{"id":229142,"date":"2022-02-17T09:00:48","date_gmt":"2022-02-17T09:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=229142"},"modified":"2022-02-14T17:37:54","modified_gmt":"2022-02-14T17:37:54","slug":"lusofonias-confinado-a-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-confinado-a-forca\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Confinado \u00e0 for\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em>Tony Neves<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-229143\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/vaticano_tn-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O povo diz que \u2018n\u00e3o h\u00e1 duas sem tr\u00eas\u2019 e este princ\u00edpio aplicou-se na minha vida, no que diz respeito a confinamentos for\u00e7ados.<\/p>\n<p>O primeiro foi h\u00e1 quase trinta anos, naquele long\u00ednquo e tem\u00edvel 1993, em Angola. A guerra civil parecia ter terminado em 1991, o Papa Jo\u00e3o Paulo II visitou o pa\u00eds no ano seguinte e houve elei\u00e7\u00f5es em setembro. Quando tudo parecia respirar festa e paz, eis que come\u00e7a a \u2018batalha do Huambo\u2019, \u00e0s 14h do dia 9 de janeiro de 1993. Ningu\u00e9m suspeitaria que come\u00e7ava o mais doloroso confinamento da minha hist\u00f3ria, pois foram 55 dias e 55 noites sem pausa nos bombardeamentos e violentos confrontos dentro da cidade. Fechados no fr\u00e1gil e t\u00e9rreo edif\u00edcio do Semin\u00e1rio Menor Espiritano, na Cidade Baixa, come\u00e7amos por ser alvo dos ataques da UNITA e, com a tomada daquela parte da cidade pelas tropas deste partido da oposi\u00e7\u00e3o, ficamos a aguentar as investidas das for\u00e7as armadas terrestres e a\u00e9reas do MPLA.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 palavras para definir a dureza deste confinamento, sempre com o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, entre a vida fr\u00e1gil e a morte iminente, uma vez que eram tantas as explos\u00f5es e rebentamentos que a vida estava presa por um fio. \u00c9ramos mais de 50, entre os habituais habitantes deste Semin\u00e1rio e as Irm\u00e3s, meninas das Irm\u00e3s e outras pessoas que se refugiaram ali.<\/p>\n<p>Os momentos mais cr\u00edticos eram sempre os da chegada dos avi\u00f5es que lan\u00e7avam toneladas de dinamite sobre a cidade, abrindo enormes crateras e destruindo muitos edif\u00edcios com a desloca\u00e7\u00e3o do ar e milhares de estilha\u00e7os. Destes 55 dias e noites terr\u00edveis, guardo tr\u00eas particularmente duros: quando dois avi\u00f5es largaram duas enormes bombas que ca\u00edram ao lado de n\u00f3s, n\u00e3o tendo nenhuma delas rebentado! Depois, quando militares for\u00e7aram a entrada do Semin\u00e1rio durante a noite para nos roubar e, quem sabe, raptar \u2013 conseguimos evitar que eles rebentassem as trancas enormes que pusemos nas portas e janelas! Finalmente, quando um m\u00edssil lan\u00e7ado por um tanque nos entrou pela parte detr\u00e1s da casa, destruindo o motor gerador, partindo telhas e os vidros que ainda restavam e levando pelo ar cadeiras onde, uns minutos antes, eu e outros est\u00e1vamos sentados, confiantes de que ali est\u00e1vamos melhor protegidos!<\/p>\n<p>Este confinamento durou uma eternidade, mas sa\u00edmos todos s\u00e3os e salvos do Semin\u00e1rio, no meio de uma cidade destru\u00edda, com\u00a0 milhares de mortos, feridos e desaparecidos em fugas. O fim dos combates, a 6 de mar\u00e7o, marcou uma nova era de mortes e destrui\u00e7\u00e3o, mas todos pudemos sair \u00e0 rua e retomar a normalidade poss\u00edvel\u2026<\/p>\n<p>O segundo confinamento vivi-o j\u00e1 aqui em Roma, entre mar\u00e7o e maio de 2020, com a chegada inesperada da covid 19, que parece que veio para ficar entre n\u00f3s. O espanto e o medo tomaram conta do mundo, mas a It\u00e1lia foi o pa\u00eds europeu que mais sofreu o impacto dos primeiros tempos. Os comboios de carros militares a levar centenas de caix\u00f5es para cremar ainda povoam a mem\u00f3ria sofrida dos primeiros ataques da pandemia no norte de It\u00e1lia. O pa\u00eds fechou, o mundo inteiro foi dando voltas \u00e0 chave e, at\u00e9 fim de maio, o p\u00e2nico instalou-se. Fechado na nossa Casa Geral, em Roma, fui recordando os tempos do Huambo e, com este reavivar da mem\u00f3ria, pude sentir-me mais calmo, pois n\u00e3o havia bombardeamentos nem ataques de militares nesta tempestade que se levantou no mar da vida! Custou o medo do desconhecimento deste v\u00edrus, foi duro ficar fechado entre quatro paredes e um jardim, doloroso foi o rasgar das p\u00e1ginas da agenda, angustiante foi a inc\u00f3gnita quanto ao futuro que se desenhava na linha do horizonte. Mas, com a vinda dos primeiros calores primaveris, o v\u00edrus perdeu for\u00e7a e o mundo foi abrindo. Depois, vieram as vacinas e os cuidados de higiene\u2026<\/p>\n<p>Finalmente, o terceiro confinamento chegou em janeiro deste ano. 11 de janeiro, para ser mais exacto. Vou eu do Porto para Lisboa com viagem marcada para o Brasil quando, por obriga\u00e7\u00e3o, fa\u00e7o um teste PCR e\u2026deu positivo! N\u00e3o tive quaisquer sintomas, mas a programa\u00e7\u00e3o da visita a S. Paulo desfez-se como uma baralho de cartas. Toca a fechar-me, a responder a inqu\u00e9ritos atr\u00e1s de inqu\u00e9ritos, a contactar diariamente a minha m\u00e9dica de fam\u00edlia, a marcar mais uma viagem, a reprogramar as actividades onde deveria participar no Brasil! Foram sete longos dias, sem dores, mas com muita impaci\u00eancia, pois n\u00e3o fui feito para estar fechado, mas para me fazer sempre ao largo! De qualquer modo, n\u00e3o tenho de que me queixar, pois nunca me faltou nada e, na hora de sair \u00e0 rua e fazer novo teste, negativei e parti para S. Paulo onde a Miss\u00e3o continuou com os ajustes exigidos.<\/p>\n<p>A vida prega muitas partidas, faz-nos muitas rasteiras, obriga-nos a ser criativos e a rasgar constantemente novos caminhos de futuro. Em muitos momentos da nossa hist\u00f3ria, sentimos que o Esp\u00edrito interv\u00e9m obrigando-nos a um desprendimento de projectos e bens, atirando-nos para uma linha da frente onde tudo \u00e9 novidade. H\u00e1, por isso, que estar dispon\u00edvel e atento aos sinais dos tempos, aos acenos e apelos de Deus.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-229142-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lusofonias-confinamentos-18-02-2022.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lusofonias-confinamentos-18-02-2022.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lusofonias-confinamentos-18-02-2022.mp3<\/a><\/audio>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":114253,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-229142","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229142","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=229142"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229142\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=229142"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=229142"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=229142"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}