1 solicitando uma correspond\u00eancia. Da\u00ed que a Quaresma, na linha da Enc\u00edclica de Bento XVI \u201cDeus caritas est\u201d &#8211; que dever\u00edamos reler pausadamente, &#8211; deveria tornar-se momento duma \u201cexperi\u00eancia renovada do amor de Deus\u201d, oferecido em Cristo, a \u201cdar novamente\u201d ao pr\u00f3ximo \u201csobretudo a quem mais sofre e \u00e9 necessitado\u201d. Contemplando \u201caquele que trespassaram\u201d, teremos de \u201ccombater qualquer forma de desprezo da vida e de explora\u00e7\u00e3o da pessoa e de aliviar os dramas da solid\u00e3o e do abandono de tantas pessoas\u201d. <b>2. A pressa do quotidiano impede a contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do amor de Deus.<\/b>  A Quaresma, entre outros sentidos, recorda os quarenta dias de Jesus no deserto. A\u00ed dominou a solid\u00e3o e, atrav\u00e9s desta, o sil\u00eancio retemperador de energias motivado por um encontro consigo e proporcionador duma maior consci\u00eancia da Miss\u00e3o que o Pai lhe havia confiado. A\u00ed \u201couviu\u201d, dum modo sereno e objectivo, os conte\u00fados dum projecto original e irrepet\u00edvel; compreendeu, mais responsavelmente, os contornos duma miss\u00e3o ambiciosa porque inspirada pelo cuidado em cumprir, sempre e em toda a parte, a vontade do Pai. O sil\u00eancio foi eloquente e a solid\u00e3o gerou encontro com a miss\u00e3o salvadora que abra\u00e7ava a humanidade mas iria encontrar-se com muitos mundos e experi\u00eancias de solid\u00e3o, sintoma de car\u00eancias essenciais e de desadapta\u00e7\u00e3o nos diversos contextos da vida. Na Sua solid\u00e3o encontrou-Se com muitos solit\u00e1rios e reconheceu que a vida deve ser interpretada como aventura de solidariedade. A solid\u00e3o pode permitir a tomada de consci\u00eancia e permitir uma atitude de verdadeira convers\u00e3o (Os 2, 85). Na Sagrada Escritura, o deserto aparece como o lugar que permite a revela\u00e7\u00e3o de Deus. Mois\u00e9s encontra-se com Deus no Horeb e no Sinai (Ex 3, 1) e com Elias acontece o mesmo (I Re 19, 4-18). Jesus, para al\u00e9m dos 40 dias de deserto, retira-se para falar com Deus (Mt 1, 35; Lc. 5,16) e com os disc\u00edpulos realiza id\u00eantica experi\u00eancia (Lc 9, 10. 18; Mt 6,31; Mc 4, 10), convidando-os a rezar n\u00e3o nas pra\u00e7as p\u00fablicas mas a afastar-se para se encontrar com o Pai (Mt 6,5). Destas considera\u00e7\u00f5es quero retirar tr\u00eas atitudes a vivenciar pelos crist\u00e3os e a promover pelas comunidades.      2.1 \u2013 N\u00e3o ter medo da solid\u00e3o.  Ningu\u00e9m desvaloriza o encontro e o conv\u00edvio. Sem eles torna-se imposs\u00edvel viver. Penso, por\u00e9m, ser un\u00e2nime o reconhecimento da necessidade de fugir ao ru\u00eddo e palavreado do quotidiano. Muitos atemorizam-se com os momentos de solid\u00e3o. Estar \u201cs\u00f3\u201d \u00e9 uma gra\u00e7a.  A solid\u00e3o, geradora de vontade e encanto de viver, nunca pode ser vazia de conte\u00fado. Ela proporciona um encontro com o eu, com a Palavra meditada, com a an\u00e1lise serena dos acontecimentos da vida, com a companhia dum bom livro\u2026 Pode, tamb\u00e9m, ser interpretada em comum promovendo um encontro familiar ou com algum amigo que partilha um projecto id\u00eantico de vida. Aqui a palavra, carregada da vida e da \u00e2nsia de algo que quero ser, nunca perturbar\u00e1 esta solid\u00e3o.  Sugiro, por isso, uma Quaresma de espa\u00e7os de deserto onde se deixam as preocupa\u00e7\u00f5es quotidianas e, com mais ou menos tempo, me encontro comigo ouvindo o sil\u00eancio interior. Aconselho \u00e0s fam\u00edlias momentos onde se fechem \u00e0s press\u00f5es exteriores e se confrontem com o \u201ceu\u201d familiar repleto de direitos e de obriga\u00e7\u00f5es, de causas de alegria e de motivos de tristeza. Tamb\u00e9m aqui a rotina pode impedir a verdadeira leitura da real vida familiar onde se deixa correr muita coisa que n\u00e3o se quer ver e ouvir.  2.2- A solid\u00e3o dever\u00e1 encontrar-se com as solid\u00f5es.  A indiferen\u00e7a e um pseudo-respeito pelos outros pode, inconsciente ou conscientemente, provocar um alheamento pela sua vida. H\u00e1 muitos muros que impedem uma vis\u00e3o de dramas e de exist\u00eancias de pessoas mergulhadas em solid\u00f5es que tornam a vida infeliz. A pressa n\u00e3o permite ver rostos marcados pelas l\u00e1grimas mesmo que as conversas n\u00e3o o digam explicitamente. Nos nossos companheiros de jornada podem existir momentos ou situa\u00e7\u00f5es repletas de ang\u00fastia e que teimamos em n\u00e3o querer ver ou porque corremos muito ou porque vivemos desatentos. A solid\u00e3o \u00e9, nesta perspectiva, o estado existencial que domina a vida de muitos conhecidos que n\u00e3o precisamos de procurar. Basta querer conhecer os colegas de trabalho, as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias, os vizinhos da mesma rua ou bairro. Convivemos com muita gente; nem sempre nos apercebemos da situa\u00e7\u00e3o interior que est\u00e3o a viver.  Se olharmos para o mundo das fam\u00edlias, estamos a entrar num espa\u00e7o que nem sempre queremos reconhecer que existe. S\u00f3 que \u00e9 uma realidade, talvez ao lado da nossa casa ou na lista das fam\u00edlias conhecidas, a solid\u00e3o em que muitas vivem quotidianamente. O encontro n\u00e3o acontece, o di\u00e1logo \u00e9 fortuito ou ocasional e de circunst\u00e2ncia.  Nas solid\u00f5es, experimentadas ou encontradas nos outros e nas fam\u00edlias, teremos de recordar que Cristo tamb\u00e9m a experimentou e foi ao encontro dela. No meio dos seus amigos, na \u00faltima ceia, esteve s\u00f3, sabia que Judas o atrai\u00e7oaria (Jo 13, 11), que Pedro o negaria (Jo 13, 38), que os disc\u00edpulos o abandonariam (Mc 14, 27). Encontra-se s\u00f3 no Gets\u00e9mani (Mc 14, 27) e na cruz vive a mais completa solid\u00e3o onde at\u00e9 o Pai parece abandon\u00e1-Lo (Mc 15,34).  2.3 &#8211; A solid\u00e3o exige solidariedade.  Nem sempre a palavra solidariedade teve um significado verdadeiramente crist\u00e3o. Sabemos, at\u00e9, que ter\u00e1 nascido num contexto e ambiente hist\u00f3rico hostil \u00e0 Igreja. Hoje, por\u00e9m, est\u00e1 consagrada como virtude no sentido de depend\u00eancia m\u00fatua e dum identificar-se com os problemas dos outros para, com eles e por eles, encontrar uma solu\u00e7\u00e3o.  A celebra\u00e7\u00e3o dos 20 anos sobre a publica\u00e7\u00e3o da Sollicitudo Rei Socialis [SRS] (30 de Dezembro de 1987) pode sugerir-nos uma releitura desta enc\u00edclica onde o pensamento do Papa Jo\u00e3o Paulo II \u00e9 verdadeiramente interpelativo. Retiro algumas refer\u00eancias:  &#8211; A interdepend\u00eancia, das pessoas e das institui\u00e7\u00f5es, suscita uma resposta, como atitude moral e social e como \u201cvirtude\u201d da solidariedade;  &#8211; Esta nunca pode ser \u201cum sentimento de compaix\u00e3o vaga ou de enternecimento superficial\u201d pelos males sofridos por tantas pessoas, pr\u00f3ximas ou distantes;  &#8211; Consiste, essencialmente e como exerc\u00edcio constante, numa \u201cdetermina\u00e7\u00e3o firme e perseverante\u201d de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos n\u00f3s somos verdadeiramente respons\u00e1veis por todos. Aqui est\u00e1 o n\u00facleo central da redescoberta a fazer: serei, sempre, respons\u00e1vel por todos, partindo do grande princ\u00edpio da doutrina social da Igreja: os bens da cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o destinados a todos;  &#8211; Esta responsabilidade foi provocada por causas que impedem o desenvolvimento integral de todas as pessoas, nomeadamente a \u201cavidez do lucro e a sede do poder\u201d que podem e devem ser consideradas como verdadeiras \u201cestruturas de pecado\u201d;  &#8211; Perante estas \u00e9 preciso lutar, com o aux\u00edlio da gra\u00e7a divina, atrav\u00e9s duma \u201catitude diametralmente oposta\u201d, ou seja, \u201ca aplica\u00e7\u00e3o em prol do bem do pr\u00f3ximo, com a disponibilidade, em sentido evang\u00e9lico, para \u2018perder-se\u2019 em seu benef\u00edcio em vez de o explorar, e para \u2018servi-lo\u2019 em vez de o oprimir para \u2018proveito pr\u00f3prio\u2019\u201d (Cf. Mt 10, 40-42; 20, 25; Mc 10, 42-45; Lc 22, 25-27). Este exerc\u00edcio \u00e9 sinal e certeza dum reconhecimento de todos como pessoas humanas com dignidade comum. Da\u00ed que, como consequ\u00eancia natural, \u201caqueles que contam mais, dispondo de uma parte maior de bens e de servi\u00e7os comuns, h\u00e3o-de sentir-se respons\u00e1veis pelos mais fracos e estar dispon\u00edveis a compartilhar com eles o que possuem\u201d. Em simult\u00e2neo e como atitude de verdadeira corresponsabilidade, \u201cos mais fracos n\u00e3o devem adoptar uma atitude meramente passiva ou destrutiva do tecido social; mas, embora defendendo os seus direitos leg\u00edtimos, fazer o que lhes compete para o bem de todos\u201d. Trata-se dum jogo de amor onde cada parte arrisca com as capacidades pr\u00f3prias e arrisca dando um contributo sempre imprescind\u00edvel. Quem tem n\u00e3o pode fechar os olhos e quem necessita nunca se deve refugiar no ego\u00edsmo de quem espera uma solu\u00e7\u00e3o que chega sem o m\u00ednimo empenho;  &#8211; A caridade ser\u00e1 sempre o sinal distintivo dos disc\u00edpulos de Cristo (Cf. Jo 13, 35). A solidariedade, como virtude crist\u00e3, encerra muitos \u201cpontos de contacto\u201d com a caridade (\u201ca gratuidade total, o perd\u00e3o e a reconcilia\u00e7\u00e3o\u201d) e faz com que o ser humano, numa igualdade de direitos, seja reconhecido \u201ccomo imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objecto da ac\u00e7\u00e3o permanente do Esp\u00edrito Santo\u201d. Nesta exig\u00eancia da f\u00e9, adquirimos uma \u201cconsci\u00eancia da paternidade comum, da fraternidade de todos os homens em Cristo, \u201cfilhos no Filho\u201d, e da presen\u00e7a e da ac\u00e7\u00e3o unificante do Esp\u00edrito Santo\u201d;  &#8211; Com esta perspectiva da solidariedade, teremos um \u201cnovo crit\u00e9rio\u201d para ver e interpretar o mundo em que vivemos. \u00c9 o modelo da unidade \u201creflexo da vida \u00edntima de Deus, uno em tr\u00eas Pessoas\u201d a que chamamos \u201ccomunh\u00e3o\u201d e torna-se \u201ca alma\u201d da voca\u00e7\u00e3o da Igreja para ser \u201cSacramento\u201d, ou seja, sinal eficaz dum amor que soluciona muitas quest\u00f5es e d\u00e1 resposta a muitos dramas.  <b>3. Programa Diocesano: Ser Fam\u00edlia Solid\u00e1ria<\/b>  Ao percorrermos este itiner\u00e1rio apontado pelo Saudoso Papa Jo\u00e3o Paulo II, nos n\u00bas 38-40 da Enc\u00edclica SRS, estamos a mergulhar no objectivo primordial do nosso Programa Pastoral. Somos fam\u00edlia que se apresenta num testemunho de verdadeira solidariedade. A \u201cFam\u00edlia Solid\u00e1ria\u201d acontece no \u00edntimo dos nossos lares, interpreta-se nos dinamismos das nossas comunidades e compromete-nos na vida toda duma Arquidiocese.  Regresso a Jo\u00e3o Paulo II para sintetizar e explicitar quanto, dum modo particular, deveremos viver nesta Quaresma.  \u201cEm virtude do seu peculiar compromisso evang\u00e9lico, a Igreja sente-se chamada a estar ao lado das multid\u00f5es pobres, a discernir a justi\u00e7a das suas solicita\u00e7\u00f5es e a contribuir para as satisfazer\u201d. \u201cA solidariedade ajuda-nos a ver o \u2018outro\u2019 \u2013 pessoa, povo ou na\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo pre\u00e7o, a capacidade de trabalho e a resist\u00eancia f\u00edsica, para o abandonar quando j\u00e1 n\u00e3o serve; mas sim, como um nosso \u2018semelhante\u2019, um \u2018aux\u00edlio\u2019 (Cf. Gn 2, 18-20), que se h\u00e1-de tornar participante, como n\u00f3s, no banquete da vida, para o qual todos os homens s\u00e3o igualmente convidados por Deus\u201d. (n\u00ba 39).  3.1 Solidariedade, Baptismo e Eucaristia.  Regressando ao ponto de partida desta mensagem (\u201cH\u00e3o-de olhar para Aquele que trespassaram\u201d [Jo 19, 37]) tornaremos a Quaresma um tempo de contempla\u00e7\u00e3o silenciosa do amor de Deus e de luta por um mundo de igualdade atrav\u00e9s do exerc\u00edcio da solidariedade. Na cruz Jesus assume o sofrimento e a ang\u00fastia at\u00e9 \u00e0 morte para nos libertar de todo o tipo de solid\u00e3o como consequ\u00eancia do pecado. A\u00ed \u201cEle re\u00fane na unidade os filhos de Deus dispersos\u201d (Jo 11-52) e torna o Seu povo unido num \u201cs\u00f3 rebanho\u201d (Jo 10, 16). O ideal messi\u00e2nico de toda a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 Deus (Deut 6, 4), um s\u00f3 culto (2 Re 17, 36), um s\u00f3 povo (Is 60, 4), um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o (Jer 32, 39), encontra a sua plena realiza\u00e7\u00e3o em Cristo. Na cruz e pela cruz o homem passa da solid\u00e3o \u00e0 comunh\u00e3o, \u201cdo abandono ao encontro\u201d, do estar s\u00f3 a \u201cser um s\u00f3\u201d.  No calv\u00e1rio encontramos uma cruz, sinal de tantas cruzes, e o Filho de Deus de cora\u00e7\u00e3o trespassado donde sai Sangue e \u00c1gua. A \u00c1gua lembra o Baptismo \u2013 e a Quaresma \u00e9 tempo baptismal \u2013 para, como crentes, sairmos de n\u00f3s pr\u00f3prios e nos abrirmos \u00e0 fraternidade universal. O Sangue evoca-nos a Eucaristia que nos atrai \u201cpara o acto oblativo de Jesus\u201d para sermos envolvidos na din\u00e2mica da sua doa\u00e7\u00e3o (Deus caritas est, n\u00ba13). O exerc\u00edcio de solid\u00e3o que convido a fazer deveria consciencializar-nos da originalidade dum crist\u00e3o baptizado que coloca a Eucaristia no centro da vida para a actualizar em testemunho de auto-doa\u00e7\u00e3o e partilha de quanto Deus nos concede.  3.2 Partilhar na solidariedade: Viver o Contributo e a Ren\u00fancia Quaresmal  O cristianismo, como experi\u00eancia de seguimento de Cristo e n\u00e3o mero cumprimento de normas ou determina\u00e7\u00f5es, deve descobrir o verdadeiro significado de gestos que nos parecem ultrapassados. S\u00f3 a rotina e um cumprimento formal permitir\u00e3o uma tal interpreta\u00e7\u00e3o. Imp\u00f5e-se, por isso, entender a exig\u00eancia do jejum e da abstin\u00eancia para os colocar na linha da solidariedade activa e efectiva. Pode custar pouco evitar um determinado tipo de coisas. Ser capaz de ver o \u201cnosso\u201d mundo e lutar por uma vida de fraternidade onde com o pouco da partilha podemos dar sentido e raz\u00e3o de ser a muitas vidas, \u00e9 um modelo a experimentar conscientemente.  Neste contexto teremos de compreender e vivenciar a Ren\u00fancia Quaresmal e a partilha no Contributo Penitencial. S\u00e3o dois gestos que se integram e tem raz\u00e3o de ser se forem articulados numa penit\u00eancia de purifica\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o.   Cada um saber\u00e1 onde trabalhar esta solidariedade activa. Como Pastor da Igreja que peregrina em Braga, depois de ouvir o Conselho Presbiteral, quero apontar as finalidades do Contributo Penitencial da Quaresma de 2007:  &#8211; Continuaremos a ter presente o Fundo de Solidariedade da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa e a ajuda para a constru\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os de culto na Arquidiocese;  &#8211; Como dimens\u00e3o mission\u00e1ria e depois duma visita \u00e0 Arquidiocese de Madras-Meliapore, onde D. Ant\u00f3nio Barroso foi Bispo, iremos responder \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o efectuada pelo Arcebispo local, como gratid\u00e3o aos Mission\u00e1rios Portugueses que a\u00ed trabalharam, ajudando na constru\u00e7\u00e3o dum Centro de Forma\u00e7\u00e3o de Agentes da Pastoral;  &#8211; Integrados no Programa Pastoral reconheceremos que a fam\u00edlia necessita duma habita\u00e7\u00e3o digna o que nem sempre acontece nas nossas comunidades paroquiais. Ao mesmo tempo, a dignidade e qualidade da vida humana s\u00e3o condicionadas por determinadas limita\u00e7\u00f5es de variadas ordens. Para responder a estas situa\u00e7\u00f5es a C\u00e1ritas Arquidiocesana de Braga constituiu o Banco de Equipamento M\u00e9dico Hospitalar que pretende colmatar necessidades (canadianas, camas articuladas, cadeiras de rodas) de pessoas de toda a Arquidiocese. Na verdade, as Visitas Pastorais ainda nos oferecem o contacto com \u201ccasas\u201d e necessidades de agregados familiares que muita gente ignora e que nos deveriam incomodar.  Solicito, por isso, aos movimentos (Confer\u00eancias Vicentinas, Legi\u00e3o de Maria, Ministros da Comunh\u00e3o\u2026) que individualizem casos onde faltam elementos essenciais e m\u00ednimos para uma vida digna. Ao mesmo tempo, que, em Conselho Pastoral Paroquial, elaborem um esquema de interven\u00e7\u00e3o no sentido de recuperar algumas casas.  Com o dinheiro recolhido solucionaremos alguns casos e procuraremos ajudar a criar um ambiente de dignidade. Pensando nestes casos e n\u00e3o esquecendo a nossa Casa Sacerdotal, estamos a demonstrar a solidariedade, sinal duma Comunh\u00e3o Crist\u00e3.  Resumindo, daremos dignidade \u00e0s habita\u00e7\u00f5es e, atrav\u00e9s da Caritas, faremos com que os doentes disponham de meios adequados.  <b>Conclus\u00e3o<\/b>  O ritmo do ano lit\u00fargico deveria proporcionar aos crist\u00e3os um plano de vida para cada momento. A Quaresma \u00e9 uma oportunidade e gra\u00e7a que pediria que fosse acolhida.  Temos um Programa Pastoral muito concreto. \u201cSer Fam\u00edlia Solid\u00e1ria\u201d deveria nortear todas as iniciativas pastorais e os prop\u00f3sitos pessoais.  Partindo desta ideia quis referir algumas sugest\u00f5es. Valem pouco pelos seus conte\u00fados e podem valer muito se se tornarem \u201cPrograma\u201d operativo a n\u00edvel pessoal e comunit\u00e1rio.   &#8211; Criar momentos de solid\u00e3o;  &#8211; Aperceber-se da solid\u00e3o de muitos;  &#8211; Formular gestos de solidariedade permanente;  &#8211; Concretizar esses gestos numa interpreta\u00e7\u00e3o renovada do Contributo Penitencial.  Ser\u00e3o muitas ideias? Bastaria apaixonar-se por uma e descobrir-se-ia um conjunto inesperado de desafios que nos levam ao cora\u00e7\u00e3o trespassado da nossa humanidade. O \u201ch\u00e3o-de ver aquele que trespassaram\u201d \u00e9 tamb\u00e9m uma den\u00fancia, uma senten\u00e7a condenat\u00f3ria dos algozes, que vendo-o j\u00e1 morto ainda lhe atravessaram o lado com uma lan\u00e7a! Os gestos da indiferen\u00e7a mais cruel matam aquele que os pratica porque as v\u00edtimas j\u00e1 n\u00e3o os sentem. Mas a\u00ed ressoam as palavras: \u201cTudo quanto fizestes a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos foi a Mim que o fizestes\u201d (Mt 25, 40.45), mostrando que n\u00f3s devemos ver aquele que trespassaram no rosto dos dramas dos seus irm\u00e3os, que s\u00e3o todos os homens, o nosso pr\u00f3ximo.  Com os gestos da solidariedade, da partilha, da entrega de si mesmo ao outro e ao Outro, percorrendo este caminho quaresmal celebraremos a P\u00e1scoa do Senhor de cora\u00e7\u00e3o trespassado e dele brotar\u00e1 a \u00e1gua e o sangue do Amor de Deus e do homem, esperan\u00e7a ainda que crucificada dum futuro melhor para todos.   Com todos e cada um dos diocesanos e com todos os que apostam na solidariedade como a virtude crist\u00e3 dos tempos da globaliza\u00e7\u00e3o e da interdepend\u00eancia quero fazer esta caminhada quaresmal e desde j\u00e1 fazer votos de que o Sol da P\u00e1scoa brilhe nos cora\u00e7\u00f5es trespassados das nossas fam\u00edlias com a solidariedade efectiva e afectiva do nosso programa pastoral \u201cFam\u00edlia Solid\u00e1ria\u201d. <i>+ Jorge Ferreira da Costa Ortiga, Arcebispo Primaz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Quaresma acontece sempre como uma gra\u00e7a renovada que o Ano Lit\u00fargico nos oferece. Infelizmente, deixamo-nos possuir pela rotina e a sua incid\u00eancia na vida dos crist\u00e3os e das comunidades come\u00e7a a ser diminuta. Poderemos restituir-lhe o significado original? Reconhe\u00e7o que a vida moderna coloca muitas condicionantes. 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