{"id":23035,"date":"2007-02-22T10:10:39","date_gmt":"2007-02-22T10:10:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/02\/22\/hao-de-olhar-aquele-que-trespassaram\/"},"modified":"2007-02-22T10:10:39","modified_gmt":"2007-02-22T10:10:39","slug":"hao-de-olhar-aquele-que-trespassaram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/hao-de-olhar-aquele-que-trespassaram\/","title":{"rendered":"<i>H\u00e3o-de olhar Aquele que trespassaram<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jos\u00e9 Policarpo na Missa de Quarta-Feira de Cinzas <!--more--> 1. O Santo Padre convida a Igreja a viver a Quaresma deste ano, contemplando o Crucificado. S\u00e3o Jo\u00e3o interpreta o \u00faltimo epis\u00f3dio da execu\u00e7\u00e3o de Jesus, o trespassar do Seu cora\u00e7\u00e3o pela lan\u00e7a do soldado, como o cumprimento de uma profecia. E como todas as profecias cumpridas, esta abre-nos para o futuro da fecundidade da reden\u00e7\u00e3o. O cora\u00e7\u00e3o trespassado de Cristo, donde Jo\u00e3o viu jorrar sangue e \u00e1gua (Jo. 19,34), simboliza a fonte inesgot\u00e1vel da gra\u00e7a, que purificar\u00e1 a humanidade pecadora atrav\u00e9s do baptismo e da Eucaristia. \tA Quaresma \u00e9 um tempo baptismal, de prepara\u00e7\u00e3o para o baptismo e de viv\u00eancia do pr\u00f3prio baptismo. E isso pode fazer-se, contemplando o lado aberto de Cristo, donde continua a jorrar a \u00e1gua que purifica e redime. S\u00e3o Paulo define o baptismo, que nos redime dos nossos pecados, como um mergulhar na morte de Cristo, quando pergunta aos crist\u00e3os de Roma: \u201cacaso ignorais, que baptizados em Cristo Jesus, \u00e9 na Sua morte que todos fomos baptizados? Pelo baptismo fomos, de facto, sepultados com Cristo na morte, afim de que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos para a gl\u00f3ria do Pai, tamb\u00e9m n\u00f3s vivamos uma vida nova\u201d (Rom. 6,3-4). \tA vida crist\u00e3 junta, em s\u00edntese maravilhosa, a gra\u00e7a da Cruz, a participa\u00e7\u00e3o na ressurrei\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo; e o sacramento dessa s\u00edntese \u00e9 a Eucaristia. A for\u00e7a da P\u00e1scoa permite-nos participar na Paix\u00e3o de Cristo, abra\u00e7ando a nossa cruz, acreditando que tamb\u00e9m ela \u00e9 redentora. Mas o tempo presente \u00e9 mais caracterizado pela nossa participa\u00e7\u00e3o na morte de Cristo, ao abra\u00e7ar a nossa pr\u00f3pria cruz e seguindo-O com a for\u00e7a da Sua ressurrei\u00e7\u00e3o, e esperando ainda o nosso triunfo definitivo, com Ele. Ao mergulhar na Sua morte, no baptismo, devemos fazer a caminhada baptismal contemplando a Sua Cruz.  \t2. Ao contemplarmos o corpo de Jesus trespassado, tomamos consci\u00eancia do duelo dram\u00e1tico entre a justi\u00e7a e a injusti\u00e7a, o pecado do mundo e o amor misericordioso de Deus. O pecado do mundo tem capacidade de ferir o Justo. S\u00f3 n\u00e3o o vence, porque Deus est\u00e1 com ele. Segundo S\u00e3o Paulo, quem deveria estar ali, no Calv\u00e1rio, era cada um de n\u00f3s, sofrendo o castigo dos nossos pecados. Ele sofreu em nosso lugar. \u201cA Cristo que n\u00e3o conhecera o pecado, identificou-o Deus com o pecado, por amor de n\u00f3s, para que em Cristo nos torn\u00e1ssemos justi\u00e7a de Deus\u201d (2Co. 5,21). N\u2019Ele contemplamos a miseric\u00f3rdia de Deus por n\u00f3s, no concreto das nossas vidas. O que aconteceria se Ele n\u00e3o nos tivesse substitu\u00eddo no castigo merecido pelos nossos pecados? Essa miseric\u00f3rdia de Deus para connosco \u00e9 actual; exprime-se todos os dias, para que vivamos na esperan\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o. Ao contemplarmos o Crucificado, tomemos consci\u00eancia da sorte que tivemos por Cristo ter morrido por n\u00f3s, dom que se transforma em vida nova, justi\u00e7a de Deus, pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que nos foi dado. \tA Cruz de Cristo significou o julgamento deste mundo. O Senhor sofreu toda a viol\u00eancia de que era capaz a sociedade em que estava inserido: a hipocrisia farisaica, a justi\u00e7a dos romanos, o \u00f3dio da popula\u00e7\u00e3o. A cruz era a mais ignominiosa forma de execu\u00e7\u00e3o. S\u00f3 com Deus, v\u00edtima da viol\u00eancia do mundo, o seu triunfo \u00e9 o do amor de Deus. A cruz ensina-nos que em todas as circunst\u00e2ncias da hist\u00f3ria, h\u00e1 um amor que vence o mundo, o que Deus exprimiu na entrega do Seu Filho. A certeza deste triunfo a Igreja celebra-a em cada Eucaristia. \u00c0 Igreja de todos os tempos, nas tribula\u00e7\u00f5es de cada momento, a Cruz diz: n\u00e3o tenhais medo, eu venci o mundo.  \t3. Ao contemplar a Cruz, sentimo-nos amados por Deus, com aquele abismo de amor infinito que nenhuma experi\u00eancia de amor humano faz sequer adivinhar, porque todas est\u00e3o maculadas pelo pecado. Na Cruz contemplamos o amor e, por isso, podemos aprender a amar como Deus nos ama: essa \u00e9 uma gra\u00e7a pascal do Esp\u00edrito de Jesus ressuscitado. \tSentirem-se verdadeiramente amados \u00e9 a maior necessidade dos homens do nosso tempo. Esse \u00e9 o primeiro fruto da contempla\u00e7\u00e3o da Cruz do Senhor. Ela \u00e9 um convite cont\u00ednuo a que nos abramos ao insond\u00e1vel amor de Deus por n\u00f3s. A partir dela, podemos recriar o nosso cora\u00e7\u00e3o e amar como Deus ama, para que muitos outros se sintam amados. \u00c9 este o convite \u00e0 convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o: \u201cConvertei-vos a Mim de todo o cora\u00e7\u00e3o, com jejuns, l\u00e1grimas e lamenta\u00e7\u00f5es. Rasgai o vosso cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor nosso Deus\u201d (Joel, 2,12-13). As l\u00e1grimas que o profeta refere, s\u00e3o hoje os sofrimentos das nossas vidas, os quais, depois de Cristo ter sofrido em nosso lugar, redimindo o nosso pr\u00f3prio sofrimento, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o castigo do pecado, mas for\u00e7a de reden\u00e7\u00e3o. Amados por Cristo, alarguemos o abra\u00e7o do nosso cora\u00e7\u00e3o, ofere\u00e7amos todo o nosso sofrimento, participemos na reden\u00e7\u00e3o do nosso mundo. \tSe na Cruz contemplamos o Crucificado, na Eucaristia mergulhamos no mist\u00e9rio do Seu amor redentor. A\u00ed somos amados e amamos, somos oferentes e oferta, sentimos as primeiras palpita\u00e7\u00f5es desse cora\u00e7\u00e3o novo, primeiro sinal da reden\u00e7\u00e3o a acontecer.  Seguindo o convite do Santo Padre, para nos sentirmos amados por Cristo na Cruz, temos de viver a Quaresma como um tempo eucar\u00edstico. A\u00ed se actualiza toda a plenitude do dom da vida e o Esp\u00edrito Santo torna-nos capazes de lhe responder, amando. E ent\u00e3o a Quaresma ser\u00e1 caminho de vida, viv\u00eancia do nosso baptismo, antecipa\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa definitiva, porque a P\u00e1scoa \u00e9 sempre a festa do definitivo de Deus.  S\u00e9 Patriarcal, 21 de Fevereiro de 2007 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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