{"id":229204,"date":"2022-02-16T09:23:52","date_gmt":"2022-02-16T09:23:52","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=229204"},"modified":"2022-02-16T09:26:24","modified_gmt":"2022-02-16T09:26:24","slug":"saber-aprender-que-o-tempo-nao-existe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-que-o-tempo-nao-existe\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; Que o tempo n\u00e3o existe"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Sentado num banco de um grande edif\u00edcio, talvez uma Igreja, Galileu olhava para um candelabro que oscilava. Apesar da dist\u00e2ncia entre o vai e vem diminuir, ele notou que as oscila\u00e7\u00f5es pareciam ser iguais. Ent\u00e3o, teve a ideia de contar o n\u00famero de pulsa\u00e7\u00f5es em cada oscila\u00e7\u00e3o e reparou que a quantidade de batimentos card\u00edacos era a mesma. Diz a hist\u00f3ria (porque esta \u00e9 uma hist\u00f3ria que n\u00e3o se sabe se aconteceu ou n\u00e3o) que foi este o momento em que, pela primeira vez, um cientista introduziu o <em>tempo<\/em> nas equa\u00e7\u00f5es. O curioso \u00e9 que esta simples experi\u00eancia de Galileu acaba de mostrar que o tempo n\u00e3o existe.<\/p>\n<figure id=\"attachment_229205\" aria-describedby=\"caption-attachment-229205\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-229205 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/RelacaoTempo-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-229205\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Adrien King em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando li esta hist\u00f3ria no excelente livro do f\u00edsico qu\u00e2ntico Carlo Rovelli \u201cA realidade n\u00e3o \u00e9 o que parece\u201d (Contraponto, 2019), n\u00e3o era a primeira vez que lia algo do g\u00e9nero. Um outro f\u00edsico, Julian Barbour, havia manifestado a mesma intui\u00e7\u00e3o dizendo que <em>o tempo \u00e9 a medida da mudan\u00e7a.<\/em> Ou seja, na medida em que algo muda fazemos uma experi\u00eancia de tempo. E talvez por isso quando nada muda parece que o tempo p\u00e1ra. Mas, a realidade parece ser que o tempo nasce apenas quando algo muda.<\/p>\n<p>Para ilustrar as implica\u00e7\u00f5es do tempo n\u00e3o existir por si mesmo, mas como um construto humano, Carlo Rovelli d\u00e1 a seguinte imagem \u2014 <em>\u00ab&#8230;a dan\u00e7a da Natureza n\u00e3o se desenrola ao ritmo da baqueta de um \u00fanico director de orquestra que marque um tempo universal: cada pessoa dan\u00e7a independentemente com os vizinhos, seguindo um ritmo pr\u00f3prio.\u00bb<\/em> \u2014 Ou seja, na hist\u00f3ria de Galileu, a experi\u00eancia de tempo prov\u00e9m de uma rela\u00e7\u00e3o entre as batidas card\u00edacas e a oscila\u00e7\u00e3o do candelabro, n\u00e3o que as batidas card\u00edacas ocorram no tempo e a oscila\u00e7\u00e3o do candelabro ocorra, tamb\u00e9m, no tempo. Existe, sim, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o entre as batidas card\u00edacas e as oscila\u00e7\u00f5es, sendo essa interac\u00e7\u00e3o que gera uma experi\u00eancia de tempo. No fundo s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es que nos mudam constantemente que geram o tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil sair da habitual ideia que temos de tempo porque a cultura humana vive de rel\u00f3gios e andamos sempre atr\u00e1s das horas, minutos e segundos. Somos muito submissos ao tempo cronol\u00f3gico. A mudan\u00e7a subjacente a esta ideia de tempo como fruto da rela\u00e7\u00e3o entre coisas \u00e9, realmente, uma mudan\u00e7a simples, mas o salto na maneira de pensar \u00e9 gigantesco. Da\u00ed que Rovelli sugira que \u2014 <em>\u00abtemos de aprender a pensar o mundo n\u00e3o como algo que muda no tempo, mas de qualquer outro modo. As coisas s\u00f3 mudam <strong>em rela\u00e7\u00e3o<\/strong> umas com as outras.\u00bb<\/em> \u2014 esta ideia proveniente da vis\u00e3o do mundo que a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica suscita \u00e9 profund\u00edssima, pois, de certo modo, diz que a realidade n\u00e3o existe sen\u00e3o a partir das rela\u00e7\u00f5es que todas as coisas t\u00eam entre si.<\/p>\n<p>Nesta nova perspectiva, o calend\u00e1rio n\u00e3o marca o tempo, mas os momentos em que esperamos interagir com algo (um prazo a cumprir) ou algu\u00e9m (uma reuni\u00e3o ou encontro). E como cada pessoa tem o seu calend\u00e1rio, a experi\u00eancia de tempo gera-se na procura de conson\u00e2ncia dos v\u00e1rios ritmos entre as pessoas. Quando algu\u00e9m diz \u201cn\u00e3o tenho tempo\u201d, nesta nova vis\u00e3o em que o tempo n\u00e3o existe, o que est\u00e1 a dizer \u00e9 que a sua vida passa por outras interac\u00e7\u00f5es e, talvez, n\u00e3o tenha chegado o momento certo para interagir com aquilo que a leva a responder \u2014 \u201cn\u00e3o tenho tempo.\u201d Mas n\u00e3o \u00e9 um momento, um tempo?<\/p>\n<p>Com a hist\u00f3ria, momento e tempo tornaram-se uma s\u00f3 no\u00e7\u00e3o, mas a raiz latina da palavra \u2014 <em>momentum<\/em> \u2014 significa <em>mudan\u00e7a<\/em>, e essa n\u00e3o ocorre por si mesma, mas sempre em rela\u00e7\u00e3o com outra coisa. Tudo no mundo est\u00e1 sempre, sempre a mudar. Umas vezes notamos mais, e outras vezes notamos menos, mas se usarmos a palavra \u201cmomento\u201d para expressar a experi\u00eancia de tempo, a ideia \u00e9 a de gradualmente come\u00e7armos a focar a nossa aten\u00e7\u00e3o mais nas interac\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es, do que em algo que n\u00e3o existe como o tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma consequ\u00eancia delicada com esta mudan\u00e7a de perspectiva. Quando algu\u00e9m diz n\u00e3o ter tempo, pode significar que n\u00e3o est\u00e1 interessado naquilo que estamos a propor, ou mesmo em interagir connosco, mas n\u00e3o devemos ser precipitados. Pode ser que o n\u00famero de interac\u00e7\u00f5es tenha atingido um limite que lhe permite, ainda, conseguir dar resposta a tudo o que exige a sua aten\u00e7\u00e3o. Pois, a qualidade do tempo est\u00e1 na dedica\u00e7\u00e3o que damos \u00e0s rela\u00e7\u00f5es que estabelecem os nossos ritmos de vida.<\/p>\n<p>Se olhar \u00e0 minha volta, e para o meu pr\u00f3prio pulso, vejo como a maior parte das pessoas deixa fragmentar a sua vida submissa ao tempo cronol\u00f3gico. E se n\u00e3o usarmos rel\u00f3gio, o mais comum \u00e9 ser o telem\u00f3vel o nosso rel\u00f3gio. Aqueles n\u00fameros que parecem ajudar as pessoas a organizar a sua vida, subtilmente, dominam mais do que seria suposto. Mas quem vive sem tempo, vive para os relacionamentos? Pode ser que sim. Pode ser que n\u00e3o. O que quero mudar em mim pode n\u00e3o corresponder ao que o outro quer mudar quando interagir comigo. Por isso, encontrarmos juntos o tempo certo, ou melhor, as interac\u00e7\u00f5es certas, ser\u00e1 sempre um desafio e isso exige uma outra invers\u00e3o de pensamento que a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica sugere,<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00abN\u00e3o s\u00e3o as coisas que podem entrar em rela\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es que d\u00e3o origem \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201ccoisa\u201d.\u00bb<\/em> (Carlo Rovelli)<\/p><\/blockquote>\n<p>Carlo Rovelli escreve este livro em 2014, mas achei curioso como em 2011 lembro-me de uma curta (talvez a mais curta) entrada no meu blog dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e f\u00e9 onde escrevi (<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/coisa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">link<\/a>\ud83d\ude09 \u2014 <em>\u00abUma coisa existe como tal enquanto possibilidade de rela\u00e7\u00e3o \u2026\u00bb<\/em> E o que me levou a intuir algo que a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica est\u00e1 a revelar foi a <em>relacionalidade<\/em> como a marca de Deus-Trindade neste Universo. Por isso, uma coisa, qualquer coisa, n\u00e3o podia existir por si mesma como muitas vezes a filosofia defendeu, mas seriam os relacionamentos a definir as coisas e o que essas realmente s\u00e3o.<\/p>\n<p>O nosso pensamento est\u00e1 ainda muito voltado para as coisas, mas o que Deus sempre nos convidou, e agora tamb\u00e9m a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, \u00e9 a <em>cuidar bem dos relacionamentos<\/em> se quisermos saber aprender a viver bem a experi\u00eancia do tempo que nos \u00e9 dado, mais marcado pelas mudan\u00e7as rec\u00edprocas, do que pelos ponteiros de um rel\u00f3gio.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o 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