{"id":23050,"date":"2007-02-22T13:01:37","date_gmt":"2007-02-22T13:01:37","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/02\/22\/baden-powell-e-o-projecto-educativo-do-escutismo\/"},"modified":"2007-02-22T13:01:37","modified_gmt":"2007-02-22T13:01:37","slug":"baden-powell-e-o-projecto-educativo-do-escutismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/baden-powell-e-o-projecto-educativo-do-escutismo\/","title":{"rendered":"Baden-Powell e o projecto educativo do Escutismo"},"content":{"rendered":"<p>Naquela que \u00e9 considerada a melhor, a mais completa e pol\u00e9mica obra sobre Baden-Powell (Baden-Powell, Founder of Boy Scouts. New Haven and London: Yale University Press, 2001), o seu autor, Tim Jeal, declara que ao escrev\u00ea-la procurou \u201cfazer justi\u00e7a a um complexo, fascinante e por vezes perturbado homem que fez a \u00fanica e ben\u00e9fica contribui\u00e7\u00e3o para a hist\u00f3ria do s\u00e9culo vinte que ainda n\u00e3o recebeu o reconhecimento que merece\u201d. Neste sentido, por exemplo, basta um pequeno esfor\u00e7o de pesquisa para constatarmos o reduzido estatuto acad\u00e9mico e investigativo do Escutismo, assim como a aus\u00eancia do pensamento educacional Baden-Powell (B.-P.) no quadro dos grandes educadores contempor\u00e2neos. E no entanto, a sua obra alcan\u00e7ou uma projec\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel: estima-se que ao longo de um s\u00e9culo (1907-2007) tenham passado pelas fileiras do movimento escutista mais de 500 milh\u00f5es de crian\u00e7as, jovens e adultos, contando actualmente com 28 milh\u00f5es de membros espalhados por 216 pa\u00edses e territ\u00f3rios. Numa altura em que se sup\u00f5e vivermos numa era de globaliza\u00e7\u00e3o, em que se contrabalan\u00e7am quotidianamente os benef\u00edcios e os malef\u00edcios deste processo econ\u00f3mico, pol\u00edtico, cultural, constatar esta express\u00e3o global do movimento escutista remete-nos, inevitavelmente, para a realiza\u00e7\u00e3o do sonho do fundador, isto \u00e9, para o papel do escutismo na forma\u00e7\u00e3o de \u201cbons cidad\u00e3os\u201d e no desenvolvimento da ideia de uma fraternidade mundial. Tal como vincou o Director-Geral da UNESCO, Frederico Mayor, em 1995, o movimento escutista \u201cconstitui uma das maiores redes multiculturais e multiconfessionais para a educa\u00e7\u00e3o e para a ac\u00e7\u00e3o dos jovens no desenvolvimento de uma cultura da paz, da toler\u00e2ncia e da solidariedade\u201d. Num ano em que se comemora o centen\u00e1rio deste movimento e simultaneamente os cento e cinquenta anos do nascimento de B.-P., a atribui\u00e7\u00e3o do pr\u00e9mio Nobel da Paz ao escutismo em 2007 constituiria, certamente, a melhor forma de se reconhecer esta aventura educativa e cidad\u00e3 em prol da humanidade. \tQuando no ver\u00e3o de 1907 B.-P. organizou e dirigiu um acampamento experimental na Ilha de Brownsea (de 15 de Julho a 9 de Agosto), com a presen\u00e7a de 20 rapazes de v\u00e1rias proveni\u00eancias sociais e onde p\u00f4s \u00e0 prova as suas ideias educacionais, certamente estaria longe de imaginar que esta experi\u00eancia viesse a constituir um marco fundacional de um movimento que nos tempos subsequentes se desenvolveu em grande escala. N\u00e3o foi propriamente o impacto na opini\u00e3o p\u00fablica deste acampamento bem sucedido que despoletou o nascimento do escutismo, mas fundamentalmente a publica\u00e7\u00e3o, em Janeiro de 1908, de uma obra intitulada Scouting for Boys, inicialmente dada \u00e0 estampa em seis fasc\u00edculos quinzenais, mas prontamente republicada (em Maio do mesmo ano), sob a forma de livro, atendendo \u00e0s suas extraordin\u00e1rias vendas e aos efeitos multiplicadores que as propostas de B.-P. tinham gerado entre os jovens. O sucesso editorial desta obra (que foi provavelmente, de acordo com Tim Jeal (2001: 396), o livro mais vendido no s\u00e9culo XX a seguir \u00e0 B\u00edblia) e que se traduziu na organiza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de grupos de jovens que prontamente se autodenominaram de Scouts, assentou, por assim dizer, numa mensagem fortemente enraizada no imagin\u00e1rio juvenil; e o facto de o escutismo se instituir como efeito n\u00e3o previsto desta publica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 vem revelar o car\u00e1cter inovador das propostas de B.-P., ao proporcionar aos rapazes (e \u00e0s raparigas posteriormente, a partir de 1909) uma oportunidade de se desenvolverem como cidad\u00e3os respons\u00e1veis na ac\u00e7\u00e3o e pela ac\u00e7\u00e3o, como igualmente vem sublinhar a possibilidade dos jovens tamb\u00e9m se poderem transformar em sujeitos da sua pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria capa do primeiro fasc\u00edculo do Scouting for Boys, apesar de n\u00e3o ser desenhada por B.-P., revelava por si s\u00f3 o significado (educativo) de um rapaz se tornar um Scout. Na interpreta\u00e7\u00e3o de Tim Jeal (p. 390), \u201cEle [John Hassall] desenhou um rapaz escondido por detr\u00e1s de um rochedo com a sua vara de escuteiro e o seu chap\u00e9u de aba larga (stetson hat) procurando observar um distante grupo de contrabandistas que desembarcava de um misterioso navio. A implica\u00e7\u00e3o era clara: ao tornar-se escuteiro o rapaz n\u00e3o s\u00f3 leria aventuras como tamb\u00e9m faria parte delas\u201d. O mote para o pref\u00e1cio ao primeiro Scout Handbook do \u201cEscutismo para Rapazes\u201d (1908) foi a preocupa\u00e7\u00e3o de B.-P em tentar compreender porque raz\u00e3o os mais entusiastas consideravam o escutismo uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o\u201d. Embora inicialmente relutante na aceita\u00e7\u00e3o desta ideia, o que \u00e9 certo \u00e9 que volvidos alguns par\u00e1grafos, e perante a elucida\u00e7\u00e3o das especificidades do movimento, este autor tende a admiti-la. Mas o que nos interessa real\u00e7ar nesse pref\u00e1cio, para al\u00e9m dos objectivos da educa\u00e7\u00e3o escutista ali bem explicitados, \u00e9 que podemos vislumbrar nesse texto o prel\u00fadio da actual educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o-formal, essencialmente no que respeita \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de incompletude que se cristaliza na rela\u00e7\u00e3o escola-sociedade. As suas propostas educativas, que apelavam \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de actividades de ar livre como contexto de excel\u00eancia do escutismo, n\u00e3o raras vezes se confrontaram com o modelo da educa\u00e7\u00e3o escolar, tornando-se inevit\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 a cr\u00edtica \u00e0s l\u00f3gicas de funcionamento desta institui\u00e7\u00e3o e ao tipo de cidad\u00e3o que ela promovia, como igualmente se desenvolveram na procura de um espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o no campo mais vasto da educa\u00e7\u00e3o. Assim, ao sublinhar a import\u00e2ncia das actividades recreativas do escutismo como \u201capoio pr\u00e1tico \u00e0 educa\u00e7\u00e3o\u201d, B.-P., no referido pref\u00e1cio, sugeria que \u201cele poderia ser visto como complemento \u00e0 forma\u00e7\u00e3o escolar, e preencher certas lacunas inevit\u00e1veis no curr\u00edculo escolar. \u00c9, em breves palavras, uma escola de cidadania atrav\u00e9s da experi\u00eancia ao ar livre\u201d. Apresentando-se como complementar \u00e0 escola, o escutismo instituiu, por assim dizer, uma das concep\u00e7\u00f5es que na actualidade tendem a caracterizar a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o-formal\/n\u00e3o-escolar. Contudo, B.-P. fez quest\u00e3o de marcar as diferen\u00e7as educativas entre o escutismo e a escola, situando os objectivos do movimento num plano mais pr\u00e1tico e experiencial: \u201cprocuramos ensinar os rapazes a viver, n\u00e3o apenas como construir a vida\u201d. A sua grande preocupa\u00e7\u00e3o era deslocar o enfoque educativo de uma esfera mais individualista, competitiva, materialista, entre outros valores mais pr\u00f3ximos do ethos da escola, para uma esfera mais social e colectiva, pautada pelo servi\u00e7o aos outros. Empenhado no desenvolvimento do \u201ccivismo activo\u201d, B.-P. preconizava uma educa\u00e7\u00e3o escutista assente em quatro dimens\u00f5es: o car\u00e1cter, a sa\u00fade e a for\u00e7a, a habilidade manual, o servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo. E a pedra de toque da metodologia escutista, na qual e pela qual se dava express\u00e3o \u00e0quelas dimens\u00f5es, foi a que consagrou o sistema de patrulhas, isto \u00e9, um sistema que mostra \u201ca cada rapaz a sua responsabilidade pessoal no bem da patrulha e leva cada patrulha a reconhecer que tem responsabilidade bem definida no progresso de todo o Grupo. Por meio do sistema de patrulhas, os escuteiros v\u00eam a reconhecer que t\u00eam voz activa em tudo quanto o seu Grupo faz\u201d (B.-P., Escutismo Para Rapazes, 1977, p.32). Sabendo que os rapazes (os jovens em geral) tendem naturalmente a agrupar-se, B.-P. vislumbrou nestes \u201cgrupos fraternais\u201d e na sua forma de organiza\u00e7\u00e3o e de lideran\u00e7a uma possibilidade inesgot\u00e1vel de educa\u00e7\u00e3o e de aprendizagem. Aos jovens faltava dar-lhes \u201cum uniforme vistoso e equipamento\u201d, falar-lhes \u201c\u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e ao sentido rom\u00e2ntico\u201d e lan\u00e7\u00e1-los \u201cna vida activa do ar livre\u201d (B.-P., Auxiliar do Chefe Escuta, 1976, p.36). No fundo, a atribui\u00e7\u00e3o de responsabilidades no seio da patrulha, o esp\u00edrito de colabora\u00e7\u00e3o e de coopera\u00e7\u00e3o que emergia nos jogos, nas actividades e nos v\u00e1rios cen\u00e1rios de interac\u00e7\u00e3o escutista, orientados para a consecu\u00e7\u00e3o de objectivos comuns e partilhados, prefiguravam-se, por conseguinte, como valiosos contributos para a realiza\u00e7\u00e3o da aprendizagem dos sentidos da Democracia e da experi\u00eancia da cidadania democr\u00e1tica. \tE isto invoca uma outra especificidade educativa bem patente no seguinte princ\u00edpio motriz do escutismo: \u201cestudam[-se] as ideias do rapaz, que \u00e9 instigado a EDUCAR-SE A SI PR\u00d3PRIO em vez de ser instru\u00eddo\u201d (Ibid., p.36; Mai\u00fasculas e it\u00e1lico no original). Para al\u00e9m de se enfatizar neste excerto a perspectiva da auto-educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o menos importante se torna neste processo encontrar um perfil de chefe-escuta (dirigente) consent\u00e2neo com o cariz do movimento. Para o fundador do escutismo este scoutmastership teria \u201cde ser apenas um homem-rapaz\u201d (Ibid., 15), o que invalida desde logo quaisquer conota\u00e7\u00f5es com o modelo do professor, ou com as estrat\u00e9gias de ensino por este tradicionalmente seguidas. Ali\u00e1s, encontr\u00e1mos com frequ\u00eancia nos trabalhos deste autor uma cr\u00edtica cerrada \u00e0s l\u00f3gicas do ensino, ao funcionamento da pr\u00f3pria escola, ao antagonismo dos pap\u00e9is e dos interesses dos professores e dos alunos, sendo tamb\u00e9m recorrente a distin\u00e7\u00e3o entre instru\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o: a primeira, define-a como \u201co m\u00e9todo de inculcar e martelar conhecimentos no rapaz\u201d; a segunda, como \u201co m\u00e9todo de \u2018puxar\u2019 por cada rapaz individualmente e dar-lhe a ambi\u00e7\u00e3o e a disposi\u00e7\u00e3o de aprender por si mesmo\u201d (aspas no original). Donde, para o escutismo, B.-P. preferiu inequivocamente esta \u00faltima op\u00e7\u00e3o. \t\u00c9 certo que a apologia que este antigo general faz da auto-educa\u00e7\u00e3o revela sobretudo a sua preocupa\u00e7\u00e3o com a incapacidade da escola na educa\u00e7\u00e3o c\u00edvica dos rapazes, j\u00e1 que esta institui\u00e7\u00e3o estaria mais voltada para a tarefa de ensinar a aprender. A conclus\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o do rapaz, para assumir os pap\u00e9is do (homem) adulto, passaria pela sua predisposi\u00e7\u00e3o para se educar a si mesmo, tendo em vista a sua prepara\u00e7\u00e3o para assumir as responsabilidades da futura profiss\u00e3o, \u201cde futuro pai de filhos [e] de cidad\u00e3o e guia de outros homens\u201d (B.-P., 1974: p. 27). \u00c0 escola caberia, no entanto, o primeiro impulso neste processo: \u201co \u00eaxito ou o fracasso dependem, em grande parte, do teu pr\u00f3prio esfor\u00e7o. Aqueles que aproveitam os conhecimentos escolares para completarem a sua educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o os que triunfam. E \u00e9 neste ponto que os livros e as confer\u00eancias te podem valer de muito\u201d (Ibid., p.167). \tPensamos que fica bem clara a actualidade do pensamento educativo de Baden-Powell. Ao movimento escutista compete, t\u00e3o-somente, preservar e desenvolver a matriz educacional preconizada pelo fundador, o que nem sempre tem sido conseguido. Muitas das propostas e actividades supostamente inovadoras e que nos s\u00e3o apresentadas por diversas organiza\u00e7\u00f5es educativas, ambientais, de lazer e aventura, e mesmo empresariais, revelam muito daquilo a que nos habituamos a ver h\u00e1 muito tempo no escutismo. E quando se descobre que em muitas ideias e projectos o escutismo esteve na vanguarda de uma educa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, verificamos que, por vezes, se caiu na tenta\u00e7\u00e3o de mimetizar aquilo que outrora j\u00e1 lhe foi familiar e, nalguns casos, pertenceu. Numa altura em que sobe de tom a cr\u00edtica \u00e0 institui\u00e7\u00e3o escolar e em que a ideologia da aprendizagem ao longo da vida tende a sedimentar a individualiza\u00e7\u00e3o dos percursos educativos, seria bom n\u00e3o deixar Baden-Powell esquecido entre os que defenderam a cidadania como um bem colectivo. Cabe ao escutismo actualizar este desafio.  <i>Jos\u00e9 Augusto Palhares, IEP \u2013 Universidade do Minho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquela que \u00e9 considerada a melhor, a mais completa e pol\u00e9mica obra sobre Baden-Powell (Baden-Powell, Founder of Boy Scouts. 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